        Essa nova obra do renomado autor Rick Riordan lhe trar muitas aventuras, traies, e
verdadeiras provas de amizade (e muito alm disso). Houve primeiramente uma confuso na
minha cabea sobre quem era o melhor heri. Se era Leo, Piper ou Jason. Agora reflito, e chego 
deciso que os trs so igualmente hericos, ricos de coragem e lealdade, e cheios de surpresa.
Dessa vez, diferentemente de Percy Jackson e os Olimpianos, esse livro traz inimigos menos
conhecidos e os seus aspectos, o que faz a maioria das pessoas achar que so fracos e aqui
descobrem o contrrio. Rick muda o modo de narrao, o que foi triste para alguns leitores, mas
no deixa de expor aes, sentimentos e a opinio de cada personagem de modo claro e animador,
o que faz ser realmente difcil parar de ler essa obra.

        Vale lembrar que a traduo acabou, mas as discusses de spoilers e as conversas sobre
assuntos diversos continuam. A confraternizao entre fs enriquece a trama, trazendo  tona
simples frases postas no livro que passam despercebidas pela primeira vez, mas em seguida,
reunidos em grupo, os fs podem discutir a respeito de mensagens subliminares do autor, suas
verdadeiras e provveis intenes. A mitologia grega  cheia de traies e inimizades, mas essa
nova srie mostra a verdade atravs dos mitos. Por exemplo, existiam feiticeiros nos tempos
antigos? Os ciclopes s podem imitar a voz de outras pessoas quando esto ouvindo a conversa? 
necessrio ter alguma memria para isso? The Lost Hero discute essas e muito mais questes,
com um contedo que deixaria um professor de histria pasmo e boquiaberto.

         Espero que vocs curtam ler esse livro tanto quanto curti mont-lo. Sem mais enrolaes,
devore agora O Heri Perdido, um livro incrvel que esquenta suas emoes a cada linha. Boa
leitura!



                                                                      Diego de T. A. D. Oliveira

                                               4
5
Para Haley e Patrick, sempre os primeiros a ouvir histrias.

   Sem eles, o Acampamento Meio-Sangue no existiria.




                             6
Captulo I
ANTES MESMO DE SER ELETROCUTADO, Jason estava tendo um dia podre.

        Ele acordou no banco traseiro de um nibus escolar, sem ter certeza de onde
estava, segurando a mo de uma garota que ele no conhecia. Essa no era
necessariamente a parte podre. A menina era bonita, mas ele no conseguia entender
quem ela era ou o que ela estava fazendo ali. Ele se sentou e esfregou os olhos, tentando
pensar.

      Umas poucas dzias de crianas espalhavam-se pelos bancos em frente ao dele,
ouvindo seus iPods, conversando, ou dormindo. Todos eles pareciam ter sua idade...
Quinze? Dezesseis? Ok, isso era assustador. Ele no sabia sua prpria idade.

       O nibus trafegava por uma estrada esburacada. Do lado de fora das janelas,
passava o deserto, debaixo de um brilhante cu azul.

      Jason estava certo que ele no morava no deserto. Ele tentou pensar
novamente... a ltima coisa que ele lembrava...

       A garota apertou sua mo. "Jason, voc est bem?"

       Ela usava jeans desbotados, botas de caminhada, e uma jaqueta de l de
snowboard. Seu cabelo castanho-chocolate era cortado de forma desigual, com os lados
tranados para baixo. Ela no usava maquiagem, como se ela estivesse tentando no
chamar ateno para si mesma; mas no funcionou. Ela era realmente bonita. Seus olhos
pareciam mudar de cor como em um caleidoscpio -- marrom, azul, e verde.

       Jason soltou a mo dela. "Hum, eu no --"

       Na parte da frente do nibus, um professor gritou "Est bem, bolinhos, ouam!"

       O homem obviamente era um treinador. Seu bon de beisebol estava afundado
na cabea, deixando a vista somente seus olhos lustrosos. Ele tinha uma barbicha rala e
uma cara azeda, como se tivesse comido algo mofado. Seus braos castanhos e peito
vestindo uma radiante camisa plo laranja. Suas calas de treino de nilon e seus Nikes

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estavam imaculadamente brancos. Usava um apito pendurado no pescoo, e um
megafone estava preso ao seu cinto. Ele teria parecido bastante assustador se no tivesse
apenas um metro e meio de altura. Quando ele se levantou no corredor, um dos
estudantes gritou "Levante-se, Treinador Hedge!"

        "Eu ouvi isso!" O treinador examinou o nibus atrs do ofensor. Ento seus
olhos fixaram-se em Jason e sua carranca se aprofundou.

        Uma sacudida desceu pela coluna de Jason. Ele estava certo de que o treinador
sabia que ele no pertencia aquele lugar. Ele estava indo chamar Jason, perguntar o que
ele estava fazendo no nibus -- e Jason no saberia o que dizer.

       S que o Treinador Hedge olhou para longe e pigarreou. "Chegaremos em cinco
minutos! Permaneam com sua dupla. No percam suas planilhas. E se um de vocs
preciosos pequenos bolinhos causarem qualquer problema nessa excurso, eu vou
pessoalmente mand-los de volta para o campus do jeito difcil."

        Ele pegou um taco de baseball e fez como se estivesse batendo em um pombo-
correio.

       Jason olhou para a garota ao seu lado. "Ele pode falar conosco desse jeito?"

       Ela deu de ombros. "Ele sempre fala. Essa  a Wilderness School, `Onde
crianas so os animais'."

       Ela falou como se fosse uma piada que tinham partilhado antes.

       "Isso  um algum tipo de engano," Jason falou. "Eu no devia estar aqui."

      O garoto que estava a sua frente virou e riu. "Sim, certo, Jason. Todos ns fomos
enquadrados! Eu no fugi seis vezes. Piper no roubou uma BMW."

       A garota corou. "Eu no roubei esse carro, Leo!"

       "Oh, eu esqueci, Piper. Qual foi a sua histria? Voc `jogou conversa' para o
vendedor emprestar para voc?" Ele levantou as sobrancelhas para Jason como se
dissesse, Voc acredita nela?

       Leo parecia um elfo latino do Papai Noel, com cabelos pretos encaracolados,
orelhas pontudas, uma cara alegre, infantil, e um sorriso travesso que lhe disse logo:
esse cara no deve ser confivel na presena de fsforos ou objetos cortantes. Seus
dedos longos e geis no paravam de se movimentar -- batucando no banco, colocando
o cabelo atrs das orelhas, brincando com os botes do palet de farda de exrcito. Ou o
garoto era naturalmente hiperativo ou se entupiu de acar e cafena o suficiente para
dar um ataque cardaco a um bfalo.


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      "De qualquer forma," disse Leo, "Eu espero que esteja com a sua planilha,
porque eu usei a minha para fazer bolas de cuspe a dias atrs. Por que voc est me
olhando assim? Algum desenhou na minha cara de novo?"

       "Eu no te conheo," Jason disse.

       Leo deu-lhe um sorriso de crocodilo. "Claro. No sou seu melhor amigo. Eu sou
o clone mau dele."

       "Leo Valdez!" Treinador Hedge gritou da frente. "Algum problema a atrs?"

       Leo piscou para Jason. "Assista essa." Ele virou-se para frente. "Desculpe-me,
Treinador! Eu estava tendo problemas para te escutar. Voc pode usar seu megafone,
por favor?"

        O Treinador Hedge grunhiu como se ele estivesse feliz por ter uma desculpa. Ele
tirou o megafone do seu cinto e continuou a dar orientaes, mas sua voz saiu como a
de Darth Vader. As crianas caram na gargalhada. O treinador tentou novamente, mas
desta vez o megafone bradou: "A vaca diz moo!"

       Os garotos gritaram, e o treinador bateu o megafone. "Valdez!"

       Piper abafou um riso. "Meu Deus, Leo. Como voc fez isso?"

       Leo deixou uma pequena chave de fenda Phillips cair de sua manga. "Sou um
garoto especial."

      "Gente,  srio," Jason confessou. "O que estou fazendo aqui? Para onde
estamos indo?"

       Piper arqueou suas sobrancelhas. "Jason voc est brincando?"

       "No! Eu no tenho idia --"

       "Ah, sim, ele est brincando," Disse Leo. "Ele est tentando descontar daquela
vez que tinha creme de barbear na Jell-O, no ?"

       Jason olhou para ele sem expresso.

      "No, eu acho que ele est falando srio." Piper tentou pegar sua mo
novamente, mas ele a puxou.

       "Desculpe-me," Ele disse. "Eu no -- Eu no posso --"

       " isso a!" Treinador Hedge gritou pela frente. "A fila de trs acabou de se
oferecer para limpar a baguna depois do almoo!"

       O resto dos garotos aplaudiu.

                                             9
       "Isso  chocante," Disse Leo.

        No entanto, Piper manteve seus olhos em Jason, como se ela no pudesse se
decidir se estava machucada ou preocupada. "Voc bateu a cabea ou algo assim? Voc
realmente no sabe quem somos?"

       Jason deu com os ombros, impotente. " pior do que isso. Eu no sei quem sou."



       O nibus deixou-os na frente de um grande complexo de estuque vermelho
parecido com um museu, localizado no meio do nada. Talvez seja isso o que : o Museu
Nacional de Meio do Nada, Jason pensou. Um vento frio soprava do deserto. Jason no
tinha prestado muita ateno ao que ele estava usando, mas no era nem perto de ser
quente o suficiente: jeans e tnis, uma camiseta roxa, e um bluso preto fino.

       "Ento, um curso intensivo para amnsia," Leo disse, em um tom prestativo que
levou Jason a pensar que no ajudaria em nada. "Ns frequentamos a `Wilderness
School'" -- Leo fez as aspas no ar com os dedos. "O que significa que somos `crianas
ms'. Sua famlia ou o rgo responsvel por voc decidiram que voc era muito
problemtico, ento te mandaram para esta adorvel priso -- me desculpe `internato'
-- em Armpit, Nevada, na qual voc aprende valiosas habilidades naturais como correr
dez quilmetros por dia, atravs dos cactos e tecelagem de margaridas em chapus! E
para um tratamento especial ns vamos a viagens `educacionais' de campo com o
Treinador Hedge que mantm a ordem com um taco de baseball. Est tudo voltando
para voc agora?"

        "No." Jason olhou apreensivamente para as outras crianas: vinte garotos,
talvez, e a metade deste nmero de garotas. Nenhum deles parecia ser criminosos
perigosos, s que ele imaginou o que eles teriam feito para serem sentenciados a uma
escola para delinquentes e imaginou por que ele pertencia a este grupo.

        Leo revirou os olhos. "Voc realmente vai continuar com isso, no ? Ok, ento
ns trs entramos aqui juntos este ano. Ns somos bem prximos. Voc faz tudo o que
eu digo, me d sua sobremesa e faz meus deveres..."

       "Leo!" Piper vociferou.

      "Est bem. Ignore esta ltima parte. Mas ns somos amigos. Bom, Piper  um
pouco mais do que sua amiga nas ltimas semanas --"

        "Leo, pra com isso!" O rosto de Piper ficou vermelho. Jason tambm podia
sentir seu rosto queimando. Pensou que se lembraria se estivesse saindo com uma
garota como Piper.


                                         10
      "Ele est com amnsia ou algo do tipo." Piper disse. "Ns temos que contar a
algum."

       Leo zombou. "Quem, o Treinador Hedge? Ele tentaria curar Jason batendo em
cima da sua cabea."

       O treinador estava na frente do grupo, gritando ordens e assoprando seu apito
para manter as crianas na fila, mas, de vez em quando, ele olhava para Jason e franzia
as sobrancelhas.

       "Leo, Jason precisa de ajuda." Piper insistiu. "Ele teve uma concusso ou..."

       "E a, Piper." Um dos outros meninos ficou para trs para se juntar aos trs
enquanto a turma se dirigia para o museu. O garoto novo se espremeu entre Jason e
Piper e derrubou Leo. "No fale com estes perdedores. Voc  minha parceira, lembra-
se?"

        O novo rapaz tinha cabelos escuros cortado ao estilo do Super-Homem, era bem
bronzeado, e tinha dentes to brancos que eles deveriam vir com uma placa de
recomendao: no olhe diretamente para os dentes, pode causar cegueira permanente.
Ele vestia um casaco dos Dallas Cowboys, calas jeans e botas ao estilo faroeste, e
sorria como se fosse um presente de Deus para todas as meninas delinquentes de todo
lugar. Jason odiou-o instantaneamente.

       "V embora, Dylan," Piper resmungou. "Eu no pedi para trabalhar com voc."

       "Ah, no seja assim. Hoje  o seu dia de sorte!" Dylan enganchou seu brao no
de Piper e arrastou-a pela entrada do museu. Piper deu uma ltima olhada por sobre o
ombro, como se fosse um pedido de ajuda urgente.

        Leo se levantou e se limpou. "Eu odeio esse cara." Ele ofereceu seu brao a
Jason, como se eles fossem entrar juntos pulando. "Eu sou o Dylan. Eu sou to legal, eu
gostaria de namorar comigo mesmo, mas eu no consigo descobrir como! Voc quer
sair comigo, ento? Voc tem tanta sorte!" "Leo," Jason disse, "voc  estranho."

       ", voc me diz isso bastante." Leo sorriu largamente. "Mas se voc no se
lembra de mim, significa que eu posso recontar todas as minhas piadas antigas. Vamos
l!"

      Jason deduziu que, se este era seu melhor amigo, sua vida devia ser uma
baguna, mas ele seguiu Leo para dentro do museu.




                                          11
Eles caminharam para dentro do prdio, parando aqui e ali para o treinador Hedge lhes
dar um sermo com o seu megafone, que alternadamente o fazia parecer um lorde Sith
ou soltava comentrios aleatrios como "o porco diz oink."

       Leo continuava tirando porcas de parafusos, pregos, limpadores de cachimbo do
bolso e juntando-os, como se ele tivesse que manter suas mos ocupadas o tempo todo.

        Jason estava distrado demais para prestar muita ateno para as exposies, mas
elas falavam do Grand Canyon e da tribo Hualapai, que era dona do museu.

       Algumas garotas continuavam olhando para Piper e Dylan e rindo baixinho.
Jason deduziu que estas garotas eram do grupo das populares. Elas usavam calas jeans
combinando, blusas rosa e tanta maquiagem que elas poderiam ir a uma festa de Dia das
Bruxas.

        Uma delas disse "Ei, Piper, a sua tribo cuida desse lugar? Voc entra de graa se
fizer a dana da chuva?"

        As outras garotas riram. At o assim dito parceiro da Piper, Dylan, suprimiu um
sorriso. O casaco de snowboard de Piper escondeu suas mos, mas Jason teve a
sensao de que ela tinha cerrado seus punhos.

       "Meu pai  Cherokee," ela disse, "e no Hualapai. Mas  claro, voc precisaria
de alguns neurnios para saber a diferena, Isabel."

       Isabel abriu os olhos em uma surpresa irnica, de maneira que pareceu uma
coruja maquiada. "Ah, desculpe-me. A sua me era dessa tribo? Ah,  verdade. Voc
nunca conheceu sua me."

      Piper avanou sobre ela, mas antes que uma briga pudesse comear, o treinador
Hedge vociferou "J chega, vocs a atrs! Sejam um bom exemplo ou eu vou pegar o
meu taco de baseball!" O grupo prosseguiu para a prxima exposio, mas algumas
meninas continuaram soltando pequenos comentrios para Piper.

       " bom estar de volta  reserva?" uma perguntou com uma voz doce.

       "O pai deve estar bbado demais para trabalhar," outra disse com um pesar falso.
" por isso que ela se tornou cleptomanaca."

       Piper as ignorava, mas Jason estava pronto para soc-las. Ele poderia no se
lembrar de Piper e nem de quem ele era, mas ele odiava crianas ms. Leo segurou seu
brao. "Fique calmo. Piper no gosta que lutemos suas batalhas por ela. Alm disso, se
essas garotas descobrissem a verdade sobre o pai dela, elas estariam todas a
reverenciando e gritando `ns no somos merecedoras!'"

       "Por qu? O que tem o pai dela?"

                                           12
       Leo riu, sem acreditar. "Voc no est brincando? Voc realmente no se lembra
de que o pai da sua namorada..."

        "Olha, eu queria lembrar, mas eu nem mesmo me lembro dela, muito menos de
seu pai."

       Leo assobiou. "Tanto faz. Ns temos que conversar quando voltarmos ao
dormitrio."

      Eles chegaram ao final da sala de exibies, onde grandes portas de vidro
levavam a um terrao.

       "Tudo bem, bolinhos," o treinador Hedge anunciou. "Vocs esto prestes a ver o
Grand Canyon. Tentem no quebr-lo. O observatrio aguenta o peso de setenta jatos,
ento vocs, pesos-pena, devem estar seguros l. Se possvel, evitem empurrar uns aos
outros por sobre a cerca, porque isso me daria mais papelada pra preencher."

       O treinador abriu as portas e todos saram. O Grand Canyon se estendia diante
deles, ao vivo e em pessoa. Alm da beira, se abria uma passarela em forma de
ferradura feita de vidro, de forma a permitir que voc possa ver atravs dela.

       "Cara," Leo disse. "Isso  muito louco."

       Jason tinha de concordar. Apesar de sua amnsia e de sua sensao de que ele
no pertencia quele grupo, ele no podia evitar ficar impressionado.

       O desfiladeiro era maior e mais largo do que se poderia imaginar por uma foto.
Eles estavam to alto que pssaros voavam abaixo deles. Quinhentos ps abaixo, um rio
serpenteava ao longo do p do desfiladeiro. Bancos de nuvens de tempestade haviam se
movido ao alto enquanto eles estavam dentro do museu, lanando sombras que
pareciam rostos zangados sobre o penhasco. At onde Jason podia ver em qualquer
direo, ravinas vermelhas e cinzas cortavam o deserto como se um Deus louco tivesse
o cortado com uma faca.

        Jason sentia uma dor perfurante atrs dos olhos. Deuses loucos... De onde ele
tirou essa idia? Ele sentia como se tivesse chegado perto de algo importante -- algo
que ele devia saber. Ele tambm tinha a inequvoca sensao de que ele estava em
perigo.

      "Voc est bem?" Leo perguntou. "Voc no vai vomitar por cima da cerca, vai?
Porque eu deveria ter trazido minha cmera."

       Jason se apoiou na grade. Ele estava tremendo e suando, mas no tinha nada a
ver com altura. Ele piscou e a dor atrs dos olhos melhorou um pouco.

       "Eu estou bem," ele disse. " s uma dor de cabea."

                                          13
       Troves estrondavam acima deles. Um vento frio quase o derrubou de lado

      "Isto no pode ser seguro." Leo lanou um olhar furtivo para as nuvens. "A
tempestade est bem acima de ns, mas o cu est limpo ao nosso redor. Estranho,
no?"

       Jason olhou para cima e viu que Leo estava certo. Um crculo de nuvens escuras
havia se estacionado em cima do observatrio, mas o resto do cu em todas as direes
estava perfeitamente limpo. Jason teve um pressentimento ruim sobre isso.

       "Tudo bem, molengas!" Gritou o Treinador Hedge. Ele franziu o cenho para a
tempestade como se isso o incomodasse muito. "Talvez tenhamos que encurtar o
passeio, ento mos a obra! Lembrem-se, frases completas!"

        A tempestade rugia, e a cabea de Jason comeou a doer de novo. Sem saber por
que fez isso, enfiou a mo no bolso do jeans e de l tirou uma moeda -- um crculo de
ouro do tamanho de uma moeda de 50 cents, um pouco mais espessa e mais desigual.
Em um dos lados estava estampada a figura de um machado de batalha. No outro estava
o rosto de um garoto coberto de louros. A inscrio dizia algo como ivlivs.

       "Nossa, isso  ouro?" Leo perguntou. "Voc esteve escondendo de mim!"

        Jason colocou a moeda longe, se perguntando como ele viria a t-la, e porque ele
sentia que precisaria dela em breve.

       "No  nada" ele disse. "S uma moeda."

       Leo balanou os ombros. Talvez sua mente tivesse que manter se movimentando
tanto quanto suas mos. "Vamos l" ele disse. "Te desafio a cuspir na beirada."

        Eles no se esforaram muito na planilha. Por um motivo, Jason estava muito
distrado com a tempestade e com os seus prprios sentimentos confusos. Por outro
motivo, ele no tinha nenhuma idia como "nomear trs camadas sedimentares que voc
observa" ou "descrever dois exemplos de eroso."

       Leo no era de muita ajuda. Ele estava muito ocupado construindo um
helicptero de limpadores de cachimbo.

       "Veja isso." Ele lanou o helicptero. Jason imaginou que iria despencar, mas as
lminas dos limpadores de cachimbo estavam realmente afiadas. O pequeno helicptero
voou pelo desfiladeiro antes de perder a fora inicial e cair em espiral no vazio.

       "Como voc fez isso?" Jason perguntou.

       Leo deu de ombros "Poderia ter sido mais legal se eu tivesse alguns elsticos."

       "Falando srio," Jason falou, "Ns somos amigos?"

                                          14
         "Na ltima vez que eu verifiquei."

        "Voc tem certeza? Qual foi o primeiro dia que ns nos encontramos? Do que
ns falamos?"

       "Foi..." Leo franziu a testa. "No lembro exatamente. Tenho ADHD, cara. Voc
no pode esperar que eu me lembre de detalhes."

         "Mas eu no me lembro de nada de voc. No me lembro de ningum daqui. E
se --"

       "Voc est certo e todo mundo est errado?" Leo perguntou. "Voc acha que s
apareceu aqui nesta manh, e todos ns temos memrias falsas de voc?" Uma pequena
voz na cabea de Jason dizia,  exatamente o que eu penso.

       No entanto, isso parecia loucura. Todo mundo tinha certeza da presena dele.
Todos agiram como se ele fosse uma parte normal da classe -- exceto para o Treinador
Hedge.

         "Pegue a planilha." Jason entregou o papel para Leo. "Eu j volto."

         Antes que Leo pudesse protestar, Jason se dirigiu ao observatrio.

        O grupo escolar deles tinha o lugar inteiramente para eles mesmos. Talvez fosse
muito cedo para turistas, ou talvez o clima estranho tenha assustado todos. As crianas
da `Wilderness School' se espalharam em pares em todo o observatrio. A maioria
estava brincando ou conversando. Alguns garotos estavam jogando moedas de um
centavo para alm da cerca. A mais ou menos cinqenta ps de distancia, Piper estava
tentando preencher a sua planilha, mas o seu parceiro estpido, Dylan, estava jogando
cantadas nela, colocando a sua mo no ombro da garota e dando-lhe aquele ofuscante
sorriso branco. Ela continuava afastando-o, e quando ela viu Jason, olhou para ele como
quem diz, Estrangule este garoto para mim.

       Jason fez sinal para ela esperar. Ele caminhou at o Treinador Hedge, que estava
encostado em seu taco de baseball, estudando as nuvens de tempestade.

         "Voc fez isto?" o treinador perguntou para ele.

      Jason deu um passo para trs. "Fiz o que?" Soou como se o treinador tivesse
acabado de perguntar se ele tinha feito a tempestade.

       O Treinador Hedge olhou para ele, seus lustrosos olinhos brilhando sob a aba do
bon. "No brinque comigo, criana. O que voc est fazendo aqui e por que est
atrapalhando meu trabalho?"




                                              15
        "Voc quer dizer que... voc no me conhece?" Jason falou. "No sou um de
seus alunos?"

       Hedge inspirou. "Nunca tinha visto voc at hoje."

       Jason estava to aliviado que quase quis chorar. Pelo menos ele no estava
ficando louco. Ele estava no lugar errado. "Olhe, senhor, eu no sei como cheguei aqui.
Eu s acordei no nibus da escola. Tudo que eu sei  que eu no deveria estar aqui."

       "Est certssimo." A voz rouca de Hedge caiu para um sussurro, como se ele
fosse partilhar um segredo. "Voc tem uma maneira poderosa de manipular a nvoa,
criana, j que voc pode fazer todas essas pessoas pensarem que te conhecem; mas
voc no pode me fazer de tolo. Eu estive farejando um monstro por dias. Eu sabia que
ns tnhamos um invasor, mas voc no cheira como um monstro. Voc cheira como
um meio-sangue. Ento -- quem  voc, e de onde voc veio?"

       A maior parte do que o treinador falou no fazia sentido, mas Jason decidiu
responder honestamente. "No sei quem eu sou. No tenho nenhuma lembrana. Voc
tem que me ajudar."

      Treinador Hedge estudou o seu rosto como se estivesse tentando ler os
pensamentos de Jason.

       "timo," murmurou Hedge. "Voc est sendo verdadeiro."

       " claro que eu estou! E o que  tudo isso sobre monstros e meio-sangues? So
cdigos ou alguma coisa assim?"

       Hedge estreitou seus olhos. Parte de Jason se perguntou se o cara era s louco. A
outra parte, porm, sabia melhor.

        "Olhe garoto," Hedge falou, "Eu no sei quem voc . S sei o que voc , e isso
significa problema. Agora eu tenho que proteger trs de vocs e no dois. Voc  o
pacote especial?  isso?"

       "Do que voc est falando?"

       Hedge olhou para a tempestade. As nuvens estavam ficando mais grossas e mais
escuras, pairando diretamente sobre a passarela.

        "Essa manh," Hedge falou, "recebi uma mensagem do acampamento. Eles
disseram que uma equipe de extrao est a caminho. Eles esto vindo para pegar um
pacote especial, mas eles no deveriam me dar detalhes. Eu pensei por mim mesmo. Os
dois que eu estou observando so mais poderosos, mais velhos que a maioria. Eu sei que
eles esto sendo perseguidos. Eu posso sentir o cheiro de um monstro no grupo. Eu


                                          16
imaginei que esse era o motivo para de repente o acampamento estar frentico para
busc-los. Ento voc aparece do nada. Ento, voc  o pacote especial?."

       A dor atrs dos olhos de Jason ficou pior do que nunca. Meio-sangues.
Acampamento. Monstros. Ele continuou sem entender nada do que Hedge estava
falando, mas as palavras lhe deram um pesado congelamento nos miolos -- como se sua
mente estivesse tentando acessar informaes que deveriam estar ali, mas no estavam.

       Ele tropeou, e o Treinador Hedge o pegou. Para um cara pequeno, o treinador
tinha mos de ferro.

       "Calma l, molenga. Voc disse que no tem lembranas, n? Bem. Eu vou ter
que te observar, tambm, at a equipe chegar aqui. Vamos deixar o diretor descobrir
essas coisas."

       "Que diretor?" disse Jason. "Que acampamento?"

        "Apenas sente. Reforos devem chegar aqui em breve. Espero que nada acontea
antes --"

       Um raio caiu acima de suas cabeas. O vento se manifestou com vingana.
Planilhas voaram para dentro do Grand Canyon, e a ponte inteira estremeceu. Crianas
gritaram, tropeando e agarrando os trilhos.

      "Eu preciso falar uma coisa," Hedge resmungou. Ele gritou em seu megafone:
"Todo mundo l dentro! A vaca disse mu! Fora do observatrio"

       "Achei que voc disse que isso era estvel!" Jason gritou por cima do vento.

       "Em circunstncias normais," Hedge concordou, "as quais no so. Vamos!"




                                          17
Captulo II
A   TEMPESTADE SE TRANSFORMOU NUM FURACO EM MINIATURA.            Um funil de
nuvens serpenteava em direo ao observatrio como os tentculos de uma gua-
marinha monstro.

       Crianas gritaram e correram para o prdio. O vento arrancou seus cadernos,
jaquetas, chapus e mochilas. Jason derrapou pelo piso escorregadio.

       Leo perdeu o equilbrio e quase caiu sobre os trilhos, mas Jason agarrou sua
jaqueta e puxou ele de volta.

       "Obrigado, cara!" Leo gritou.

       "Vai, vai, vai!" Disse o treinador Hedge.

        Piper e Dylan estavam segurando as portas abertas, agrupando as outras crianas
no interior. A jaqueta de snowboard de Piper estava se agitando descontroladamente
com o vento, seu cabelo preto estava em todo seu rosto. Jason pensou que ela devia
estar congelando, mas ela parecia calma e confiante -- falando para os outros que daria
tudo certo, encorajando eles a se manterem em movimento.

       Jason, Leo e o treinador Hedge correram em direo a eles, mas era como correr
em areia movedia. O vento parecia lutar contra eles, os empurrando de volta.

        Dylan e Piper empurraram mais uma criana para dentro, e depois perderam o
seu domnio sobre a porta. Eles acabaram fechados no observatrio. Piper puxou as
alas. As crianas que estavam no interior bateram nos vidros, mas as portas pareciam
presas.

       "Dylan ajude!" Piper gritou.

      Dylan s ficou observando, com um sorriso idiota, sua jaqueta dos Cowboys
ondulando ao vento, como se ele repentinamente estivesse gostando da tempestade.



                                          18
       "Sinto muito, Piper," disse ele. "Estou cansado de ajudar." Ele movimentou
rapidamente seu pulso e Piper voou para trs, batendo na porta e deslizando pelo convs
do observatrio.

       "Piper!" Jason tentou a custo ir para frente, mas o vento estava contra ele, e o
Treinador Hedge o puxou para trs.

       "Treinador," Disse Jason, "Deixe-me ir!"

       "Jason, Leo, fiquem atrs de mim," o treinador ordenou. "Essa  minha luta. Eu
deveria saber que era nosso monstro."

       "O que?" Leo demandou. Uma planilha errante bateu em seu rosto, mas ele a
afastou. "Que monstro?"

       O bon do treinador foi soprado para longe e acima de seu cabelo crespo
estavam dois galos -- como aqueles que os personagens de desenho animado ganham
quando batem a cabea. O Treinador Hedge levantou seu basto de baseball -- mas no
era mais um basto regular. De alguma forma ele tinha se transformado em um basto
de ramo de rvore em forma crua, com ramos e folhas ainda anexados.

        Dylan deu a ele o seu sorriso feliz e psictico. "Ah, vamos l, treinador. Deixa o
garoto me atacar. Afinal, voc est ficando muito velho para isso. No  por isso que
eles te trouxeram para esta escola estpida? Eu estive no seu time a temporada toda e
voc nem reparou. Voc est perdendo seu faro, vov."

       O treinador fez um som irritado, como um animal balindo. " isso a,
queridinho. Eu vou te derrubar."

       "Voc acha que pode proteger trs meio-sangues de uma vez s, velho?" Dylan
riu. "Boa sorte."

       Dylan apontou para Leo e uma nuvem em forma de funil se materializou ao
redor dele. Leo voou pelo observatrio como se ele tivesse sido arremessado. De
alguma forma, ele conseguiu girar no ar e bateu de lado na parede do desfiladeiro. Ele
derrapou, procurando desesperadamente por algum apoio para as mos. Finalmente, ele
agarrou uma pequena fenda cerca de 50 ps abaixo da passarela e se segurou com as
pontas dos dedos.

      "Ajudem-me!" ele gritou para os outros. "Uma corda, por favor? Um elstico de
bungee jump? Alguma coisa?"

       O treinador Hedge praguejou e atirou para Jason seu galho. "Eu no sei quem 
voc, garoto, mas eu espero que voc seja bom. Mantenha aquela coisa ocupada" -- ele
apontou com o dedo para Dylan -- "enquanto eu pego o Leo"


                                           19
       "Peg-lo como?" Jason perguntou. "Voc vai voar?"

        "Voar, no. Escalar." Hedge arrancou seus sapatos e Jason quase teve um
enfarte. Ele tinha cascos -- cascos de bode. O que significava que aquelas coisas em
sua cabea, Jason compreendeu, no eram galos. Eram chifres.

       "Voc  um fauno," Jason disse.

       "Stiro!" vociferou Hedge. "Faunos so Romanos. Mas ns discutiremos isso
depois."

        Hedge pulou a grade. Ele partiu em direo  parede do desfiladeiro e bateu com
os cascos primeiro. Ele desceu o penhasco com uma agilidade incrvel, encontrando
apoios para os ps no maiores do que selos, desviando de redemoinhos que tentavam
atac-lo enquanto ele prosseguia na direo de Leo.

       "Isso no  fofo?" Dylan se virou para Jason. "Agora  a sua vez, garoto."

       Jason atirou o basto. Pareceu intil com ventos to fortes, mas o galho voou
direto na direo de Dylan, at curvando quando ele tentava desviar, e bateu na sua
cabea com tanta fora que ele caiu de joelhos.

       Piper no estava to estupefata quanto parecia. Seus dedos se fecharam ao redor
do galho quando este rolou para perto dela, mas, antes que ela pudesse us-lo, Dylan se
levantou. Sangue -- sangue dourado -- corria de sua testa.

        "Boa tentativa, garoto." Ele tinha um olhar penetrante para Jason. "Mas voc vai
ter que fazer melhor."

       O observatrio estremeceu. Trincados apareceram no vidro. Dentro do museu, as
crianas pararam de bater nas portas. Elas se afastaram, olhando aterrorizadas.

        O corpo de Dylan se dissolveu em fumaa, como se suas molculas estivessem
se descolando. Ele tinha o mesmo rosto, o mesmo sorriso branco brilhante, mas todo o
seu corpo era repentinamente composto de um vapor preto em espiral, seus olhos
pareciam fascas eltricas em uma viva nuvem de tempestade. Ele abriu asas pretas de
fumaa e se elevou acima do observatrio. Se anjos pudessem ser maus, Jason pensou,
eles pareceriam exatamente com isso.

        "Voc  um ventus," Jason disse, apesar de no ter nenhuma idia de como ele
sabia essa palavra. "Um esprito da tempestade."

        A risada de Dylan parecia o som de um tornado arrancando um telhado. "Estou
feliz por ter esperado, semideus. Eu sabia de Leo e Piper por semanas. Eu poderia t-los
matado a qualquer momento. S que minha senhora me disse que havia um terceiro a
caminho -- algum especial. Ela vai me recompensar enormemente pela sua morte!"

                                          20
        Mais duas nuvens em forma de funil apareceram de cada lado de Jason e se
transformaram em ventus -- rapazes espectrais com asas de fumaa e olhos que
tremeluziam como raios.

       Piper se manteve abaixada, fingindo estar aturdida, sua mo ainda segurando o
galho. Seu rosto estava plido, mas ela deu a Jason um olhar determinado e ele entendeu
a mensagem: mantenha-os distrados, baterei neles por trs.

       Linda, esperta e violenta. Jason desejava poder se lembrar de t-la como sua
namorada. Ele fechou seus punhos e se preparou para atacar, mas ele nunca teve a
chance.

        Dylan levantou sua mo com arcos de eletricidade correndo entre seus dedos, e
atirou em Jason no peito.

       Bang! Jason se viu deitado de costas no cho. Sua boca estava com gosto de
lmina de alumnio queimada. Ele levantou a cabea e percebeu que suas roupas
estavam fumegando. O raio foi direto em sua direo e explodiu seu sapato esquerdo.
Seus ps estavam negros de fuligem.

       Os espritos da tempestade estavam rindo. Os ventos enfureciam-se. Piper estava
gritando desafiadoramente, mas tudo parecia metlico e distante.

        Do canto de seu olho, Jason viu o treinador Hedge escalando o penhasco com
Leo nas suas costas. Piper estava de p, balanando desesperadamente o galho para
afastar os dois espritos de tempestade extras, mas eles estavam apenas brincando com
ela. O galho atravessou seus corpos como se eles no estivessem l. E Dylan, um
tornado escuro com asas e olhos, avanou ameaadoramente em direo a Jason.

      "Pare," Jason persuadiu. Ele se levantou cambaleante, e no tinha certeza de
quem estava mais surpreso: ele ou os espritos de tempestade.

        "Como voc est vivo?" a forma de Dylan surgiu. "Aquilo tinha eletricidade
suficiente para matar vinte homens!"

       "Minha vez," disse Jason.

       Ele colocou a mo no bolso e tirou a moeda de ouro. Ele deixou seus instintos
assumirem, lanando a moeda no ar como j tinha feito milhares de vezes. Ele a
capturou na palma da mo, e de repente estava segurando uma espada -- uma arma
perversamente afiada de dois gumes. O cunho coube perfeitamente em seus dedos, e
tudo era puro ouro -- cabo, cunho e lmina.

        Dylan rosnou e se apoiou para levantar. Ele olhou para seus dois comparsas e
gritou, "E ento?! Matem-no!"


                                          21
      Os outros espritos de tempestade no pareceram felizes com aquela ordem, mas
voaram em direo a Jason com seus dedos faiscando eletricidade.

       Jason se atirou contra o primeiro esprito. Sua lmina atravessou o esprito e a


forma esfumaada da criatura se desintegrou. O segundo esprito atirou um raio, mas a
espada de Jason absorveu a carga. Jason se moveu para frente -- uma rpida investida,
e o segundo esprito de tempestade se dissolveu em p dourado.

      Dylan se lamentou indignado. Ele olhou para baixo como se esperasse que seus
comparsas se reestruturassem, mas o p dourado continuou disperso no ar. "Impossvel!
Quem  voc, meio-sangue?"

       Piper estava to aturdida que deixou o taco cair. "Jason, como...?"

        Ento o Treinador Hedge saltou de volta no observatrio e derrubou Leo como
se fosse um saco de farinha.

        "Espritos, temam a mim!" Hedge berrou, flexionando seus braos curtos. Ento
ele olhou em volta e percebeu que s havia o Dylan.

      "Maldio, menino!" ele se virou para Jason. "Voc no deixou alguns para
mim? Eu gosto de desafios!"

       Leo se levantou, respirando com dificuldade. Ele parecia completamente
humilhado, suas mos sangrando de escalar as pedras. "Ei, Treinador Super Cabra, ou o
que quer que voc seja -- eu acabei de cair do maldito Grand Canyon! Pare de pedir por
desafios!"

        Dylan sibilou para eles, mas Jason podia perceber medo nos olhos dele. "Vocs
no fazem idia de quantos inimigos vocs despertaram meio-sangues. Minha mestra ir
destruir todos os semideuses. Esta guerra vocs no podem vencer."

       Acima deles, a chuva se explodiu em uma tempestade com fora total.
Rachaduras apareceram no observatrio. Lenis de gua caam, e Jason teve que se
abaixar para manter o equilbrio.

       Um buraco se abriu entre as nuvens -- um turbilho de preto e prateado.

       "Minha mestra me chama de volta!" Dylan gritou de alegria. "E voc, semideus,
vir comigo!"

        Ele investiu contra Jason, mas Piper atacou o monstro por trs. Mesmo ele sendo
feito de fumaa, Piper de alguma maneira conseguiu se conectar. Os dois comearam a
cair. Leo, Jason e o treinador se inclinaram para ajudar, mas o esprito gritou com dio.
Ele jogou uma corrente de ar que derrubou todos eles. A espada de Jason derrapou entre
o vidro. Leo bateu a parte de trs da cabea e se encolheu em um canto, atordoado e

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gemendo. Piper recebeu o pior. Ela foi arrancada das costas de Dylan e bateu na grade,
caindo na borda at que ela estava pendurada por uma mo sobre o abismo.

         Jason se moveu em direo a ela, mas Dylan gritou, "Eu vou me vingar por
essa!"

       Ele agarrou o brao de Leo e comeou a subir, arrastando um Leo semi-
consciente com ele. A tempestade rodopiou com mais fora, puxando eles para cima
como um aspirador de p.

         "Socorro!" Piper gritou. "Algum!"

         Ela, ento, escorregou, gritando enquanto caa.

         "Jason v!" Hedge gritou. "Salve-a!"

       O treinador se lanou contra o esprito com alguns golpes fortes de Bode Fu --
atacando-o com seus chifres, liberando Leo do poder do esprito. Leo caiu so e salvo
no cho, mas Dylan agarrou o brao do treinador em troca. Hedge tentou cabecear ele, e
ento o chutou e o chamou de queridinho. Eles se levantaram no ar, ganhando
velocidade.

        O Treinador Hedge gritou mais uma vez, "Salve-a! Eu cuido disso!" Ento o
stiro e o esprito de tempestade rodopiaram entre as nuvens e desapareceram.

         Salvar ela? Jason pensou. Ela est morta!

       No entanto, outra vez seus instintos venceram. Ele correu para a grade pensando,
Eu sou louco, e pulou de lado.

         ...

       Jason no estava com medo da altura. Ele estava com medo de ser esmagado no
cho do desfiladeiro, mil e quinhentos metros abaixo. Ele percebeu que no tinha
conseguido nada, exceto morrer junto com Piper, mas jogou os braos para frente e caiu
de cabea. As bordas do desfiladeiro passavam por ele como num filme em velocidade
acelerada. Seu rosto parecia que estava descascando.

       Num piscar de olhos, ele alcanou Piper, que caa descontroladamente. Ele
segurou a cintura dela e fechou os olhos, aguardando a morte. Piper gritou. O vento
assobiou no ouvido de Jason. Ele imaginou como seria morrer. Ele estava pensando,
provavelmente no era muito bom. Ele desejou que de alguma forma eles nunca
batessem no cho.




                                            23
       De repente, o vento parou. O grito de Piper se transformou em um suspiro
estrangulado. Jason pensou que eles deveriam estar mortos, mas no sentiu impacto
nenhum.

          "J-J-Jason," Piper murmurou.

        Ele abriu os olhos. Eles no estavam mais caindo. Estavam flutuando no meio do
ar, trezentos metros acima do rio.

       Ele abraou Piper com fora, e ela se reposicionou de forma que tambm estava
abraando ele. Eles estavam de frente, nariz a nariz. O corao dela batia to forte que
Jason podia sentir atravs da roupa dela.

          O hlito dela cheirava a canela. Ela disse "Como voc--"

          "Eu no fiz nada," ele respondeu. "Acho que eu saberia se soubesse voar..."

          Ento ele pensou: Eu no sei nem mesmo quem eu sou.

      Ele pensou estar subindo. Piper ganiu conforme eles comeavam a ir para cima.
Eles no estavam exatamente flutuando, Jason decidiu. Ele podia sentir a presso
embaixo dos ps como se eles estivessem balanando em cima de um cilindro a gs.

          "O ar est ajudando a gente," ele disse.

          "Bem, diga a ele para ajudar mais! Tira a gente daqui!"

       Jason olhou para baixo. A coisa mais fcil a fazer seria descer tranquilamente at
o cho do desfiladeiro. Ento ele olhou para cima. A chuva tinha parado. As nuvens no
pareciam to violentas, mas ainda estava trovejando e piscando. No havia garantia de
que os espritos tinham sumido de vez. Ele no fazia idia do que tinha acontecido ao
Treinador Hedge. E ele tinha deixado Leo l em cima, semi-inconsciente.

      "Ns temos que ajud-los," Piper disse como se lesse os pensamentos dele.
"Voc pode--"

          "Vamos ver." Jason pensou para cima, e instantaneamente eles foram em direo
ao cu.

       O fato de ele estar escalando o ar seria algo legal em outras circunstncias, mas
ele estava extremamente em choque. Assim que eles alcanaram o observatrio,
correram em direo a Leo.

       Piper virou para Leo, e ele grunhiu. O casaco dele de exrcito estava ensopado
pela chuva. Seu cabelo cacheado brilhava a ouro por rolar em p de monstro. Mas pelo
menos ele no estava morto.


                                              24
       "Estpido... bode... feio," ele murmurou.

       "Aonde ele foi?" Piper perguntou.

     Leo apontou para cima. "Nunca voltou. Por favor, diga que ele no salvou
mesmo a minha vida."

       "Duas vezes," Jason falou.

       Leo grunhiu ainda mais alto. "O que aconteceu? O cara tornado, a espada de
ouro... eu bati a minha cabea. Foi isso, certo? Estou alucinando?"

        Jason tinha esquecido a espada. Ele foi at onde ela estava e a pegou. A lmina
estava bem balanceada. Numa intuio ele a girou. No meio da volta, a espada se
transformou novamente em uma moeda e pousou na sua palma.

       "" Leo disse. "Definitivamente alucinando."

       Piper se arrepiou por causa da roupa molhada pela chuva. "Jason, aquelas coisas
--"

       "Venti," ele disse. "Espritos de tempestade."

       "T. Voc agiu como... como se voc j tivesse visto eles antes. Quem  voc?"

       Ele balanou a cabea. " isso que eu estava tentando te dizer. Eu no sei."

       A tempestade parou. As outras crianas da Wilderness School olhavam para as
portas de vidro horrorizadas. Os guardas de segurana estavam mexendo nas
fechaduras, mas no pareciam estar conseguindo nada.

       "O Treinador Hedge disse que tinha que proteger trs pessoas," Jason lembrou.
"Eu acho que ele estava falando da gente."

       "E aquela coisa em que o Dylan se transformou..." Piper tremeu. "Meu Deus, eu
no acredito que ele estava me passando cantadas. Ele chamou a gente de... como era,
semideuses?"

       Leo se deitou de costas no cho, olhando para o cu. Ele no parecia ansioso
para levantar. "No sei o que semi significa," ele disse. "Mas eu no estou me sentindo
muito divino no. Vocs esto?"

       Houve um som quebradio como de galhos secos estalando, e as rachaduras no
observatrio comearam a aumentar.

       "Ns precisamos sair daqui," Jason falou. "Talvez se ns--"



                                           25
       "Aaaah t," Leo interrompeu. "Olhem para cima e me digam se aquilo so
cavalos voadores."

       De incio Jason pensou que Leo tinha batido a cabea forte demais. S que ento
ele viu uma silhueta escura descendo do leste -- devagar demais para ser um avio,
grande demais para ser um pssaro. Conforme foi se aproximando, ele pde ver um par
de animais alados -- cinza, de quatro patas, exatamente como cavalos -- exceto pelo
fato de que cada um tinha asas de seis metros. E eles estavam puxando uma caixa
pintada com duas rodas: uma biga.

        "Reforos," ele disse. "Hedge disse que um peloto de extrao estava vindo
atrs da gente."

       "Peloto de extrao?" Leo se levantou. "Isso parece doloroso."

       "E para onde eles vo extrair a gente?" Piper perguntou. Jason observou a biga
pousar na ponta do observatrio. Os cavalos alados dobraram suas asas e galoparam
nervosamente atravs do vidro, como se sentissem que estava quase quebrando. Dois
adolescentes estavam na biga -- uma loira alta, talvez um pouco mais velha que Jason,
e um cara largo com a cabea raspada e um rosto como uma pilha de tijolos. Os dois
usavam calas jeans e camisetas laranja, com escudos guardados nas costas. A garota
pulou antes mesmo de a biga parar de andar. Ela pegou uma faca e correu em direo ao
grupo de Jason enquanto o cara largo controlava os cavalos.

       "Onde ele est?" a garota demandou. Seus olhos cinzentos eram ferozes e um
pouco assustadores.

       "Onde est quem?" Jason perguntou.

       Ela franziu o cenho como se a resposta dele fosse inaceitvel. Ento ela se virou
para Leo e Piper. "E o Gleeson? Onde est o seu protetor, Gleeson Hedge?"

        O primeiro nome do treinador era Gleeson? Jason teria rido se a manh no
tivesse sido to estranha e assustadora. Gleeson Hedge: Treinador de futebol, homem
bode, protetor de semideuses. Claro. Por que no?

       Leo pigarreou. "Ele foi capturado por algumas... coisas-tornado."

       "Os Ventus," Jason disse. "Espritos de tempestade."

       A menina loira levantou uma sobrancelha. "Voc quer dizer anemoi thuellai?
Esse  o termo grego. Quem  voc e o que aconteceu?"

       Jason se esforou ao mximo para explicar, embora fosse difcil encarar aqueles
olhos cinzentos to intensos. Mais ou menos no meio da histria, o outro cara da biga se


                                          26
aproximou. Ele ficou l encarando eles, seus braos cruzados. Ele tinha uma tatuagem
de arco-ris no bceps, o que parecia um pouco atpico.

       Quando Jason terminou a histria, a garota loira no parecia satisfeita. "No,
no, no! Ela me disse que ele estaria aqui. Ela disse que se eu viesse aqui, encontraria a
resposta."

       "Annabeth," o cara careca grunhiu. "Olha s." Ele apontou para o p de Jason.

       Jason no tinha parado para pensar a respeito, mas ele ainda estava sem seu
sapato esquerdo que tinha sido arrancado pelo raio. Seu p livre estava bem, mas
parecia um pedao de carvo. "O cara com um sapato s," disse o cara careca. "Ele  a
resposta."

        "No, Butch," a garota insistiu. "Ele no pode ser. Eu fui enganada." Ela olhou
para o cu como se ele tivesse feito algo errado. "O que vocs querem de mim?" ela
gritou. "O que vocs fizeram com ele?"

       O cu tremeu, e os cavalos relincharam urgentemente.

        "Annabeth," disse o cara careca, Butch, "ns temos que ir. Vamos levar esses
trs pro acampamento e tentar descobrir l. Aqueles espritos de tempestade podem
voltar."

        Ela exasperou-se por um momento. "timo." Ela encarou Jason com um olhar
ressentido. "Ns vamos resolver isso depois." Ela girou o corpo pelo calcanhar e
marchou em direo  biga.

       Piper balanou a cabea. "Qual  o problema dela? O que t rolando?"

       "Srio mesmo," Leo concordou.

       "Ns precisamos tirar vocs daqui," Butch disse. "Eu explico no caminho."

      "Eu no vou a lugar nenhum com ela." Jason apontou em direo  loira. "Ela
me olha como se quisesse me matar."

       Butch hesitou. "Annabeth  tranquila. Voc tem que dar uma folga pra ela. Ela
teve uma viso dizendo a ela para vir aqui, para achar um cara com um sapato s. Essa
deveria ser a resposta para o problema dela."

       "Qual problema?" Piper perguntou.

        "Ela est procurando por um dos nossos campistas, que est desaparecido h trs
dias," Butch disse. "Ela est perdendo a cabea de preocupao. Ela esperava que ele
estivesse aqui."


                                            27
"Quem?" Jason perguntou.

"O namorado dela," Butch disse. "Um cara chamado Percy Jackson."




                                28
Captulo III
DEPOIS DE UMA MANH DE ESPRITOS DE TEMPESTADE, homens-bode, e namorados
voadores, Piper deveria estar perdendo a cabea. Ao invs disso, tudo que ela sentia era
medo.

       Est comeando, ela pensou. Assim como o sonho disse.

       Ela ficou na parte de trs da biga com Leo e Jason, enquanto o cara careca,
Butch, controlava as rdeas, e a garota loira, Annabeth, ajustava um aparelho de
navegao feito de bronze. Eles subiram o Grand Canyon e rumaram para o leste, o
vento frio passando direto pelo casaco de Piper. Atrs deles, mais nuvens de tempestade
estavam se formando.

        A biga balanou e deu um solavanco. No havia cintos de segurana e a parte de
trs estava aberta, ento Piper pensou se Jason poderia peg-la novamente se casse.
Aquilo fora a parte mais perturbadora da manh -- no que Jason pudesse voar, mas
que ele havia segurado ela nos braos e ainda no sabia quem ela era.

        Em todo o semestre ela trabalhou no relacionamento, tentando fazer Jason not-
la mais que como uma amiga. Finalmente ela havia conseguido a grande vitria de
beij-lo. As ltimas semanas foram s melhores de sua vida. E ento, trs noites atrs, o
sonho havia arruinado tudo -- aquela voz horrvel, dando-lhe horrveis notcias.

       Ela no tinha contado para ningum, nem mesmo Jason.

        Agora ela nem mesmo tinha a ele. Era como se algum tivesse apagado a
memria dele, e ela estava presa no pior "repetir" de todos os tempos. Ela queria gritar.
Jason ficou no seu lado direito: aqueles olhos da cor do cu, o cabelo loiro cortado
curto, aquela pequena e bonita cicatriz no seu lbio superior. Seu rosto era bondoso e
gentil, mas sempre um pouco triste. E ele s olhou para o horizonte, nem mesmo
notando-a.

       Entretanto, Leo estava sendo aborrecedor, como de costume. "Isso  to legal!"
Ele cuspiu uma pena de pgaso da boca. "Para onde estamos indo?"

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      "Para um lugar seguro," Annabeth disse. "O nico lugar seguro para pessoas
como ns. Acampamento Meio-Sangue."

       "Meio-Sangue?" Piper estava imediatamente de guarda. Ela odiava aquela
palavra. Ela fora chamada de meio-sangue vrias vezes -- meio ndia, meio branca -- e
nunca era um elogio. "Esse  algum tipo de brincadeira sem-graa?"

       "Ela quer dizer que somos semideuses," Jason disse. "Meio deuses, meio
mortais."

       Annabeth olhou para trs. "Voc parece saber muito, Jason. Mas, sim,
semideuses. Minha me  Atena, deusa da sabedoria. O Butch aqui  o filho de ris, a
deusa do arco-ris."

       Leo silenciou-se. "Sua me  uma deusa do arco-ris?"

       "Tem algum problema com isso?" Butch disse.

       "No, no," Leo disse. "Arco-ris. Muito macho."

      "Butch  nosso melhor equitador," Annabeth disse. "Ele se d bem com os
pgasos."

       "Arco-ris, pneis," Leo murmurou.

       "Eu vou lhe jogar dessa biga," Butch alertou.

      "Semideuses," Piper disse. "Voc quer dizer que acha que ... voc acha que ns
somos --"

      Um raio lampejou. A biga estremeceu, e Jason gritou, "A roda direita est
pegando fogo!"

       Piper recuou. Sem dvida, a roda estava queimando, chamas brancas engolindo
o lado da biga.

       O vento zuniu. Piper olhou atrs deles e viu formas escuras formando-se nas
nuvens, mais espritos de tempestade espiralando para a biga -- exceto que esses
pareciam mais como cavalos do que anjos.

       Ela comeou a falar, "Por que eles so --"

       "Os anemoi vem em diferentes formas," Annabeth disse. "s vezes humana, s
vezes garanhes, dependendo de quo caticos eles so. Segure-se. Isso vai ficar feio."

       Butch chicoteou as rdeas. Os pgasos aumentaram a velocidade com uma
exploso, e a biga obscureceu. O estmago de Piper subiu a garganta. Sua viso estava
escura e, quando voltou ao normal, eles estavam num lugar totalmente diferente.
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       Um oceano cinza e frio estendia-se  esquerda. Campos cobertos de neve,
estradas, e florestas expandiam-se na direita. Diretamente abaixo deles havia um vale
verde, como uma ilha de primavera, cercada com colinas nevadas em trs lados e com
gua no norte. Piper viu construes como os templos da Grcia Antiga, uma grande
manso azul, complexos esportivos, um lago, e uma parede de alpinismo que parecia
estar em chamas. Mas, antes que ela realmente pudesse processar tudo que estava
vendo, as rodas deles soltaram e a biga despencou do cu.

        Annabeth e Butch tentaram manter o controle. Os pgasos trabalharam para
segurar a biga no vo, mas eles pareciam exaustos da exploso de velocidade, e carregar
a biga e o peso de cinco pessoas era simplesmente demais.

       "O lago!" Annabeth gritou. "Mire no lago!"

       Piper se lembrou de algo que seu pai havia contado uma vez para ela, sobre cair
na gua de grandes alturas ser to ruim quanto cair em cimento.

       E ento -- BUM.

       O maior choque foi o frio. Ela estava submersa, to desorientada que ela no
sabia qual caminho levava para cima.

       Ela s tinha tempo para pensar: Esse seria um jeito estpido de morrer. A faces
apareceram na escurido verde -- garotas com longos cabelos negros e olhos amarelos
brilhantes. Elas sorriram para ela, pegaram seus ombros, e a puxaram.

       Elas lanaram-na para cima, ofegando e tremendo de frio, para a praia. Prximo,
Butch estava no lago cortando as armaduras naufragadas dos pgasos. Felizmente, os
cavalos pareciam bem, mas eles estavam batendo as asas e espirrando gua para todo
lado. Jason, Leo, e Annabeth j estavam na praia, rodeados por garotos dando-lhes
cobertores e fazendo perguntas. Algum pegou Piper pelos braos e ajudou-a a ficar em
p. Aparentemente as pessoas caiam no lago com frequncia, pela razo de que alguns
dos campistas correram para cima dela com folhas grandes de bronze parecendo
sopradores e jogaram ar quente em Piper, que fez com que em, aproximadamente, dois
segundos suas roupas estivessem secas.

       Havia pelo menos vinte campistas ao redor -- o mais novo de talvez nove anos,
o mais velho em nvel de faculdade, dezoito ou dezenove -- e todos eles tinham
camisetas laranja como  de Annabeth. Piper olhou novamente para a gua e viu aquelas
garotas estranhas um pouco abaixo da superfcie, seus cabelos flutuando na correnteza.
Elas acenaram com adeusinho, e desapareceram nas profundezas. Um segundo depois
os destroos da biga foram puxados do lago e pousados prximo com um rudo
molhado.



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       "Annabeth!" Um cara com um arco e aljava nas costas abriu caminho atravs da
multido. "Eu disse que voc poderia pegar emprestada a biga, e no destru-la!"

       "Will, me desculpe," Annabeth suspirou. "Eu vou consert-la, prometo."

       Will olhou zangado para sua biga destruda. Ento ele julgou Piper, Leo, e Jason.
"So esses? Pelo jeito, maiores de treze. Por que ainda no foram reclamados?"

       "Reclamados?" Leo perguntou.

       Antes que Annabeth pudesse responder, Will disse "Algum sinal de Percy?"

       "No," Annabeth admitiu.

       Os campistas murmuraram. Piper no tinha idia de quem esse cara, Percy, era,
mas seu desaparecimento parecia ser algo consideravelmente grande.

        Outra garota avanou -- alta, asitica, o cabelo negro em cachos, vrias jias, e
maquiagem perfeita. De algum jeito ela conseguia fazer jeans e uma camiseta laranja
parecerem deslumbrantes. Ela olhou para Leo, fixou os olhos em Jason como se ele
fosse valioso de sua ateno, ento torceu os lbios para Piper como se ela fosse um
burrito velho que havia sido tirado de uma lixeira. Piper conhecia esse tipo de garota.
Ela tivera relaes com vrias garotas assim na Wilderness School e todas as outras
estpidas escolas que seu pai havia mandado-a. Piper soube instantaneamente que elas
seriam inimigas.

       "Bem," a garota disse, "eu espero que eles valham o problema."

       Leo bufou. "Nossa, obrigado. O que ns somos, seus novos mascotes?"

       "Sem brincadeiras," Jason disse. "Quem sabe algumas perguntas antes de vocs
comearem a nos julgar -- tipo, o que  esse lugar, porque estamos aqui, quanto tempo
temos que ficar?"

         Piper tinha as mesmas perguntas, mas uma onda de ansiedade passou sobre ela.
Valham o problema. Se eles ao menos soubessem sobre seu sonho. Eles no tinham
idia...

      "Jason," Annabeth disse, "prometo que vamos responder suas perguntas. E
Drew" -- ela franziu para a garota bonita -- "todos os semideuses valem a pena salvar.
Mas vou admitir que a viagem no foi como eu esperava."

       "Ei," Piper disse, "ns no pedimos para sermos trazidos aqui."

      Drew fungou. "E ningum quer vocs. Seu cabelo sempre parece um texugo
morto?"


                                           32
       Piper avanou pronta para bater nela, mas Annabeth disse "Piper, pare."

      Piper parou. Ela no estava nem um pouco amedrontada com Drew, mas
Annabeth no parecia com algum que ela iria querer como inimiga.

        "Precisamos fazer nossos novos recm-chegados sentirem-se em casa,"
Annabeth disse, com outro olhar afiado para Drew. "Vamos designar um guia para
cada, dar um passeio no acampamento. Esperanosamente, na fogueira essa noite, eles
sero reclamados."

       "Algum vai me dizer o que significa reclamados?" Piper perguntou.

       Subitamente houve um ofego coletivo. Os campistas cederam. Primeiro Piper
pensou que fez algo errado. Ento ela percebeu que seus rostos estavam banhados numa
estranha luz vermelha, como se algum tivesse acendido uma tocha atrs dela. Ela virou
e quase esqueceu como respirar.

      Flutuando sobre a cabea de Leo estava uma imagem hologrfica em chamas --
um martelo de fogo.

       "Isso," Annabeth disse, " ser reclamado."

       "O que eu fiz?" Leo voltou para o lago. Ento ele olhou para cima e gritou.
"Meu cabelo est queimando?" Ele abaixou-se, mas o smbolo seguiu-o, sacudindo e
tranando de forma que parecia que ele estava tentando escrever algo em chamas com a
cabea.

       "Isso no deve ser bom," Butch murmurou. "A maldio --"

       "Butch, cale-se," Annabeth disse. "Leo, voc acabou de ser reclamado --"

       "Por um deus," Jason interrompeu. "Esse  o smbolo do Vulcano, no ?"

       Todos os olhos viraram para ele.

       "Jason," Annabeth disse cuidadosamente, "como voc sabia disso?"

       "No sei."

       "Vulcano?" Leo perguntou. "Eu nem GOSTO de Jornada nas Estrelas. Sobre o
que vocs esto falando?"

       "Vulcano  o nome romano para Hefesto," Annabeth disse, "o deus dos ferreiros
e do fogo."

        O martelo de fogo enfraqueceu, mas Leo continuou agitando o ar como se
tivesse medo que aquilo estivesse lhe seguindo. "O deus do qu? Quem?"


                                          33
      Annabeth virou para o cara com o arco. "Will, voc poderia ficar com Leo, dar
um passeio? Apresente-o aos seus companheiros no Chal Nove."

        "Claro, Annabeth."

        "O que  Chal Nove?" Leo perguntou. "E eu no sou um Vulco!"

        "Vamos l, Sr. Spock, eu vou explicar tudo." Will colocou uma mo no ombro
dele e desviou-o em direo aos chals.

       Annabeth voltou sua ateno para Jason. Geralmente, Piper no gostava quando
outras garotas olhavam seu namorado, mas Annabeth no parecia se importar de que ele
fosse um cara bonito. Ela estudou-o mais como se ele fosse uma planta complicada.

        Finalmente ela disse, "Mostre seu brao."

        Piper viu o que ela estava vendo, e seus olhos arregalaram-se.

        Jason tinha tirado seu casaco depois do mergulho no lago, deixando os braos
nus, e no lado do seu antebrao direito tinha uma tatuagem. Como Piper nunca havia
notado antes? Ela olhara para os braos de Jason um milho de vezes. A tatuagem no
poderia ter simplesmente aparecido, mas estavam gravadas sombriamente, impossvel
de errar: uma dzia de linhas retas como um cdigo de barras, e acima delas, uma guia
com as letras spqr.

        "Eu nunca vi marcas como essa," Annabeth disse. "Onde voc as conseguiu?"

        Jason sacudiu a cabea. "Eu realmente estou cansado de dizer isso, mas eu no
sei."

       Os outros campistas empurraram-se para frente, tentando dar uma olhada na
tatuagem de Jason. As marcas pareciam aborrec-los muito -- quase como uma
declarao de guerra.

        "Elas parecem queimadas na sua pele," Annabeth notou.

      "Elas foram" Jason disse. Ento ele estremeceu como se sua cabea estivesse
doendo. "Quero dizer... Eu acho que sim. Eu no lembro."

        Ningum disse nada. Estava claro que os campistas viam Annabeth como a lder.
Eles estavam esperando por seu veredicto.

        "Ele precisa ir direto para Quron," Annabeth decidiu. "Drew, voc iria --"

      "Absolutamente." Drew atou seu brao com o de Jason. "Desse jeito, querido.
Eu vou lhe apresentar ao nosso diretor. Ele ... um cara interessante." Ela deu a Piper
um olhar presunoso e dirigiu Jason em direo  grande casa azul na colina.

                                           34
      A multido comeou a dispersar, at sobrar somente Annabeth e Piper.

      "Quem  Quron?" Piper perguntou. "Jason est em algum tipo de encrenca?"

       Annabeth hesitou. "Boa pergunta Piper. Vamos l, vamos dar uma volta.
Precisamos conversar."




                                        35
                                    Captulo IV

PIPER LOGO PERCEBEU QUE O CORAO DE ANNABETH no estava no passeio.
        Ela falou sobre todas essas coisas surpreendentes que o acampamento oferecia
-- arco e flecha mgico, equitao de pgaso, a parede de lava, luta com monstros --
mas ela no demonstrou nenhuma animao, como se sua mente estivesse em outro
lugar. Ela apontou para o pavilho de jantar ao ar livre que contemplava do alto o
Estreito de Long Island. (Sim, Long Island, Nova York; eles haviam viajado aquela
distncia na biga.) Annabeth explicou que o Acampamento Meio-Sangue era na maior
parte um acampamento de vero, mas alguns garotos ficavam aqui quase um ano, e eles
tinham adicionado tantos campistas que sempre estava cheio agora, at no inverno.

       Piper queria saber quem dirigia o acampamento, e como eles sabiam que Piper e
seus amigos eram membros dali. Ela queria saber se teria que ficar em tempo integral,
ou se ela teria alguma vantagem nas atividades. Voc poderia ser jubilado na luta com
monstros? Milhes de perguntas borbulhavam na sua cabea, mas dado o nimo de
Annabeth, ela decidiu ficar quieta.

        Enquanto eles subiam uma colina na beira do acampamento, Piper virou e teve
uma incrvel viso do vale -- uma grande extenso de florestas ao noroeste, uma linda
praia, o riacho, o lago de canoagem, magnficos campos verdes, e a amostra completa
dos chals -- um bizarro agrupamento de construes, arranjados como um mega
grego, , com um lao de chals ao redor de um campo central, e duas asas ressaltando
a base em cada lado. Piper contou vinte chals ao total. Um brilhava a ouro, outro a
prata. Um tinha grama no telhado. Outro era vermelho vivo com trincheiras de arame
farpado. Um chal era preto com ardentes tochas verdes na frente.

       Tudo isso parecia como um mundo diferente das colinas nevadas e campos do
lado de fora.

        "O vale  protegido dos olhos mortais," Annabeth disse. "Como voc pode ver,
o clima  controlado, tambm. Cada chal representa um deus grego -- um lugar para o
filho daquele deus viver."

       Ela olhou para Piper como se estivesse tentando julgar como Piper estava
tratando as notcias.

                                         36
       "Voc est dizendo que minha me era uma deusa."

       Annabeth assentiu. "Voc est tomando isso com uma tremenda calma."

        Piper no pde dizer a ela o porque. Ela no podia admitir que isso s
confirmava algumas misteriosas sensaes que ela teve por anos, discusses que ela
tivera com seu pai sobre por que no haviam fotos da me na casa, e por que o pai
nunca contou-lhe exatamente como ou por que sua me havia deixado-os. Mas
principalmente, o sonho havia alertado-a que isso estava vindo. Logo eles a
encontraro, semideusa, aquela voz falou grossamente. Quando eles lhe encontrarem,
siga nossas direes. Colabore, e seu pai poder viver.

       Piper tomou um flego vacilante. "Acho que depois dessa manh, ser um pouco
mais fcil de acreditar. Ento, quem  minha me?"

       "Devemos saber logo," Annabeth disse. "Voc tem o qu -- quinze anos? Os
deuses deviam reclamar voc quando tivesse treze. Esse foi o acordo."

       "O acordo?"

       "Eles fizeram uma promessa no ltimo vero... bem longa histria... mas eles
prometeram no ignorar seus filhos semideuses, no mais, reclam-los na hora que
fizessem treze. s vezes demora um pouco, mas voc viu como foi rpido para Leo ser
reclamado quando chegou aqui. Deve acontecer com voc em breve. De noite na
fogueira, aposto que teremos um sinal."

      Piper queria saber se ele teria um grande martelo flamejante sobre a cabea, ou,
com sua sorte, algo at mais embaraoso. Um marsupial flamejante, talvez.

       Quem quer que fosse sua me, Piper no tinha razo para pensar que ela estaria
orgulhosa de reclamar uma filha cleptomanaca com tantos problemas. "Por que treze
anos?"

       "O mais velho que voc chega," Annabeth disse, "o mais velho que os monstros
lhe notam, at tentarem te matar. Por volta dos treze anos  geralmente quando comea.
 por isso que mandamos protetores nas escolas para encontrar vocs, traz-los ao
acampamento antes que seja tarde demais."

       "Como o Treinador Hedge?"

       Annabeth assentiu. "Ele  -- ele era um stiro: meio homem, meio bode. Stiros
trabalham para o acampamento, encontrando semideuses, protegendo-os, trazendo-os
enquanto ainda h tempo."




                                         37
        Piper no tinha problemas para acreditar que o Treinador Hedge era metade
bode. Ela vira o cara comer. Ela nunca gostou muito do treinador, mas ela no podia
acreditar que ele se sacrificara para salv-los.

        "O que aconteceu com ele?" ela perguntou. "Quando subimos nas nuvens, ele...
ele se foi para sempre?"

        "Difcil dizer." A expresso de Annabeth estava aflita. "Espritos de
tempestade... so difceis de combater. Mesmo nossas melhores armas, de Bronze
celestial, passam atravs deles a no ser que voc possa peg-los de surpresa."

       "A espada de Jason transformou-os em p," Piper lembrou.

        "Ele teve sorte, ento. Se voc golpear um monstro certeiro, voc pode dissolv-
los, enviar a sua essncia de volta ao Trtaro."

       "Trtaro?"

       "Um abismo imenso no Mundo Inferior de onde os piores monstros vm. Um
tipo de buraco de maldade sem fundo. De qualquer jeito, quando os monstros
dissolvem, geralmente leva meses, anos at que possam se reformar. Mas desde que
esse esprito de tempestade, Dylan, partiu -- bem, eu no sei por que ele manteria
Hedge vivo. Hedge era um protetor, entretanto. Ele conhecia os riscos. Stiros no tm
almas mortais. Ele ir reencarnar como uma rvore ou flor ou alguma coisa assim."

       Piper tentou imaginar o Treinador Hedge como uma moita de amores-perfeitos
muito irritadios. Aquilo a fez sentir-se pior ainda.

       Ela olhou fixamente para os chals abaixo, e uma sensao preocupante a
tomou. Hedge morrera para traz-la aqui em segurana. O chal da sua me estava em
algum lugar ali embaixo, o que significava que ela tinha irmos e irms, mais pessoas
que ela teve de abandonar.

       Faa o que falamos para voc, a voz tinha dito. Ou as consequncias sero
dolorosas. Ela contraiu as mos debaixo dos braos, tentando faz-las parar de tremer.

       "Ser legal," Annabeth prometeu. "Voc tem amigos aqui. Todos ns temos
vivido coisas esquisitas. Sabemos o que voc est passando."

       Duvido, Piper pensou.

      "Eu fui expulsa de cinco diferentes escolas nesses ltimos cinco anos," ela disse.
"Meu pai est correndo atrs de lugares para me colocar."

       "S cinco?" Annabeth no soava como se estivesse provocando. "Piper, todos
aqui somos encrenqueiros qualificados. Eu fugi de casa quando tinha sete anos."

                                          38
       "Srio?"

       "Ah, sim. A maior parte de ns  diagnosticada com transtorno de dficit de
ateno ou dislexia, ou ambos --"

       "Leo tem ADHD," Piper disse.

       "Certo.  porque somos preparados para a batalha. Agitados, impulsivos -- no
nos encaixamos como crianas normais. Voc deve ter ouvido quanto problema Percy
--" Seu rosto escureceu. "De qualquer jeito, semideuses conseguem uma m reputao.
Como voc entrou em encrenca?"

       Normalmente quando algum fazia aquela pergunta, Piper comeava uma luta,
ou mudava de assunto, ou causava algum tipo de distrao. Mas por algum motivo ela
achou-se falando a verdade.

       "Eu roubo coisas," ela disse. "Bem, no realmente roubo..."

       "Sua famlia  pobre?"

       Piper riu amargamente. "No mesmo. Eu fazia isso... No sei por qu. Por
ateno, acho. Meu pai nunca tinha tempo para mim a menos que entrasse em
encrenca."

      Annabeth assentiu. "Eu posso entender. Mas voc disse que no realmente
roubava? O que voc quer dizer?"

       "Bem... ningum nunca acredita em mim. A polcia, professores -- at as
pessoas de quem eu pego coisas: eles ficam to embaraados, eles vo negar o que
aconteceu. Mas a verdade  que eu no roubo nada. Eu s peo coisas para as pessoas. E
eles me do as coisas. At uma BMW conversvel. Eu s pedi. E o revendedor disse
"Certo. Pegue-a." Depois, ele percebeu o que fizera, eu acho. Ento a polcia veio atrs
de mim."

      Piper esperou. Ela estava costumada s pessoas chamando-a de mentirosa, mas
quando ergueu os olhos, Annabeth apenas assentiu.

      "Interessante. Se seu pai fosse o deus, eu diria que voc  uma criana de
Hermes, deus dos ladres. Ele pode ser bastante convincente. Mas seu pai  mortal..."

       "Muito," Piper concordou.

        Annabeth sacudiu a cabea, aparentemente iludida. "Eu no sei, ento. Com
sorte, sua me ir lhe reclamar  noite."

       Piper quase esperou que no acontecesse. Se sua me fosse uma deusa, ela
saberia sobre aquele sonho? Ela saberia o que Piper fora pedida para fazer? Piper queria

                                          39
saber se deuses olimpianos alguma vez detonaram seus filhos com raios por serem
maus, ou mandaram-nos ao Mundo Inferior.

       Annabeth estava estudando-lhe. Piper decidiu que teria de ser cuidadosa com o
que diria agora. Annabeth era obviamente bastante esperta. Se algum pudesse
descobrir o segredo de Piper...

       "Vamos l," Annabeth disse finalmente. "H uma coisa a mais que eu preciso
checar."

        Elas andaram um pouco mais at que alcanaram uma caverna perto do topo da
colina. Ossos e espadas velhas espalhavam-se no cho. Tochas ladeavam a entrada, que
estava coberta com uma cortina de veludo enfeitada com cobras. Parecia o cenrio para
algum tipo de show de marionetes.

        "O que tem a?" Piper perguntou.

       Annabeth colocou a cabea para frente, ento suspirou e fechou as cortinas.
"Nada, agora. Lugar de uma amiga. Estive esperando-a por alguns dias, mas at agora,
nada."

        "Sua amiga mora numa caverna?"

       Annabeth quase controlou um sorriso. "Na verdade, a famlia dela tem um
condomnio de luxo no Queens, e ela vai para uma escola de moas em Connecticut.
Mas quando ela est aqui no acampamento, sim, ela mora na caverna. Ela  nosso
orculo, prev o futuro. Eu estava esperando que ela pudesse me ajudar --"

        "A encontrar Percy," Piper sups.

       Toda a energia drenou-se de Annabeth, como se ela estivesse segurando-a o
mximo que pde. Ela sentou numa rocha, e sua expresso estava to cheia de dor,
Piper sentiu-se como uma voyeur.

        Ela forou-se a olhar para outro lado. Seus olhos flutuaram para o topo da
colina, onde um pinheiro solitrio dominava o horizonte. Algo brilhava no seu galho
mais baixo -- como um tapete felpudo e dourado.

        No... No um tapete. Era o velocino de uma ovelha.

        Ok, Piper pensou. Acampamento grego. Eles tinham uma rplica do Velocino de
Ouro.

       Ento ela notou a base da rvore. No comeo ela pensou que a rvore estava
enrolada numa pilha de cabos roxos. Mas os cabos tinham escamas reptilianas, patas



                                            40
com garras, e uma cabea parecida com a de uma cobra com olhos amarelos e narinas
fumegantes.

      "Aquilo  -- um drago," ela gaguejou. "Aquele  o Velocino de Ouro
verdadeiro?"

      Annabeth assentiu, mas estava claro que ela no estava realmente ouvindo. Seus
ombros abaixaram. Ela esfregou o rosto e tomou um flego trmulo. "Desculpe. Estou
um pouco cansada."

       "Voc parece pronta para cair," Piper disse. "H quanto tempo est procurando
pelo seu namorado?"

       "Trs dias, seis horas, e aproximadamente vinte minutos."

       "E voc no tem idia do que aconteceu com ele?"

        Annabeth balanou a cabea miseravelmente. "Estvamos to animados por que
ambos comeramos as frias de inverno cedo. Encontraramos-nos no acampamento na
tera-feira, calculamos que ns tnhamos trs semanas juntos. Seria incrvel. Ento
depois da fogueira, ele -- me deu um beijo de boa noite, voltou para o seu chal, e na
manh seguinte, ele havia partido. Procuramos pelo acampamento inteiro. Contatamos
sua me. Tentamos alcan-lo de todas as maneiras que sabemos. Nada. Ele
simplesmente desapareceu."

      Piper estava pensando: Trs dias atrs. A mesma noite que ela tivera seu sonho.
"H quanto tempo vocs dois esto juntos?"

       "Desde agosto," Annabeth disse. "Dezoito de agosto."

        "Quase exatamente quando eu encontrei Jason," Piper disse. "Mas s ficamos
juntos por algumas semanas."

       Annabeth estremeceu. "Piper... sobre isso. Talvez voc devesse sentar-se."

      Piper sabia onde isso ia dar. Pnico comear a crescer dentro dela, como se os
pulmes estivessem cheios d'gua. "Olhe, eu sei que Jason pensou -- ele pensou que s
apareceu na nossa escola hoje. Mas no  verdade. Eu o conheo h quatro meses."

       "Piper," Annabeth disse tristemente. " a Nvoa."

       "O qu?"

       "Nvoa.  um tipo de vu separando o mundo mortal do mundo mgico. Mentes
mortais -- elas no podem processar coisas estranhas como deuses e monstros, ento a
Nvoa distorce a realidade. Faz mortais verem coisas de um modo que eles possam


                                          41
entender -- como se os olhos deles s pudessem saltar sobre esse vale, ou eles
pudessem olhar para aquele drago e ver uma pilha de cabos."

      Piper tragou. "No. Voc mesma disse que eu no sou uma mortal comum. Eu
sou uma semideusa."

        "At semideuses podem ser afetados. Eu vi isso vrias vezes. Monstros
infiltram-se em algum lugar como uma escola, passam-se por humanos, e todos acham
que lembram daquela pessoa. Eles acreditam que ele sempre esteve por perto. A Nvoa
pode mudar memrias, at criar memrias de coisas que nunca aconteceram --"

        "Mas Jason no  um monstro!" Piper insistiu. "Ele  um humano, ou semideus,
ou como voc quiser cham-lo. Minhas memrias no so falsas. Elas so muito reais.
A vez que ns colocamos as calas do Treinador Hedge no fogo. A vez que Jason e eu
assistimos uma chuva de meteoros no telhado do dormitrio e eu finalmente consegui
fazer o sujeito estpido me beijar..."

        Ela encontrou-se falando, contando para Annabeth sobre todo o seu semestre na
Wilderness School. Ela havia gostado de Jason desde h primeira semana que se
encontraram. Ele era to bondoso com ela, e to paciente, ele podia at tramar com o
hiperativo Leo e suas estpidas brincadeiras. Ele havia aceitado-a por ser ela mesma e
no a julgou por causa das coisas estpidas que ela fizera. Eles gastaram horas
conversando, olhando para as estrelas, e consequentemente -- finalmente -- dando as
mos. Tudo aquilo no podia ser mentira.

       Annabeth franziu os lbios. "Piper, suas memrias so mais aguadas que a
maioria. Vou admitir isso, e no sei por que. Mas se voc o conhece to bem--"

       "Eu conheo!"

       "Ento de onde ele ?"

       Piper sentiu-se como se fosse atingida entre os olhos. "Ele deve ter me dito, mas
--"

        "Voc j havia notado sua tatuagem hoje mais cedo? Ele j lhe disse alguma
coisa sobre seus pais, ou seus amigos, ou sua ltima escola?"

       "Eu -- eu no sei, mas --"

       "Piper, qual  o sobrenome dele?"

       Sua mente ficou vazia. Ela no sabia o sobrenome de Jason. Como podia ser?




                                           42
       Ela comeou a chorar. Ela se sentiu uma completa tola, mas ela sentou-se na
rocha do lado de Annabeth e sentiu-se quebrada em pedaos. Era muito. Tudo que era
bom na sua vida estpida e miservel tinha que ser tirado?

       Sim, o sonho lhe havia dito. Sim, a menos que voc faa exatamente o que
dissermos.

       "Ei," Annabeth disse. "Vamos descobrir. Jason est aqui agora. Quem sabe?
Talvez vocs se resolvam realmente."

       No  provvel, Piper pensou. No se o sonho havia lhe dito a verdade. Mas ela
no podia falar isso.

       Ela limpou uma lgrima da bochecha. "Voc me trouxe aqui para que ningum
me visse chorando, hein?"

       Annabeth deu de ombros. "Pensei que seria difcil para voc. Eu sei como 
perder um namorado."

       "Mas eu ainda no posso acreditar... Eu sei que tivemos algo. E agora
simplesmente se foi, ele nem me reconhece. Se ele realmente s apareceu hoje, ento
por qu? Como ele chegou aqui? Por que ele no pode lembrar-se de nada?"

       "Boas perguntas," Annabeth disse. "Esperamos que Quron possa compreender
isso. Mas agora, precisamos deixar voc arrumada. Est pronta para voltar l pra
baixo?"

       Piper fitou o louco agrupamento de chals no vale. Sua nova casa, uma famlia
que, supostamente, a entendia -- mas em breve eles s seriam outro grupo de pessoas
que ela desapontaria s outro lugar de onde ela seria expulsa. Voc ir abandon-los
por ns a voz lhe alertara. Ou voc perder tudo.

       Ela no tinha escolha.

       "Sim," ela mentiu. "Estou pronta."



       No campo central, um grupo de campistas estava jogando basquete. Eles eram
jogadores incrveis. Nenhum errava a cesta. Bolas de trs pontos entravam
automaticamente.

       "Chal de Apolo," Annabeth explicou. "Turma de faroleiros com armas projteis
-- flechas, bolas de basquete."

      Eles passaram por uma depresso central, onde dois rapazes estavam cortando
um ao outro com espadas.

                                            43
       "Lminas reais?" Piper notou. "No  perigoso?"

       "Faz parte do ponto," Annabeth disse. "Ah, desculpe. Trocadilho ruim. Aquele 
meu chal. Nmero Seis." Ela assentiu para uma construo cinza com uma coruja
esculpida sobre a porta. Atravs da entrada aberta, Piper pde ver prateleiras de livros,
exposio de armas, e um daqueles SMART Board computadorizados que eles tinham
em salas de aula. Duas garotas estavam desenhando um mapa que parecia com um
diagrama de batalha.

       "Falando de lminas," Annabeth disse, "venha aqui."

       Ela levou Piper para o lado do chal, para um grande abrigo de metal que
parecia que fora feito para instrumentos de jardinagem. Annabeth destrancou-o, e dentro
no havia nenhum instrumento de jardinagem, a menos que voc queira fazer uma
guerra nas suas plantaes de tomate. O abrigo estava alinhado com todos os tipos de
armas -- de espadas a arpes e porretes como o do Treinador Hedge.

       "Todo semideus precisa de uma arma," Annabeth disse. "Hefesto faz o melhor,
mas temos uma boa seleo, tambm. Tudo de Atena  sobre estratgia -- combinando
a arma certa para a pessoa certa. Vamos ver..."

      Piper no sentiu-se muito como ir s compras, por objetos mortais, mas ela sabia
que Annabeth estava tentando fazer algo bondoso para ela.

       Annabeth deu para ela uma pesada espada, que Piper dificilmente podia levantar.

       "No," ambas disseram de uma vez.

       Annabeth procurou um pouco mais longe no abrigo e tirou algo mais.

       "Uma espingarda?" Piper perguntou.

       "Mossberg 500." Annabeth checou a ao de tiro como se no fosse nada
demais. "No se preocupe. No fere humanos.  modificada para atirar bronze Celestial,
ento s mata monstros."

       "H, eu no acho que seja meu estilo," Piper disse.

       "Hum, sim," Annabeth concordou. "Muito superficial."

        Ela colocou a espingarda de volta e comeou a remexer por uma prateleira de
bestas quando algo no canto do abrigo chamou a ateno de Piper.

       "O que  aquilo?" ela disse. "Uma faca?"

       Annabeth tirou-a e assoprou a poeira da bainha. Parecia no ter visto a luz do dia
por sculos.

                                           44
      "No sei Piper." Annabeth soou inquieta. "No acho que voc queira essa.
Espadas geralmente so melhores."

       "Voc usa uma faca." Piper apontou para a faca presa no cinto de Annabeth.

       "Sim, mas..." Annabeth deu de ombros. "Bem, d uma olhada se quiser."

       A bainha usada era de couro e preta, atada em bronze. Nada extravagante nada
superficial. A ala de madeira polida cabia belamente na mo de Piper. Quando ela
desembainhou, encontrou uma lmina triangular de quarenta e cinco centmetros --
bronze cintilando como se tivesse sido polida ontem. As pontas eram mortalmente
afiadas.

       Seu reflexo na lmina pegou-a de surpresa. Ela parecia mais velha, mais sria, e
no to assustada quanto se sentia.

       "Ela serve para voc," Annabeth admitiu. "Esse tipo de lmina  chamado de
parazonium. Era principalmente cerimonial, carregada por oficiais de auto-nvel nos
exrcitos gregos. Mostrava que voc era uma pessoa de poder e rica, mas numa luta,
pode proteg-la bem."

       "Eu gosto," Piper disse. "Por que voc no achou que seria bom?"

        Annabeth exalou. "Essa lmina tem uma longa histria. A maioria das pessoas
teria medo de ficar com ela. Sua primeira dona... bem, as coisas no foram muito bem
para ela. Seu nome era Helena."

       Piper engasgou. "Espere, voc quer dizer a Helena? Helena de Tria?

       Annabeth assentiu.

        Subitamente Piper sentiu que devia estar segurando o punhal com luvas
cirrgicas.

       "E isso est simplesmente acomodado no seu abrigo de ferramentas?"

       "Somos rodeados por coisas da Grcia Antiga," Annabeth disse. "Isso no  um
museu. Armas como essa -- elas foram feitas para sempre serem usadas. Elas so nossa
herana como semideuses. Esse foi um presente de casamento de Menelau, primeiro
marido de Helena. Ela nomeou a adaga como Katoptris."

       "Significado?"

       "Espelho," Annabeth disse. "Vidro para olhar. Provavelmente por que foi a
nica coisa para que Helena a usou. No acho que at tenha visto uma batalha."



                                          45
        Piper olhou para a lmina novamente. Por um momento, sua prpria imagem
olhou para ela, mas ento o reflexo mudou. Ela viu chamas, e uma face grotesca como
algo esculpido de um leito de rocha. Ela ouviu a mesma risada como no sonho. Ela viu
seu pai numa priso, amarrando a um poste de frente para uma fogueira estrondosa.

       Ela deixou a lmina cair.

       "Piper?" Annabeth gritou para as crianas do Apolo no campo, "Mdico!
Preciso de ajuda aqui!"

       "No, est -- est tudo bem," Piper controlou-se.

       "Tem certeza?"

       "Sim. Eu s..." Ela tinha que se controlar. Com os dedos trmulos, ela levantou a
adaga. "Eu s fiquei um pouco tonta. Muitos acontecimentos hoje. Mas... eu quero ficar
com a adaga, se estiver tudo bem."

        Annabeth hesitou. Ento, acenou para as crianas de Apolo ficarem onde
estavam. "Ok, se voc est certa. Voc ficou realmente plida, a. Pensei que voc
estava tendo uma doena repentina ou algo assim."

       "Estou legal," Piper prometeu, embora seu corao ainda estivesse acelerado.
"Tem... h, um celular no acampamento? Eu posso ligar pro meu pai?"

       Os olhos cinza de Annabeth estavam quase to desanimados quanto  lmina da
adaga. Ela parecia estar calculando um milho de possibilidades, tentando ler os
pensamentos de Piper.

       "No permitimos celulares," ela disse. "A maioria dos semideuses, se eles usam
um celular,  como mandar um sinal, deixando os monstros saberem onde voc est.
Mas... eu tenho um." Ela tirou-o rapidamente do bolso. "Um pouco contra as regras,
mas se puder ser nosso segredo..."

       Piper o pegou agradecidamente, tentando no deixar suas mos tremerem. Ela
distanciou-se de Annabeth e virou para encarar o campo central.

       Ela ligou para a linha privada do pai, mesmo que soubesse o que iria acontecer.
Caixa postal. Ela esteve tentando por trs dias, desde seu sonho. A Wilderness School
s permitia privilgios de celular uma vez por dia, mas ela ligou todas as manhs, e no
chegou a lugar nenhum.

       Com relutncia ela discou o outro nmero. A assistente pessoal do seu pai
respondeu imediatamente. "Escritrio do Sr. McLean."

       "Jane," Piper disse, rangendo os dentes. "Onde est meu pai?"

                                          46
       Jane ficou em silncio por um momento, provavelmente pensando se ela poderia
escapar se desligasse.

       "Piper, achei que voc no devia ligar da escola."

        "Talvez eu no esteja na escola," Piper disse. "Talvez eu tenha fugido para viver
entre criaturas silvestres."

       "Hum." Jane no soava preocupada. "Bem, eu vou dizer que voc ligou."

       "Onde ele est?"

       "Saiu."

       "Voc no sabe, sabe?" Piper diminuiu a voz, pensando que Annabeth seria
muito experiente para ouvir. "Quando voc vai ligar para a polcia, Jane? Ele pode estar
com problemas."

        "Piper, no vamos transformar isso num circo da mdia. Tenho certeza de que
ele est bem. Ele sai ocasionalmente. Mas ele sempre volta."

       "Ento,  verdade. Voc no sabe --"

       "Eu tenho que ir, Piper," Jane vociferou. "Divirta-se na escola."

       A linha morreu. Piper xingou. Ela voltou para Annabeth e devolveu o celular.

       "Sem sorte?" Annabeth perguntou.

        Piper no respondeu. Ela no confiava em si mesma no momento, de que no
iria chorar de novo.

      Annabeth olhou para a tela do telefone e hesitou. "Seu sobrenome  McLean?
Desculpe, no  meu servio. Mas parece realmente familiar."

       "Nome comum."

       "Sim, suponho. O que seu pai faz?"

         "Ele tem uma posio nas Belas-Artes," Piper disse automaticamente. "Ele  um
artista de Cherokee."

       Sua resposta-padro. No uma mentira, s no era a verdade completa. A
maioria das pessoas, quando ouviam isso, entendia que seu pai vendia souvenires ndios
num stand do lado da estrada numa reserva. Acomodando Touros com cabeas que se
mexem, colares de concha, blocos de papel do Big Chief -- esse tipo de coisa.




                                            47
        "Ah." Annabeth no parecia convencida, mas ela guardou o telefone. "Voc est
se sentindo bem? Quer continuar?"

        Piper fixou sua nova adaga no cinto e prometeu a si mesma que depois, quando
estivesse sozinha, ela entenderia como aquilo funcionava. "Certo," ela disse. "Eu quero
ver tudo."



Todos os chals eram legais, mas nenhuma estampava Piper como o dela. Nenhum sinal
ardente -- marsupiais ou qualquer coisa -- aparecia sobre sua cabea.

       O Chal Oito era inteiramente de prata e brilhava como a luz da lua.

       "rtemis?" Piper sups.

       "Voc conhece a mitologia grega," Annabeth disse.

       "Eu li um pouco quando meu pai estava trabalhando num projeto ano passado."

       "Pensei que ele fazia arte de Cherokee."

      Piper refreou um palavro. "Ah, certo. Mas -- voc sabe, ele faz outras coisas
tambm."

      Piper pensou que tinha entregado tudo: McLean,                 mitologia   grega.
Agradecidamente, Annabeth no pareceu fazer a conexo.

       "De qualquer jeito," Annabeth continuou, "rtemis  deusa da lua, deusa da
caa. Mas sem campistas. rtemis era uma virgem eterna, ento no tem filhos."

      "Ah." Aquele tipo ficou  toa para Piper. Ela sempre gostou das histrias de
rtemis, e pensou que ela faria uma boa me.

       "Bem, h as Caadoras de rtemis," Annabeth corrigiu. "Elas nos visitam s
vezes. Elas no so as filhas de rtemis, mas so suas ajudantes -- esse bando de
adolescentes imortais que se aventuram juntas e caam monstros e coisas assim."

       Piper recobrou-se. "Parece legal. Elas so imortais?"

       "A menos que morram em combate, ou quebrem seus juramentos. Mencionei
que elas tm que se afastar dos garotos? Sem encontros -- nunca. Pela eternidade."

       "Ah," Piper disse. "No importa."

       Annabeth riu. Por um momento ela pareceu quase feliz, e Piper pensou que ela
seria uma boa amiga para ficar nas melhores horas.


                                           48
       Esquea, Piper lembrou-se. Voc no vai fazer amigos aqui. No quando eles
descobrirem.

       Elas passaram o prximo chal, Nmero Dez, que estava decorado como uma
casa da Barbie com cortinas com lao, uma porta rosa, e vasos de cravos nas janelas.
Elas andaram na entrada, e o cheiro de perfume quase fez Piper vomitar.

       "Gah,  aonde as supermodelos vem para morrer?"

       Annabeth sorriu. "Chal de Afrodite. Deusa do amor. Drew  a conselheira."

       "Percebe-se," Piper rosnou.

        "Elas no so todas ms," Annabeth disse. "A ltima conselheira que tivemos
era incrvel."

       "O que aconteceu com ela?"

       A expresso de Annabeth escureceu. "Devamos continuar andando."

        Elas olharam para as outras cabines, mas Piper s ficou mais deprimida. Ela
queria saber se podia ser a filha de Demter, a deusa da colheita.

       Ento novamente, Piper matou todas as plantas que j tocou. Atena era legal. Ou
talvez Hcate, a deusa da magia. Mas isso realmente no importava. At aqui, onde
todos deviam encontrar um parente perdido, ela sabia que ainda acabaria a criana
indesejvel. Ela no estava pensando na fogueira  noite.

       "Ns comeamos com os doze deuses olimpianos," Annabeth explicou. "Deuses
do sexo masculino na esquerda, do sexo feminino  direita. Ento ano passado,
acrescentamos um novo grupo de chals para os outros deuses que no tinham tronos no
Olimpo -- Hcate, Hades, ris --"

       "Quais so os dois maiores, afinal?" Piper perguntou.

       Annabeth franziu a testa. "Zeus e Hera. Rei e rainha dos deuses."

       Piper olhou para aquela direo, e Annabeth seguiu, embora ela no parecesse
muito animada. O chal de Zeus fazia Piper se lembrar de um banco. Mrmore branco
com grandes colunas na frente e portas de bronze polido brasonado com raios.

       O chal de Hera era menor, mas feito no mesmo estilo, exceto que as portas
eram esculpidas com desenhos de penas de pavo, brilhando em diferentes cores.

       Diferente dos outros chals, que eram todos barulhentos, abertos e cheios de
atividade, os chals de Zeus e Hera pareciam fechados e em silncio.

       "Esto vazios?" Piper perguntou.
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       Annabeth assentiu. "Zeus ficou um bom tempo sem ter filhos. Bem, na maioria.
Zeus, Poseidon e Hades, os irmos mais velhos entre os deuses -- eles so chamados de
Os Trs Grandes. Seus filhos so realmente poderosos, realmente perigosos. Pelos
ltimos setenta anos aproximadamente, eles tentaram evitar filhos semideuses."

       "Tentaram evitar?"

        "Algumas vezes eles... h, trapacearam. Eu tenho uma amiga, Thalia Grace, que
 filha de Zeus. Mas ela desistiu da vida de acampamento e se tornou uma Caadora de
rtemis. Meu namorado, Percy, ele  um filho de Poseidon. E h um garoto que aparece
s vezes, Nico -- filho de Hades. Exceto por eles, no h outros semideuses filhos dos
Trs Grandes deuses. Pelo menos, no que saibamos."

      "E Hera?" Piper olhou para as portas decoradas de pavo. O chal a
incomodava, embora ela no tivesse a certeza do porque.

       "Deusa do casamento." O tom de Annabeth estava cuidadosamente controlado,
como se ela estivesse tentando evitar xingar. "Ela no tem filhos com ningum a no ser
Zeus. Assim,  sem semideuses. O chal  s honorrio."

       "Voc no gosta dela," Piper notou.

      "Temos uma longa histria," Annabeth admitiu. "Eu achei que teramos paz,
mas quando Percy desapareceu... eu tive essa viso misteriosa no sonho por ela."

        "Dizendo para voc ir nos buscar," Piper disse. "Mas voc pensou que Percy
estaria ali."

       "Provavelmente  melhor que eu no fale sobre isso," Annabeth disse. "Eu no
tenho nada de bom para falar sobre Hera agora."

       Piper olhou a base das portas. "Ento quem entra aqui?"

       "Ningum. O chal  s honorrio, como eu disse. Ningum entra."

        "Algum entra." Piper apontou para uma pegada na soleira empoeirada da porta.
Por instinto, ela empurrou as portas e elas abriram facilmente.

       Annabeth recuou. "H, Piper, no acho que deveramos --"

       "Devamos fazer coisas perigosas, certo?" E Piper entrou.



O chal de Hera no era um lugar onde Piper iria querer morar. Era to frio quanto um
freezer, com um crculo de colunas brancas ao redor de uma esttua central da deusa,
trs metros de altura, sentada num trono em um fluido manto dourado. Piper sempre

                                          50
pensou em esttuas gregas como brancas com olhos vazios, mas essa estava
lustrosamente pintada de forma que parecia quase humana -- exceto por ser imensa. Os
olhos penetrantes de Hera pareciam seguir Piper.

        Nos ps da deusa, uma chama queimava em um braseiro de bronze. Piper queria
saber quem cuidava dali se o chal estava sempre vazio. Havia um falco de pedra no
ombro de Hera, e na sua mo tinha um cajado com uma flor de ltus no topo. O cabelo
da deusa estava preso em tranas negras. Seu rosto sorria, mas os olhos eram frios e
sagazes, como se dissessem: Sua me conhece melhor. Agora no passe por mim ou
terei que pisar em voc.

        No havia mais nada no chal -- sem camas, sem mveis, sem banheiros, sem
janelas, nada que realmente algum pudesse usar para viver. Para uma deusa da casa e
do casamento, o lugar de Hera fazia Piper se lembrar de uma tumba.

        No, essa no era sua me. Pelo menos Piper tinha certeza daquilo. Ela no
entrara aqui por que sentira uma boa conexo, mas porque seu sentido de medo era mais
forte aqui. Seu sonho -- aquele horrvel ultimato que ela passou -- tinha alguma
relao com esse chal.

        Ela congelou. Eles no estavam sozinhos. Atrs da esttua, num pequeno altar
atrs estava uma figura coberta num xale escuro. Somente suas mos eram visveis, as
palmas para cima. Ela parecia estar cantando algo como um feitio ou rezando.

       Annabeth ofegou. "Rachel?"

         A outra garota virou. Ela baixou o xale, revelando um cabelo ondulado e ruivo e
um rosto sardento que no combinava com a seriedade do chal ou do xale preto
tambm. Ela parecia ter uns dezessete anos, uma adolescente totalmente normal numa
blusa verde e jeans esfarrapados cobertos com marcadores sem sentido. Apesar do cho
frio, ela estava descala.

       "Ei!" Ela correu para dar um abrao em Annabeth. "Mil desculpas! Eu vim o
mais rpido que pude."

        Elas conversaram por alguns minutos sobre o namorado de Annabeth e como
no havia notcias, etc., at finalmente Annabeth lembrar-se de Piper, que estava parada
ali sentindo-se desconfortvel.

       "Estou sendo rude," Annabeth desculpou-se. "Rachel, essa  Piper, uma dos
meio-sangues que resgatamos hoje. Piper, essa  Rachel Elizabeth Dare, nosso orculo."

       "A amiga que mora na caverna," Piper sups.

       Rachel sorriu. "Sou eu."


                                          51
       "Ento voc  um orculo?" Piper perguntou. "Voc pode prever o futuro?"

        " mais como se o futuro me assaltasse de tempos em tempos," Rachel disse.
"Eu falo profecias. O esprito do orculo tipo que me sequestra todas s vezes e fala
coisas importas que no fazem sentido para ningum. Mas sim, as profecias contam o
futuro."

       "Ah." Piper mudou o apoio de um p ao outro. " legal."

      Rachel riu. "No se preocupe. Todos acham isso um pouco arrepiador. At eu.
Mas geralmente eu sou inofensiva."

       "Voc  uma semideusa?"

       "No," Rachel disse. "S mortal."

       "Ento o que voc..." Piper indicou com a mo ao redor da sala.

       O sorriso de Rachel esvaiu. Ela olhou para Annabeth, ento voltou para Piper.
"S uma intuio. Algo sobre esse chal e o desaparecimento de Percy. Eles esto
conectados de algum jeito. Eu aprendi a seguir minhas intuies, especialmente no ms
passado, desde que os deuses se silenciaram."

       "Silenciaram?" Piper perguntou.

       Rachel franziu a testa para Annabeth. "Voc ainda no contou para ela?"

       "Eu estava chegando l," Annabeth disse. "Piper, no ltimo ms... Bem, 
normal para os deuses no conversarem muito com os filhos, mas geralmente podemos
contar com algumas mensagens uma hora ou outra. Alguns de ns podem at visitar o
Olimpo. Eu gastei praticamente todo o semestre no Edifcio Empire State."

       "Desculpe?"

       "A entrada para o Monte Olimpo esses dias."

       "Ah," Piper disse. "Certo, por que no?"

       "Annabeth estava redesenhando o Olimpo depois que foi destrudo na Guerra
dos Tits," Rachel explicou. "Ela  uma arquiteta incrvel. Voc devia ver o balco de
salada --"

        "Resumindo," Annabeth disse, "comeando h um ms, o Olimpo caiu em
silncio. A entrada foi fechada, e ningum pde entrar. Ningum sabe o porqu.  como
se os deuses se prendessem. At minha me no respondeu minhas preces, e nosso
diretor do acampamento, Dioniso, foi chamado de volta."

       "O diretor do acampamento de vocs era o deus do... vinho?"
                                           52
       "Sim,  uma --"

       "Longa histria," Piper sups. "Certo. Continue."

       " isso, realmente," Annabeth disse. "Semideuses ainda so reclamados, porm
nada mais. Sem mensagens. Sem visitas. Nenhum sinal que os deuses at possam estar
ouvindo.  como se algo tivesse acontecido -- algo realmente ruim. Ento Percy
desapareceu."

     "E Jason apareceu na nossa excurso de campo," Piper completou. "Sem
memria."

       "Meu --" Piper parou antes que pudesse dizer "namorado," mas o efeito fez seu
peito doer. "Meu amigo. Mas Annabeth, voc disse que Hera lhe mandou uma viso de
sonho."

       "Certo," Annabeth disse. "A primeira comunicao de um deus num ms, e 
Hera, a deusa menos til, e ela me contata, sua semideusa menos favorita. Ela me diz
que vou descobrir o que aconteceu com Percy se eu for para o Grand Canyon pelos cus
e procurar um garoto com um sapato. Ao invs disso, eu encontro vocs, e o garoto com
um sapato  Jason. No faz sentido."

        "Algo ruim est acontecendo," Rachel concordou. Ela olhou para Piper, e Piper
sentiu um desejo esmagador de contar a elas sobre seu sonho, confessar que ela sabia o
que estava acontecendo -- pelo menos, parte da histria. E as coisas ruins estavam s
comeando.

       "Gente," ela disse. "Eu -- eu preciso --"

      Antes que ela pudesse continuar, o corpo de Rachel endureceu. Seus olhos
comearam a brilhar com uma luz esverdeada, e ela agarrou Piper pelos ombros.

       Piper tentou recuar, mas as mos eram como fios de ao.

       Me liberte, ela disse. Mas no era a voz de Rachel. Soava como uma mulher
mais velha, falando de algum lugar muito longe, muito abaixo, ecoando num tubo.

       Me liberte, Piper McLean, ou a terra ir nos engolir. Deve ser no solstcio.

        A sala comeou a girar, Annabeth tentou separar Piper de Rachel, mas no
adiantou. Fumaa verde a envolveu, e Piper no estava mais certa se ela estava acordada
ou sonhando. A esttua gigante da deusa parecia levantar do trono. Inclinou-se para
Piper, seus olhos perfurando dentro dela. A boca da esttua abriu, sua respirao com
um perfume horrivelmente denso. Ela falou na mesma voz ecoada: Nossos inimigos se
agitam. O ardente  s o primeiro. Curve-se ao seu desejo, e o rei deles ir se erguer,
condenando todos ns. ME LIBERTE!

                                           53
Os joelhos de Piper dobraram, e tudo ficou escuro.




                                   54
Captulo V
O TOUR DE LEO ESTAVA SENDO TIMO AT ele descobrir sobre o drago.

        O cara arqueiro, Will Solace, parecia bastante legal. Tudo que ele mostrava para
Leo era to incrvel, s podia ser ilegal. Verdadeiros navios de guerra gregos ancorados
na praia que s vezes tinham lutas de prtica com flechas em chamas e explosivos?
timo! Sesses de habilidades & artes onde voc podia fazer esculturas com
motosserras e maaricos? Leo estava, tipo, Me inscreva! A floresta era cheia de
monstros perigosos, e ningum deveria entrar l sozinho? Perfeito! E o acampamento
estava inundado de garotas bonitas. Leo no entendeu muito o negcio todo de
relacionados-com-os-deuses, mas esperou que no significasse que ele era primo de
todas aquelas damas. Isso seria pssimo. No mnimo, ele queria olhar aquelas garotas
submersas no lago novamente. Elas eram definitivamente algo pelo que valia a pena se
afogar.

       Will mostrou os chals, o pavilho de jantar, e a arena de espadas.

       "Eu tenho uma espada?" Leo perguntou.

        Will olhou para ele como se achasse a ideia perturbadora. "Voc provavelmente
far a sua prpria, j que voc est no Chal Nove."

       "Sim, o que tem l? Vulcano?"

      "Geralmente no chamamos os deuses pelos seus nomes romanos," Will disse.
"Os nomes originais so gregos. Seu pai  Hefesto.

       "Festus?" Leo ouvira algum dizer aquilo antes, mas ele ainda estava
desanimado. "Parece o deus dos cowboys."

       "He-festo," Will corrigiu. "Deus dos ferreiros e do fogo."

        Leo tambm ouvira aquilo, mas estava tentando no pensar sobre isso. O deus do
fogo... srio? Considerando o que aconteceu com a sua me, aquilo parecia uma
brincadeira enjoada.

       "Ento o martelo flamejante sobre minha cabea," Leo disse. "Coisa boa, ou
coisa m?"
                                           55
       Will demorou um pouco para responder. "Voc foi reclamado quase
imediatamente. Isso geralmente  bom."

       "Mas aquele cara do arco-ris e dos pneis, Butch -- ele mencionou uma
maldio."

       "Ah... olhe, no  nada. Desde que o ltimo conselheiro do Chal Nove morreu
--"

       "Morreu? Tipo, dolorosamente?"

       "Eu devo deixar seus companheiros de chal lhe falar sobre isso."

       "Sim, onde esto meus companheiros de chal? O conselheiro deles no deveria
estar me dando o tour VIP?"

       "Ele, h, no pode. Voc ver por qu." Will o impeliu para frente antes que Leo
pudesse fazer mais perguntas.

       "Maldies e morte," Leo disse para si. "Isso fica cada vez melhor."



Ele estava na metade do caminho atravs do campo quando ele localizou sua antiga
bab. E ela no era o tipo de pessoa que ele esperava ver num acampamento de
semideuses.

       Leo congelou no caminho.

       "Qual  o problema?" Will perguntou.

        Tia Callida -- Tiazinha Callida.  como ela chamava a si, mas Leo no a via
desde que ele tinha cinco anos de idade. Ela estava simplesmente parada ali, na sombra
de um grande chal branco no fim do campo, observando-o. Ela usava seu vestido de
viva de linho preto, com um xale preto colocado sobre sua cabea. Seu rosto no
mudou -- pele parecendo couro, olhos negros penetrantes. Suas mos secas eram como
garras. Ela parecia velha, mas nenhuma diferena que Leo lembrava.

       "Aquela velhinha..." Leo disse. "O que ela est fazendo aqui?"

       Will tentou seguir seu olhar. "Que velhinha?"

       "Cara, a velhinha. A de preto. Quantas velhinhas voc v por aqui?"

       Will franziu a testa. "Acho que voc teve um longo dia, Leo. A Nvoa ainda
pode estar fazendo truques na sua mente. Que tal se formos direto para seu chal
agora?"


                                          56
       Leo queria protestar, mas quando ele olhou de volta para o grande chal branco,
Tia Callida havia partido. Ele tinha certeza que ela estava ali, quase como se pensar na
sua me havia convocado Callida de volta do passado.

       E aquilo no era bom, pois Tia Callida tentara mat-lo.

       "S brincando com voc, cara." Leo puxou algumas engrenagens e alavancas
dos bolsos e comeou a remex-las para acalmar os nervos. Ele no podia ter todos no
acampamento pensando que ele era louco. Pelo menos, no mais louco do que ele
realmente era.

       "Vamos ver o Chal Nove," ele disse. "Estou com nimo para uma boa
maldio."



Do lado de fora, o chal de Hefesto parecia um RV enorme com lustrosas paredes de
metal e janelas com lminas de metal. A entrada era tipo uma porta de cofre, circular
com alguns metros de espessura. Abriu com vrias engrenagens de metal girando e
mbolos hidrulicos soprando fumaa.

       Leo assobiou. "Eles conseguiram um tema bem legal, hein?"

        Dentro, o chal parecia deserto. Beliches de ao estavam dobrados nas paredes
como camas Murphy high-tech. Cada um tinha um painel de controle digital, piscando
luzes LED, jias brilhantes, e engrenagens interligadas. Leo percebeu que cada campista
tinha sua prpria combinao para liberar sua cama, e provavelmente tinha uma cmara
de armazenamento atrs, talvez algumas armadilhas para afastar visitantes indesejados.
Pelo menos,  o jeito que Leo teria desenhado. Um mastro de incndio desceu do
segundo andar, ainda que o chal no parecesse ter um segundo andar olhando pelo lado
de fora. Uma escadaria circular baixava em algum tipo de poro. As paredes estavam
alinhadas com todo o tipo de instrumento de poder que Leo podia imaginar, mais uma
grande variedade de facas, espadas, e outras ferramentas de destruio. Uma grande
banca transbordava de sobras de metal -- parafusos, pinos, arruelas, pregos, rebites, e
um milho de outros pedaos de mquina. Leo teve um grande impulso para apertar
tudo nos bolsos do seu casaco. Ele amava aquele tipo de coisa. Mas ele precisaria de
mais cem casacos para ajustar tudo.

       Olhando ao redor, ele podia quase imaginar que estava de volta s lojas de
mquina da sua me. No as armas, talvez -- mas as ferramentas, as pilhas de sobras, o
cheiro de graxa e metal e motores quentes. Ela teria amado esse lugar.

      Ele repeliu aquele pensamento. Ele no gostava de memrias dolorosas.
Continue andando -- esse era seu lema. No insista nas coisas. No fique em um lugar
por muito tempo. Era o nico jeito de enfrentar a tristeza.

                                          57
       Ele pegou um instrumento comprido da parede. "Um cortador de ervas
daninhas? O que o deus do fogo quer com um cortador de ervas daninhas?"

        Uma voz nas sombras disse, "Voc se surpreenderia."

        No fundo do quarto, um dos beliches estava ocupado. Uma cortina escura de
material de camuflagem foi recolhida, e Leo pde ver o rapaz que estava invisvel a um
segundo atrs. Era difcil contar muito sobre ele porque estava coberto de gesso no
corpo. Sua cabea estava enrolada numa gaze exceto pela face, que estava inchada e
ferida. Ele parecia um boneco de gesso depois de uma luta.

        "Eu sou Jake Mason," o rapaz disse. "Eu apertaria sua mo, mas..."

        "Sim," Leo disse. "No levante."

        O garoto abriu um sorriso, ento estremeceu, como se mexer o rosto doesse. Leo
queria saber o que aconteceu com ele, mas teve medo de perguntar.

       "Bem-vindo ao Chal Nove," Jake disse. "Faz muito tempo desde que tivemos
novas pessoas. Eu sou o conselheiro por enquanto."

        "Por enquanto?" Leo perguntou.

        Will Solace limpou a garganta. "Ento onde est todo o mundo, Jake?"

       "Embaixo, nas forjas," Jake disse saudosamente. "Eles esto trabalhando no...
voc sabe, aquele problema."

        "Ah." Will mudou o assunto. "Ento, voc conseguiu uma cama extra para
Leo?"

       Jake estudou Leo, calculando sua altura. "Voc acredita em maldies, Leo? Ou
fantasmas?"

       Eu acabei de ver minha bab do mal, Tia Callida, Leo pensou. Ela tinha que
estar morta depois de todos esses anos. E eu no posso ficar um dia sem lembrar minha
me no incndio naquela loja de mquinas. No fale para mim sobre fantasmas,
soldado.

        Mas em voz alta, ele disse, "Fantasmas? Aha. No. Eu sou tranquilo. Um
esprito de tempestade me atirou no Grand Canyon essa manh, mas voc sabe, tudo
num dia de trabalho, certo?"

      Jake assentiu. " bom. Porque eu vou lhe dar a melhor cama no chal -- a de
Beckendorf."

        "Uau, Jake," Will disse. "Tem certeza?"

                                           58
          Jake gritou: "Beliche 1-A, por favor."

        Todo o chal tremeu. Uma sesso circular do cho espiralou-se e abriu como a
lente de uma cmera, e uma cama enorme apareceu repentinamente. A armao de
bronze tinha uma estao de jogo embutido no p, um sistema estreo na cabeceira, um
refrigerador com porta de vidro montado na base, e um grupo inteiro de painis de
controle funcionado no lado.

          Leo foi para a direita e descansou os braos atrs da cabea. "Eu posso cuidar
disso."

          "Ela recolhe para um quarto privado abaixo," Jake disse.

       "Ah, hum, ok," Leo disse. "At mais tarde. Vou estar l na Caverna do Leo. Que
boto eu aperto?"

          "Pera a," Will Solace protestou. "Vocs tm quartos privados subterrneos?"

        Jake provavelmente teria sorrido se no doesse tanto. "Ns temos vrios
segredos, Will. Vocs do Apolo no podem ter toda a diverso. Nossos campistas
estiveram escavando o sistema de tneis sob o Chal Nove por quase um sculo. Ainda
nem encontramos o fim. Alis, Leo, se voc no se importa em dormir na cama de um
homem morto, ela  sua."

       Subitamente, Leo no se sentiu como se recuasse. Ele sentou-se, tomando
cuidado para no tocar em nenhum dos botes "O conselheiro que morreu -- essa era
sua cama?"

          "Sim," Jake disse. "Charles Beckendorf."

       Leo imaginou serrotes vindo pelo colcho, ou talvez uma granada costurada
dentro dos travesseiros. "Ele no, tipo, morreu na cama, morreu?"

          "No," Jake disse. "Na Guerra dos Tits, ltimo vero."

       "A Guerra dos Tits," Leo repetiu, "que no tem nada a ver com essa cama
superlegal?"

       "Os Tits," Will disse, como se Leo fosse um idiota. "Os caras mais poderosos
que governavam o mundo antes dos deuses. Eles tentaram fazer um retorno no ltimo
vero. O lder deles, Cronos, construiu um novo palcio no topo do Monte Tam na
Califrnia. Seus exrcitos vieram para Nova York e quase destruram o Monte Olimpo.
Vrios semideuses morreram tentando par-los."

          "E estou supondo que isso no estava nos noticirios?" Leo disse.



                                             59
       Parecia como uma pergunta limpa, mas Will sacudiu a cabea em descrena.
"Voc no ouviu sobre o Monte Santa Helena em erupo, ou as esquisitas tempestades
atravessando o pas, ou aquele colapso da construo em St. Louis?"

        Leo deu de ombros. No ltimo vero, ele estivera correndo para uma outra casa
adotiva. Ento um oficial ocioso o pegou no Novo Mxico, e a corte sentenciou-o 
facilidade correcional mais prxima -- a Wilderness School. "Acho que estava
ocupado."

      "No importa," Jake disse. "Voc teve sorte de perder isso. A coisa ,
Beckendorf foi uma das primeiras baixas, e desde ento --"

       "Seu chal foi amaldioado," Leo sups.

       Jake no respondeu. Mais uma vez, o rapaz estava num gesso. Aquela era uma
resposta. Leo comeou a notar pequenas coisas que ele no vira antes -- uma marca de
exploso na parede, uma mancha no cho que podia ser leo... ou sangue. Espadas
quebradas e mquinas esmagadas jaziam nos cantos do quarto, talvez fora de
funcionamento. O lugar se sentia infeliz.

       Jake suspirou demoradamente. "Bem, eu devia descansar um pouco. Espero que
voc goste daqui, Leo. Costuma ser... realmente legal."

       Ele fechou os olhos, e a cortina de camuflagem caiu sobre a cama.

       "Vamos l, Leo," Will disse. "Vou te levar nas forjas."

       Enquanto eles iam, Leo olhou de volta para sua nova cama, e ele quase podia
imaginar um conselheiro morto sentando ali -- outro fantasma que no deixaria Leo
sozinho.




                                          60
Captulo VI
"COMO ELE MORREU?" LEO PERGUNTOU. "Digo, Beckendorf."

       Will Solace marchou em frente. "Exploso. Beckendorf e Percy Jackson
explodiram um cruzeiro cheio de monstros. Beckendorf no teve sucesso."

      L estava aquele nome novamente -- Percy Jackson, o namorado desaparecido
de Annabeth. O cara deve estar em todas por aqui, Leo pensou.

       "Ento Beckendorf era muito popular?" Leo perguntou. "Digo -- antes de
explodir?"

        "Ele era impressionante," Will concordou. "Foi difcil para todo o acampamento
quando ele morreu. Jake -- ele se tornou conselheiro no meio da guerra. Do mesmo
jeito que eu, na verdade. Jake deu seu melhor, mas ele nunca quis ser lder. Ele s vive
construindo coisas. Ento depois da guerra, as coisas comearam a dar errado. As bigas
do Chal Nove explodiram. Seus autmatos ficaram loucos. Suas invenes comearam
a dar problemas. Era como uma maldio, e no fim as pessoas comearam a chamar isso
assim -- a Maldio do Chal Nove. Ento Jake teve seu acidente --"

        "Que tinha algo a ver com o problema que ele mencionou," Leo sups.

        "Eles esto trabalhando nisso," Will disse sem entusiasmo. "E aqui estamos
ns."

       A forja parecia uma locomotiva movida a vapor que batera no Partenon grego e
se fundiram. Colunas brancas de mrmore alinhavam as paredes manchadas de fuligem.
Chamins lanavam fumaa sobre uma falsificao elaborada com um grupo de deuses
e monstros. A estrutura estava no canto de um canal, com vrias turbinas girando uma
srie de engrenagens de bronze. Leo ouviu maquinaria opressiva dentro, chamas
crepitando e martelos batendo em bigornas.

        Eles passaram pela entrada, e uma dzia de garotos e garotas que estavam
trabalhando em vrios projetos congelaram. O barulho morreu sob o rudo da forja e do
click-click-click de engrenagens e alavancas.

       "E a, galera," Will disse. "Esse  o novo irmo de vocs, Leo -- h, qual  o seu
sobrenome?"
                                           61
       "Valdez." Leo percorreu os olhos pelos outros campistas. Ele realmente era
relacionado com todos eles? Seus primos vieram de algumas grandes famlias, mas ele
sempre teve apenas sua me -- at ela morrer.

       Crianas subiram e comearam a apertar mos e apresentarem-se. Seus nomes se
misturaram juntos: Shane, Christopher, Nyssa, Harley (, como a moto). Leo sabia que
no podia decorar todos eles. Eram muitos. Muita presso.

        Nenhum deles se parecia um com os outros -- rostos de todos os diferentes
tipos, tons de pele, cor do cabelo, altura. Voc nunca pensaria, Ei, olha,  a turma de
Hefesto!

       Mas todos eles tinham mos poderosas, tomadas com calos e manchadas com
graxa de motor. At o pequeno Harley, que no devia ter mais que oito anos, parecia
que podia ir a seis rounds contra Chuck Norris sem suar.

       E todas as crianas compartilhavam um triste tipo de seriedade. Seus ombros
estavam cados como se a vida os tivesse abatido duramente. Vrios pareciam ter sido
fisicamente perturbados, tambm. Leo contou dois braos com gesso, um par de
muletas, um tapa-olho, seis bandagens, e aproximadamente sete mil Band-Aids.

       "Ok, muito bem!" Leo disse. "Eu ouvi que esse  o chal da festa!"

       Ningum riu. Todos s olharam para ele.

       Will Solace bateu de leve no ombro de Leo. "Eu vou deixar vocs se
entenderem. Algum mostra o jantar para Leo quando for  hora?"

       "Eu posso," uma das garotas disse. Nyssa, Leo lembrou. Ela usava calas de
camuflagem, um top que exibia seus braos amarelos, e uma bandana vermelha sobre
um punhado de cabelos negros. Exceto pelo seu Band-Aid sorridente no queixo, ela
parecia uma daquelas heronas de ao, como se a qualquer segundo ela fosse pegar
uma metralhadora e comear a matar aliens do mal.

       "Legal," Leo disse. "Eu sempre quis uma irm que pudesse me atacar."

       Nyssa no sorriu. "Vamos l, brincalho. Eu vou te mostrar os arredores."



       Leo no era nenhum desconhecido das oficinas. Ele crescera ao redor de
macacos de graxa e instrumentos de fora. Sua me costumava brincar que sua primeira
chupeta foi um trocador de pneu. Mas ele nunca viu um lugar como a forja do
acampamento.




                                          62
       Um rapaz estava trabalhando num machado de batalha. Ele ficava testando a
lmina numa placa de concreto. Cada vez que ele batia, o machado cortava a placa
como se fosse de queijo quente, mas ele parecia insatisfeito e voltava para afiar a ponta.

       "O que ele est planejando matar com aquilo?" Leo perguntou para Nyssa. "Um
couraado de batalha?"

       "Voc nunca sabe. At com bronze Celestial --"

       " o metal?"

       Ela assentiu. "Extrado do prprio Monte Olimpo. Extremamente raro. Afinal,
geralmente desintegra monstros em contato, mas grandes monstros poderosos tm peles
notoriamente flexveis. Drakons, por exemplo --"

       "Voc quer dizer drages?"

       "Espcies similares. Voc aprender a diferena na aula de luta com monstros."

       "Aula de luta com ombros. , j consegui minha faixa preta l."

       Ela no abriu um sorriso. Leo esperou que ela no fosse to sria em todo o
tempo. O lado da famlia do seu pai tinha que ter algum senso de humor, certo?

       Eles passaram por alguns rapazes fazendo um brinquedo de corda. Pelo menos
era o que parecia. Era um centauro de quinze centmetros -- meio homem, meio cavalo
-- armado com um arco em miniatura. Um dos campistas acionou a manivela no rabo
do centauro, e ele zumbiu em vida. Ele galopou pela mesa, gritando, "Morra, mosquito!
Morra, mosquito!" e atirando em tudo no caminho.

      Aparentemente isso aconteceu antes, pois todos souberam descer no cho exceto
Leo. Seis flechas do tamanho de agulhas enterraram-se na sua camisa antes de um
campista pegar um martelo e esmagar o centauro em pedaos.

      "Maldio estpida!" O campista agitou o martelo no cu. "Eu s quero um
matador mgico de insetos!  muito para pedir?"

       "Ai," Leo disse.

       Nyssa tirou as agulhas da sua camisa. "Ah, voc est bem. Vamos continuar
antes que eles o reconstruam."

       Leo esfregou o peito enquanto andavam. "Esse tipo de coisa acontece muito?"

       "Nos ltimos tempos," Nyssa disse, "tudo que construmos vira sucata."

       "A maldio?"


                                           63
        Nyssa franziu a testa. "Eu no acredito em maldies. Mas alguma coisa est
errada. E se no descobrirmos o problema do drago, isso vai ficar cada vez pior."

        "O problema do drago?" Leo esperou que ela estivesse falando sobre um
drago em miniatura, talvez um que matasse baratas, mas ele teve a sensao que no
teria tanta sorte.

        Nyssa o levou para um grande mapa de parede que um par de meninas estava
estudando. O mapa mostrava o acampamento -- um semi-crculo de terra com o
Estreito de Long Island na costa do norte, a floresta ao oeste, os chals ao leste, e um
anel de colinas no sul.

       "Tem que ser nas colinas," a primeira garota disse.

      "Ns olhamos nas colinas," a segunda argumentou. "A floresta  um lugar
melhor para se esconder."

       "Mas j colocamos armadilhas --"

      "Espere," Leo disse. "Vocs perderam um drago? Um drago de tamanho real,
verdadeiro?"

       " um drago de bronze," Nyssa disse. "Mas sim, um autmato de tamanho real.
O chal de Hefesto o construiu anos atrs. Ento se perdeu na floresta at alguns veres
passados, quando Beckendorf o encontrou em pedaos e o reconstruiu. Tem estado
ajudando a proteger o acampamento, mas, h,  um pouco imprevisvel."

       "Imprevisvel," Leo disse.

       "Fica louco e derruba chals, incendeia as pessoas, tenta comer os stiros."

       " bastante imprevisvel."

       Nyssa assentiu. "Beckendorf era o nico que podia control-lo. Ento ele
morreu, e o drago s foi ficando cada vez pior. No fim, ele ficou furioso e fugiu.
Ocasionalmente ele aparece, destri alguma coisa, e parte novamente. Todos ns
esperamos encontr-lo e destru-lo --"

         "Destru-lo?" Leo estava plido. "Vocs tm um drago de bronze em tamanho
real, e querem destru-lo?"

       "Ele respira fogo," Nyssa explicou. " mortal e fora de controle."

        "Mas  um drago! Cara,  impressionante. Voc no pode tentar conversar com
ele, control-lo?"

       "Tentamos. Jake Mason tentou. Voc viu como isso acabou bem."

                                           64
       Leo pensou em Jake, enrolado num gesso, dormindo sozinho no seu beliche.
"Mas --"

       "No temos opo." Nyssa virou para as outras garotas. "Vamos tentar mais
armadilhas na floresta -- aqui, aqui, e aqui. Encha-as com trinta litros de leo de
motor."

          "O drago bebe isso?" perguntou Leo.

       "." Nyssa suspirou pesarosamente. "Ele costumava gostar disso com um pouco
de molho de pimenta, antes de dormir. Se ele pular numa armadilha, podemos entrar
com pulverizadores cidos -- deve dissolver na sua pele. Ento conseguimos cortadores
de metal e... e acaba o trabalho."

       Todas pareciam tristes. Leo percebeu que elas no queriam matar o drago tanto
quanto ele queria.

          "Gente," ele disse. "Tem que haver outro jeito."

       Nyssa pareceu incerta, mas alguns outros campistas pararam com o que estavam
trabalhando e amontoaram-se para ouvir a conversa.

          "Como o qu?" um perguntou. "A coisa respira fogo. No podemos nem chegar
perto."

       Fogo, Leo pensou. Ah, cara, as coisas que ele podia dizer para eles sobre fogo...
Mas ele tinha que ser cuidadoso, mesmo se esses fossem seus irmos e irms.
Especialmente se ele tivesse que viver com eles.

        "Bem..." Ele hesitou. "Hefesto  o deus do fogo, certo? Ento ningum de vocs
tem, tipo, resistncia ao fogo ou algo parecido?"

       Ningum agiu como se fosse uma pergunta louca, o que era um alvio, mas
Nyssa balanou a cabea gravemente.

        " uma habilidade dos ciclopes, Leo. Semideuses filhos de Hefesto... somos
apenas bons com nossas mos. Somos construtores, artesos, fabricantes de armas --
coisas assim."

          Os ombros de Leo caram. "Ah."

          Um garoto no fundo disse, "Bem, um longo tempo atrs --"

       "Sim, ok," Nyssa reconheceu. "Um longo tempo atrs algum filho de Hefesto
nasceu com poder sobre o fogo. Mas aquela habilidade era muito, muito rara. E sempre
perigosa. Nenhum semideus assim nasceu em sculos. O ltimo..." Ela olhou para um
dos garotos por ajuda.

                                             65
       "Mil, seiscentos e sessenta e seis," a garota ofereceu. "Cara chamado Thomas
Faynor. Ele comeou o Grande Incndio de Londres, destruu quase toda a cidade."

       "Certo," Nyssa disse. "Quando uma criana de Hefesto assim aparece,
normalmente significa que algo catastrfico est prestes a acontecer. E no precisamos
de mais nenhuma catstrofe."

       Leo tentou manter seu rosto limpo de emoo, o que no era seu ponto forte.
"Acho que estou entendendo. Muito mau, porm. Se voc pudesse resistir s chamas,
voc poderia chegar perto do drago."

        "Ento ele te mataria com suas garras e dentes," Nyssa disse. "Ou simplesmente
pisaria em voc. No, temos que destru-lo. Confie em mim, se algum pudesse
descobrir outra resposta..."

       Ela no acabou, mas Leo captou a mensagem. Esse era o grande teste do chal.
Se eles pudessem fazer algo que s Beckendorf podia fazer, se eles pudessem subjugar
o drago sem mat-lo, ento talvez a sua maldio seria retirada. Mas eles estavam
vazios de ideias. Qualquer campista que descobrisse como, seria um heri.

        Uma buzina de concha soprou na distncia. Campistas comearam a levantar
suas ferramentas e projetos. Leo no havia percebido que estava ficando to tarde, mas
ele olhou pela janela e viu o sol baixando. Seu SDAH fazia isso com ele s vezes. Se ele
estava aborrecido, uma aula de cinquenta minutos parecia ter seis horas. Se ele estava
interessado em alguma coisa, como dar um tour no acampamento semideus, as horas
passavam despercebidas e bam -- o dia havia acabado.

       "Jantar," Nyssa disse. "Vamos, Leo."

       "L no pavilho, certo?" ele perguntou.

       Ela assentiu.

       "Vocs vo na frente," Leo disse. "Voc pode... me dar um segundo?"

       Nyssa hesitou. Depois sua expresso derreteu. "Certo.  muito para processar.
Lembro do meu primeiro dia. Suba quando estiver pronto. S no toque em nada. Quase
todos os projetos aqui podem matar voc se no for cuidadoso."

       "Sem tocar," Leo prometeu.

        Seus companheiros saram da forja. Logo, Leo estava sozinho com os sons dos
foles, turbinas, e pequenas mquinas clicando e zunindo.




                                          66
        Ele olhou para o mapa do acampamento -- os locais onde seus irmos recm-
encontrados iriam colocar armadilhas para pegar um drago. Isso estava errado. Plano
errado.

       Muito raro, ele pensou. E sempre perigoso.

       Ele estendeu sua mo e estudou seus dedos. Eles eram longos e finos, e no
cheio de calos como os dos outros campistas de Hefesto. Leo nunca fora o garoto maior
ou mais forte. Ele sobreviveu em duros bairros, duras escolas, duras casas de adoo
usando sua sabedoria. Ele era o palhao da sala, o bobo da corte, porque ele aprendeu
cedo que se voc fizesse piadas e fingisse que voc no estava assustado, voc
geralmente no seria batido. At os piores gangsters iriam lhe tolerar, manter voc por
perto para risadas. E mais, humor era um bom jeito de esconder a dor. E se isso no
funcionasse, sempre haveria o Plano B. Fugir. Mais e mais.

       Havia um Plano C, mas ele prometeu para si prprio nunca us-lo de novo.

       Ele sentiu um impulso de tentar isso agora -- algo que ele no fizera desde o
acidente, desde a morte de sua me.

        Ele estendeu seus dedos e os sentiu formigando, como se estivessem acordando
-- alfinetes e agulhas.

       Ento chamas tremularam  vida, ondulaes de fogo vermelho danando pela
sua palma.




                                          67
Captulo VII
ASSIM QUE JASON VIU A CASA, ele soube que era um homem morto.

      "Aqui estamos ns!" Drew disse alegremente. "A Casa Grande, quartel-general
do acampamento."

        Ela no parecia ameaadora, s uma manso de quatro andares pintada de azul
beb com acabamento branco. A varanda tinha cadeiras de descanso, uma mesa de
cartas, e uma cadeira de rodas vazia. Sinos de vento formavam ninfas se transformando
em rvores quando batiam. Jason podia imaginar velhinhos vindo aqui para frias de
vero, sentados na varanda e bebendo suco de ameixa enquanto assistiam o pr-do-sol.
Entretanto, as janelas pareciam olhar para ele como olhos irritados. A grande entrada
parecia pronta para engoli-lo. Na aresta mais alta, um cata-vento de uma guia de
bronze girava no ar e apontava direto na sua direo, como se dissesse para ele dar
meia-volta.

       Cada molcula no corpo de Jason lhe disse que ele estava em territrio inimigo.

       "Eu no devia estar aqui," ele disse.

       Drew enroscou seu brao no dele. "Ah, por favor. Voc  perfeito aqui, querido.
Acredite em mim, eu j vi vrios heris."

       Drew cheirava como o Natal -- uma estranha combinao de pinheiro e noz-
moscada. Jason queria saber se ela sempre cheirava assim, ou se era algum tipo de
perfume especial para os feriados. Seu delineador rosa era realmente distrativo. Toda
hora que ela piscava, ele se sentia obrigado a olhar para ela. Talvez aquele fosse seu
objetivo, exibir seus belos olhos castanhos. Ela era linda. Sem nenhuma dvida disso.
Mas ela fez Jason se sentir desconfortvel.

       Ele puxou seu brao do modo mais gentil que pde. "Olhe, eu prezo --"

      " aquela garota?" Drew fez beio. "Ah, por favor, me diga que voc no est
namorando a Rainha do Lixo."

       "Voc quer dizer Piper? H..."

                                           68
       Jason no sabia como responder. Ele nem pensava se vira Piper mais cedo, mas
ele se sentia estranhamente culpado por isso. Ele sabia que no deveria estar nesse
lugar. Ele no devia fazer amizade com essas pessoas, e certamente ele no deveria
namorar nenhuma delas. Entretanto... Piper estivera segurando sua mo quando ele
acordou naquele nibus. Ela acreditava que era sua namorada. Ela estivera brava no cu,
lutando com aqueles ventus, e quando Jason a pegara no meio do ar e eles se seguraram
cara-a-cara, ele no podia fingir que ele no estava um pouco tentado a beij-la. Mas
aquilo no estava certo. Ele nem sabia sua prpria histria. Ele no podia trocar
emoes com ela assim.

       Drew rolou os olhos. "Deixe-me te ajudar a decidir, querido. Voc merece coisa
melhor. Um garoto com o seu rosto e talento bvio?"

       Ela no estava olhando para ele, porm. Ela estava olhando para um local bem
acima da sua cabea.

        "Voc est esperando um sinal," ele sups. "Como aquele sobre a cabea do
Leo."

        "O qu? No! Bem... sim. Digo, do que ouvi voc  bastante poderoso, certo?
Voc vai ser importante no acampamento, ento calculo que seu pai ir lhe reclamar a
qualquer momento. E eu amaria ver isso. Eu quero estar com voc a cada passo do
caminho! Ento  seu pai ou sua me o deus? Por favor, me diga que no  sua me. Eu
odiaria se voc fosse um filho de Afrodite."

        "Por qu?"

       "Porque voc seria meu meio-irmo, bobo. Voc no pode ficar com algum do
seu prprio chal. Eca!"

       "Mas todos os deuses no so relacionados?" Jason perguntou. "Ento todos
aqui no so seus primos ou alguma coisa?"

       "Como voc  fofo! Querido, o lado divino da sua famlia no conta, exceto pelo
seu pai. Ento qualquer um de outro chal -- eles so jogo limpo. Ento quem  seu
parente olimpiano -- me ou pai?"

        Como sempre, Jason no tinha uma resposta. Ele ergueu os olhos, mas nenhum
sinal brilhante apareceu sobre sua cabea. No topo da Casa Grande, o cata-vento ainda
estava apontando na sua direo, aquela guia de bronze olhando como se falasse, D
meia-volta, criana, enquanto ainda pode.

        Ento ele ouviu passos na varanda da frente. No -- no passos -- cascos.

        "Quron!" Drew chamou. "Esse  Jason. Ele  totalmente incrvel!"


                                          69
        Jason recuou to rpido que ele quase caiu. Contornando o canto da varanda
estava um homem nas costas de um cavalo. Exceto que ele no estava nas costas do
cavalo -- ele era parte de um. Da cintura para cima ele era humano, com cacheados
cabelos castanho e uma barba bem-cortada. Ele vestia uma camiseta que dizia Melhor
Centauro do Mundo, e tinha um arco e uma aljava amarrados nas costas. Sua cabea era
to alta que ele precisava se abaixar para no bater nas luzes da varanda, porque da
cintura para baixo, ele era um garanho branco.

       Quron comeou a sorrir para Jason. Ento a cor drenou do seu rosto.

       "Voc..." Os olhos do centauro arregalaram-se como os de um animal sendo
apertado. "Voc devia estar morto."

                                               ***

       Quron ordenou Jason -- bem, convidou, mas soou como uma ordem -- a entrar
na casa. Ele falou para Drew voltar ao seu chal, o que fez Drew no parecer feliz.

       O centauro trotou para a cadeira de rodas vazia na varanda. Ele se desfez da sua
aljava e arco e recuou-se na cadeira, que abriu como uma caixa de mgica. Quron
cuidadosamente abaixou-se nela com suas pernas traseiras e comeou a se apertar num
espao que devia ser muito pequeno. Jason imaginou barulhos inversos de um caminho
-- bip, bip, bip -- enquanto a metade de baixo do centauro desaparecia e a cadeira
ajustou-se, fazendo aparecer um conjunto de pernas humanas falsas cobertas por um
cobertor, de forma que Quron parecia ser um mortal normal numa cadeira de rodas.

       "Siga-me," ele ordenou. "Temos limonada."

        A sala de estar parecia que fora reprimida por uma floresta tropical. Videiras
curvavam-se pelas paredes e pelo teto, o que Jason achou um pouco estranho. Ele no
achava que plantas crescessem assim, do lado de dentro, especialmente no inverno, mas
essas eram frondosas e verdes e cheias de cachos de uvas vermelhas.

       Sofs de couro encaravam uma lareira de pedra com o fogo estalando. Apertado
num canto, um fliperama de Pacman antigo fazia bip e piscava. Montada nas paredes
havia uma coleo de mscaras -- como de teatro grego, sorridentes/tristes, mscaras
Mardi Gras emplumadas, mscaras de carnevale venezianas com grandes narizes
parecidos com bicos, e mscaras esculpidas em madeira da frica. Videiras cresciam
entre suas bocas parecendo que elas tinham lnguas frondosas. Algumas tinham uvas
vermelhas inchando pelo buraco dos olhos.

        Mas a coisa mais esquisita era a cabea do leopardo estofado sobre a lareira.
Parecia to real, seus olhos pareciam seguir Jason. Ento ele rosnou, e Jason quase
saltou de sua pele.


                                          70
       "Ora, Seymour," Quron repreendeu. "Jason  um amigo. Comporte-se."

       "Essa coisa est viva!" Jason disse.

        Quron remexeu no bolso lateral da sua cadeira de rodas e tirou um pacote de
biscoitos. Ele jogou um para o leopardo, que o abocanhou e lambeu os lbios.

        "Voc precisa desculpar a decorao," Quron disse. "Tudo isso era um presente
de despedida do nosso antigo diretor antes de ser chamado ao Monte Olimpo. Ele achou
que iria nos ajudar a lembr-lo. O Sr. D tem um senso de humor estranho."

       "Sr. D," Jason disse. "Dioniso?"

       "Uhhumm." Quron derramou limonada, embora suas mos estivessem
tremendo um pouco. "Como por Seymour, bem, o Sr. D o liberou de uma venda de
garagem em Long Island. O leopardo  o animal sagrado de Dioniso, entende, e o Sr. D
ficou aterrorizado que algum empalhasse tal nobre criatura. Ele decidiu conced-lo a
vida, numa hiptese que a vida como uma cabea pendurada era melhor do que
nenhuma vida, afinal. Devo dizer que  um destino mais bondoso do que o antigo dono
de Seymour teve."

       Seymour exibiu suas presas e cheirou o ar, como se procurasse mais biscoitos.

      "Se ele  s uma cabea," Jason disse, "para onde vai  comida quando ele
come?"

       "Melhor no perguntar," Quron disse. "Por favor, sente."

       Jason pegou um pouco de limonada, apesar de o seu estmago estar agitado.
Quron reclinou-se na sua cadeira de rodas e tentou um sorriso, mas Jason podia dizer
que era forado. Os olhos do velho homem eram to profundos e escuros quanto poos.

       "Ento, Jason," ele disse, "voc se importaria caso me dissesse -- er -- de onde
voc ?"

      "Queria eu saber." Jason lhe contou toda a histria, de acordar no nibus at cair
no Acampamento Meio-Sangue. Ele no escondeu nenhum detalhe, e Quron era um
bom ouvinte. Ele no reagiu  histria, nada a no ser assentir animadoramente por
mais.

       Quando Jason acabou, o velho homem deu um gole na limonada.

       "Entendo," Quron disse. "E voc deve ter perguntas para mim."

       "S uma," Jason admitiu. "O que voc quis dizer quando falou que eu deveria
estar morto?"


                                              71
       Quron o estudou com preocupao, como se esperasse que Jason explodisse em
chamas. "Meu garoto, voc sabe o que essas marcas no seu brao significam? A cor da
sua camisa? Voc lembra de algo?"

       Jason olhou para a tatuagem no seu antebrao: SPQR, a guia, vinte linhas retas.

       "No," ele disse. "Nada."

      "Voc sabe onde est?" Quron perguntou. "Voc entende o que esse lugar , e
quem eu sou?"

        "Voc  o centauro Quron," Jason disse. "Suponho que seja o mesmo das
histrias antigas, que costumava treinar os heris gregos como Hrcules. Esse  um
acampamento para semideuses, filhos dos deuses olimpianos."

       "Ento voc acredita que esses deuses ainda existem?"

        "Sim," Jason disse imediatamente. "Digo, no acho que devamos ador-los ou
sacrificar galinhas por eles ou qualquer coisa, mas eles ainda esto por perto, pois so
uma poderosa parte da civilizao. Eles vo de pas em pas conforme o centro do poder
se desloca -- como eles foram da Grcia Antiga para Roma."

       "No podia ter dito melhor." Algo na voz de Quron mudou. "Ento voc j
sabe que os deuses so reais. Voc j foi reclamado, no foi?"

       "Talvez," Jason respondeu. "No tenho total certeza."

       O leopardo Seymour rosnou.

        Quron esperou, e Jason percebeu o que acabara de acontecer. O centauro havia
mudado para outro idioma e Jason entendera automaticamente respondendo na mesma
lngua.

      "Quis erat --" Jason vacilou, ento fez um esforo consciente para falar ingls.
"O que foi aquilo?"

       "Voc sabe Latim," Quron observou. "A maioria dos semideuses reconhecem
algumas frases, naturalmente. Est no sangue deles, mas no tanto quanto Grego
Antigo. Ningum pode falar Latim fluentemente sem prtica."

       Jason tentou envolver a mente no que aquilo significava, mas vrios pedaos da
sua memria estavam perdidos. Ele ainda tinha a sensao que no deveria estar aqui.
Era errado -- e perigoso. Mas pelo menos Quron no metia medo. Na verdade o
centauro parecia preocupado com ele, com medo pela sua segurana.

       O fogo refletia nos olhos de Quron, fazendo-os danar agastadamente. "Eu
ensinei o seu xar, voc sabe, o Jaso original. Ele teve um caminho duro. Eu vi vrios

                                          72
heris ir e vir. Ocasionalmente, eles tm finais felizes. Na maior parte, no. Isso quebra
meu corao,  como perder um filho sempre que um dos meus pupilos morre. Mas
voc -- voc no  como qualquer pupilo que eu j ensinei. Sua presena aqui poderia
ser um desastre."

       "Obrigado," Jason disse. "Voc deve ser um professor inspirador."

      "Desculpe meu garoto. Mas  verdade. Eu esperava que depois do sucesso de
Percy --"

       "Percy Jackson, voc se refere. O namorado de Annabeth, o que est sumido."

        Quron assentiu. "Esperava que depois que ele tivesse sucesso na Guerra dos
Tits e salvasse o Monte Olimpo, pudssemos ter alguma paz. E eu poderia ser capaz de
desfrutar um triunfo final, um final feliz, e talvez uma retirada discreta. Eu devia ter me
informado melhor. O ltimo captulo se aproxima, assim como foi antes. O pior ainda
est por vir."

      No canto, o fliperama fez um triste som pa-pa-pa-pa, como se o Pacman tivesse
morrido.

       "Ok..." Jason disse. "Ento -- ltimo captulo aconteceu antes, pior ainda por
vir. Soa divertido, mas podemos voltar  parte onde eu devia estar morto? No gosto
dessa parte."

       "Tenho medo que no possa explicar meu garoto. Jurei pelo Rio Styx e por todas
as coisas sagradas que eu nunca..." Quron franziu a testa. "Mas voc est aqui, em
violao do mesmo juramento. Isso tambm, no deveria ser possvel. Eu no entendo.
Quem faria tal coisa? Quem --"

       O leopardo Seymour berrou. Sua boca congelou meio aberta. O fliperama parou
de fazer bip. O fogo parou de estalar, suas chamas endurecendo como vidro vermelho.
As mscaras olhavam para Jason silenciosamente com seus olhos de uva grotescos e
lnguas frondosas.

       "Quron?" Jason perguntou. "O que est aconte..."

       O velho centauro congelara, tambm. Jason pulou do sof, mas Quron
continuou olhando para o mesmo lugar, sua boca aberta no meio de uma afirmao.
Seus olhos no piscavam. Seu peito no se mexia.

       Jason, uma voz disse.

       Por um horrvel momento, ele pensou que o leopardo falou. Ento nvoa escura
evaporou da boca do Seymour, e um pensamento ainda pior ocorreu a Jason: espritos
de tempestade.

                                            73
        Ele pegou a moeda de ouro do seu bolso. Com um rpido arremesso, ela se
transformou numa espada.

        A nvoa tomou a forma de uma mulher em robes negros. Seu rosto estava
encapuzado, mas seus olhos brilhavam na escurido. Sobre seus ombros ela usava uma
capa de pele de cabra. Jason no tinha certeza de como sabia que era pele de cabra, mas
ele a reconheceu e sabia que era importante.

       Voc atacaria seu patrono? A mulher repreendeu. Sua voz ecoou na cabea de
Jason. Abaixe sua espada.

         "Quem  voc?" ele exigiu. "Como voc --"

       Nosso tempo  limitado, Jason. Minha priso cresce mais forte a cada hora. Me
tomou um ms inteiro para reunir energia o suficiente at para trabalhar com a menor
magia entre seus grilhes. Eu consegui trazer voc aqui, mas agora no me resta muito
tempo, e at menos energia. Essa pode ser a ltima vez que eu fale com voc.

       "Voc est numa priso?" Jason decidiu que talvez ele no baixasse sua espada.
"Olhe, eu no te conheo, e voc no  meu patrono."

         Voc me conhece, ela insistiu. Eu conheo voc desde o seu nascimento.

         "Eu no lembro. Eu no me lembro de nada."

        No, voc no lembra, ela concordou. Isso tambm foi necessrio. Tempos
atrs, seu pai me deu sua vida como presente para apaziguar minha raiva. Ele lhe
nomeou como Jason, por causa do meu mortal favorito. Voc pertence a mim.

         "Uou," Jason disse. "Eu no perteno a ningum."

       Agora  a hora de pagar sua dvida, ela disse. Encontre minha priso. Liberte-
me, ou o rei deles ir erguer-se da terra, e eu serei destruda. Voc nunca reaver sua
memria.

         " uma ameaa? Voc pegou minhas memrias?"

         Voc tem at o pr-do-sol no solstcio, Jason. Quatro pequenos dias. No me
falhe.

         A mulher obscura se dissolveu, e a nvoa girou para a boca do leopardo.

        O tempo descongelou. O berro do Seymour veio numa tosse como se tivesse
engolido uma bola de pelos. O fogo estalou para a vida, o fliperama fez bip, e Quron
disse, "-- ousaria trazer-lhe aqui?"

         "Provavelmente a mulher na nvoa," Jason props.

                                            74
       Quron olhou em surpresa. "Voc no estava sentado... por que voc tem uma
espada na mo?"

       "Odeio lhe dizer isso," Jason disse, "mas eu acho que seu leopardo comeu uma
deusa."

      Ele contou para Quron sobre a visita congelada-no-tempo, a obscura figura
nevoenta que desapareceu na boca de Seymour.

       "Ah, meu caro," Quron murmurou. "Isso explica muito."

       "Ento por que voc no explica muito para mim?" Jason disse. "Por favor."

        Antes que Quron pudesse dizer alguma coisa, passos ecoaram na varanda do
lado de fora. A porta da frente abriu com uma batida, e Annabeth e outra garota, uma
ruiva, entraram explodindo, arrastando Piper entre elas. A cabea de Piper folgava como
se estivesse inconsciente.

       "O que aconteceu?" Jason apressou-se. "O que h de errado com ela?"

      "Chal de Hera," Annabeth ofegou, como se tivessem corrido por todo o
caminho. "Viso. Mau."

       A garota ruiva olhou para cima, e Jason viu que ela estava chorando.

       "Eu acho..." A garota ruiva tragou. "Eu acho que posso ter matado ela."




                                          75
Captulo VIII
JASON   E A RUIVA, QUE SE APRESENTOU          como Rachel, colocaram Piper no sof
enquanto Annabeth apressou-se pelo corredor para pegar um kit de primeiros socorros.
Piper ainda estava respirando, mas ela no acordaria. Ela parecia estar em algum tipo de
coma.

        "Temos que cur-la," Jason insistiu. "Tem um jeito, certo?"

       Vendo-a to plida, mal respirando, Jason sentiu uma onda de proteo. Talvez
ele realmente no a conhecesse. Talvez ela no fosse sua namorada. Mas eles
sobreviveram no Grand Canyon juntos. Eles passaram por todo esse caminho. Ele a
deixara de lado por um instante, e isso aconteceu.

        Quron colocou uma mo na sua testa e fez uma careta. "Sua mente est em
frgil estado. Rachel, o que aconteceu?"

        "Eu queria saber," ela disse. "Assim que cheguei no acampamento, tive uma
premonio sobre o chal de Hera. Eu entrei. Annabeth e Piper entraram enquanto eu
estava l. Conversamos, e ento -- eu simplesmente apaguei. Annabeth disse que falei
numa voz diferente."

        "Uma profecia?" Quron perguntou.

       "No. O esprito de Delfos vem de dentro. Eu sei como sente. Era como a uma
longa distncia, uma fora tentando falar atravs de mim."

       Annabeth passou com uma bolsa de couro. Ela ajoelhou-se do lado de Piper.
"Quron, o que aconteceu l -- eu nunca vi nada parecido. Eu j ouvi a voz de profecia
de Rachel. Era diferente. Ela soou como uma mulher mais velha. Ela pegou os ombros
de Piper e lhe disse --"

        "Para libert-la duma priso?" Jason chutou.

        Annabeth olhou para ele. "Como voc sabia disso?"

        Quron fez um gesto de trs dedos sobre o corao, como uma proteo contra o
mal.


                                           76
         "Jason, conte para elas. Annabeth, a bolsa de remdios, por favor."

       Quron pingou gotas de um frasco medicinal na boca de Piper enquanto Jason
explicava o que aconteceu quando a sala congelou -- a mulher escura na nvoa que
alegou ser o patrono de Jason.

         Quando ele acabou, ningum falou, o que fez ele se sentir mais aflito.

      "Ento isso acontece sempre?" ele perguntou. "Ligaes sobrenaturais de
condenados exigindo que voc os tire da cadeia?"

         "Seu patrono," Annabeth disse. "No o seu pai olimpiano?"

         "No, ela disse patrono. Ela tambm disse que meu pai havia lhe dado a minha
vida."

       Annabeth franziu a sobrancelha. "Eu nunca ouvi falar de nada assim antes. Voc
disse no cu que o esprito de tempestade -- ele alegou estar trabalhando para alguma
mestra que estava dando ordens, certo? Pode ser essa mulher que voc viu, bagunando
sua mente?"

        "Eu acho que no," Jason disse. "Se ela fosse minha inimiga, ela estaria pedindo
pela minha ajuda? Ela est aprisionada. Ela est preocupada sobre algum inimigo se
fortalecendo. Algo sobre a ascenso de um rei da terra no solstcio --"

         Annabeth virou para Quron. "Cronos no. Por favor, me diga que no  isso."

         O centauro parecia infeliz. Ele segurou o pulso de Piper, checando sua pulsao.

         Finalmente ele disse, "No  Cronos. Aquela ameaa est acabada. Mas..."

         "Mas o qu?"

        Quron fechou a bolsa de remdios. "Piper precisa de descanso. Deveramos
discutir isso depois."

       "Ou agora," Jason disse. "Er, Sr. Quron, voc me disse que a ameaa maior
estava vindo. O ltimo captulo. Possivelmente voc no pode querer dizer algo pior
que um exrcito de tits, no ?"

        "Ah," Rachel disse numa voz baixa. "Ah, gente. A mulher era Hera.  claro. Seu
chal, sua voz. Ela mostrou-se para Jason no mesmo momento."

       "Hera?" O rosnado de Annabeth foi at mais feroz do que o de Seymour. "Ela
trouxe voc? Ela fez isso com Piper?"

        "Eu acho que a Rachel est certa," Jason disse. "A mulher parecia uma deusa. E
ela vestia isso -- essa capa de pele de cabra.  um smbolo de Juno, n?"
                                            77
       "?" Annabeth franziu a testa. "Eu nunca ouvi isso."

        Quron assentiu com relutncia. "De Juno, o aspecto romano de Hera, mas em
seu estado guerreiro. A capa de pele de cabra era um smbolo do soldado romano."

       "Ento Hera est aprisionada?" Rachel perguntou. "Quem poderia fazer isso 
rainha dos deuses?"

       Annabeth cruzou os braos. "Bem, quem quer que seja talvez devssemos
agradec-los. Se eles podem calar Hera --"

        "Annabeth," Quron alertou, "ela ainda  uma dos olimpianos. De vrias
maneiras, ela  a cola que mantm a famlia dos deuses unida. Se ela realmente foi presa
e est em perigo de destruio, isso poderia abalar os alicerces do mundo. Isso poderia
desafinar a estabilidade do Olimpo, o que no nunca  bom nem nos melhores
momentos. E se Hera pediu ajuda a Jason --"

       "Certo," Annabeth rosnou. "Bem, sabemos que os tits podem capturar um deus,
n? Atlas capturou rtemis alguns anos atrs. E nas histrias antigas, os deuses
capturavam um ao outro em armadilhas a toda hora. Mas algo pior que um tit...?"

       Jason olhou para a cabea de leopardo. Seymour estava saboreando os lbios
como se a deusa tivesse um sabor melhor que um biscoito. "Hera disse que esteve
tentando quebrar os grilhes da sua priso por um ms."

      "Que  o tempo que o Olimpo foi fechado," Annabeth disse. "Ento os deuses
devem saber que algo ruim est acontecendo."

       "Mas por que usar sua energia para me enviar aqui?" Jason perguntou. "Ela
limpou minha memria, estatelou-me na excurso da Wilderness School, e mandou para
voc uma viso de sonho para vir me pegar. Por que eu sou to importante? Por que no
simplesmente mandar umas chamas de emergncia para os outros deuses -- deix-los
saber onde ela est para que eles a libertem?"

      "Os deuses precisam de heris para fazer sua vontade aqui embaixo na terra,"
Rachel disse. "Est certo, n? Os destinos deles so sempre entrelaados com
semideuses."

       " verdade," Annabeth disse, "mas Jason se lembrou de uma coisa importante.
Por que ele? Por que pegar a sua memria?"

       "E Piper est envolvida de algum jeito," Rachel disse. "Hera lhe mandou a
mesma mensagem -- Me liberte. E, Annabeth, isso deve ter algo em relao ao
desaparecimento de Percy."



                                          78
        Annabeth fixou os olhos em Quron. "Por que voc est to quieto, Quron? O
que  isso que estamos enfrentando?"

       O rosto do velho centauro parecia que havia sido envelhecido em dez anos numa
questo de minutos. As linhas em torno dos seus olhos estavam profundamente
gravadas. "Minha querida, nisso, eu no posso lhe ajudar. Desculpe-me, mesmo."

       Annabeth pestanejou. "Voc nunca... voc nunca escondeu informaes de mim.
At a ltima grande profecia --"

        "Estarei no meu escritrio." Sua voz estava pesada. "Preciso de algum tempo
para pensar antes do jantar. Rachel, voc ficar observando a garota? Chame Argos para
traz-la  enfermaria, se quiser. E Annabeth, voc devia falar com Jason. Conte para ele
sobre -- sobre os deuses gregos e romanos."

       "Mas..."

       O centauro virou sua cadeira de rodas e a rolou para o corredor. Os olhos de
Annabeth ficaram colricos. Ela murmurou algo em grego, e Jason teve o
pressentimento que no era elogioso para centauros.

       "Desculpe-me," Jason disse. "Acho que minha presena aqui -- eu no sei. Eu
baguncei as coisas vindo para o acampamento, de algum jeito. Quron disse que ele
declarou um juramento e no podia falar sobre isso."

         "Que juramento?" Annabeth perguntou. "Eu nunca vi ele agir assim. E por que
ele iria me dizer para eu lhe falar sobre os deuses..."

      Sua voz morreu. Aparentemente ele notou a espada de Jason acomodada na
mesinha de caf. Ela tocou a lmina cuidadosamente, como se pudesse estar quente.

       " ouro?" ela disse. "Voc lembra onde a conseguiu?"

       "No," Jason disse. "Como disse, no me lembro de nada."

       Annabeth assentiu como se tivesse acabado de bolar um plano um pouco
desesperado. "Se Quron no ajudar, temos que descobrir as coisas por ns mesmos. O
que significa... Chal Quinze. Rachel, voc vai ficar de olho na Piper?"

       "Claro," Rachel prometeu. "Boa sorte, vocs dois."

       "Espere," Jason disse. "O que tem no Chal Quinze?"

       Annabeth ficou de p. "Talvez um jeito de conseguir sua memria de volta."




                                          79
Eles foram em direo a uma ala mais nova de chals no canto sudoeste do campo.
Alguns eram luxuosos, com paredes brilhantes ou tochas em chamas, mas o Chal
Quinze no era to dramtico. Parecia uma casa de campo antiquada com paredes de
lama e um telhado mpeto. Na porta havia pendurada uma coroa de flores carmesim --
papoulas vermelhas, Jason pensou, embora no tivesse certeza como sabia.

       "Voc acha que  o chal do meu pai?" ele perguntou.

       "No," Annabeth disse. " o chal para Hipnos, o deus do sono."

       "Ento por qu --"

       "Voc esqueceu tudo," ela disse. "Se h um deus que pode nos ajudar a
descobrir perda de memria, esse  Hipnos."

        Dentro, mesmo j estando quase na hora do jantar, trs crianas soavam
adormecidas debaixo de pilhas de cobertas. Um fogo vivo estalava na lareira. Sobre a
cornija pendia um ramo de rvore, cada galho pingando lquido branco numa coleo de
vasos de estanho. Jason estava tentado a pegar uma gota no seu dedo s para ver o que
era, mas deteu-se.

       Uma msica suave de violino tocava de algum lugar. O ar cheirava como
lavanderia limpa. O chal era to aconchegante e pacfico que as plpebras de Jason
comearam a se sentirem pesadas. Uma soneca parecia uma grande idia. Ele estava
exausto. Havia vrias camas vazias, todas com travesseiros de pena e lenis limpos e
colchas fofas e -- Annabeth o cutucou. "Sai dessa."

       Jason pestanejou. Ele percebeu que seus joelhos estavam comeando a dobrar.

       "O Chal Quinze faz isso com todos," Annabeth avisou. "Se voc me perguntar,
esse lugar  ainda mais perigoso que o chal de Ares. Pelo menos com Ares, voc pode
aprender onde as minas terrestres esto."

       "Minas terrestres?"

       Ela se aproximou a criana roncando mais prxima e balanou seu ombro.
"Clovis! Acorde!"

       A criana parecia um beb. Ele tinha um topete loiro numa cabea em forma de
cunha, com feies grossas e um grande pescoo. Seu corpo era slido, mas ele tinha
pequenos braos finos como se nunca houvesse levantado algo mais pesado que um
travesseiro.

       "Clovis!" Annabeth balanou mais forte, ento finalmente bateu na sua testa
aproximadamente seis vezes.


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      "O-o-o qu?" Clovis reclamou, sentando e apertando os olhos. Ele bocejou
imensamente, e Annabeth e Jason bocejaram tambm.

       "Pare com isso!" Annabeth disse. "Precisamos de sua ajuda."

       "Eu estava dormindo."

       "Voc sempre est dormindo."

       "Boa noite."

       Antes que ele pudesse adormecer, Annabeth puxou seu travesseiro da cama.

       "No  justo," Clovis reclamou humildemente. "Devolva."

       "Primeiro ajuda," Annabeth disse. "Depois dorme."

       Clovis suspirou. Sua respirao cheirava como leite quente. "Certo. O qu?"

       Annabeth explicou sobre o problema de Jason. Ela estalava os dedos sob o nariz
de Clovis para mant-lo acordado o tempo todo.

       Clovis deve ter ficado realmente animado, porque quando Annabeth acabou ele
no dormiu. Ele na verdade levantou e esticou-se, ento sorriu para Jason.

       "Ento voc no se lembra de nada, hein?"

       "S impresses," Jason disse. "Sensaes, como..."

       "Sim?" Clovis disse.

       "Como eu sei que no devia estar aqui. Nesse acampamento. Estou em perigo."

       "Hum... Feche seus olhos."

       Jason olhou para Annabeth, mas ela assentiu de forma tranquilizadora.

      Jason sentiu medo de acabar roncando em um dos beliches para sempre, mas ele
fechou os olhos. Seus pensamentos tornaram-se obscuros, como se ele estivesse
afundando num lago escuro.

       A prxima coisa que ele sabia, seus olhos cederam. Ele estava numa cadeira pelo
fogo. Clovis e Annabeth ajoelharam-se do lado dele.

       "-- Srio, tudo bem," Clovis estava falando.

       "O que aconteceu?" Jason disse. "Quanto --"

       "S alguns minutos," Annabeth disse. "Mas foi tenso. Voc quase dissolveu."


                                          81
       Jason esperou que ela tivesse dito literalmente, mas sua expresso estava sria.

       "Geralmente," Clovis disse, "memrias so perdidas por um bom motivo. Elas
afundam na superfcie como sonhos, e com um bom sono, eu posso traz-las de volta.
Mas isso..."

       "Letes?" Annabeth perguntou.

       "No," Clovis disse. "Nem Letes."

       "Letes?" Jason perguntou.

       Clovis apontou para o ramo de rvore derramando gotas leitosas sobre a lareira.
"O Rio Letes no Mundo Inferior. Dissolve suas memrias, limpa sua mente
permanentemente.  o ramo de uma rvore de lamo do Mundo Inferior, mergulhada no
Letes.  o smbolo do meu pai, Hipnos. Letes no  um lugar que voc queira nadar."

       Annabeth assentiu. "Percy foi l uma vez. Ele me disse que  poderoso o
bastante para limpar a mente de um tit."

       Jason estava subitamente feliz por no ter tocado o ramo. "Mas... no  meu
problema?"

       "No," Clovis concordou. "Sua mente no foi limpa, e suas memrias no foram
enterradas. Elas foram roubadas."

        O fogo estalou. Gotas da gua do Letes gotejavam nos copos de estanho na
cornija. Um dos outros campistas do Hipnos murmurarou no sono -- algo sobre um
pato.

       "Roubadas," Jason disse. "Como?"

       "Um deus," Clovis disse. "S um deus teria esse tipo de poder."

       "Sabemos disso," disse Jason. "Foi Juno. Mas como ela fez isso, e por qu?"

       Clovis coou o pescoo. "Juno?"

      "Ele quer dizer Hera," Annabeth disse. "Por algum motivo, Jason gosta dos
nomes romanos."

       "Hum," Clovis disse.

       "O qu?" Jason perguntou. "Significa algo?"

      "Hum," Clovis disse novamente, e dessa vez Jason percebeu que ele estava
roncando.


                                           82
       "Clovis!" ele gritou.

       "O qu? O qu?" Seus olhos alargaram-se. "Estvamos falando sobre
travesseiros, certo? No, deuses. Eu lembro. Gregos e romanos. Certo, pode ser
importante."

       "Mas eles so os mesmos deuses," Annabeth disse. "Apenas com nomes
diferentes."

       "No exatamente," Clovis disse.

      Jason sentou-se, agora muito mais acordado. "O que voc quer dizer, no
exatamente?"

        "Bem..." Clovis bocejou. "Alguns deuses so apenas romanos. Como Jano, ou
Pomona. Mas at os maiores deuses gregos -- no foi s o nome deles que mudou
quando se moveram para Roma. Suas aparncias mudaram. Seus atributos mudaram.
Eles at tiveram personalidades levemente diferentes."

       "Mas..." Annabeth vacilou. "Ok, ento talvez as pessoas os viram
diferentemente atravs dos sculos. Isso no muda quem eles so."

       "Com certeza sim." Clovis comeou a adormecer, e Jason estalou os dedos sob
seu nariz.

        "Estou indo, me!" ele gritou. "Digo... Sim, estou acordado. Ento, h,
personalidades. Os deuses mudam para refletir s suas culturas locais. Voc sabe disso,
Annabeth. Digo, nesses dias, Zeus gosta de ternos feitos por alfaiates, realidade na
televiso, e aquele restaurante de comida chinesa na Rua Vigsima-oitava leste, certo?
Era o mesmo nos tempos romanos, e os deuses eram romanos tanto quanto eles eram
gregos. Era um grande imprio, conservado por sculos. Ento naturalmente os seus
aspectos romanos ainda so uma grande parte de se carter."

       "Faz sentido," Jason disse.

       Annabeth balanou a cabea, iludida. "Mas como voc sabe isso tudo, Clovis?"

       "Ah, eu gasto muito tempo sonhando. Eu vejo deuses neles o tempo todo --
sempre mudando de forma. Sonhos so fluidos, voc sabe. Voc pode estar em lugares
diferentes de uma s vez, sempre mudando identidades.  como ser um deus, na
verdade. Como recentemente, eu sonhei que estava assistindo uma apresentao do
Michael Jackson, e ento eu estava no palco com Michael Jackson, e estvamos
cantando essa msica, e eu no conseguia lembrar as palavras para `The Girl Is Mine.'
Ah, gente, foi to embaraoso, eu --"

       "Clovis," Annabeth interrompeu. "De volta a Roma?"

                                          83
       "Certo, Roma," Clovis disse. "Assim ns chamamos os deuses pelos seus nomes
gregos porque so as suas formas originais. Mas dizer que seus aspectos romanos so
exatamente o mesmo -- isso no  verdade. Em Roma, eles se tornaram mais militares.
Eles no se misturavam muito com mortais. Eles eram severos, mais poderosos -- os
deuses de um imprio."

       "Como o lado negro dos deuses?" Annabeth perguntou.

       "No exatamente," Clovis disse. "Eles erguiam-se para a disciplina, honra, fora
--"

        "Coisas boas, ento," Jason disse. Por algum motivo, ele sentia a necessidade de
falar pelos deuses romanos, embora no tivesse certeza do que isso importava para ele.
"Digo, disciplina  importante, certo?  o que fez Roma continuar por tanto tempo."

       Clovis lhe deu um olhar curioso. " verdade. Mas os deuses romanos no eram
muito amigveis. Por exemplo, meu pai, Hipnos... ele no fazia muito a no ser dormir
nos tempos gregos. Nos tempos romanos, eles o chamavam de Somnus. Ele gostava de
matar as pessoas que no ficavam alerta aos seus trabalhos. Se eles adormecessem na
hora errada, bum -- eles nunca acordariam. Ele matou o piloto de Enias quando eles
estavam saindo a barco de Troia."

      "Cara legal," Annabeth disse. "mas eu ainda no entendo o que isso tem a ver
com Jason."

        "Nem eu," Clovis disse. "Mas se Hera pegou suas memrias, s ela pode
devolv-las. E se eu tivesse que encontrar a rainha dos deuses, eu esperaria que ela
estivesse mais num nimo Hera do que num nimo Juno. Posso voltar a dormir agora?"

       Annabeth olhou para o ramo sobre o fogo, pingando gua do Letes nos vasos.
Ela parecia to preocupada, Jason queria saber se ela estava considerando uma bebida
para esquecer seus problemas. Ento ela levantou e jogou para Clovis seu travesseiro.
"Obrigada, Clovis. Vemos voc no jantar."

       "Posso ter servio de quarto?" Clovis bocejou e topou-se no seu beliche. "Me
sinto meio... zzzz..." Ele caiu com sua cabeada no ar e seu rosto enterrou-se no
travesseiro.

       "Ele no vai sufocar?" Jason perguntou.

       "Ele ficar bem," Annabeth disse. "Mas estou comeando a achar que voc est
em srios problemas."




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Captulo IX
PIPER SONHOU SOBRE SEU LTIMO DIA com o pai.

        Eles estavam na praia perto de Big Sur, descansando do surfe. A manh foi to
perfeita que Piper sabia que algo tinha que dar errado logo -- uma multido furiosa de
paparazzi, ou talvez um grande tubaro branco atacasse. De jeito nenhum sua sorte
poderia continuar.

        Mas at agora, eles tinham excelentes ondas, um cu nublado, e dois quilmetros
de mar completamente para eles. Seu pai encontrou esse lugar fora da trilha, alugou
uma casa de campo com vista para o mar e as propriedades em cada lado, e de algum
jeito conseguiu manter isso em segredo. Se ele ficasse ali muito tempo, Piper sabia que
os fotgrafos o encontrariam. Eles sempre encontravam.

       "Belo trabalho aqui, Pipes." Ele lhe deu o sorriso pelo qual ele era famoso:
dentes perfeitos, queixo com covinhas, uma piscadela nos seus olhos escuros que
sempre brotavam um grito nas mulheres e as faziam pedir-lhe para assinar seus corpos
com tinta permanente. ( srio, Piper pensou, tenha uma vida.) Seu cabelo negro
cortado a escovinha brilhava com gua salgada. "Voc est ficando melhor no Hang
Ten."

        Piper corou em orgulho, embora ela suspeitasse que o pai s estivesse sendo
simptico. Ela ainda gastava a maioria do tempo caindo. Parecia um talento especial
atropelar a si mesma com uma prancha de surfe. Seu pai era um surfista natural -- o
que no fazia nenhum sentido desde que ele ressuscitou uma pobre criana em
Oklahoma, centenas de quilmetros do oceano -- mas ele era incrvel nas ondulaes.
Piper teria desistido de surfar a muito tempo atrs exceto que isso a deixava ficar com
ele. No havia muitos jeitos para conseguir aquilo.

      "Sanduche?" O pai cavou na cesta de piquenique que seu chef, Arno, fizera.
"Vamos ver: peito de peru, bolo de caranguejo wasabi -- ei, um especial da Piper.
Manteiga de amendoim e geleia."

       Ela pegou o sanduche, embora seu estmago estivesse muito agitado para
comer. Ela sempre pedia PJ&B. Piper era vegetariana, por uma coisa. Ela era desde que
haviam passado dirigindo por aquele matadouro em Chino e o cheiro fez as suas

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entranhas quererem ir para fora. Mas era mais que isso. PB&J era comida simples,
como uma criana normal teria para almoo. s vezes ela fingiu que era seu pai que
fazia isso para ela, no um personal chef da Frana que gostava de enrolar o sanduche
numa folha de ouro com um diamante brilhante ao invs de um palito de dente.

       Alguma coisa no podia ser simples?  por isso que ela recusava as roupas
elaboradas que seu pai sempre oferecia, o estilista de sapatos, as visitas ao salo. Ela
cortava seu prprio cabelo com um par de tesouras de plsticos seguras do Garfield,
deliberadamente o tornando desigual. Ela preferia usar tnis velhos, jeans, uma
camiseta, e sua antiga jaqueta da vez que foram esquiar na neve.

        E ela odiava as escolas particulares esnobes que papai pensava que eram boas
para ela. Ela continuava sendo expulsa. Ele continuou a encontrar mais escolas.

       Ontem, ela tinha realizado seu maior guincho mais uma vez -- dirigindo aquela
BMW "emprestada" para fora da concessionria. Ela tinha que realizar uma proeza
maior toda vez, porque estava ainda mais difcil conseguir a ateno do pai.

       Agora ela lamentava. O pai ainda no sabia.

       Ela queria cont-lo essa manh. Ele a havia surpreendido com essa viagem, e ela
no poderia arruinar isso. Era a primeira vez que eles teriam um dia juntos em o que --
trs meses?

       "Qual o problema?" Ele lhe passou um refrigerante.

       "Pai, tem uma coisa --"

       "Espere, Pipes. Isso  uma face sria. Pronta para Trs Perguntas Quaisquer?"

       Eles estiveram jogando aquele jogo por anos -- o modo do seu pai de ficar
conectado no menor tempo possvel. Eles podiam perguntar um para o outro trs
perguntas quaisquer. Nada fora dos limites, e voc tinha que responder honestamente. O
resto do tempo, o pai prometia ficar fora da vida dela -- o que era fcil, desde que ele
nunca estava por perto.

        Piper sabia que a maioria das crianas acharia um Perguntas e Respostas assim
com os pais totalmente mortificante. Mas ela avanou a isso. Era como surfar -- no
fcil, mas um jeito de sentir como se realmente tivesse um pai.

       "Primeira pergunta," ela disse. "Mame."

       Sem surpresa. Era sempre um dos seus tpicos.




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        Seu pai deu de ombros com resignao. "O que voc quer saber, Piper? Eu j lhe
disse -- ela desapareceu. No sei por que, ou para onde ela foi. Depois que voc nasceu,
ela simplesmente partiu. Eu nunca mais ouvi falar dela."

       "Voc acha que ela ainda est viva?"

       No era uma pergunta real. Seu pai permitia-se dizer que no sabia. Mas ela
queria ouvir como ele responderia.

       Ele olhou para as ondas.

        "Seu av Tom," ele disse finalmente, "ele costumava me dizer que se voc andar
longe o bastante para o pr-do-sol, voc viria para o Pas Fantasma, onde voc poderia
conversar com a morte. Ele disse h muito tempo atrs, voc poderia trazer a morte de
volta; mas ento a humanidade bagunaria. Bem,  uma longa histria."

      "Como a Terra dos Mortos para os gregos," Piper lembrou. "Era no oeste,
tambm. E Orfeu -- ele tentou trazer sua esposa de volta."

        Seu pai assentiu. Um ano antes, ele tivera esse papel maior como um rei da
Grcia Antiga. Piper havia lhe ajudado a pesquisar os mitos -- todas aquelas histrias
antigas sobre pessoas virando pedra e afundando em lagos de lava. Eles tiveram um
tempo divertido lendo juntos, e isso fez a vida de Piper no parecer to m. Por um
instante ela se sentiu mais prxima do pai, mas como tudo, isso no continuou.

       "Vrias semelhanas entre os gregos e os Cherokee," o pai concordou. "Eu
penso o que seu av pensaria se nos visse agora, sentando no fim da terra ocidental. Ele
provavelmente pensaria que somos fantasmas."

       "Ento voc est dizendo que acredita nessas histrias? Voc acha que a mame
est morta?"

       Seus olhos molharam, e Piper viu a tristeza atrs dele. Ela entendeu o porqu de
mulheres serem to atraentes para ele. Na superfcie, ele parecia confiante e forte, mas
seus olhos seguravam muita tristeza. Mulheres queriam descobrir por qu. Elas queriam
confort-lo, e elas nunca podiam. O pai contava a Piper que era coisa de Cherokee --
todos eles tinham aquela escurido dentro deles de geraes de dor e sofrimento. Mas
Piper pensou que era mais que isso.

       "Eu no acredito nas histrias," ele disse. "Elas so divertidas de contar, mas se
eu realmente acreditasse em Pas Fantasma, ou espritos animais, ou deuses gregos... eu
no acho que poderia dormir  noite. Eu sempre estaria procurando por algum para
acusar."

      Algum para acusar pela morte do vov Tom de cncer de pulmo, Piper
pensou, antes que seu pai ficasse famoso e tivesse dinheiro para ajudar. Para mame --
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a nica mulher que ele j amou -- abandon-lo sem mesmo uma carta de adeus,
deixando-o com uma garota recm-nascida pelo qual ele no estava pronto para cuidar.
Para ele ser um sucesso to grande, e ainda infeliz.

       "Eu no sei se ela est viva," ele disse. "Mas eu acho que ela tambm pode estar
no Pas Fantasma, Piper. No h volta para ela. Se eu acreditasse por outro lado... eu
no acho que poderia toler-la, afinal."

        Atrs deles, a porta de um carro abriu. Piper virou, e seu corao afundou. Jane
estava marchando na direo deles no seu terno de trabalho, vacilando sobre a areia nos
seus altos calcanhares, seu PDA na mo. O olhar no seu rosto estava em parte confuso,
em parte triunfante, e Piper sabia que ela mantivera contato com a polcia.

       Por favor caia, Piper rezou. Se h algum esprito animal ou deus grego que
possa ajudar, faa-a dar um mergulho. No estou pedindo dano permanente, s
elimin-la pelo resto do dia, por favor?

       Mas Jane continuou avanando.

       "Pai," Piper disse rapidamente. "Uma coisa aconteceu ontem..."

        Mas ele viu Jane tambm. Ele j estava reconstruindo seu rosto de negcios.
Jane no estaria aqui se no fosse srio. Um diretor de estdio chamava -- um projeto
foi arruinado -- ou Piper havia estragado tudo novamente.

      "Vamos voltar a isso, Pipes," ele prometeu. " melhor eu ver o que a Jane quer.
Voc sabe como ela ."

        Sim -- Piper sabia. O pai marchou pela areia para encontr-la. Piper no podia
ouvi-los conversando, mas ela no precisava. Ela era boa em leitura facial. Jane lhe deu
os fatos sobre o carro roubado, ocasionalmente apontando para Piper como se ela fosse
um animal repulsivo que silvava no carpete.

        A energia e entusiasmo do pai drenaram. Ele gesticulou pra Jane esperar. Ento
ele voltou para Piper. Ela no podia aguentar aquele olhar nos olhos deles -- como se
ela tivesse trado sua confiana.

       "Voc me disse que iria tentar, Piper," ele disse.

     "Pai, eu odeio aquela escola. Eu no posso fazer isso. Eu queria lhe dizer sobre a
BMW, mas --"

      "Eles lhe expulsaram," ele disse. "Um carro, Piper? Voc vai fazer dezesseis no
prximo ano. Eu lhe compraria qualquer carro que quisesse. Como voc pde --"




                                            88
       "Voc quer dizer que Jane me compraria um carro?" Piper exigiu. Ela no podia
ajudar nisso. A raiva s aumentava e derramava para fora dela. "Pai, s oua por uma
vez. No me faa esperar por voc para fazer suas estpidas trs perguntas. Eu quero ir
para uma escola normal. Eu quero que voc me leve para a noite dos pais, e no Jane.
Ou me eduque em casa! Eu aprendi tanto quando lemos sobre a Grcia juntos.
Poderamos fazer isso toda a hora! Poderamos --"

      "No faa isso comigo," seu pai disse. "Eu fao o melhor que posso, Piper. J
tivemos essa conversa."

          No, ela pensou. Voc adiou essa conversa. Por anos.

       Seu pai suspirou. "Jane falou com a polcia, fechou um acordou. A
concessionria no vai pressionar, mas voc tem que concordar em ir para um internato
em Nevada. Eles so especialistas em problemas... em crianas com assuntos difceis."

          " o que eu sou." Sua voz estremeceu. "Um problema."

          "Piper... voc disse que tentaria. Voc me desapontou. Eu no sei mais o que
fazer."

       "Faa qualquer coisa," ela disse. "Mas faa voc mesmo! No deixe Jane cuidar
disso para voc. Voc no pode simplesmente me despachar."

       O pai olhou para a cesta de piquenique. Seu sanduche estava intocado num
pedao de folha dourada. Eles planejaram uma tarde inteira no surfe. Agora isso estava
arruinado. Piper no pde acreditar que ele realmente cedera aos desejos da Jane. No
dessa vez. No em algo maior que um internato.

          "V v-la," papai disse. "Ela tem os detalhes."

          "Pai..."

       Ele desviou o olhar, olhando para o oceano como se pudesse ver todo o caminho
para o Pas Fantasma. Piper prometeu a si que no iria chorar. Ela foi em direo a Jane,
que sorria friamente e segurava uma passagem de voo. Como sempre, ela j arranjou
tudo. Piper era s outro problema dirio que Jane agora podia tirar da lista.

                                               * * *

O sonho de Piper mudou.

      Ela estava no topo de um Monte de noite, as luzes da cidade cintilando abaixo.
Em frente a ela, uma fogueira reluzia. As chamas arroxeadas pareciam fazer mais
sombras que a luz, mas o calor era to intenso que suas roupas queimavam.



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        "Esse  o seu segundo alerta," uma voz ressoou, to poderosa que sacudiu o
mundo. Piper ouvira aquela voz antes nos seus sonhos. Tentou convencer-se que no era
to assustador quanto ela lembrava, mas era pior.

        Atrs da fogueira, um grande rosto aparecia indistintamente na escurido.
Parecia flutuar sobre as chamas, mas Piper sabia que devia estar conectado a um corpo
enorme. As feies rudes deveriam ter sido esculpidas de rochas. O rosto dificilmente
parecia vivo exceto pelos seus penetrantes olhos brancos, como diamantes novos, e sua
estrutura horrvel de medo, tranada com ossos humanos. Ela sorriu, e Piper tremeu.

       "Voc far o que lhe for dito," o gigante disse. "Voc ir  misso. Execute
nossa ordem, e voc pode partir viva. Caso contrrio --"

       Ele gesticulou para um lado do fogo. O pai de Piper estava pendurado
inconsciente, amarrado num poste.

        Ela tentou gritar. Ela queria chamar pelo seu pai, e exigir que o gigante o
soltasse, mas sua voz no funcionou.

       "Estarei observando," o gigante disse. "Sirva-me, e ambos vivem. Voc tem a
palavra de Enclado. Falhe-me... bem, eu dormi por um milnio, jovem semideusa. Eu
estou com muita fome. Falhe, e vou comer bem."

      O gigante riu. A terra estremeceu. Uma fenda abriu-se nos ps de Piper, e ela
tombou na escurido.



Ela acordou como se tivesse sido pisoteada por uma multido danando o passo-
irlands. Seu peito doa, e ela mal podia respirar. Ela desceu e fechou a mo ao redor do
punho da adaga que Annabeth lhe dera -- Katoptris, a arma de Helena de Troia.

       Ento o Acampamento Meio-Sangue no foi um sonho.

       "Como voc est se sentindo?" algum perguntou.

      Piper tentou focar-se. Ela estava deitada numa cama com uma cortina branca
num lado, como uma enfermaria. Aquela garota ruiva, Rachel Dare, sentava perto dela.
Na parede tinha um pster com o desenho de um stiro que parecia incomodamente
como o Treinador Hedge com um termmetro na boca. A legenda dizia: No deixe
doenas chegarem ao seu bode!

       "Onde --" A voz de Piper morreu quando ela viu o sujeito na porta.

      Ele parecia um surfista tpico da Califrnia -- bronzeado, cabelo loiro, vestindo
um short e uma camiseta. Mas ele tinha centenas de olhos azuis sobre o corpo -- ao

                                           90
longo dos braos, nas pernas, e em todo o rosto. At seus ps tinham olhos, olhando
para ela por entre as tiras das sandlias.

       "Esse  Argos," Rachel disse, "nosso chefe da segurana. Ele s est dando uma
olhada nas coisas... por assim dizer."

       Argos assentiu. O olho no seu queixo piscou.

       "Onde -- ?" Piper tentou novamente, mas sentia como se estivesse falando
atravs de um bocado de algodo.

      "Voc est na Casa Grande," Rachel disse. "Escritrio do acampamento.
Trouxemos voc aqui quando caiu."

       "Voc me agarrou," Piper lembrou. "A voz de Hera --"

       "Me perdoe por aquilo," Rachel disse. "Acredite em mim, no foi minha ideia
ser possuda. Quron lhe curou com um pouco de nctar --"

       "Nctar?"

        "A bebida dos deuses. Em pequenas quantidades, cura semideuses, se assim no
-- er -- te reduzir a cinzas."

       "Ah. Divertido."

       Rachel sentou-se mais para frente. "Voc lembra sua viso?"

       Piper teve um momento de medo, pensando que ela dizia sobre o sonho com o
gigante. Ento ela percebeu que Rachel estava falando sobre o que aconteceu no chal
de Hera.

        "Tem algo de errado com a deusa," Piper disse. "Me disse para libert-la, como
se estivesse presa. Ela mencionou a terra nos engolindo, e um ardente, e algo sobre o
solstcio."

      No canto, Argos fez um som retumbante no peito. Seus olhos todos agitaram-se
de uma vez.

       "Hera criou Argos," Rachel explicou. "Ele na verdade  bastante sensvel
quando vem para a segurana dela. Estamos tentando impedi-lo de chorar, porque da
ltima vez que isso aconteceu... bem, causou uma bela duma inundao."

       Argos fungou. Ele pegou um punhado de lenos do criado-mudo e comeou a
esfregar todos os olhos sobre o corpo.

       "Ento..." Piper tentou no olhar enquanto Argos limpava as lgrimas dos
cotovelos. "O que aconteceu com Hera?"
                                         91
        "No temos certeza," Rachel disse. "Annabeth e Jason estiveram aqui por voc,
a propsito. Jason no queria te deixar, mas Annabeth teve uma ideia -- algo que pode
restaurar as memrias dele."

       "Isso ... isso  legal."

        Jason estivera aqui por ela? Ela queria estar consciente para isso. Se ele
conseguisse sua memria de volta, aquilo seria uma coisa boa? Ela ainda estava
resistindo para a esperana que eles realmente conheciam um ao outro. Ela no queria
que o relacionamento deles fosse s um truque da Nvoa.

       Recomponha-se, ela pensou. Se ela ia salvar seu pai, no importava se Jason
gostava dela ou no. Ele a odiaria no fim. Todos aqui iriam.

       Ele olhou para a adaga cerimonial amarrada ao seu lado. Annabeth disse que era
uma marca de poder e status, mas no era normalmente usada em batalha. Tudo de
amostra e nenhuma matria. Uma falsa, assim como Piper. E seu nome era Katoptris,
espelho. Ela no ousou desembainh-la novamente, porque ela no poderia carregar
para ver seu prprio reflexo.

       "No se preocupe." Rachel apertou sua mo. "Jason parece um cara bom. Ele
teve uma viso tambm, muito parecida com a sua. O que quer que esteja acontecendo
com Hera -- eu acho que vocs dois devero trabalhar juntos."

       Rachel sorriu como se fosse uma boa notcia, mas os espritos de Piper
afundaram mais ainda. Ela pensou que essa misso -- o que quer que fosse --
envolveria pessoas sem reputao. Agora Rachel estava basicamente lhe dizendo: Boas
notcias! No s seu pai  que ser sequestrado por um gigante canibal, voc tambm
conseguir trair o cara que voc gosta! Isso no  incrvel?

       "Ei," Rachel disse. "No precisa chorar. Voc vai compreender."

        Piper secou os olhos, tentando controlar-se. Essa no era ela. Ela devia ser
resistente -- uma ladra de carros endurecida, a aflio das escolas particulares de L.A.
Aqui estava ela, chorando como um beb. "Como voc pode saber o que estou
encarando?"

        Rachel deu de ombros. "Eu sei que  uma escolha difcil, e suas opes no so
perfeitas. Como disse, eu tenho intuies s vezes. Mas voc ser reclamada na
fogueira. Tenho quase certeza. Quando voc souber quem seu pai olimpiano , as coisas
podem ficar mais claras."

       Mais claras, Piper pensou. No necessariamente melhores.

       Ela sentou na cama. Sua testa doa como se algum tivesse dirigido um prego
entre seus olhos. No h como conseguir sua me de volta, seu pai lhe dissera. Mas
                                          92
aparentemente,  noite, sua me a reclamaria. Pela primeira vez, Piper no tinha certeza
se queria isso.

         "Espero que seja Atena." Ela ergueu os olhos, com medo que Rachel pudesse
tirar sarro dela, mas o orculo s sorriu.

      "Piper, no lhe censuro. Sinceramente? Acho que Annabeth est esperando isso
tambm. Vocs tm muito em comum."

       A comparao fez Piper se sentir mais culpada ainda. "Outra intuio? Voc no
sabe nada sobre mim."

         "Voc se surpreenderia."

       "Voc s est falando isso porque voc  um orculo, no ? Voc devia soar
toda misteriosa."

        Rachel riu. "No fique dando meus segredos, Piper. E no se preocupe. As
coisas vo se resolver -- somente talvez no do jeito que voc planeja."

         "No est me fazendo sentir melhor."

         Em algum lugar distante, uma buzina de concha soou. Argos rosnou e abriu a
porta.

         "Jantar?" Piper sups.

      "Voc dormiu durante ele," Rachel disse. "Hora da fogueira. Vamos descobrir
quem voc ."




                                           93
Captulo X
TODA   A IDEIA DA FOGUEIRA ALUCINAVA           PIPER. A fazia lembrar aquela grande
fogueira nos sonhos, e seu pai amarrado num poste.

        O que ela conseguiu era quase to apavorante quanto: um grupo de canto. As
escadas do anfiteatro eram gravadas no lado de uma colina, encarando um poo de fogo
alinhado com pedras. Cinquenta ou sessenta crianas enchiam as fileiras, agrupadas sob
vrios banners.

       Piper localizou Jason na frente, do lado de Annabeth. Leo estava por perto,
sentando com um grupo de campistas fortes sob um banner cinza de ao brasonado com
um martelo. Em p  frente do fogo, meia-dzia de campistas com guitarras e harpas
antiquadas e estranhas -- liras? -- estavam pulando, liderando uma msica sobre
pedaos de armaduras, algo sobre como as suas avs vestiam-se para a guerra. Todos
estavam cantando com eles e fazendo gestos para os pedaos de armadura e brincando.
Foi possivelmente a coisa mais estranha que Piper j viu -- uma daquelas msicas de
fogueira que seriam completamente embaraosas na luz do dia; mas no escuro, com
todos participando, era meio que brega e divertido. Conforme o nvel de energia crescia,
as chamas tambm cresciam, virando de vermelho para laranja e para ouro.

       Finalmente a msica acabou com vrios aplausos desordeiros. Um sujeito num
cavalo trotou. Pelo menos na luz bruxuleante, Piper pensou que era um sujeito num
cavalo. Ento ela percebeu que era um centauro -- na metade de baixo era um garanho
branco, na sua metade de cima um sujeito de meia-idade com cabelo cacheado e uma
barba cortada. Ele brandiu uma lana espetada com marshmallows tostados. "Muito
bem! E um bem-vindo especial para nossas novas visitas. Eu sou Quron, diretor do
acampamento e das atividades, e estou feliz que todos vocs chegaram aqui vivos e com
        a maioria dos seus membros fixados. Num momento, prometo que vamos aos
marshmallows, mas primeiro --"

       "E a captura  bandeira?" algum gritou.

       Rosnados romperam entre algumas crianas com armadura, dentando sob um
banner vermelho com o emblema duma cabea de javali.



                                          94
        "Sim," o centauro disse. "Eu sei que o chal de Ares estava ansioso para retornar
 floresta para as nossas atividades regulares."

       "E matar pessoas!" um deles gritou.

       "Porm," Quron disse, "at o drago ser posto sob controle, isso no ser
possvel. Chal Nove, algo para informar a respeito disso?"

       Ele virou para o grupo do Leo. Leo piscou para Piper e atirou nela com uma
arma imaginria. A garota perto dele levantou-se inconfortavelmente. Ela vestia um
casaco do exrcito como o de Leo, com seu cabelo coberto com uma bandana vermelha.
"Estamos trabalhando nisso."

       Mais rosnados.

       "Como, Nyssa?" uma criana de Ares exigiu.

       "Realmente difcil," a garota disse.

         Ela sentou a vrios gritos e reclamaes, que fizeram o fogo crepitar
caoticamente. Quron bateu o casco contra as pedras do poo de fogo -- bang, bang,
bang -- e os campistas silenciaram.

       "Teremos que ser pacientes," Quron disse. "Entretanto, temos questes mais
urgentes a discutir."

       "Percy?" algum perguntou. O fogo escurecia a cada vez, mas Piper no
precisava do nimo das chamas para sentir a ansiedade da multido.

       Quron gesticulou para Annabeth. Ela tomou um flego profundo e levantou.

        "Eu no encontrei Percy," ela anunciou. Sua voz falhou um pouco quando ela
disse seu nome. "Ele no estava no Grand Canyon como pensei. Mas no estamos
desistindo. Temos equipes em todos os lugares. Grover, Tyson, Nico, as Caadoras de
rtemis -- todos esto procurando. Ns vamos encontr-lo. Quron est falando sobre
algo diferente. Uma nova misso."

       " a Grande Profecia, no ?" uma garota gritou.

         Todos viraram. A voz viera de um grupo atrs, sentando sob um banner cor-de-
rosa com uma pomba. Eles estiveram conversando entre eles e no dando muita ateno
at a lder deles se levantar: Drew.

       Todos olharam surpresas. Aparentemente Drew no discutia muito com a
multido.

       "Drew?" Annabeth disse. "O que voc quer dizer?"

                                              95
       "Bem, vamos l." Drew abriu as mos como se a verdade estivesse bvia. "O
Olimpo est fechado. Percy est desaparecido. Hera lhe manda uma viso e voc volta
com trs novos semideuses num dia. Digo, algo estranho est acontecendo. A Grande
Profecia comeou, certo?"

       Piper sussurrou para Rachel, "Sobre o que ela est falando -- a Grande
Profecia?"

       Ento ela percebeu que todos estavam olhando para Rachel, tambm.

       "Ento?" Drew invocou. "Voc  o orculo. Comeou ou no?"

       Os olhos de Rachel pareciam assustados na luz da fogueira. Piper tinha medo
que ela pudesse apertar e comear a canalizar uma estranha deusa-pavo novamente,
mas ela deu um passo  frente calmamente e disse ao acampamento:

       "Sim," ela disse. "A Grande Profecia comeou."

       O pandemnio rompeu.

       Piper pegou o olho do Jason. Ele gesticulou com os lbios, Voc est bem? Ela
assentiu e administrou um sorriso, mas ento desviou o olhar. Era muito doloroso v-lo
e no estar com ele.

       Quando a conversa finalmente baixou, Rachel deu outro passo para a plateia, e
mais de cinquenta semideuses recuaram dela, como se uma mortal ruiva e magra fosse
mais ameaadora que todos eles colocados juntos.

      "Para esses de vocs que no ouviram," Rachel disse, "a Grande Profecia foi
minha primeira profecia. Chegou em Agosto.  assim:



       "Sete meio-sangues atendero ao chamado. Em tempesdade ou fogo, o mundo
ter acabado --"



Jason atirou a seus ps. Seus olhos pareciam selvagens, como se tivesse acabado de ser
acertado por uma arma de eletrochoque.

       At Rachel pareceu pega de surpresa. "J-Jason?" ela disse. "O que est --"

      "Ut cum spiritu postrema sacramentum dejuremus," ele cantou. "Et hostes
ornamenta addent ad ianuam necem."

        Um silncio inquietante estabeleceu-se no grupo. Piper pde ver pelos seus
rostos que vrios deles estavam tentando traduzir as linhas. Ela podia dizer que era
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latim, mas no tinha certeza porque seu esperanosamente futuro namorado estava
subitamente cantando como um sacerdote catlico.

       "Voc acabou de... finalizar a profecia," Rachel gaguejou. "-- Um juramento a
manter com um alento final / E inimigos com armas s Portas da Morte afinal. Como
voc --"

       "Eu conheo essas linhas." Jason tremeu e colocou as mos nas tmporas. "No
sei como, mas eu conheo essa profecia."

       "Em latim, nada menos," Drew gritou. "Bonito e esperto."

       Houve alguns risos do chal de Afrodite. Deus, que bando de perdedores, Piper
pensou. Mas no fazia muito para quebrar a tenso. A fogueira estava queimando uma
tonalidade catica e nervosa de verde.

        Jason sentou, parecendo embaraado, mas Annabeth colocou uma mo no seu
ombro e murmurou algo tranquilizador. Piper sentiu uma pontada de cimes. Devia ser
ela ao lado dele, reconfortando-o.

        Rachel Dare ainda parecia um pouco mexida. Ela olhou para Quron pedindo por
orientao, mas o centauro continuou sorridente e em silncio, como se estivesse
assistindo uma pea que no poderia interromper -- uma tragdia que acabaria com
muitas pessoas mortas no palco.

        "Bem," Rachel disse, tentando recuperar sua compostura. "Ento, , essa  a
Grande Profecia. Espervamos que no pudesse acontecer por anos, mas temo que
esteja comeando agora. No posso provar. S uma sensao. E como Drew disse,
alguma coisa estranha est acontecendo. Os sete semideuses, quem quer que sejam,
ainda no foram reunidos. Tenho a sensao que alguns esto aqui essa noite. Alguns
no."

       Os campistas comearam a agitarem e murmurarem, olhando um para o outro
nervosamente, at uma voz sonolenta na multido gritou, "Estou aqui! Ah... vocs
estavam fazendo chamada?"

       "Volte a dormir, Clovis," algum gritou, e vrias pessoas riram.

        "Entretanto," Rachel continuou, "no sabemos o que a Grande Profecia
significa. No sabemos que desafio os semideuses iro enfrentar, mas como a primeira
Grande Profecia profetizou a Guerra dos Tits, podemos supor que a segunda Grande
Profecia ir profetizar algo pelo menos nesse nvel de maldade."

       "Ou pior," Quron murmurou.

       Talvez ele no quisesse que todos ouvissem, mas ouviram.

                                          97
         A fogueira imediatamente virou roxo escuro, a mesma cor como no sonho de
Piper.

       "O que ns sabemos," Rachel disse, " que a primeira fase comeou. Um
problema maior surgiu, e precisamos de uma misso para resolver isso. Hera, a rainha
dos deuses, foi raptada."

         Silncio chocado. Ento cinquenta semideuses comearam a conversar de vez.

       Quron bateu seu casco novamente, mas Rachel ainda tinha que esperar antes
que pudesse recuperar a ateno deles.

        Ela contou-os sobre o acidente no cu do Grand Canyon -- como Gleeson
Hedge sacrificou-se quando os espritos de tempestade atacaram, e os espritos
alertaram que era s o comeo. Eles aparentemente serviam alguma grande mestra que
destruiria todos os semideuses.

        Ento Rachel contou para eles sobre o desmaio de Piper no chal de hera. Piper
tentou manter uma expresso calma, mesmo quando ela notou Drew na fileira de trs,
pantominando um desmaio, e suas amigas rindo. Finalmente Rachel lhes contou sobre a
viso de Jason na sala de estar da Casa Grande. A mensagem que Hera entregou era to
similar que Piper teve um calafrio. A nica diferena: Hera alertara para Piper no tra-
la: Curve-se ao seu desejo, e o rei deles ir se erguer condenando todos ns. Hera sabia
sobre a ameaa do gigante. Mas se aquilo era verdade, por que ela no alertou Jason, e
exps Piper como uma agente inimiga?

         "Jason," Rachel disse. "H... voc lembra seu ltimo nome?"

         Ele parecia autoconsciente, mas sacudiu a cabea.

       "Vamos s lhe chamar de Jason, ento," Rachel disse. "Est claro que a prpria
Hera lhe expediu uma misso."

       Rachel pausou, como se desse a Jason uma chance de protestar seu destino. Os
olhos de todos estavam nele; havia tanta presso, Piper pensou que teria se curvado na
sua posio. Contudo ele parecia corajoso e determinado. Ele endureceu a mandbula e
assentiu. "Eu concordo."

        "Voc deve salvar Hera para prevenir um grande mal," Rachel continuou.
"Algum tipo de rei a erguer-se. Por motivos que ainda no entendemos, deve acontecer
no solstcio de inverno, somente quatro dias a partir de agora."

       "Esse  o dia do conselho dos deuses," Annabeth disse. "Se os deuses no j
souberam que Hera sumiu, eles definitivamente iro reconhecer sua a ausncia pelo
ento. Eles provavelmente rompero brigando, acusando um ao outro de peg-la.  o
que eles geralmente fazem."
                                            98
        "O solstcio de inverno," Quron falou, "tambm  a hora de maior escurido. Os
deuses se renem nesse dia, como mortais sempre fazem, pois h fora nos nmeros. O
solstcio  um dia quando a magia do mal  forte. Magia antiga, mais velha que os
deuses.  um dia quando as coisas... se agitam."

       O jeito que ele disse isso, agitao soou absolutamente sinistra -- como se
devesse ser um delito de primeiro grau, no algo que voc fez para massa de biscoito.

        "Ok," Annabeth falou, olhando para o centauro. "Obrigada, Capito Sunshine.
Que quer que esteja acontecendo, eu concordou com Rachel. Jason foi escolhido para
liderar essa misso, ento --"

       "Por que ele no foi reclamado?" algum gritou do chal de Ares. "Se ele  to
importante --"

      "Ele foi reclamado," Quron anunciou. "Tempos atrs. Jason, nos d uma
demonstrao."

       A princpio, Jason no pareceu entender. Ele deu um passo para frente
nervosamente, mas Piper no pde deixar de pensar como ele parecia incrvel com seus
cabelos loiros brilhando na luz do fogo, suas feies reais como a de uma esttua
romana. Ele olhou para Piper, e ela assentiu encorajadoramente. Ela fez uma mmica de
arremessar uma moeda.

       Jason colocou uma mo no bolso. Sua moeda cintilou no ar, e quando ele a
pegou em sua mo, ele estava segurando uma lana -- uma haste de ouro de
aproximadamente dois metros, com uma ponta de dardo numa extremidade. Os outros
semideuses ofegaram. Rachel e Annabeth deram um passo para trs para evitar a ponta,
que parecia afiada como um furador de gelo.

       "Isso no era..." Annabeth hesitou. "Pensei que voc tivesse uma espada."

      "H, sobe as extremidades, eu acho," Jason disse. "Mesma moeda, forma de
arma de longo alcance."

       "Rapaz, eu quero uma!" gritou algum do chal de Ares.

       "Melhor que a lana eltrica da Clarisse, cara!" um dos seus irmos concordou.

       "Eltrica," Jason murmurou como se fosse uma boa ideia. "Recuem."

       Annabeth e Rachel entenderam a mensagem. Jason levantou sua lana, e um
trovo rompeu no cu. Todos os cabelos no brao de Piper se eriaram. Um raio
arqueou para baixo atravs do ponto da lana dourada e acertou a fogueira com a fora
de um projtil de artilharia.


                                          99
       Quando a fumaa dissipou, e o zumbido nos ouvidos de Piper diminuiu, o
acampamento inteiro estava congelado em choque, meio cego, coberto de cinzas,
olhando para o lugar onde a fogueia estava. Choveu cinzas de todo o lugar. Um pedao
de lenha queimando empalou-se alguns metros da criana dorminhoca Clovis, que no
tinha nem se mexido.

       Jason baixou sua lana. "H... desculpe."

       Quron limpou algumas brasas queimando na sua barba. Ele fez uma careta
como se seus piores medos fossem confirmados. "Um pouco destruidor, talvez, mas
voc conseguiu o que queria. E acredito que sabemos que seu pai ."

       "Jpiter," Jason disse. "Quero dizer Zeus. Lorde do Cu."

       Piper no pde deixar de sorrir. Fazia perfeito sentido. O deus mais poderoso, o
pai de todos os maiores heris nos mitos antigos -- ningum mais poderia ser
possivelmente o pai de Jason.

      Aparentemente, o resto do acampamento no tinha tanta certeza. Tudo quebrou
em caos, com dzias de pessoas perguntando coisas at Annabeth levantar os braos.

       "Esperem!" ela disse. "Como ele pode ser filho de Zeus? Os Trs Grandes... o
pacto deles de no ter filhos mortais... como no pudemos saber sobre ele antes?"

       Quron no respondeu, mas Piper teve a sensao de que ele sabia. E a verdade
no era boa.

       "A coisa importante," Rachel disse, " que Jason est aqui agora. Ele tem uma
misso para cumprir, o que significa que ele precisar da sua prpria profecia."

        Ela fechou os olhos e desmaiou. Dois campistas correram para a frente e a
pegaram. Um terceiro correu para o lado do anfiteatro e pegou um banco dourado de
trs pernas, como se tivessem sido treinados para essa funo. Eles soltaram Rachel no
banco em frente  fogueira arruinada. Sem o fogo, a noite era escura, mas nvoa verde
comeou a redemoinhar ao redor dos ps de Rachel. Quando ela abriu os olhos, eles
estavam brilhando. Fumaa esmeralda surgiu de sua boca. A voz que saiu era metlica e
antiga -- o som que uma cobra faria se pudesse falar:



       "Criana do raio, cuidado com a terra, A vingana dos gigantes os sete iro
nascer, A forja e a pomba quebraro a priso, E a morte desatrelada pela ira de
Hera."




                                          100
Na ltima palavra, Rachel caiu, mas seus ajudantes estavam esperando para peg-la.
Eles a arrebataram da fogueira e a deitaram no canto para descansar.

        "Isso  normal?" Piper perguntou. Ento ela percebeu que havia falado no
silncio, e todos estavam olhando para ela. "Digo... ela vomita fumaa verde
constantemente?"

       "Deuses, como voc  estpida!" Drew zombou. "Ela acabou de emitir uma
profecia -- a profecia do Jason para salvar Hera! Por que voc simplesmente no --"

        "Drew," Annabeth vociferou. "Piper fez uma pergunta clara. Algo sobre essa
profecia definitivamente no  normal. Se quebrar a priso de Hera libera sua ira e causa
vrias mortes... por que a libertaramos? Pode ser uma armadilha, ou -- ou talvez Hera
v se virar contra seus salvadores. Ela nunca foi gentil com heris."

        Jason levantou. "No tenho muita escolha. Hera pegou minha memria. Preciso
dela de volta. Alm disso, no podemos simplesmente no ajudar a rainha dos cus se
ela est em perigo."

       Uma garota do chal de Hefesto se levantou -- Nyssa, a de bandana vermelha.
"Talvez. Mas voc devia ouvir a Annabeth. Hera pode ser vingativa. Ela jogou seu
prprio filho -- nosso pai -- de um Monte s porque ele era feio."

       "Realmente feio," riu algum de Afrodite.

       "Cale a boca!" Nyssa rosnou. "Em todo o caso, tambm temos que pensar -- por
que tomar cuidado com a terra? E o que  a vingana dos gigantes? Com o que estamos
tratando aqui que  poderoso o bastante para sequestrar a rainha dos cus?"

        Ningum respondeu, mas Piper notou Annabeth e Quron tendo uma troca
silenciosa. Piper pensou que era algo como:

       Annabeth: A vingana dos gigantes... no, no pode ser.

       Quron: No fale disso aqui. No os assuste.

       Annabeth: Voc est brincando comigo! No podemos ser to azarados.

       Quron: Depois, criana. Se voc os contasse tudo, eles estariam muito
aterrorizados para continuar.

       Piper sabia que era loucura pensar que ela podia ler suas expresses to bem --
duas pessoas que ela mal conhecia. Mas ela estava absolutamente positiva que ela os
entendeu, e isso assustou suas jujubas para fora.




                                          101
       Annabeth respirou fundo. " a misso de Jason," ela anunciou, "ento  a
escolha de Jason. Obviamente, ele  a criana do raio. Segundo a tradio, ele pode
escolher dois companheiros quaisquer."

      Algum do chal do Hermes gritou, "Bem, voc obviamente, Annabeth. Voc
tem mais experincia."

       "No, Travis," Annabeth disse. "Primeiro, eu no estou ajudando Hera. Todas as
vezes que tentei, ela me enganou, ou voltou para trapacear depois. Esquea. Sem
chance. Em segundo lugar, a primeira coisa que vou fazer na manh  partir para
encontrar Percy."

      "Est conectado," Piper deixou escapar, sem saber como ela teve coragem.
"Voc sabe que  verdade, no ? Esse negcio completo, o desaparecimento do seu
namorado -- tudo est conectado."

       "Como?" perguntou Drew. "Se voc  to esperta, como?"

       Piper tentou formar uma resposta, mas no conseguiu.

       Annabeth a salvou. "Voc pode estar certa, Piper. Se isso est conectado, vou
descobrir do outro lado -- procurando por Percy. Como disse, no estou prestes a
apressar-me a resgatar Hera, mesmo se seu desaparecimento pe o resto dos olimpianos
lutando novamente. Mas h outro motivo que eu no possa ir. A profecia diz diferente."

        "Diz quem eu escolho," Jason concordou. "A forja e a pomba quebraro a
priso. A forja  o smbolo de Vul -- Hefesto."

       Sob o banner do Chal Nove, os ombros da Nyssa caram, como se lhe foi dada
uma bigorna pesada para carregar. "Voc tem que tomar cuidado com a terra," ela disse,
"voc devia evitar viajar por terra. Voc precisar de transporte areo."

        Piper estava prestes a gritar que Jason podia voar. Mas ento ela pensou melhor
a respeito. Aquilo era para Jason cont-los, e ele no estava voluntariando a informao.
Talvez ele calculasse que j tivera alucinado-os o bastante para uma noite.

       "A biga voadora est quebrada," Nyssa continuou, "e os pgasos, estamos
usando para procurar pelo Percy. Mas talvez o chal do Hefesto possa ajudar
descobrindo algo mais para ajudar. Com Jake incapacitado, sou a campista snior. Posso
voluntariar-me para a misso."

       Ela no soava entusiasmada.

       Ento Leo levantou-se. Ele estivera muito quieto, Piper quase esqueceu que ele
estava ali, o que  totalmente fora do estilo de Leo.


                                          102
       "Sou eu," ele disse.

      Seus companheiros se agitaram. Vrios tentaram empurr-lo de volta ao assento,
mas Leo resistiu.

      "No, sou eu. Eu sei que . Eu tenho uma ideia para o problema do transporte.
Deixem-me tentar. Eu posso resolver isso!"

       Jason estudou-o por um momento. Piper tinha que certeza que ele ia dizer no
para Leo. A ele sorriu. "Comeamos isso juntos, Leo. S parece certo que voc venha
tambm. Se voc nos encontrar uma carona, voc est dentro."

       "Yes!" Leo bateu o punho.

       "Ser perigoso," Nyssa o alertou. "Misria, monstros, sofrimento terrvel.
Possivelmente ningum de vocs voltar vivo."

       "Ah." Subitamente Leo no pareceu to animado. Ento ele lembrou que todos
estavam observando. "Digo... Ah, legal! Sofrimento? Amo sofrimento! Vamos fazer
isso."

       Annabeth assentiu. "Ento, Jason, voc s precisa escolher o terceiro membro da
misso. A pomba --"

      "Ah, absolutamente!" Drew estava de p e brilhando um sorriso a Jason. "A
pomba  Afrodite. Todos sabem disso. Eu sou totalmente sua."

       As mos de Piper cerraram-se. Ela deu um passo  frente. "No."

       Drew virou os olhos. "Ah, por favor, garota lixo. Desista."

       "Eu tive a viso de Hera; no voc. Eu tenho que fazer isso."

       "Qualquer um pode ter uma viso," Drew disse. "Voc s estava no lugar certo
na hora certa." Ela virou para Jason. "Olhe, lutar  tudo bem, suponho. E pessoas que
constroem coisas..." Ela olhou para Leo em desdm. "Bem, suponho que algum tenha
que sujar as mos. Mas voc precisa de charme do seu lado. Eu posso ser muito
persuasiva. Eu poderia ajudar muito."

       Os campistas comearam a murmurou sobre como Drew era bastante
persuasiva. Piper podia ver Drew conquistando-os. At Quron estava coando a barba,
como se a participao de Drew subitamente fizesse sentido para ele.

       "Bem..." Annabeth falou. "Dadas as palavras da profecia --"

        "No!" A prpria voz de Piper soou estranha aos seus ouvidos -- mais insistente
e rica em tom. "Eu tenho que ir."

                                          103
        Ento a coisa mais estranha aconteceu. Todos comearam a assentir,
murmurando que hum, o ponto de vista da Piper fazia sentido tambm. Drew olhou em
volta, incrdula. At algumas das suas prprias campistas estavam assentindo.

       "Sai dessa!" Drew vociferou para a multido. "O que Piper pode fazer?"

        Piper tentou responder, mas sua confiana comeou a se esvair. O que ela podia
oferecer? Ela no era uma lutadora, ou planejadora, ou uma montadora. Ela no tinha
experincia exceto entrar em encrenca e ocasionalmente convencer pessoas a fazer
coisas estpidas.

       E mais, ela era uma mentirosa. Ela precisava ir nessa misso por motivos que
iam alm de Jason -- e se ela fosse ela acabaria traindo todos ali. Ela ouviu aquela voz
no sonho: Execute nossa ordem, e voc pode partir viva. Como ela podia fazer uma
escolha assim -- entre ajudar seu pai e ajudar Jason?

       "Bem," Drew disse presunosamente, "suponho que isso resolve."

        Subitamente ouve uma arfada coletiva. Todos olharam para Piper como se ela
fosse explodir. Ela queria saber o que fez de errado. Ento ela percebeu que havia um
brilho avermelhado ao redor dela.

       "O qu?" ela perguntou.

       Ela olhou sobre si, mas no havia nenhum sinal queimando como o que apareceu
sobre Leo. Ento ela olhou para baixo e ganiu.

       Suas roupas... o que no mundo ela estava vestindo? Ela desprezava vestidos. Ela
no tinha um vestido. Mas agora ela estava adornada num bonito vestido branco sem
mangas que descia aos tornozelos, com um decote em forma de V to baixo que era
totalmente embaraoso. Delicadas braadeiras douradas revolviam seu bceps. Um colar
complexo de mbar, coral, e flores douradas resplandecendo no seu peito, e seu cabelo...

       "Ah, Deus," ela disse. "O que aconteceu?"

        Uma Annabeth aturdida apontou para a adaga de Piper, que estava agora suja de
leo e brilhando, pendurada no seu lado por laos dourados. Piper no queria pux-la.
Ela tinha medo do que veria. Mas sua curiosidade venceu. Ela desembainhou Katoptris
e olhou para seu reflexo na lmina de metal polida. Seu cabelo estava perfeito:
luxuriante, longo e castanho-chocolate, tranado com fitas douradas num lado de forma
que caia no seu ombro. Ela at usava maquiagem, melhor do que Piper jamais iria saber
se produzir -- toques sutis que faziam seus lbios vermelho-cereja e exibia todas as
cores diferentes no seus olhos.

       Ela estava... ela estava...


                                          104
      "Linda," Jason exclamou. "Piper, voc... voc est uma maravilha."

       Sob diferentes circunstncias, aquilo teria sido o momento mais feliz da sua
vida. Mas agora todos estavam olhando para ela como se fosse um fenmeno. O rosto
de Drew estava completo de horror e revulso. "No!" ela gritou. "No  possvel!"

      "No sou eu," Piper protestou. "Eu -- no entendo."

      O centauro Quron dobrou as pernas frontais e inclinou-se para ela, e todos os
campistas seguiram seu exemplo.

        "Saudaes, Piper McLean," Quron anunciou gravemente, como se ele
estivesse falando no seu funeral. "Filha de Afrodite, senhora das pombas, deusa do
amor."




                                        105
Captulo XI
LEO NO FICOU POR PERTO DEPOIS DE PIPER ficar bonita. Certo, era incrvel e tudo
-- Ela usa maquiagem!  um milagre! -- mas Leo tinha problemas para cuidar. Ele
saiu do anfiteatro e correu na escurido, pensando no que havia se metido.

       Ele levantou em frente de um grupo de bravos e fortes semideuses e voluntariou-
se -- voluntariou-se -- a uma misso que provavelmente o mataria.

       Ele no mencionou ver Ta Callida, sua antiga bab, mas assim que ele ouviu
sobre a viso do Jason -- a senhora de vestido preto e xale -- Leo soube que era a
mesma mulher. Ta Callida era Hera. Sua bab do mal era a rainha dos deuses. Coisas
assim realmente podiam fritar seu crebro.

        Ele arrastou-se para a floresta e tentou no pensar sobre sua infncia -- todas as
coisas bagunadas que deixara para a morte da me. Mas ele no pde deixar de pensar.

                                             * * *

Na primeira vez que Ta Callida tentou mat-lo, ele devia ter uns dois anos. Ta Callida
estava olhando ele enquanto sua me estava na oficina mecnica. Ela no era realmente
sua tia,  claro -- s uma das velhinhas na comunidade, uma ta genrica que ajudava a
observar as crianas. Ela cheirava como um presunto cozido-de-mel, e sempre vestia um
vestido de viva com um xale preto.

       "Vamos desc-lo para um cochila," ela disse. "Vamos ver se voc  meu
corajoso pequeno heri, hein?"

       Leo estava sonolento. Ela aninhou-o nos cobertores num monte quente de
vermelhos e amarelos -- travesseiros? A cama era como um cubculo na parede, feita
de tijolos enegrecidos, com uma fenda em metal sobre sua cabea e um buraco
quadrado muito acima, onde ele podia ver as estrelas. Ele lembrou descansar
confortavelmente, agarrando fascas como vaga-lumes. Ele repousou, e sonhou com um
barco feito de fogo, a navegar pelas cinzas. Ele imaginou-se a bordo, navegando pelo
cu. Em algum lugar prximo, Ta Callida sentava na sua cadeira de balano -- nhec,
nhec, nhec -- e cantava uma cano de ninar. Mesmo com dois anos, Leo sabia a


                                           106
diferena entre ingls e espanhol, e ele lembrou sendo confundido porque Ta Callida
estava cantando numa linguagem que era desconhecida.

       Tudo estava bem at sua me vir para casa. Ela gritou e correu para peg-lo,
gritando para Ta Callida, "Como voc pde?" Mas a velha senhora desapareceu.

       Leo lembrou olhar sobre o ombro da me nas chamas ondulando ao redor dos
seus cobertores. S anos depois ele percebeu que estava dormindo numa lareira ardente.

       A coisa mais estranha? Ta Callida no foi impedida sequer banida da casa deles.
Ela apareceu novamente vrias vezes nos prximos anos. Quando Leo tinha trs anos,
ela o deixou brincar com facas. "Voc deve descobrir suas lminas cedo," ela insistia,
"se voc for meu heri algum dia." Leo controlou no matar-se, mas ele teve a sensao
que Ta Callida no teria se importado de um jeito ou de outro.

       Quando Leo tinha quatro, Ta encontrou uma cascavel para ele num pasto
prximo. Ela deu para ele uma vara e encorajou-o a mexer no animal. "Onde est sua
bravura, pequeno heri? Mostre-me que as Moiras estavam certas para lhe escolher."
Leo olhou para aqueles olhos cor-de-mbar, ouvindo o seco shh-shh-ssh do chocalho da
cobra. Ele no podia trazer-se para picar a cobra. No parecia justo. Aparentemente a
cobra sentia o mesmo modo de picar uma criana pequena. Leo podia jurar que olhou
para Ta Callida como, Voc  louca, senhora? Em seguida, ela desapareceu na grama
alta.

        A ltima vez que ela cuidou dele foi quando Leo tinha cinco anos. Ela o trouxe
um pacote de carvo e um bloco de papel. Eles sentaram juntos na mesa de piquenique
atrs do condomnio, sob uma antiga rvore de noz-pec. Enquanto Ta Callida cantava
suas estranhas msicas, Leo desenhava uma pintura do barco que ele vira em chamas,
com velas coloridas e fileiras de remos, uma popa curvada, e um mastro impressionante.
Quando ele quase acabou, prestes a assinar seu nome do jeito que aprendeu no jardim
de infncia, uma ventania arrebatou o desenho. Ele voou para o cu e desapareceu.

       Leo queria chorar. Ele gastou muito tempo naquele desenho -- mas Ta Callida
s cacarejou com desapontamento.

       "No  hora ainda, pequeno heri. Algum dia, voc ter sua misso. Voc
encontrar seu destino, e sua dura jornada finalmente far sentido. Mas primeiro voc
deve encarar vrias dores. Eu lamento por isso, mas heris no podem ser formados de
um jeito diferente. Agora, me faa um fogo, hein? Esquente esses velhos ossos."

        Alguns minutos depois, a me de Leo saiu e gritou em horror. Ta Callida havia
partido, mas Leo estava no meio de um fogo com fumaa. O bloco de papel estava
reduzido a cinzas. Pedaos de carvo tinham derretido numa poa borbulhante de gosma
multicolorida, e as mos de Leo estavam flamejantes, lentamente queimando atravs da

                                         107
mesa de piquenique. Por anos depois, as pessoas no condomnio queriam saber como
algum queimou as impresses dumas mos de cinco anos de idade em dois centmetros
e meio de profundidade na madeira macia.



Agora Leo tinha certeza que Ta Callida, sua bab psictica, era Hera por todo o tempo.
Aquilo a fez, o que -- sua av divina? Sua famlia era ainda mais bagunada do que ele
percebeu.

        Ele pensava se sua me sabia da verdade. Leo se lembrou depois daquela ltima
visita, sua me o colocou para dentro e teve uma longa conversa com ele, mas ele s
entendeu um pouco.

       "Ela no pode voltar de novo." Sua me tinha um rosto lindo com olhos gentis, e
cabelo preto encaracolado, mas ela parecia mais velha do que era por causa do trabalho
duro. As linhas ao redor dos estavam profundamente marcadas. Suas mos estavam
cheias de calos. Ela era a primeira pessoa na famlia a ter ps-graduao da faculdade.
Ela tinha uma licenciatura em engenharia mecnica e podia projetar qualquer coisa,
consertar qualquer coisa, construir qualquer coisa.

        Ningum iria contrat-la. Nenhuma companhia iria lev-la a srio, ento ela
acabou na oficina mecnica, tentando conseguir dinheiro suficiente para suportar os
dois. Ela sempre cheirava a leo de mquina, e quando ela falava com Leo, ela trocava
de espanhol para ingls constantemente -- usando-os como ferramentas
complementares. Levou anos para Leo perceber que nem todos falavam daquele jeito.
Ela at ensinou-o o cdigo Morse como um tipo de jogo, ento eles tocar mensagens um
para o outro quando estavam em quartos diferentes: Eu te amo. Est bem? Coisas
simples assim.

       "No me importo com o que Callida diz," sua me lhe disse. "No me importo
sobre destino e as Moiras. Voc  muito jovem para isso. Voc ainda  meu beb."

       Ela pegou as mos dele, procurando marcas queimadas, mas naturalmente no
havia nenhuma. "Leo, oua-me. Fogo  uma ferramenta, como tudo mais, mas isso 
mais perigoso que o resto. Voc no sabe seus limites. Por favor, me prometa -- sem
fogo at voc conhecer seu pai. Algum dia, mijo, voc ir conhec-lo. Ele explicar
tudo."

        Leo ouvira aquilo desde quando ele podia lembrar. Algum dia ele conheceria o
pai. Sua me no responderia perguntas sobre ele. Leo nunca o conheceu, nunca nem
viu suas fotos, mas ela falava como se ele houvesse partido  loja por algum leite e
voltaria a qualquer minuto. Leo tentava acreditar nela. Algum dia, tudo faria sentido.



                                         108
       Nos anos seguintes, eles foram felizes. Leo quase esqueceu a Ta Callida. Ele
ainda sonhava com o barco voador, mas os outros eventos estranhos pareciam como um
sonho tambm.

       Isso tudo foi  parte quando ele tinha oito anos. Por ento, ele estava gastando
toda hora livre na oficina com a me. Ele sabia como usar as mquinas. Ele podia medir
e fazer contas melhor que a maioria dos adultos. Ele aprendeu a pensar
tridimensionalmente, resolvendo problemas mecnicos de cabea do jeito que sua me
fazia.

       Uma noite, eles ficaram at mais tarde, pois sua me estava terminando um
projeto de broca que ela esperava patentear. Se ela pudesse vender o prottipo, aquilo
poderia mudar suas vidas. Ela finalmente teria descanso.

       Enquanto trabalhava, Leo passava suas ferramentas e lhe contava piadas tolas,
tentando manter sua animao. Ele adorava quando podia faz-la rir. Ela sorriria e diria,
"Seu pai estaria orgulhoso de voc, mijo. Voc ir conhec-lo em breve, tenho certeza."

        O espao de trabalho de sua me era nos fundos extremos da oficina. Era um
pouco assustador na noite, pois eles eram os nicos ali. Todos os sons ecoavam pelo
armazm escuro, mas Leo no se importava enquanto estava com a me. Se ele
passeasse pela oficina, eles sempre poderiam se comunicar com os toques do cdigo
Morse. Sempre que estavam prontos para ir, eles tinham que andar atravs de toda a
oficina, pela sala de espera, e fora para o estacionamento, trancando as portas atrs
deles.

      Aquela noite depois de terminarem, eles chegaram  sala de espera quando sua
me percebeu que ela no estava com as chaves.

      "Engraado." Ela franziu. "Sei que estava com elas. Espere aqui, mijo. S vou
demorar um minuto."

        Ela deu-lhe mais um sorriso -- o ltimo que ele ainda conseguiria -- e voltou
para o armazm.

       Ela s havia ido alguns batimentos cardacos quando a porta interior se fechou.
Ento a porta exterior trancou-se.

       "Me?" O corao de Leo batia. Algo pesado quebrou-se dentro do armazm.
Ele correu para a porta, mas no importava com quanta fora ele empurrasse ou
chutasse, ela no abriria. "Me!" Freneticamente, ele tocou uma mensagem na parede:
Est bem?

       "Ela no pode ouvir voc," uma voz disse.


                                          109
        Leo virou e encontrou-se encarando uma mulher estranha. A princpio ele
pensou que era Ta Callida. Ela estava enrolada em robes negros, com um vu cobrindo
seu rosto.

       "Ta?" ele disse.

      A mulher riu por entre os dentes, um lento som gentil, como se estivesse meio
adormecida. "Eu no sou sua guardi. A mera semelhana  de famlia."

       "O que -- o que voc quer? Onde est minha me?"

       "Er... leal  me. Que legal. Mas voc entende, eu tenho filhos tambm... e eu
entendo que voc ir lutar com eles algum dia. Quando eles tentarem me levantar, voc
ir impedi-los. Eu no posso aceitar isso."

       "Eu no te conheo. Eu no quero lutar com ningum."

       Ela murmurou como uma sonmbula em transe, "Uma sbia escolha."

       Com um calafrio, Leo percebeu que a mulher estava, na verdade, adormecida.
Atrs do vu, seus olhos estavam fechados. Porm mais estranho ainda: suas roupas no
eram feitas de tecido. Elas eram feitas de terra -- lama seca e negra, agitando e
mudando ao redor dela. Seu rosto adormecido e plido era pouco visvel atrs de uma
cortina de p, ele teve a horrvel sensao que ela tinha acabado de se levantar do
tmulo. Se a mulher estava adormecida, Leo queria que ela ficasse desse jeito. Ele sabia
que completamente acordada, ela seria ainda mais terrvel.

      "No posso te destruir ainda," a mulher murmurou. "As Moiras no permitiro.
Mas elas no protegem sua me, e elas no podem me impedir de quebrar seu esprito.
Lembre-se dessa noite, pequeno heri, quando eles pedirem para voc opor-se a mim."

       "Deixe minha me em paz!" Medo cresceu na sua garganta enquanto a mulher
embaralhava-se para frente. Ela movia mais como uma avalanche que uma pessoa, uma
parede escura de terra deslocando-se para ele.

       "Como voc ir me parar?" ela sussurrou.

        Ela andou direto atravs de uma mesa, as partculas do seu corpo remontando no
outro lado.

        Ela pairou sobre Leo, e ele sabia que ela iria passar direto por ele, tambm. Ele
era a nica coisa entre ela e sua me.

       Suas mos pegaram fogo.




                                          110
      Um sorriso sonolento propagou-se pelo rosto da mulher, como se ela j houvesse
ganhado. Leo gritou em desespero. Sua viso ficou vermelha. Chamas lavaram sobre a
mulher trrea, as paredes, as portas trancadas. E Leo perdeu a conscincia.

       Quando ele acordou, estava numa ambulncia.

        A paramdica tentou ser bondosa. Ela lhe disse que o armazm havia sido
queimado. Sua me no havia escapado. A paramdica disse que sentia muito, mas Leo
sentiu um oco. Ele perdeu o controle, assim como sua me alertou. Sua morte era a sua
culpa.

        A polcia logo chegou para peg-lo, e eles no eram to gentis. O incndio
comeou na sala de espera, eles disseram, certo onde Leo estava. Ele sobreviveu por um
milagre, mas que tipo de criana trancava as portas do escritrio da me, sabendo que
ela estava do lado de dentro, e comeava um incndio?

        Mais tarde, seus vizinhos no condomnio contaram  polcia que estranho garoto
ele era. Eles falaram sobre as marcas queimadas de mos na mesa de piquenique. Eles
sempre souberam que havia algo de errado com o filho de Esperanza Valdez.

        Seus parentes no iriam cuidar dele. Sua tia Rosa o chamou de diablo e gritou
para os assistentes sociais levarem-no. Ento Leo foi para sua primeira casa adotiva.
Alguns dias depois, ele fugiu. Algumas casas adotivas duravam mais que outras. Ele
contaria piadas, faria alguns amigos, fingia que nada o incomodava, mas ele sempre
acabada correndo mais cedo ou mais tarde. Era a nica coisa que fazia a dor melhor --
sentir que estava se mexendo, ficando cada vez mas longe das cinzas daquela oficina
mecnica.

       Ele prometeu a si mesmo que nunca mais brincaria com fogo novamente. Ele
no pensava em Ta Callida, ou a mulher dorminhoca enrolada em robes trreos, por um
longo tempo.



Ele estava quase na floresta quando imaginou a voz da Ta Callida: No foi sua culpa,
pequeno heri. Nosso inimigo se levanta.  hora de parar de fugir.

       "Hera," Leo murmurou, "voc nem est aqui, est? Voc est numa priso em
algum lugar."

       No houve resposta.

       Mas agora, pelo menos, Leo entendia alguma coisa. Hera estivera observando-o
durante toda a sua vida. De algum jeito, ela sabia que algum dia ela precisaria dele.
Talvez aquelas Moiras que ela mencionou podiam dizer o futuro. Leo no tinha certeza.
Mas ele sabia que tinha que ir  misso. A profecia do Jason os alertava para tomar
                                         111
cuidado com a terra, e Leo sabia que tinha algo a ver com aquela mulher adormecida na
oficina, enrolada em robes de lama deslocvel.

       Voc encontrar seu destino, Ta Callida prometeu, e sua dura jornada
finalmente far sentido.

       Leo podia entender o que aquele barco voador nos seus sonhos significava. Ele
poderia conhecer seu pai, ou at conseguiria vingar a morte de sua me.

       Mas primeiro as coisas principais. Ele prometeu a Jason uma carona voadora.

      No o barco dos seus sonhos -- ainda no. No era hora de construir algo to
complicado. Ele precisava de uma soluo mais rpida. Ele precisava de um drago.

       Ele hesitou no lado da floresta, olhando na escurido absoluta. Corujas
assobiavam, e algo muito distante silvava como um coro de serpentes.

       Leo se lembrou do que Will Solace lhe disse: Ningum deve entrar na floresta
sozinho, definitivamente no desarmado. Leo no tinha nada -- nenhuma espada,
nenhuma lanterna, nenhuma ajuda.

        Ele olhou atrs para as luzes dos chals. Ele podia dar meia-volta agora e contar
para todos que ele estava brincando. Psiu! Nyssa podia ir  misso em vez dele. Ele
podia ficar no acampamento e aprender a ser parte do chal de Hefesto, mas ele pensava
quanto tempo demoraria a ele parecer seus companheiros de chal -- triste, abatido,
convencido da sua prpria m sorte.

        Elas no podem me impedir de quebrar seu esprito, a mulher adormecida
dissera. Lembre-se dessa noite, pequeno heri, quando eles pedirem para voc opor-se
a mim.

       "Acredite em mim, senhora," Leo murmurou, "eu lembro. E quem quer que seja
voc, vou lhe encarar duramente, estilo-do-Leo."

       Ele respirou profundamente e mergulhou na floresta.




                                          112
Captulo XII
A   FLORESTA NO ERA ALGUM LUGAR          que ele estivera antes. Leo cresceu num
condomnio ao norte de Houston. As coisas mais selvagens que ele j viu eram aquela
cascavel no pasto e sua tia Rosa de camisola, at ser mandado para a Wilderness
School.

      At l, a escola era no deserto. Sem rvores com razes nodosas para tropear.
Sem buracos para cair. Sem ramos moldando sombras escuras e arrepiantes e corujas
olhando para ele com seus grandes olhos refletidos. Essa era a Zona Crepsculo.

        Ele tropeou at ter certeza que ningum nos chal possivelmente poderia v-lo.
Ento ele convocou fogo. Chamas danaram pela ponta dos dedos, formando luz o
suficiente para ver. Ele no tentou manter uma queimada sustentada desde que tinha
cinco, na mesa de piquenique. Desde a morte da me, ele teve muito medo de tentar
qualquer coisa. At o seu fino fogo o fazia sentir-se culpado.

       Ele continuou andando, procurando pistas de drago -- pegadas gigantes,
rvores pisoteadas, trechos de floresta queimada. Algo to grande no podia exatamente
enganar, certo? Mas ele no viu nada. Uma vez ele localizou uma forma grande e
peluda como um lobo ou um urso, mas ela ficou longe do seu fogo, o que estava bom
para Leo.

      Ento, no meio de uma clareira, ele viu a primeira armadilha -- uma cratera de
cem metros de largura cercada com pedras.

       Leo teve que admitir que era bastante ingnuo. No centro da depresso, um
tanque de metal do tamanho de um ofur que foi cheio com um escuro lquido
borbulhante -- molho de pimenta e leo de motor. Num pedestal suspendido sobre o
tanque, um ventilador eltrico rodava num crculo, propagando a fumaa pela floresta.
Drages de metal podiam sentir cheirar?"

        O tanque parecia estar desguardado. Mas Leo chegou perto, e na luz turva das
estrelas e seu fogo de mo, ele pde ver o claro de metal abaixo da sujeira e folhas --
uma rede de bronze alinhando a cratera inteira. Ou talvez ver no fosse a palavra certa
-- ele podia sentir que estava l, como se o mecanismo estivesse emitindo calor,
revelando-se a ele. Seis grandes tiras de bronze estendiam a partir do tanque como os

                                          113
traves de uma roda. Elas seriam sensveis  presso, Leo pensou. Assim que o drago
pisasse em um, a rede iria saltar fechando-se, e voil -- um monstro embrulhado para
presente.

        Leo moveu-se para mais perto. Ele colocou o p no gatilho de tira mais prximo.
Como esperava, nada aconteceu. Eles deviam ter colocado a rede para algo realmente
pesado. Caso contrrio, eles poderiam pegar um animal, humano, monstro menor, seja o
que for. Ele duvidou que houvesse algo mais pesado que um drago de metal naquela
floresta. Pelo menos, ele esperou que no houvesse.

       Ele desceu na cratera e aproximou-se do tanque. A fumaa estava quase
dominando, e seus olhos comearam a molhar. Ele se lembrou da vez que Ta Callida
(Hera, seja o que for) fez para ele um pouco de jalapeos na cozinha e ele deixou cair o
suco nos olhos. Dor sria. Mas  claro que ela ficou como, "Suporte, pequeno heri. Os
astecas da ptria de sua me costumavam punir crianas ms detendo-os sobre fogo
cheio de pimentas. Eles levantaram vrios heris desse jeito."

        Uma psico total, aquela mulher. Leo se sentia to feliz que estava numa misso
para resgat-la.

       Ta Callida teria amado esse tanque, pois era um jeito pior que suco de jalapeo.
Leo procurou por um gatilho -- algo que desarmaria a rede. Ele no viu nada.

       Ele teve um momento de pnico. Nyssa disse que haviam vrias armadilhas
assim na floresta, e eles estavam planejando mais. E se o drago j pisou em alguma
outra? Como Leo poderia possivelmente encontrar todas elas?

      Ele continuou a procurar, mas no encontrou nenhum mecanismo liberado.
Nenhum boto largo identificvel. Ocorreu a ele que no poderia haver um. Ele
comeou a desanimar -- e ento ele ouviu o som.

        Era mais como um tremor -- o tipo de estranho profundo que voc ouve melhor
nas tripas do que nos ouvidos. Isso lhe deixou nervoso, mas ele no olhou em volta
procurando a fonte. Ele s continuou examinando a armadilha, pensando, Deve ser um
longo caminho. Ele est indo no caminho atravs da floresta. Melhor ter pressa.

       Ento ele ouviu um bufo grave, como fumaa forada para fora de um barril
metlico.

        Seu pescoo formigou. Ele virou lentamente. Na borda da cratera, a quinze
metros, dois olhos vermelhos brilhantes estavam olhando para ele. A criatura brilhava
na luz da lua, e Leo no podia acreditar que algo daquele tamanho havia se deslocado
para ele to rpido. Tarde demais, ele percebeu que sua viso estava fixada no fogo em
sua mo, e ele extinguiu as chamas.


                                          114
        Ele ainda podia ver o drago muito bem. Tinha aproximadamente uns dezoito
metros de comprimento, focinho at a calda, seu corpo se fazia de placas de bronze
interligadas. Suas garras eram do tamanho de facas de aougueiro, e sua bota era
alinhada com centenas de adagas afiadas. Fumaa saia de suas narinas. Rosnou como
uma motosserra cortando uma rvore. Podia ter mordido Leo na metade facilmente, ou
esmag-lo liso. Era a coisa mais bonita que Leo j vira, exceto por um problema que
arruinava completamente seu plano.

       "Voc no tem asas," Leo disse.

       O rosnado do drago morreu. Ele inclinou a cabea como se dissesse, Por que
voc no est fugindo de terror?

       "Ei, sem ofensas," disse Leo. "Voc  incrvel! Santo Deus, quem fez voc?
Voc  hidrulico ou nuclear ou o qu? Mas se fosse eu, eu teria colocado asas em voc.
Que tipo de drago no tem asas? Suponho que talvez voc seja muito pesado para
voar? Eu devia ter pensado nisso."

        O drago bufou, mais confuso agora. Ele devia atropelar Leo. Essa conversa no
fazia parte do plano. Ele deu um passo para frente, e Leo gritou, "No!"

       O drago rosnou novamente.

       " uma armadilha, crebro de bronze," Leo disse. "Eles esto tentando captur-
lo."

        O drago abriu a boca e soprou fogo. Uma coluna de chamas brancas e quentes
ondearam sobre Leo, mais do que ele j tentou suportar antes. Ele sentiu como se
houvesse sido regado no cho com um poderoso regador de fogo. Ardeu um pouco, mas
ele ficou no cho. Quando as chamas morreram, ele estava perfeitamente bem. At suas
roupas estavam bem, o que Leo no entendeu, mas por enquanto ele estava grato. Ele
gostava da sua jaqueta do exrcito, e ter suas calas queimadas seria muito embaraoso.

       O drago olhou para Leo. Seu rosto no mudou realmente, sendo feito de metal e
tudo, mas Leo pensou que podia ler sua expresso. Por que nenhum cereal crocante?
Uma fasca voou do seu pescoo como se estivesse prestes a dar curto-circuito.

       "Voc no pode me queimar," Leo disse, tentando soar firme e calmo. Ele nunca
teve um cachorro antes, mas ele conversava com o drago do jeito que ele pensava que
voc conversaria com um cachorro. "Fique, garoto. No chegue mais perto. Eu no
quero que voc seja pego. Veja, eles acham que voc est quebrado e tem que ser
jogado fora. Mas eu no acredito nisso. Eu posso te consertar se voc me deixar --"

      O drago rangeu, rugiu, e carregou. A armadilha saltou. O cho da cratera entrou
em erupo com um som como tampas de latas de lixo batendo juntas. Sujeira e folhas

                                         115
voaram, a rede de metal cintilando. Leo foi tirado de cima dos ps, virado de cabea
para baixo, e temperado em molho de pimenta e leo. Ele achou-se imprensado entre o
tanque e o drago enquanto ele se debatia, tentando livrar-se da rede que se enrolara em
volta deles.

       O drago cuspiu fogo em todas as direes, acendendo o cu e colocando
rvores em chamas. leo e molho queimavam sobre eles. No feriu Leo, mas deixou
um sabor desagradvel na boca dele.

       "Voc vai parar com isso!" ele gritou.

       O drago continuou enroscando-se. Leo percebeu que seria esmagado se no
mexesse. No era fcil, mas ele conseguiu esquivar-se de entre o drago e o tanque. Ele
se contorceu no caminho pela rede. Felizmente, os buracos eram grandes o bastante para
uma criana magra.

       Ele correu para a cabea do drago. Ele tentava abocanh-lo, mas seus dentes
estavam emaranhados na malha. Ele cuspiu fogo de novo, mas parecia estar ficando sem
energia. Dessa vez as chamas eram s laranjas. Elas crepitaram mesmo antes de
alcanar o rosto de Leo.

       "Oua, cara," Leo disse, "assim voc s mostra para eles onde est. Ento eles
viro com o cido e cortadores de metal.  isso que voc quer?"

       A mandbula do drago emitiu um rangido, como se tentasse conversar.

       "Ok, ento," Leo disse. "Voc ter que confiar em mim."

       E Leo colocou-se  trabalhar.

       Tomou-lhe quase uma hora para encontrar o painel de controle. Estava bem atrs
da cabea do drago, o que fazia sentido. Ele optou por manter o drago na rede, pois
era mais fcil trabalhar com o drago constrangido, mas o drago no gostou disso.

       "Fique parado!" Leo resmungou.

       O drago fez outro rangido que devia ser um choro.

        Leo examinou os fios dentro da cabea do drago. Ele foi distrado por um som
na floresta, mas quando foi olhar era s um esprito de rvore -- uma drade, Leo achou
que eram chamadas -- apagando as chamas de seus ramos. Felizmente, o drago no
comeara um incndio total na floresta, mas mesmo assim a drade no estava muito
satisfeita. O vestido da garota estava fumegando. Ela abafou as chamas com um
cobertor de seda, e quando ela percebeu que Leo estava olhando para ela, ela fez um
gesto que era provavelmente um gesto muito rude em drade. Ento ela desapareceu
num puf verde de nvoa.

                                          116
       Leo voltou sua ateno  fiao. Era ingnuo, definitivamente, e fazia sentido
para ele. Esse era o rel de controle do motor. Ele processava a entrada de dados
sensorial dos olhos. Esse disco...

       "R," ele disse. "Bem, no me admira."

       Rangido? o drago perguntou com a mandbula.

        "Voc tem um disco de controle corrodo. Provavelmente regula seus maiores
circuitos de raciocnio, certo? Crebro enferrujado, cara. No me admira que voc esteja
um pouco... confuso." Ele quase disse louco, mas se segurou. "Eu gostaria de ter um
disco de substituio, mas... essa  uma pea complicada dos circuitos. Terei que tir-la
e limp-la. Durar um minuto." Ele tirou o disco, e o drago ficou absolutamente
quieto. O brilho morreu nos seus olhos. Leo escorregou para suas costas e comeou a
polir o disco. Ele limpou um pouco de leo e molho de pimenta com a manga, o que
permitiu limpar sujeira, porm por mais que ele limpasse, mais aflito ele ficava. Alguns
dos circuitos estavam alm do reparo. Ele podia torn-los melhores, mas no perfeitos.
Para aquilo, ele precisaria de um disco completamente novo, e ele no tinha ideia de
como construir um.

       Ele tentou trabalhar rapidamente. Ele no tinha certeza por quanto tempo o disco
de controle do drago poderia ficar fora sem ser danificado -- talvez para sempre --
mas ele no queria arriscar. Quando ele fez o melhor que pde, ele subiu novamente
para a cabea do drago e comeou a limpar os fios e as caixas de velocidade, ficando
imundo no processo.

        "Mos limpas, equipamento sujo," ele murmurou, algo que sua me costumava
dizer. No momento em que havia completado, suas mos estavam pretas de graxa e suas
roupas pareciam como se houvesse acabado de perder um concurso de luta na lama, mas
os mecanismos pareciam muito melhores. Ele enfiou o disco, conectou o ltimo fio, e
fascas voaram. O drago estremeceu. Seus olhos comearam a brilhar.

       "Melhor?" Leo perguntou.

       O drago fez um barulho como uma broca em alta velocidade. Ele abriu sua
boca e todos os seus dentes giraram.

       "Suponho que seja um sim. Espere, vou lhe libertar."

        Outros trinta minutos para os ganchos de liberao da rede e desemaranhar o
drago, mas finalmente levantou-se e sacudiu o ltimo pedao de rede das costas. Ele
rugiu triunfantemente e atirou fogo no cu.

       " srio," Leo disse. "Voc poderia no se exibir?"

       Rangido? o drago perguntou.
                                          117
         "Voc precisa de um nome," Leo decidiu. "Vou lhe chamar de Festus."

         O drago chiou os dentes e sorriu. Pelo menos Leo esperou que fosse um sorriso.

         "Legal," Leo disse. "Mas ns ainda temos um problema, porque voc no tem
asas."

        O drago inclinou a cabea e bufou fumaa. Ento ele abaixou as costas num
gesto inconfundvel. Ele queria que Leo subisse.

         "Para onde vamos?" Leo perguntou.

       Mas ele estava animado demais para uma resposta. Ele subiu nas costas do
drago, e Festus pulou na floresta.

                                              * * *

Leo perdeu a noo do tempo e todo o senso de direo. Parecia impossvel que a
floresta fosse to profunda e selvagem, mas o drago viajou at as rvores parecerem
arranha-cus e a cobertura de folhas riscarem completamente as estrelas. Nem o fogo na
mo do Leo podia clarear o caminho, mas os olhos brilhantes do drago agiam como
holofotes.

        Finalmente, eles cruzaram um crrego e foram para um beco sem sada, uma
falsia de calcrio de trinta metros de altura -- uma massa lisa e slida.

         Festus parou na base e suspendeu uma pata como um cachorro apontando.

       "O que  isso?" Leo deslizou ao cho. Ele andou at a falsia -- nada a no ser
rocha slida. O drago continuou apontando.

         "Ela no vai sair do seu caminho," Leo lhe disse.

        O fio solto no pescoo do drago faiscou, mas de outro modo ele ficou parado.
Leo colocou a mo na falsia. Subitamente seus dedos arderam. Linhas de fogo
propagaram-se da ponta deles como plvora inflamada, chiando pelo calcrio. As linhas
ardentes correram pela superfcie da falsia at contornarem uma porta vermelha
brilhante cinco vezes mais alta que Leo. Ele recuou e a porta virou, perturbadoramente
silenciosa para uma placa de rocha.

        "Perfeitamente balanceada," ele murmurou. "Essa  uma engenharia de primeira
classe."

         O drago descongelou e marchou para frente, como se estivesse voltando para
casa.



                                            118
       Leo passou, e a porta comeou a fechar. Ele teve um momento de pnico,
lembrando aquela noite na oficina mecnica tempos atrs, quando ele foi preso do lado
de dentro. E se ele ficasse preso aqui? Mas ento luzes cintilaram -- uma combinao
de fluorescentes eltricas e tochas montadas nas paredes. Quando Leo viu a caverna, ele
esqueceu sobre partir.

       "Festus," ele murmurou. "O que  esse lugar?"

        O drago entrou rapidamente ao centro da sala, deixando pegadas na poeira
grossa, e espiralou numa grande plataforma circular.

        A caverna era do tamanho do hangar de um avio, com mesas de trabalho sem
fim e cofres de armazenamento, fileiras de portas do tamanho de garagens ao longo de
cada parede, e escadarias que levavam para uma rede de passarelas altas acima.
Equipamentos estavam em todo o lugar -- elevadores hidrulicos, tochas de soldagem,
trajes de risco, espadas areas, empilhadeiras, e mais algo que parecia suspeitamente
uma cmara de reao nuclear. Quadros de aviso estavam cobertos com diagramas
esfarrapados e desbotados. E armas, armaduras, escudos -- suprimentos de guerra em
todos os lugares, vrios s parcialmente terminados.

       Pendurada em correntes muito acima da plataforma do drago havia um banner
antigo e esfarrapado quase desbotado demais para ler. As letras eram gregas, mas Leo
de algum jeito sabia o que dizia: carvoeira 9.

       Aquilo significa nove como o chal de Hefesto, ou nove como havia outras oito?
Leo olhou para Festus, ainda espiralado na plataforma, e ocorreu a ele que o drago
parecia to contente porque era a sua casa. Ela provavelmente foi construda naquele
bloco.

       "As outras crianas sabem...?" A pergunta do Leo morreu quando ele a fez.
Claramente, esse lugar esteve abandonado por dcadas. Teias de aranha e poeira
cobriam tudo. O cho no revelava pegadas, exceto pelas suas, e as impresses da pata
do drago. Ele era o primeiro naquela carvoeira desde... desde muito tempo atrs.
Carvoeira 9 foi abandonada com vrios projetos finalizados pela metade nas mesas.
Trancada e esquecida, mas por qu?

       Leo olhou para um mapa na parede -- um mapa de batalha do acampamento,
mas o papel estava to rasgado e amarelo como casca de cebola. Uma data embaixo lia-
se, 1864.

       "Sem chance," ele murmurou.

       Ento ele localizou um diagrama num quadro de avisos prximo, e seu corao
quase saltou da garganta. Ele correu para a mesa de trabalho e olhou um desenho de
linha branco quase desbotado alm do reconhecimento: um navio grego de vrios

                                         119
diferentes ngulos. Palavras fracamente rabiscadas abaixo dele lia: profecia? obscuro.
voo?

       Era o navio que ele viu nos seus sonhos -- o navio voador. Algum tentou
construi-lo aqui, ou pelo menos esboou a ideia. Ento ela foi deixada, esquecida... uma
profecia ainda a vir. E o mais estranho de tudo, o mastro do navio era exatamente como
o que Leo desenhou quando tinha cinco anos -- a cabea de um drago. "Parece voc,
Festus," ele murmurou. " arrepiante."

       O mastro lhe deu uma sensao inquietante, mas a mente de Leo girou com
vrias outras perguntas pra pensar por muito tempo. Ele tocou o diagrama, esperando
que pudesse baixar para estudar, mas o papel crepitou ao seu toque, ento ele deixou-o
em paz. Ele olhou em volta procurando outras pistas. Sem barcos. Sem peas que
pareciam parte desse projeto, mas haviam tantas portas e despensas para explorar.

       Festus bufou como se estivesse tentando conseguir a ateno do Leo, fazendo-
lhe lembrar de que eles no tinham a noite toda. Era verdade. Leo calculou que seria de
manh em algumas horas, e ele ficou completamente desviado. Ele salvou o drago,
mas no iria ajud-lo na misso. Ele precisava de algo que voasse.

       Festus cutucou algo nele -- um cinto de ferramentas de couro que foi deixado ao
lado do seu bloco de construo. Ento o drago ligou os feixes brilhantes dos olhos e
virou-os em direo ao teto. Leo olhou para onde as luzes estavam apontando, e ganiu
quando reconheceu as formas penduradas sobre eles na escurido.

       "Festus," ele disse numa voz baixa. "Temos trabalho a fazer."




                                          120
Captulo XIII
JASON SONHOU COM LOBOS.

       Ele estava numa clareira no meio de uma floresta de paus-brasil. Na frente dele
cresciam as runas de uma manso de pedra. Nuvens cinza baixas misturavam com a
nvoa do cho, e chuva fria caia no ar. Uns grupos de grandes animais cinza andavam
ao redor dele, roando nas suas pernas, rosnando e mostrando os dentes. Eles
gentilmente o cutucaram para as runas.

       Jason no tinha desejo de virar o maior biscoito de cachorros do mundo, ento
decidiu fazer o que eles queriam.

       O cho esmagava-se sob suas botas enquanto ele caminhava. Torres de pedra de
chamins, no mais ligadas em alguma coisa, erguiam-se como totens. A casa devia ter
sido enorme alguma vez, feita com slidas paredes de madeira e um telhado alto e com
um cata-vento, mas agora nada fazia permaneceu a no ser seu esqueleto de pedra.
Jason passou sob uma porta desintegrada e achou-se num tipo de ptio.

       Em frente a ele havia um tanque vazia refletiva, grande e retangular. Jason no
pde estimar a profundidade, pois o fundo estava cheio de nvoa. Uma trilha suja
levava por todo o caminho em volta, e as paredes irregulares da casa cresciam em cada
lado. Lobos passavam sob a arcada de pedra vulcnico, vermelha e dura.

       No distante fim do tanque sentava uma loba gigante, alguns metros mais alta que
Jason. Seus olhos brilhavam pratas na nvoa, e seu pelo era da mesma cor das rochas --
vermelho achocolatado quente.

       "Eu conheo esse lugar," Jason disse.

       A loba reparou nele. Ela no falou exatamente, mas Jason pde entend-la. Os
movimentos das orelhas e dos bigodes, o brilho dos olhos, o jeito que ela curvava os
lbios -- tudo fazia parte da sua linguagem.

      Naturalmente, a loba disse. Voc comeou sua jornada aqui como um pupilo.
Agora voc deve encontrar seu caminho de volta. Uma misso, um novo comeo.

       "Isso no  justo," Jason disse. Mas assim que falou isso, ele soube que no
havia sentido se queixar com a loba.
                                         121
      Lobos no sentiam simpatia. Eles nunca esperavam justia. A loba disse:
Conquiste ou morra. Esse  sempre o nosso modo.

       Jason queria protestar que ele no podia conquistar se no soubesse quem era, ou
onde ele devia estar. Mas ele conhecia essa loba. Seu nome era simplesmente Lupa, a
Me Lobo, a maior da sua espcie. Tempos atrs ela encontrou-o nesse lugar, o
protegeu, o alimentou, o escolheu, mas se Jason mostrasse fraqueza, ela iria rasg-lo em
farrapos. Antes de ser seu pupilo, ele iria se tornar o seu jantar. No bando de lobos,
fraqueza no era uma opo.

       "Voc pode me guiar?" Jason perguntou.

       Lupa fez um barulho de ronco profundamente na sua garganta, e a nvoa no
tanque dissolveu.

        A princpio Jason no tinha certeza do que via. No lado oposto do tanque, duas
espirais obscuras entraram em erupo do cho de cimento como as brocas de algumas
mquinas de tunelamento furando atravs do cho. Jason no podia dizer se as espirais
eram feitas de rocha ou parreiras petrificadas, mas elas estavam formadas de gavinhas
grossas que vinham juntas num ponto ao topo. Cada espiral tinha aproximadamente um
metro e meio de altura, mas no eram idnticas. A mais prxima do Jason era mais
escura e parecia como uma massa slida, suas gavinhas fundidas juntas. Enquanto ele
observava, elas ergueram um pouco mais da terra e expandiram-se um pouco mais
largas.

       No lado de Lupa do tanque, as gavinhas da segunda espiral estavam mais
abertas, como as barras de uma cela. Dentro, Jason podia ver vagamente uma figura
nevoenta lutando, descolando-se nos seus confinamentos.

       "Hera," Jason disse.

       A loba rosnou em concordncia. Os outros lobos circularam o tanque, seus pelos
levantados nas costas enquanto rosnavam para as espirais.

       A inimiga escolheu esse lugar para acordar seu filho mais poderoso, o rei
gigante, Lupa disse. Nosso lugar sagrado, onde semideuses so reclamados -- o lugar
de morte ou vida. A casa queimada. A casa do lobo.  uma abominao. Voc deve
par-la.

       "Ela?" Jason estava confuso. "Voc quer dizer, Hera?"

       A loba rangeu os dentes impacientemente. Use seus sensos, pupilo. Eu no me
importo com Juno, mas se ela cair, nossa inimiga ir se erguer. E esse ser o fim para
todos ns. Voc conhece esse lugar. Voc pode encontr-lo novamente. Limpe nossa
casa. Pare isso antes que seja muito tarde.

                                          122
       A espiral escura cresceu um pouco mais, como o bulbo de alguma flor horrvel.
Jason sentiu que se abrisse, isso iria soltar algum que ele no queria encontrar.

       "Quem sou eu?" Jason perguntou  loba. "Pelo menos me diga isso."

        Lobos no tm muito senso de humor, mas Jason podia dizer que a pergunta
divertiu Lupa, como se Jason fosse um filhote tentando colocar suas garras para fora,
praticando para ser o alfa.

       Voc  nossa graa salvadora, como sempre. A loba curvou o lbio, como se
acabasse de fazer uma piada esperta. No falhe, filho de Jpiter.




                                        123
Captulo XIV
JASON ACORDOU AO SOM DO TROVO. Ento ele lembrou onde estava. Sempre estava
trovejando no Chal Um.

       Sobre sua cama, o teto abobadado estava decorado com um mosaico azul-e-
branco como um cu nebuloso. Os azulejos da nuvem moviam-se pelo teto, mudando de
branco para preto. Trovo ribombava pelo quarto, e azulejos dourados brilhavam como
veias de relmpago.

        Exceto pela cama que os outros campistas trouxeram para ele, o chal no tinha
mveis normais -- sem cadeiras, mesas, ou aparadores. At onde Jason podia falar, no
tinha nem um banheiro. As paredes eram esculpidas com alcovas, cada segurando um
braseiro de bronze ou uma esttua dourada de guia num pedestal de mrmore. No
centro do quarto, havia uma esttua colorida de seis metros de altura de Zeus em
clssicos robes gregos em p com um escudo no seu lado e um relmpago erguido,
pronto para atingir algum.

       Jason estudou a esttua, procurando algo que tivesse em comum com o Lorde do
Cu. Cabelo escuro? No. Expresso zangada? Bem, talvez. Barba? No, obrigado. Nos
seus robes e sandlias, Zeus parecia um bfalo, um hippie raivoso.

        Chal Um. Uma grande honra, os outros campistas lhe disseram. Certo, se
voc gostasse de dormir num templo frio por si mesmo com um Zeus Hippie olhando
carrancudo para voc a noite toda.

        Jason se levantou e esfregou o pescoo. Seu corpo inteiro estava inflexvel por
causa do sono mau e atraindo raios. Aquele pequeno truque na noite passada no foi to
fcil quanto ele deixou parecer. Quase havia lhe feito desmaiar.

        Perto da cama, novas roupas foram dispostas para ele: jeans, sapatilhas, e uma
camisa laranja do Acampamento Meio-Sangue. Ele definitivamente precisa de uma
troca de roupas, mas olhando para sua camisa roxa esfarrapada, ele estava relutante em
trocar. Sentia-se errado de algum jeito vestindo a camisa do acampamento. Ele ainda
no podia acreditar que ele era daqui, apesar de tudo que lhe contaram.

       Ele pensou sobre o sonho, esperando que mais memrias voltassem para ele
sobre Lupa, ou aquela casa arruinada nos paus-brasil. Ele sabia que esteve ali antes. A

                                         124
loba era real. Mas sua cabea doa quando ele tentava lembrar. As marcas no seu
antebrao pareciam queimar.

      Se ele pudesse encontrar aquelas runas, ele poderia encontrar seu passado. O
que quer que estivesse crescendo dentro daquela espiral de rocha, Jason tinha que par-
la.

       Ele olhou para o Zeus Hippie. "Voc  bem-vindo para ajudar."

       A esttua no disse nada.

       "Obrigado, papai," Jason murmurou.

        Ele trocou de roupa e viu seu reflexo no escudo do Zeus. Seu rosto parecia
molhado e estranho no metal, como se estivesse dissolvendo num tanque de ouro.
Definitivamente ele no parecia to bom quanto Piper esteve na noite anterior depois de
ser subitamente transformada.

       Jason ainda no sabia como se sentia sobre isso. Ele agiu como um idiota,
anunciando em frente a todos que ela estava uma maravilha. Como que houvesse algo
errado com ela antes. Certo, ela parecia incrvel depois de Afrodite dar um tiro nela,
mas ela tambm no parecia com si mesma, desconfortvel com a ateno.

      Jason sentiu-se mal por ela. Talvez fosse loucura, considerando que ela havia
acabado de ser reclamado por uma deusa e se transformado na garota mais
deslumbrante do acampamento.

       Todos estavam comeando a bajul-la, lhe dizendo como era ela incrvel e como
era bvio que ela deveria ir  misso -- mas aquela ateno no tinha nada a ver com
ela. Novo vestido, nova maquiagem, aura rosa brilhante, e bum: subitamente as pessoas
gostavam dela. Jason se sentiu como se entendesse isso.

       Na ltima noite quando ele atraiu o raio, a reao dos outros campistas pareceu
familiar a ele. Ele tinha bastante certeza que esteve lidando com aquilo por um longo
tempo -- pessoas olhando para ele em temor s porque era filho de Zeus, tratando-lhe
como especial, mas isso no tinha nada a ver com ele. Ningum se importava com ele,
s o seu grande pai assustador ficando atrs dele com seu raio do Juzo Final, como se
dissesse, Respeite esse garoto ou coma voltagem!

       Depois da fogueira, quando as pessoas comearam a voltar aos seus chals,
Jason havia ido at Piper e formalmente lhe pedido para vir com ele na misso.

       Ela ainda estava num estado de choque, mas assentiu, esfregando os braos, o
que devia ser bastante frio naquele vestido sem mangas.



                                         125
      "Afrodite pegou meu casaco de snowboard," ela murmurou. "Assaltada pela
minha prpria me."

      Na primeira fila do anfiteatro, Jason encontrou um cobertor e o enrolou ao redor
dos ombros dela. "Vamos lhe arranjar um novo casaco," ele prometeu.

       Ela controlou um sorriso. Ele queria embrulh-la nos seus braos, mas refreou-
se. Ele no queria que ela pensasse que ele era to superficial quanto todo o resto --
tentando fazer um movimento para ela s porque havia ficado toda bonita.

        Ele estava feliz que Piper ia  misso com ele. Jason tentou agir corajoso na
fogueira, mas era s isso -- um ato. A idia de ir contra uma fora maligna poderosa o
bastante para raptar Hera o assustava como tolo, especialmente porque ele no sabia seu
passado. Ele precisaria de ajuda, e tinha certeza: Piper deveria estar com ele. Mas as
coisas j eram complicadas sem perceber o quanto ele gostava dela, e por qu. Ele j
bagunava a sua cabea demais.

        Ele deslizou aos novos sapatos, pronto para sair daquele chal frio e vazio. Ento
ele localizou algo que no havia notado na noite anterior. Um braseiro foi movido de
uma das alcovas para criar um lugar de dormir, com um saco de dormir, uma mochila,
at algumas fotos coladas na parede.

        Jason se aproximou. Quem quer que tenha dormido ali, foi a um longo tempo
atrs. O saco de dormir estava mofado. A mochila estava coberta com uma pelcula fina
de p. Algumas fotos uma vez coladas na parede haviam perdido a viscosidade e cado
no cho.

       Uma foto mostrava Annabeth -- muito mais nova, talvez com oito, mas Jason
podia dizer que era ela: o mesmo cabelo loiro, olhos cinzentos, o mesmo olhar distrado
como se estivesse pensando em milhes de coisas de uma vez. Ela estava perto de um
cara com cabelo arenoso de aproximadamente catorze ou quinze, com um sorriso
maldoso e uma armadura de couro esfarrapada sobre uma camiseta. Ele estava
apontando para um beco atrs deles, como se dissesse ao fotgrafo, Vamos encontrar
coisas num beco escuro e mat-las! Uma segunda foto mostrava Annabeth e o mesmo
cara sentados na fogueira, rindo histericamente.

        Finalmente Jason levantou uma foto que tinha cado. Era uma tira de fotos como
se voc as pegasse numa cabine de fotos faa-voc-mesmo: Annabeth e o cara de cabelo
arenoso, mas com outra garota entre eles. Ela tinha aproximadamente quinze, com
cabelo escuro -- cortado como o da Piper -- uma jaqueta preta de couro, e joias
prateadas, de forma que ela parecia uma vndala; mas ela estava dando meio que uma
risada, e estava claro que ela estava com seus dois melhores amigos.

       "Essa  Thalia," algum disse.

                                           126
       Jason virou.

       Annabeth estava olhando sobre seu ombro. Sua expresso era triste, como se a
foto lhe trouxesse de volta memrias difceis. "Ela  a outra filha do Zeus que viveu
aqui -- mas no por muito tempo. Desculpe, eu devia ter batido."

       "Est bem," Jason disse. "No como se eu pensasse nesse lugar como casa."

       Annabeth estava vestida para viagem, com um casaco de inverno sobre suas
roupas do acampamento, sua faca no cinto, e uma mochila nos ombros.

       Jason disse, "No diga que voc mudou de ideia em vir conosco?"

       Ela balanou a cabea. "Voc j tem um bom time. Estou fora para procurar pelo
Percy."

        Jason ficou um pouco desapontado. Ele apreciaria ter algum na viagem que
soubesse o que eles estavam fazendo, ento ele no iria sentir como se estivesse levando
a Piper e o Leo para um penhasco.

       "Ei, vocs vo ficar bem," Annabeth prometeu. "Algo me diz que essa no  a
sua primeira misso."

        Jason teve uma vaga suspeita de que ela estava certa, mas aquilo no lhe fazia
sentir-se melhor. Todos pareciam achar que ele era to corajoso e confiante, mas eles
no viam como ele se sentia perdido. Como eles podiam confiar nele quando ele nem
mesmo sabia quem era?

       Ele olhou para as fotos da Annabeth sorrindo. Ele se perguntou a quanto tempo
foi desde que ela sorriu. Ela devia gostar mesmo do Percy para procur-lo tanto, e
aquilo dava um pouco de inveja no Jason. Algum estava procurando por ele nesse
exato momento? E se algum se importasse com ele tanto que estivesse perdendo a
cabea de preocupao, e ele no podia nem lembrar da sua vida antiga?

       "Voc sabe que eu sou," ele sups. "No sabe?"

        Annabeth apertou o punho de sua faca. Ela procurou uma cadeira para sentar,
mas naturalmente no havia nenhuma. "Honestamente, Jason... eu no sei. Minha
melhor suposio  que voc seja um fugitivo. Acontece s vezes. Por um motivo ou
outro, o acampamento nunca encontrou voc, mas de qualquer jeito voc sobreviveu por
viagens constantes. Treinou-se para lutar. Encarou os monstros por si s. Voc bate as
expectativas."

       "A primeira coisa que Quron disse para ele," Jason lembrou, "foi voc devia
estar morto."


                                          127
       "Pode ser o porqu," Annabeth disse. "A maioria dos semideuses nunca
conseguiriam por si prprios. E um filho do Zeus -- digo, isso no lhe faz mais
perigoso que o normal. As chances de voc chegar aos quinze anos sem encontrar o
Acampamento Meio-Sangue ou morrer -- microscpicas. Mas como eu disse, acontece.
Thalia fugiu quando era jovem. Ela sobreviveu sozinha por anos. At cuidou de mim
por um tempo. Ento talvez voc seja um fugitivo tambm."

       Jason mostrou o brao. "E essas marcas?"

       Annabeth olhou para as tatuagens. Claramente, elas a incomodavam. "Bem, a
guia  o smbolo do Zeus, ento faz sentido. As vinte linhas -- talvez elas ficassem por
anos, se voc esteve fazendo-as desde que tinha trs anos. SPQR --  o lema do
Imprio Romano antigo: Senatus Populusque Romanus, o Senado e as Pessoas de
Roma. Embora por que voc iria queimar isso no seu prprio brao, eu no sei. A no
ser que voc tivesse um professor de latim realmente severo..."

        Jason tinha total certeza que essa no era a razo. Tambm no parecia possvel
que ele estivesse por si durante toda a vida. Porm o que mais fazia sentido? Annabeth
foi bastante clara -- o Acampamento Meio-Sangue era o nico lugar seguro no mundo
para semideuses.

       "Eu, h... tive um sonho estranha na noite passada," ele disse. Parecia uma coisa
estpida contar, mas Annabeth no parecia surpresa.

       "Acontece toda hora aos semideuses," ela disse. "O que voc viu?"

      Ele contou para ela sobre os lobos e a casa arruinada e as duas espirais de rocha.
Enquanto falava, Annabeth comeou a andar, parecendo mais e mais agitada.

       "Voc no lembra onde essa casa ?" ela perguntou.

       Jason sacudiu a cabea. "Mas tenho certeza que estive l antes."

        "Floresta de paus-brasis," ela meditou. "Pode ser ao norte da Califrnia. E a
loba... estudei deusas, espritos, e monstros minha vida inteira. Eu nunca ouvi falar de
Lupa."

       "Ela disse que era uma inimiga. Eu pensei que talvez fosse Hera, mas --"

      "E no confiaria em Hera, mas no acho que ela  a inimiga. E essa coisa
erguendo da terra --" A expresso da Annabeth escureceu. "Voc tem que par-la."

       "Voc sabe o que , no sabe?" ele perguntou. "Ou pelo menos, voc acha que
sabe. Eu vi seu rosto ontem na fogueira. Voc olhou para Quron como se estivesse
ficando claro para voc, mas voc no queria nos assustar."


                                          128
       Annabeth hesitou. "Jason, a coisa sobre profecias... por mais que voc saiba,
mais voc tenta mud-las, e isso pode ser desastroso. Quron acredita que  melhor que
vocs encontrem seu prprio caminho, descobrir as coisas no tempo certo. Se ele me
contou tudo que sabia antes da minha primeira misso com o Percy... eu tenho que
admitir, no tenho certeza se eu possa passar por isso. Para sua misso,  ainda mais
importante."

       "Mau, hein?"

       "No se voc conseguir. Pelo menos... eu espero que no."

       "mas eu nem lembro onde comear. Onde eu devia ir?"

       "Seguir os monstros," Annabeth sugeriu.

       Jason pensou sobre isso. Os espritos de tempestade que o atacou no Grand
Canyon dissera que ele foi chamado pelo mestre. Se Jason pudesse localizar os espritos
de tempestade, ele poderia conseguir encontrar a pessoa controlando-os. E talvez aquilo
o levasse para a priso da Hera.

       "Ok," ele disse. "Como eu encontro ventos de tempestade?"

       "Pessoalmente, eu perguntaria a um deus dos ventos," Annabeth disse. "olo  o
mestre de todos os ventos, mas ele  um pouco... imprevisvel. Ningum o encontra a
menos que ele queira ser encontrado. Eu tentaria um dos quatro deuses do vento
sazonais que trabalha para olo. O mais prximo, o que tem mais relaes com heris, 
Breas, o Vento Norte."

       "Ento se eu procur-lo no Google Maps --"

        "Ah, ele no  difcil de encontrar," Annabeth prometeu. "Ele se instalou na
Amrica do Norte como todos os outros deuses. Ento naturalmente ele pegou a
instalao do norte mais antigo, quase no mais longe ao norte que voc possa ir."

       "Maine?" Jason sups.

       "Mais longe."

        Jason tentou visionar um mapa. O que era mais longe ao norte que Maine? A
instalao do norte mais antiga...

       "Canad," ele decidiu. "Quebec."

       Annabeth sorriu. "Espero que voc fale francs."

        Jason na verdade sentiu uma fagulha de animao. Quebec -- pelo menos agora
ele tinha um objetivo. Encontrar o Vento Norte, rastrear os espritos de tempestade,

                                          129
descobrir para quem eles trabalhavam e onde era aquela casa arruinada. Libertar Hera.
Tudo em quatro dias. Fcil.

       "Obrigado, Annabeth." Ele olhou para as fotos da cabine de fotos ainda na sua
mo. "Ento, h... voc disse que era perigoso ser um filho do Zeus. O que foi que
aconteceu com Thalia?"

      "Ah, ela est bem," Annabeth disse. "Ela se tornou uma Caadora de rtemis --
uma das ajudantes da deusa. Elas percorrem o pas matando monstros. No a vemos no
acampamento frequentemente."

        Jason olhou para a grande esttua do Zeus. Ele entendeu porque Thalia dormiu
nessa alcova. Era o nico lugar no chal fora da linha de viso do Zeus Hippie. E no
foi s isso. Ela escolheu seguir rtemis e ser parte de um grupo melhor que ficar nesse
templo frio e esfriado sozinha com seu pai de seis metros de altura -- o pai do Jason --
olhando ameaadoramente para ela. Coma voltagem! Jason no tinha problemas
entendendo os sentimentos da Thalia. Ele pensou se havia um grupo dos Caadores.

       "Quem  a outra criana na foto?" ele perguntou. "O cara de cabelo arenoso."

       A expresso da Annabeth apertou. Assunto delicado.

       "Esse  Luke," ela disse. "Ele est morto agora."

       Jason decidiu que era melhor no fazer mais perguntas, mas o jeito que
Annabeth disse o nome do Luke, ele se perguntou se talvez Percy Jackson no fosse o
nico garoto que Annabeth j gostou.

        Ele se focou novamente no rosto da Thalia. Ele continuou pensando que essa
foto dela era importante. Ele estava esquecendo-se de algo.

      Jason sentiu uma estranha sensao de conexo a essa outra criana do Zeus --
algum que pudesse entender sua confuso, talvez at responder algumas perguntas.
Mas outra voz dentro dele, um sussurro insistente, disse: Perigosa. Fique longe.

       "Quantos anos ela tem agora?" ele perguntou.

       "Difcil dizer. Ela foi uma rvore por um tempo. Agora ela  imortal."

       "O qu?"

        Sua expresso deve ter sido bastante boa, porque Annabeth riu. "No se
preocupe. No  algo que todas as crianas do Zeus passam.  uma longa histria,
mas... ela esteve fora de misso por um longo tempo. Se ela envelhecesse regularmente,
ela estaria nos seus vinte agora, mas ela ainda parece a mesma na foto, como se tivesse
aproximadamente... bem, aproximadamente sua idade. Quinze ou dezesseis?"

                                          130
       Algo que a loba dissera no sonho chamou a ateno do Jason. Ele encontrou
perguntando, "Qual  seu sobrenome?"

        Annabeth pareceu perturbada. "Ela no usada um sobrenome, mesmo. Se ela
tivesse, ela usaria o da me, mas elas no conviveram. Thalia fugiu quando era muito
nova."

       Jason esperou.

       "Grace," Annabeth disse. "Thalia Grace."

       Os dedos do Jason paralisaram. A foto flutuou ao cho.

       "Voc est bem?" Annabeth perguntou.

       Um farrapo de memria acendeu -- talvez um fino pedao que Hera esqueceu-
se de roubar. Ou talvez ela deixasse ali de propsito -- s o bastante para ele lembrar
aquele nome, e saber que escavar o passado era terrivelmente, terrivelmente perigoso.

       Voc devia estar morto, Quron havia dito. No era um comentrio sobre Jason
bater as expectativas como um fugitivo. Quron sabia algo especfico -- algo sobre a
famlia do Jason.

        As palavras da loba no seu sonho finalmente fizeram sentido para ele, sua piada
inteligente na sua despesa. Ele pde imaginar Lupa rosnando uma risada de lobo.

       "O que ?" Annabeth pressionou.

       Jason no podia manter isso para si. Isso o mataria, e ele tinha que conseguir a
ajuda da Annabeth. Se ela conhecia Thalia, talvez ela pudesse aconselh-lo.

       "Voc tem que jurar no contar para ningum," ele disse.

       "Jason --"

        "Jure," ele insistiu. "At eu descobrir o que est acontecendo, o que tudo isso
significa --" Ele esfregou as tatuagens queimadas no seu antebrao. "Voc tem que
manter um segredo."

       Annabeth hesitou, mas sua curiosidade ganhou. "Est bem. At voc me disser
que est bem, eu no vou compartilhar o que voc disser com ningum. Eu juro pelo
Rio Estige."

       Trovo ribombou, mais alto ainda que o normal para o chal. Voc  nossa
Graa salvadora, a loba rosnou. Jason ergueu a foto do cho. "Meu sobrenome 
Grace," ele disse. "Essa  minha irm." Annabeth ficou plida. Jason pde v-la lutando
com desnimo, descrena, raiva. Ela pensou que ele estava mentindo. Sua afirmao era

                                         131
impossvel. E parte dele sentiu o mesmo, mas assim que ele falou as palavras, ele soube
que elas eram verdadeiras.

       Ento as portas do chal estouraram. Meia dzia de campistas derramou para
dentro, liderados pelo cara careca de ris, Butch. "Depressa!" ele disse, e Jason no
podia dizer se sua expresso era de animao ou medo. "O drago voltou."




                                         132
Captulo XV
PIPER ACORDOU E IMEDIATAMENTE PEGOU um espelho. Havia vrios deles no chal
de Afrodite. Ela sentou no seu beliche, olhou para o seu reflexo e gemeu.

       Ela ainda estava esplndida.

        Na noite passada depois da fogueira, ela tentou de tudo. Ela bagunou o cabelo,
limpou a maquiagem do rosto, chorou para avermelhar os olhos. Nada funcionou. Seu
cabelo voltou  perfeio. A maquiagem mgica reaplicou-se. Seus olhos recusaram a
ficar ofegantes ou injetados de sangue.

        Ela teria mudado de roupa, mas no tinha nada pra vestir. Os outros campistas
de Afrodite ofereceram a ela algumas (rindo pelas suas costas, ela sabia), mas cada uma
estava ainda mais elegante e ridcula do que as que ela usava. Agora, depois de uma
horrvel noite de sono, ainda sem mudanas. Piper normalmente parecia um zumbi na
manh, mas seu cabelo estava estiloso como o de supermodelos e sua pele estava
perfeita. At aquela espinha horrvel na base do seu nariz, que ela tivera por tantos dias
que comeou a cham-la de Bob, desapareceu.

       Ela resmungou em frustrao e passou os dedos pelo cabelo. Nada. O efeito s o
colocou de volta no lugar. Ela parecia a Barbie Cherokee.

       Do outro lado do chal, Drew gritou, "Ah, querida, eu no vou partir." Sua voz
gotejava com falsa simpatia. "A bno da mame ir durar pelo menos outro dia.
Talvez uma semana se voc tiver sorte."

       Piper rangeu os dentes. "Uma semana?"

        As outras crianas de Afrodite -- aproximadamente doze garotas e cinco garotos
-- sorriram e riram ao seu desconforto. Piper sabia que ela devia agir legal, no deix-
los afet-la. Ela lidou com crianas superficiais e populares vrias vezes. Mas isso era
diferente. Esses eram seus irmos e irms, mesmo se ela no tivesse nada em comum
com ele, e como Afrodite conseguiu ter tantas crianas com idades to prximas... No
importa. Ela no queria saber.

      "No se preocupe, querida." Drew borrou seu batom fluorescente. "Voc est
achando que voc no  daqui? No poderamos concordar mais. No , Mitchell?"


                                           133
       Um dos garotos vacilou. "H, sim. Certo."

         "Humm." Drew tirou sua mscara e verificou os clios. Todos observavam, sem
ousar falar. "Ento em todo caso, gente, quinze minutos at o caf da manh. O chal
no vai se limpar sozinho! E Mitchell, penso que voc aprendeu sua lio. Certo,
querido? Ento voc est na patrulha de lixo s por hoje, oo-k? Mostre para Piper como
 feito, pois tenho uma sensao que ela ter esse trabalho em breve -- se ela sobreviver
 misso. Agora, ao trabalho, todo o mundo!  minha hora do banheiro!"

       Todos comearam a correr ao redor, fazendo camas e dobrando roupas, enquanto
Drew colhia seu kit de maquiagem, secador de cabelos e escova, e marchou para o
banheiro.

       Algum dentro ganiu, e uma garota de aproximados onze anos foi expulsa,
apressadamente enrolada em toalhas com xampu ainda no cabelo.

       A porta bateu com fora, e a garota comeou a chorar. Alguns campistas mais
velhos a confortaram e limparam as bolhas do seu cabelo.

       " srio?" Piper disse para ningum em particular. "Vocs deixam Drew tratar
vocs assim?"

       Algumas crianas atiraram a Piper olhares nervosos, como se na verdade
pudessem concordar, mas no disseram nada.

       Os campistas continuaram trabalhando, embora Piper no pudesse ver por que o
chal precisava de tanta limpeza. Era uma casa de boneca em tamanho real, com
paredes rosa e elegantes janelas brancas. As cortinas de renda eram misturadas em azul
e verde, o que obviamente correspondia aos forros e edredons em todas as camas.

        Os garotos tinham uma fila de beliches separados por uma cortina, mas a seo
deles do chal era to pura e ordenada quanto a das garotas. Havia algo definitivamente
anormal ali. Cada campista tinha um cofre de madeira no p do beliche deles com seus
nomes pintados, e Piper sups que as roupas em cada cofre eram ordenadamente
dobradas e coordenadas pela cor. O nico pedao de individualismo era os campistas
com seus espaos de beliche privados. Cada um tinha fotos levemente diferentes com
vrias celebridades que eles achavam que eram bonitas. Algumas eram fotos pessoais,
tambm, mas a maioria era de atores ou cantores ou o que quer que fosse.

        Piper esperou que no pudesse ver O Pster. J havia passado quase um ano
desde o filme, e ela pensou que agora com certeza todos jogariam fora aquelas velhas
propagandas esfarrapadas e colasse algo mais novo. Mas no teve tal sorte. Ela
localizou um na parede pelo armrio, no meio de uma colagem de gals famosos.



                                          134
         O ttulo estava lividamente vermelho: Rei de Esparta. Embaixo dele, o pster
mostrava o lder -- um tiro de trs quartos de um corpo bronzeado de peito nu, com
peitorais arrancados e pacotes de plstico. Ele estava vestindo somente uma saia grega
de guerra e uma capa roxa com uma espada na mo. Ele parecia que estava
simplesmente derramando leo, seu curto cabelo preto resplandecendo e ribeiros de
suor pingando do seu rosto spero, aqueles tristes olhos escuros encarando a cmera
como se dissesse, Eu vou matar seus homens e roubar suas mulheres! R-r.

        Era o pster mais ridculo de todos os tempos. Piper e seu pai tiveram uma boa
risada por ele da primeira vez que o viram. Ento o filme rendeu um trilho de dlares.
O pster grfico apareceu subitamente em todos os lugares. Piper no podia fugir dele
na escola, andando pela rua, nem na internet. E sim, era uma foto do seu pai.

      Ela virou para que ningum pensasse que ela estava olhando para ele. Talvez
quando todos fossem ao caf da manh, ela poderia rasg-lo sem ningum perceber.

        Ela tentou parecer ocupada, mas no tinha mais roupas a dobrar. Ela arrumou
sua cama, ento percebeu que o cobertor de cima era o que Jason havia enrolado nos
seus ombros na noite passada. Ela o pegou e pressionou-o no seu rosto. Cheirava a
madeira queimada, mas infelizmente no a Jason. Ele era a nica pessoa que foi
genuinamente gentil com ela depois da reclamao, como se importasse como ela se
sentia, no s por causa de suas roupas novas estpidas. Deus, ela queria beij-lo, mas
ele parecia to inconfortvel, quase com medo dela. Ela no podia realmente culp-lo.
Ela estava brilhando rosa.

       "Desculpa-me," disse uma voz aos seus ps. O garoto da patrulha do lixo,
Mitchell, estava rastejando de quatro, pegando embalagens de chocolate e notas
desintegradas debaixo dos beliches. Aparentemente as crianas de Afrodite no eram
cem por cento aberraes limpas afinal.

       Ela saiu do seu caminho. "O que voc fez para deixar Drew louca?"

      Ele olhou para a porta do banheiro para ter certeza que ainda estava fechada.
"Na noite passada, depois de voc ser reclamada, eu disse que voc no estava to mal."

      No era muito um elogio, mas Piper ficou aturdida. Um filho de Afrodite
realmente levantou-se por ela?

       "Obrigada," ela disse.

       Mitchell deu de ombros. ", bem. Veja onde isso me levou. Mas para o que
importa, bem-vinda ao Chal Dez."




                                         135
       Uma garota com tranas loiras e braadeiras correu com uma pilha de roupas nos
braos. Ela olhou ao redor furtivamente como se estivesse entregando materiais
nucleares.

       "Eu lhe trouxe essas," ela sussurrou.

       "Piper, conhea Lacy," Mitchell disse, ainda rastejando pelo cho.

       "Oi," Lacy disse sem flego. "Voc pode trocar de roupa. A bno no ir lhe
parar. Isso  s, voc sabe, uma mochila, algumas raes, ambrosia e nctar para
emergncias, alguns jeans, umas camisas extras, e um agasalho. As botas podem ficar
um pouco confortveis. Mas -- bem -- temos uma coleo. Boa sorte na sua misso!"

        Lacy despejou as coisas na cama e comeou a ir embora, mas Piper pegou seu
brao. "Espere. Pelo menos me deixe agradecer-lhe! Por que est se apressando?"

       Lacy pareceu que pudesse tremer-se a parte de nervosismo. "Ah, bem --"

       "Drew pode descobrir," Mitchell explicou.

       "Eu posso ter que usar os sapatos da vergonha!" Lacy reprimiu.

       "Os o qu?" Piper perguntou.

        Lacy e Mitchell apontaram para uma prateleira negra montada no canto do
quarto, como um altar. Exibida ali havia um par hediondo de sapatos ortopdicos de
enfermeira, branco brilhante com solas grossas.

      "Eu tive que us-las uma vez por uma semana," Lacy choramingou. "Elas no
combinam com nada!"

       "E h os piores castigos," Mitchell alertou. "Drew pode encantar, entende? No
so muitos os filhos de Afrodite que tem esse poder; mas ela tenta durar demais, ela
pode conseguir que voc faa algumas coisas bastante embaraosas. Piper, voc  a
primeira pessoa em um longo tempo que pode resistir a ela."

        "Encantar..." Piper lembrou a noite passada, o jeito que a multido na fogueira
havia oscilado pra frente e pra trs entre as opinies da Drew e as dela. "Voc est
dizendo, tipo, voc podia falar para algum fazer coisas. Ou... lhe dar coisas. Como um
carro?"

       "Ah, no d ideias para a Drew!" Lacy ofegou.

       "Mas sim," Mitchell disse. "Ela poderia fazer isso."

       "Ento  por isso que ela  a conselheira-chefe," Piper disse. "Ela convenceu
todos vocs?"

                                          136
       Mitchell pegou uma bola de chiclete nojenta de baixo da cama de Piper. "Nem,
ela herdou o posto quando Silena Beauregard morreu na guerra. Drew era a segunda
mais velha. A campista mais velha automaticamente consegue o posto, a menos que
algum com mais anos ou mais misses completas queira desafiar, no caso isso  um
duelo, mas dificilmente acontece. Resumindo, estamos presos com Drew no cargo
desde agosto. Ela decidiu fazer algumas, er, mudanas no jeito que o chal anda."

        "Sim, eu decidi!" Subitamente Drew estava ali, encostada no beliche. Lacy
chiou como um porco da Guin e tentou correr, mas Drew estendeu um brao para par-
la. Ela olhou para Mitchell. "Eu acho que voc esqueceu um pouco de lixo, querido.
Seria melhor dar outra passada."

       Piper olhou para o banheiro e viu que Drew despejou tudo da lixeira do banheiro
-- coisas bastante nojentas -- no cho.

        Mitchell se sentou nas coxas. Ele olhou para Drew como se estivesse prestes a
atacar (o que Piper pagaria pra ver), mas finalmente vociferou, "Certo."

       Drew sorriu. "Observe, Piper, querida, ns somos um bom chal aqui. Uma boa
famlia! Silena Beauregard, embora... voc podia levar uma advertncia dela. Ela estava
secretamente passando informao para Cronos na Guerra dos Tits, ajudando o
inimigo."

       Drew sorriu toda doce e inocente, com sua maquiagem rosa brilhante e seu
cabelo seco luxuriante e cheirando a noz-moscada. Ela parecia qualquer adolescente
popular num colgio. Mas seus olhos eram to frios quanto ao. Piper teve a sensao
que Drew estava olhando direto na sua alma, puxando seus segredos.

       Ajudando o inimigo.

        "Ah, nenhum dos outros chals fala sobre isso," Drew contou. "Eles agem como
se Silena Beauregard fosse uma herona."

      "Ela sacrificou sua vida para fazer as coisas certas," Mitchell resmungou. "Ela
era uma herona."

       "Humm," Drew disse. "Outro dia na patrulha do lixo, Mitchell. Mas voltando,
Silena perdeu a trilha sobre o que esse chal . Ns fazemos casais bonitinhos no
acampamento! Ento os quebramos a parte e comeamos de novo!  a melhor diverso
de todos os tempos. No temos nenhum problema envolvendo-nos em outras coisas
como guerras e misses. Eu certamente no fui a nenhuma misso. Elas so uma perda
de tempo!"

       Lacy levantou a mo nervosamente. "Mas na noite passada voc disse que queria
ir numa --"

                                         137
      Drew olhou para ela, e a voz de Lacy morreu.

      "Na maioria das vezes," Drew continuou, "certamente no precisamos de nossas
imagens manchadas por espies, precisamos, Piper?"

       Piper tentou responder, mas no pde. No havia jeito que Drew pudesse saber
sobre seus sonhos ou o sequestro do seu pai, havia?

       " muito mal que voc esteja fora," Drew suspirou. "Mas se voc sobreviver 
sua pequena misso, no se preocupe, eu vou encontrar algum para ficar com voc.
Talvez um daqueles garotos brutos de Hefesto. Ou Clovis? Ele  bastante repulsivo."
Drew olhou para ela com uma mistura de pena e desgosto. "Honestamente, eu no acho
que seja possvel Afrodite ter uma criana feia, mas... quem era o seu pai? Ele era
algum tipo de mutante, ou --"

      "Tristan McLean," Piper vociferou.

       Assim que disse isso, ela se odiou. Ela nunca, nunca brincou com o card do
"papai famoso." Mas Drew havia lhe levado at a borda. "Meu pai  Tristan McLean."

      O silncio atordoado foi gratificante por alguns segundos, mas Piper se sentiu
envergonhada de si. Todos viraram e olharam O Pster, seu pai flexionando os
msculos para o mundo todo ver.

      "Oh meu Deus!" metade das garotas gritaram de vez.

       "Incrvel!" um rapaz disse. "O cara com a espada que matou aquele outro cara
naquele filme?"

       "Ele  to gato para um sujeito velho," uma garota disse, ento ela corou.
"Digo... desculpe-me. Eu sei que ele  seu pai. Isso  to estranho!"

      " estranho, certo," Piper concordou.

      "Voc acha que poderia me arranjar um autgrafo?" outra garota perguntou.

      Piper forou um sorriso. Ela no podia dizer, Se meu pai sobreviver...

      ", sem problemas," ela controlou.

       A garota guinchou de animao, e mais pessoas surgiram  frente, perguntando
dzias de perguntas de vez.

      "Voc j esteve nos bastidores?"

      "Voc vive numa manso?"

      "Voc tem almoo com estrelas de cinema?"

                                           138
       "Voc j teve seu ritual de passagem?"

       Essa pegou Piper despreparada. "Ritual do qu?" ela perguntou.

      As garotas e garotos riram e empurraram um ao outro como se fosse um tpico
embaraoso.

       "O ritual de passagem para uma criana de Afrodite," um explicou. "Voc faz
algum se apaixonar por voc. Ento voc quebra seu corao. Derruba ele. Quando
voc fizer isso, voc provou-se digna de Afrodite."

       Piper olhou para a multido para ver se eles estavam brincando. "Quebrar o
corao de algum de propsito? Isso  terrvel!"

       Os outros pareceram confusos.

       "Por qu?"

       "Ah meu Deus!" uma garota disse. "Aposto que Afrodite quebrou o corao do
seu pai! Aposto que ele nunca mais amou ningum de novo, amou?  to romntico.
Quando voc tem seu ritual de passagem, voc pode ser do jeito de mame!"

       "Esquea isso!" Piper gritou, um pouco mais alto do que pretendia. Os outros
recuaram. "Eu no vou quebrar o corao de algum s por causa de um ritual de
passagem estpido!"

        O que  claro deu a Drew uma chance de voltar ao outro. "Bem, l vai voc!" ela
se intrometeu. "Silena disse a mesma coisa. Ela quebrou a tradio, apaixonou-se pelo
garoto Beckendorf, e ficou no amor. Se voc me perguntar,  por isso que as coisas
acabaram trgicas para ela."

       "No  verdade!" Lacy chiou, mas Drew olhou para ela, e ela imediatamente
derreteu-se de volta  multido.

       "Pouco importa," Drew continuou, "porque, Piper, querida, voc no poderia
quebrar o corao de algum, em todo o caso. E isso sem sentido sobre seu pai ser
Tristan McLean --  to mendigar por ateno."

       Vrias pessoas piscaram incertas.

       "Voc quer dizer que ele no  o pai dela?" um perguntou.

       Drew virou os olhos. "Por favor. Agora,  hora do caf da manh, gente, e Piper
aqui tem que comear aquela pequena misso. Ento vamos fazer suas malas e tir-la
daqui!"



                                           139
       Drew dispersou a multido e colocou todos para se mexerem. Ela os chamou de
"querida" e "amigo," mas seu tom fazia claro que ela esperava ser obedecida. Mitchell e
Lacy ajudaram com a mala de Piper. Eles at protegeram o banheiro enquanto Piper
entrava e mudava para uma roupa de viagem melhor. As roupas usadas no eram bobas
-- graas a deus -- s jeans bem-vestidos, uma camiseta, um casaco confortvel, e
botas de caminhada que cabiam perfeitamente. Ela prendeu sua adaga, Katoptris, no
cinto.

        Quando Piper saiu, ela se sentia quase normal novamente. Os outros campistas
estavam nos seus beliches enquanto Drew andava e inspecionava. Piper virou para
Mitchell e Lacy e gesticulou com a boca, Obrigada. Mitchell sorriu severamente. Lacy
brilhou um grande sorriso. Piper duvidou que Drew j os agradecesse por algo. Ela
tambm notou que o pster do Rei de Esparta foi amassado e jogado no lixo. Ordens da
Drew, sem dvida. Embora Piper quisesse arrancar o pster por ela mesma, agora ela
estava totalmente fumegante.

       Quando Drew a localizou, ela fez um aplauso falso. "Muito bem! Nossa pequena
garota de misso toda vestida em roupas de Lixo novamente. Agora, v! Sem
necessidade de comer o caf da manh conosco. Boa sorte com... seja o que for.
Tchau!"

      Piper colocou a mochila nos ombros. Ela podia sentir os olhos de todos nela
enquanto ela andava at a porta. Ela s podia partir e esquecer sobre isso. Aquilo seria
uma coisa fcil. O que ela importava sobre esse chal, essas crianas superficiais?

         Exceto que alguns deles tentaram ajud-la. Alguns deles at encararam Drew por
ela.

         Ela virou para a porta. "Vocs sabem, vocs no tem que seguir as ordens da
Drew."

       As outras crianas se mexeram. Vrias olharam para Drew, mas ela pareceu
muito aturdida para responder.

         "H," um controlou, "ela  nossa conselheira chefe."

       "Ela  uma tirana," Piper corrigiu. "Vocs podem pensar por si ss. Tem mais
que isso para Afrodite."

         "Mais que isso," uma criana ecoou.

         "Pensar por ns mesmos," uma segunda murmurou.

         "Gente!" Drew piou. "No sejam estpidos! Ela est encantando vocs."

         "No," Piper disse. "S estou dizendo a verdade."

                                           140
        Pelo menos, Piper pensou que era o caso. Ela no entendeu exatamente como
esse negcio de encantamento funcionava, mas no se sentiu como se estivesse
colocando algum poder especial nas palavras. Ela no queria ganhar uma discusso por
usar truques contra as pessoas. Aquilo no lhe faria nenhum bem do que Drew. Piper
simplesmente dizia o que queria dizer. Alm disse, mesmo se ela tentasse encantar, ela
tinha uma sensao que no funcionaria muito bem em outra encantadora como Drew.

       Drew zombou dela. "Voc pode ter um pouco de poder, Senhora Estrela de
Filme. Mas voc no sabe da primeira coisa sobre Afrodite. Voc tem essas grandes
ideias? O que voc acha sobre esse chal, ento? Fale para eles. Ento talvez eu vou
diz-los algumas coisas sobre voc, hein?"

       Piper queria fazer uma rplica murcha, mas sua raiva virou pnico. Ela era uma
espi para o inimigo, assim como Silena Beauregard. Uma traidora de Afrodite. Drew
sabia sobre isso, ou ela estava blefando? Sob o olhar da Drew, sua confiana comeava
a esmigalhar.

       "Isso no," Piper controlou. "Afrodite no  sobre isso."

       Ento ela virou e saiu correndo antes que os outros pudessem v-la corando.

       Atrs dela, Drew comeou a rir. "Isso no? Ouviu isso, gente? Ela no sabe!"

        Piper prometeu a si que nunca jamais voltaria naquele chal. Ela secou as
lgrimas e invadiu o campo, sem saber onde estava indo -- at ver o drago descendo
do cu.




                                          141
Captulo XVI
"LEO?" ELA GRITOU.

       Com certeza, ali estava ele, sentando em cima de uma mquina mortal gigante
de bronze e sorrindo feito um luntico. Antes mesmo de pousar, o alarme do
acampamento soou. Um alarme de concha soprou. Todos os stiros comearam a gritar,
"No me mate!" Metade do acampamento correu para fora numa mistura de pijamas e
armaduras. O drago desceu direito no meio no campo, e Leo gritou. "Est legal! No
atirem!"

       Hesitantemente, os arqueiros baixaram os arcos. Os guerreiros recuaram,
mantendo as lanas e espadas prontas. Eles fizeram um grande anel frouxo ao redor do
monstro de metal. Outros semideuses se esconderam atrs das portas dos seus chals ou
espiaram pela janela. Ningum parecia ansioso de chegar perto.

       Piper no podia culp-los. O drago era imenso. Ele resplandecia no sol da
manh como uma escultura de centavos viva -- tons diferentes de cobre e bronze --
uma serpente de dezoito metros de comprimento com garras de ao e dentes de broca e
olhos de rubi brilhantes. Tinha asas do formato das de morcego duas vezes sua largura
que estendiam como velas metlicas, fazendo um som como moedas cascateando de um
caa-nquel sempre que batia.

       " lindo," Piper murmurou. Os outros semideuses olharam para ela como se
fosse uma insana.

        O drago ergueu a cabea e atirou uma coluna de fogo no cu. Campistas se
afastaram e suspenderam suas armas, mas Leo escorregou calmamente das costas do
drago. Ele ergueu as mos como se rendesse, exceto que ainda tinha aquele sorriso
louco no rosto.

        "Pessoas da Terra, eu venho em paz!" ele gritou. Ele parecia que esteve rolando
ao redor da fogueira. Seu casaco do exrcito e seu rosto estavam sujos de fuligem. Suas
mos estavam manchadas de graxa, e ele usava um novo cinto de ferramentas ao redor
da cintura. Seus olhos estavam injetados de sangue. Seu cabelo cacheado estava to
oleoso que estavam em p como espinho de um porco-espinho, e ele cheirava
estranhamente a molho de pimenta. Mas ele parecia absolutamente deliciado. "Festus s
est dizendo ol!"
                                         142
       "Essa coisa  perigosa!" uma garota de Ares gritou, brandindo sua lana. "Mate-
a agora!"

        "Abaixe!" algum ordenou.

      Para a surpresa de Piper, era Jason. Ele empurrou pela multido, flanqueado por
Annabeth e aquela garota do chal de Hefesto, Nyssa.




            Jason olhou para o drago e balanou a cabea em estupefao. "Leo, o que voc
fez?"

       "Encontrei uma carona!" Leo sorriu. "Voc disse que eu podia ir  misso se eu
lhe conseguisse uma carona. Bem, eu lhe consegui um bad boy voador metlico classe
A! Festus pode nos levar para qualquer lugar!"

        "Ele -- tem asas," Nyssa gaguejou. Sua mandbula parecia ter cado do rosto.

        "!" Leo disse. "Eu as encontrei e as recoloquei."

        "Mas ele nunca teve asas. Onde voc as encontrou?"

        Leo hesitou, e Piper podia dizer que ele estava escondendo algo.

      "Em... na floresta," ele disse. "Reparei os circuitos, tambm, a maioria, ento
sem mais problema com ele ficar maluco."

        "A maioria?" Nyssa perguntou.

        A cabea do drago contraiu. Ele se inclinou para um lado e um rio de lquido
preto -- talvez leo, esperanosamente apenas leo -- vazou do seu ouvido, tudo sobre
Leo.

        "S alguns ajustes para resolvermos," Leo disse.

       "Mas como voc sobreviveu...?" Nyssa ainda estava olhando para a criatura em
pavor. "Digo, a respirao de fogo..."

        "Eu sou rpido," Leo disse. "E sortudo. Agora, estou na misso, ou o qu?"

        Jason coou a cabea. "Voc o chamou de Festus? Voc sabe que em latim,
`festus' significa `feliz'? Voc quer que partamos para salvar o mundo em Feliz, o
Drago?"

        O drago se contraiu e tremeu e bateu as asas.

       "Esse  um sim, cara!" Leo disse. "Agora, h, eu realmente sugeriria que
fossemos, gente. Eu j peguei algumas coisas na -- h, na floresta. E todas essas
pessoas com armas esto deixando Festus nervoso."

                                           143
       Jason franziu a testa. "Mas no temos nenhum plano ainda. No podemos
simplesmente --"

       "Vo," Annabeth disse. Ela era a nica que no parecia nervosa absolutamente.
Sua expresso estava triste e saudosa, como se isso o lembrasse dos velhos tempos.
"Jason, vocs s tem trs dias at o solstcio agora, e vocs nunca deveriam manter um
drago nervoso esperando. Esse  certamente um bom pressgio. Vo!"

       Jason assentiu. Depois sorriu para Piper. "Est pronta, parceira?" Piper olhou
para asas do drago de bronze reluzindo no cu, e naquelas garras que podiam rasg-la
em pedaos.

       "V apostando," ela disse.



Voar no drago era a experincia mais maravilhosa de todos os tempos, Piper pensou.

       L em cima, o ar era frio congelante; mas o metal do drago gerava tanto calor
que era como se estivessem voltando numa bolha protetora. Fale sobre os aquecedores
de assento! E as estrias nas costas do drago eram designadas como selas high-tech,
ento eles no estavam completamente desconfortveis. Leo lhes mostrou como
encaixar os ps nas fendas da armadura, como em estribos, e usar os arreios de
segurana de couro engenhosamente escondidos sob o chapeamento exterior. Eles
sentaram em fila nica: Leo na frente, depois Piper, ento Jason, e Piper estava bastante
ciente de Jason logo atrs dela. Ela desejou que ele a agarrasse, talvez enrolar seus
braos ao redor da cintura dela; mas infelizmente, ele no fez isso.

        Leo usava as rdeas para conduzir o drago no cu como se fizesse isso a vida
inteira. As asas de metal trabalhavam perfeitamente, e logo a costa de Long Island era
s uma linha obscura atrs deles. Eles se atiraram sobre Connecticut e subiram nas
nuvens cinza de inverno.

       Leo olhou para trs e sorriu para eles. "Legal, hein?"

       "E se formos localizados?" Piper perguntou.

       "A Nvoa," Jason disse. "Ela impede os mortais de verem coisas mgicas. Se
eles nos localizarem, eles provavelmente confundiro a gente com um avio pequeno ou
outra coisa."

       Piper olhou sobre o ombro. "Tem certeza disso?"

      "No," ele admitiu. Ento Piper que ele estava apertando uma foto na sua mo
-- uma foto de uma garota com cabelo escuro.


                                          144
      Ela deu a Jason um olhar esquisito, mas ele corou e colocou a foto no bolso.
"Estamos tendo um tempo bom. Provavelmente cheguemos l de noite."

       Piper se perguntou quem era a garota na foto, mas ela no queria perguntar; e se
Jason no compartilhou a informao, aquilo no era um bom sinal. Ele se lembrou de
algo sobre sua vida antes? Aquela era uma foto da sua namorada verdadeira?

       Pare, ela pensou. Voc s vai se torturar.

       Ela fez uma pergunta mais segura. "Para onde estamos indo?"

       "Encontrar o deus do Vento Norte," Jason disse. "E perseguir alguns espritos de
                                   tempestade."




                                           145
Captulo XVII
LEO ESTAVA TOTALMENTE ZUNINDO.

       A expresso no rosto de todos quando ele voou com o drago no acampamento!
No tem preo! Ele pensou que seus companheiros de chal iriam lhe dar um puxo
louco.

        Festus foi incrvel tambm. Ele no queimou um nico chal, ou comeu algum
stiro, mesmo se ele pingasse um pouco de leo da orelha. Ok, muito leo. Leo podia
trabalhar nisso depois.

       Ento talvez Leo no tivesse a chance de contar a todos sobre a Carvoeira 9 ou o
desenho do barco voador. Ele precisava de algum tempo para pensar sobre isso. Ele
podia contar para eles quando voltasse.

       Se eu voltar, parte dele pensou.

       Que nada, ele voltaria. Ele ganhou um cinto de ferramentas mgico incrvel da
carvoeira, e mais vrios suprimentos agora seguramente guardados na sua mochila.
Alm disso, ele tinha um drago que respirava fogo e s levemente avariado no seu
lado. O que poderia dar errado?

       Bem, o disco de controle poderia explodir, a parte m dele sugeriu. Festus
poderia comer voc.

        Ok, ento o drago no estava to consertado quanto Leo esperava ter deixado.
Ele trabalhou a noite toda colocando aquelas asas, mas ele no encontrou nenhum
crebro extra de drago em lugar nenhum na carvoeira. Ei, eles estavam sob um limite
de tempo! Trs dias at o solstcio. Eles tinham que continuar. Alm disso, Leo havia
limpado o disco bastante bem. A maioria dos circuitos ainda estava bem. S teriam que
ficar unidos.

       Seu lado mau comeou a pensar, , mas e se --

       "Cale a boca, eu," Leo disse em voz alta.

       "O qu?" Piper perguntou.

       "Nada," ele disse. "Longa noite. Acho que estou alucinando.  legal."
                                          146
       Sentado na frente, Leo no podia ver o rosto deles, mas assumiu pelo silncio
que seus amigos no estavam agradecidos em ter um motorista de drago alucinado e
com sono.

       "S brincando." Leo decidiu que seria bom mudar de assunto. "Ento qual  o
plano, gente? Vocs disseram algo sobre pegar vento, ou quebrar o vento, ou algo?"

       Enquanto eles voavam sobre a Nova Inglaterra, Jason explicou o plano de jogo:
Primeiro, encontrar algum sujeito chamado Breas e atorment-lo por informao --

       "O nome dele  Breas?" Leo teve que perguntar. "O que ele , o Deus da
Chatice?"

       Segundo, Jason continuou, eles tinham que encontrar aqueles ventus que
atacaram eles no Grand Canyon --

      "Podemos simplesmente cham-los de espritos de tempestade?" Leo perguntou.
"Ventus os faz soarem como cafs-expresso do mal."

      E terceiro, Jason acabou, eles tinham que descobrir para quem os espritos de
tempestade trabalhavam, ento eles poderiam encontrar Hera e libert-la.

        "Ento voc quer procurar Dylan, o cara desagradvel de tempestade, de
propsito," Leo disse. "O sujeito que me jogou do Skywalk e sugou o Treinador Hedge
para as nuvens."

      " sobre isso," Jason disse. "Bem... pode haver uma loba envolvida, tambm.
Mas acho que ela  amigvel. Provavelmente no vai nos comer, a menos que
mostremos fraqueza."

      Jason lhes contou sobre seu sonho -- a grande me loba horrvel e uma casa
queimada com espirais de pedra subindo da tanque de natao.

      "Ah," Leo disse. "Mas voc no sabe onde esse lugar ."

      "No," Jason admitiu.

       "Tambm h gigantes," Piper acrescentou. "A profecia diz a vingana dos
gigantes."

       "Espere a," Leo disse. "Gigantes -- tipo, mais que um? Por que no pode ser
simplesmente um gigante que quer vingana?"

       "Eu acho que no," Piper disse. "Eu lembro que em algumas histrias gregas
antigas, havia algo sobre um exrcito de gigantes."



                                        147
       "Legal," Leo murmurou. " claro, com nossa sorte,  um exrcito. Ento voc
sabe mais alguma coisa sobre esses gigantes? Voc no fez vrias pesquisas sobre mitos
para aquele filme com seu pai?"

       "Seu pai  um ator?" Jason perguntou.

       Leo riu. "Eu continuo esquecendo sua amnsia. . Esquecendo a amnsia. 
engraado. Mas sim, o pai dela  Tristan McLean."

       "H -- Desculpe, ele esteve no qu?"

       "No importa," Piper disse rapidamente. "Os gigantes -- bem, h vrios
gigantes na mitologia grega. Mas se eu estou pensando nos certos, eles so ms notcias.
Grandes, quase impossveis de matar. Eles poderiam arremessar montanhas e coisas. Eu
acho que eles so relacionados ao tits. Eles se ergueram da terra depois de Cronos
perder a guerra -- eu quero dizer a primeira guerra tit, milhes de anos atrs -- e eles
tentaram destruir o Olimpo. Se estamos falando sobre os mesmos gigantes --"

       "Quron disse que estava acontecendo novamente," Jason lembrou. "O ltimo
captulo.  o que ele quis dizer. No me admira que ele no quisesse que soubssemos
todos os detalhes."

       Leo assobiou. "Ento... gigantes que podem arremessar montanhas. Lobos
amigveis que iro nos comer se mostrarmos fraqueza. Cafs-expresso maus. Entendi.
Talvez no seja a hora de trazer minha bab psictica  tona."

       "Essa  outra piada?" Piper perguntou.

        Leo lhes contou sobre Ta Callida, que era realmente Hera, e como ele apareceu
a ele no acampamento. Ele no lhes contou sobre as habilidades com fogo. Aquele
ainda era um assunto delicado, especialmente depois de Nyssa lhe contar que
semideuses de fogo tendiam a destruir cidades e coisas. Alm disso, assim Leo teria que
entrar em como ele causou a morte da me, e... no. Ele no estava pronto para ir ali.
Ele conseguiu falar sobre a noite que ela morreu, sem mencionar o fogo, s dizendo que
a oficina mecnica desabou. Era mais fcil sem olhar para os amigos, s mantendo os
olhos direto  frente enquanto eles voavam.

      E ele lhes contou sobre a mulher estranha em robes de terra que parecia estar
adormecida, e parecia saber o futuro.

      Leo estimou que todo o estado de Massachusetts passou abaixo deles antes dos
amigos falarem.

       "... perturbador," Piper disse.



                                          148
       "Aproximadamente resume," Leo concordou. "O problema  que todos dizem
para no confiar em Hera. Ela odeia semideuses. E a profecia disse que causaramos
morte se desatrelarmos sua raiva. Ento eu me pergunto... por que estamos fazendo
isso?"

       "Ela nos escolheu," Jason disse. "Todos ns. Somos os primeiros dos sete que
tero de ser reunidos para a Grande Profecia. Essa misso  o comeo de algo muito
maior."

       Aquilo no fazia Leo se sentir melhor, mas ele no podia argumentar com a
resoluo de Jason. Sentia como se fosse o comeo de algo grande. Ele s desejou que
se houvessem mais semideuses destinados a ajud-los, eles aparecessem rpido. Leo
no queria participar de todas as aventuras aterrorizantes de risco de vida.

       "Alm disso," Jason continuou, "ajudar Hera  o nico jeito para que eu possa
conseguir minha memria de volta. E aquela espiral escura no meu sonho parecia estar
alimentada pela energia de Hera. Se essa coisa desatrela um rei dos gigantes por destruir
Hera --"

       "No  um balanceamento bom," Piper concordou. "Pelo menos Hera est no
nosso lado -- pela maioria. Perd-la iria lanar os deuses em caos. Ela  a principal que
mantm paz na famlia. E uma guerra com os gigantes poderia ser ainda mais destrutvel
que a Guerra dos Tits."

        Jason assentiu. "Quron tambm falou sobre foras piores se agitando no
solstcio, com ele sendo um bom tempo para magia negra, e tudo -- algo que poderia
acordar se Hera fosse sacrificada nesse dia. E essa mestra que est controlando os
espritos de tempestade, a que quer matar todos os semideuses --"

       "Pode ser aquela mulher estranha dormindo," Leo concluiu. "Mulher-Sujeira
totalmente acordada? No  algo que eu queira ver."

       "Mas quem  ela?" Jason perguntou. "E o que ela tem a ver com gigantes?"

        Boas perguntas, mas nenhuma delas tinha resposta. Eles voaram em silncio
enquanto Leo pensava se ele fizera a coisa certa, compartilhando tanto. Ele nunca
contara para ningum sobre aquela noite no armazm. Mesmo se ele no tivesse lhes
dado toda a histria, ainda sentia estranho, como se abrisse seu peito e tirasse todas as
engrenagens que o permitia fazer tique-taque. Seu corpo estava tremendo, e no pelo
frio. Ele esperou que Piper, sentada atrs dele, no pudesse dizer.

        A forja e a pomba quebraro a priso. No era aquela linha da profecia?
Significava que Piper e ele teriam que encontrar um jeito de quebrar aquela priso
mgica de rocha, assumindo que pudessem encontr-la. Ento eles desatrelariam a ira de
Hera, causando muitas mortes. Bem, aquilo parecia divertido! Leo vira Ta Callida em

                                          149
ao; ela gostava de facas, cobras, e colocar bebs em fogos estalantes. ,
definitivamente vamos desatrelar sua ira. Grande ideia.

       Festus continuou voando. O vento ficou mais quente, e abaixo deles florestas
nevadas pareciam continuar para sempre. Leo no sabia exatamente onde era Quebec.
Ele disse para Festus lev-los ao palcio de Breas, e Festus continuou indo para o
norte. Esperanosamente, o drago sabia o caminho, e eles no acabariam no Plo
Norte.

       "Por que voc no dorme um pouco?" Piper disse no seu ouvido. "Voc esteve
acordado a noite toda."

       Leo queria protestar, mas a palavra dormir soou realmente bem. "Voc no vai
me deixar cair?"

      Piper bateu de novo no seu ombro. "Confie em mim, Valdez. Pessoas bonitas
nunca mentem."

       "Certo," ele murmurou. Ele se encostou ao bronze quente do pescoo do drago,
e fechou os olhos.




                                        150
Captulo XVIII
PARECEU QUE ELE DORMIU S POR SEGUNDOS, mas quando Piper o sacudiu, a luz do
dia estava indo embora.

       "C estamos," ela disse.

       Leo esfregou o sono para fora dos olhos. Abaixo deles, havia uma cidade numa
escarpa em frente a um rio. As plancies em volta estavam cheio de neve, mas a cidade
em si brilhava calorosamente no pr-do-sol de inverno. Prdios se aglomeravam juntos
dentro de altos muros como uma cidade medieval, mais velho que qualquer lugar que
Leo vira antes. No centro havia um verdadeiro castelo -- pelo Leo assumiu que era um
castelo -- com slidas paredes vermelhas de tijolos e uma torre quadrada com um
telhado em forma de issceles verde e pontiagudo.

       "Diga-me que Quebec no  a oficina do Papai Noel," Leo disse.

      ", Cidade de Quebec," Piper confirmou. "Uma das cidades mais antigas na
Amrica do Norte. Fundada por volta de mil e seiscentos aproximadamente?"

       Leo levantou uma sobrancelha. "Seu pai fez um filme sobre isso tambm?"

       Ela fez uma cara para ele, o que Leo estava acostumado, mas no funcionou
muito bem com sua nova maquiagem glamorosa. "Eu leio s vezes, ok? S porque
Afrodite me reclamou, no significa que eu tenho de ser uma cabea-de-vento."

       "Mal-humorada!" Leo disse. "Ento voc que sabe tanto, o que  aquele
castelo?"

       "Um hotel, eu acho."

       Leo riu. "Sem chance."

        Mas assim que chegou mais perto, Leo viu que ela tinha razo. A grande entrada
estava alvoroada com porteiros, criados de quarto, e bagageiros tomando bagagens.
Lustrosos e luxuosos carros pretos ficavam  toa na entrada de carros. Pessoas em
ternos elegantes e capas de inverno se apressavam para sair do frio.

       "O Vento Norte est ficando num hotel?" Leo disse. "No pode ser --"


                                         151
       "Cabea erguida, gente," Jason interrompeu. "Temos companhia!"

        Leo olhou para baixo e viu o que Jason queria dizer. Erguendo-se do topo da
torre havia duas figuras aladas -- anjos zangados, com espadas de aparncia srdida.



Festus no gostou dos anjos. Ele se precipitou a uma parada no meio do ar, as asas
batendo e as garras nuas, e fez um estrondo na sua garganta que Leo reconheceu. Ele
estava se preparando para soprar fogo.

      "Firme, garoto," Leo murmurou. Algo lhe disse que os anjos no ficariam
amigveis por serem tostados.

       "Eu no gosto disso," Jason disse. "Eles parecem espritos de tempestade."

       A princpio Leo pensou que ele estava certo, mas assim que os anjos se
aproximaram, ele pde ver que eles eram muitos mais slidos do que ventus. Eles
pareciam adolescentes normais exceto pelos seus frios cabelos brancos e asas roxas
emplumadas. Suas espadas de bronze estavam entalhadas, como pingentes. Seus rostos
pareciam similares o bastante que eles poderiam ser irmos, mas definitivamente no
eram gmeos.

        Um era do tamanho de um boi, com um casaco de hquei de l, vermelho-claro,
calas de moletom folgadas, e capuzes de couro negros. O rapaz claramente estivera em
vrias lutas, porque ambos seus olhos estavam pretos, e quando ele mostrava seus
dentes, vrios deles estavam faltando.

        O outro rapaz parecia que havia sido tirado de uma das capas de lbuns de rock
dos anos 80 da me de Leo -- Journey, talvez, ou Hall & Oates, ou algo ainda mais
careta. Seu cabelo de gelo branco era comprido e cobria uma tainha. Ele usava sapatos
de couro com dedos significativos, calas desenhistas que pelo jeito eram muito
apertadas, e uma camisa de seda cruel com os trs botes de cima abertos. Talvez ele
pensasse que parecia um cupido excelente, mas o cara no podia pesar mais que noventa
quilos, e ele tinha um pssimo caso de acne.

       Os anjos se empurraram para frente do drago e pairaram ali, espadas prontas.

       O boi de hquei grunhiu. "Sem liberao."

       "Qu?" Leo disse.

       "Vocs no tm plano de voo no arquivo," explicou o cupido excelente. No topo
dos seus outros problemas, ele tinha um sotaque francs to ruim que Leo tinha certeza
que era falso. "Esse  um espao areo restrito."


                                         152
       "Destrui-los?" O boi mostrou seu sorriso banguela.

       O drago comeou a sibilar fumaa, pronto para defend-los. Jason pegou sua
espada dourada, mas Leo gritou, "Espere! Vamos ter alguns modos aqui, garotos. Eu
posso pelo menos descobrir quem tem a honra de me destruir?"

       "Eu sou Cal!" o boi grunhiu. Ele pareceu muito orgulhoso de si, como se tivesse
gasto muito tempo para memorizar essa sentena.

       " a abreviao para Calais," o cupido disse. "Infelizmente, meu irmo no pode
dizer palavras com mais de duas slabas --"

       "Pizza! Hquei! Destruir!" Cal ofereceu.

       "-- que inclua seu prprio nome," o cupido acabou.

       "Eu sou Cal," Cal repetiu. "E esse  Zetes! Meu irmo!"

       "Uau," Leo disse. "Foram quase trs frases, cara! Continue assim."

       Cal grunhiu, obviamente satisfeito com si prprio.

        "Palhao estpido," seu irmo grunhiu. "Eles esto rindo da sua cara. Mas no
importa. Eu sou Zetes, que  abreviao de Zetes. E a senhorita ali --" Ele piscou para
Piper, mas a piscada era mais como uma apreenso facial. "Ela pode me chamar de tudo
que gostar. Talvez ela gostasse de jantar com um semideus famoso antes de termos que
destrui-los?"

      Piper fez um som como engasgos numa pastilha para tosse. "... uma oferta
realmente horrvel."

      "Sem problema." Zetes mexeu as sobrancelhas. "Somos um povo muito
romntico, ns borades."

       "Borades?" Jason se intrometeu. "Voc quer dizer, tipo, os filhos de Breas?"

       "Ah, ento voc ouviu falar de ns!" Zetes pareceu contente. "Somos os
guardies do nosso pai. Assim, voc entende, no podemos deixar pessoas
desautorizadas voando no seu espao areo em drages rangedores, assustando os
pobres mortais."

       Ele apontou para baixo, e Leo viu que os mortais estavam comeando a notar.
Vrios estavam apontando para cima -- no em alarme, ainda -- mais em confuso e
incmodo, como se o drago fosse um helicptero no trfego voando muito baixo.




                                         153
        "Que  tristemente por isso, a menos que seja um pouso de emergncia," Zetes
disse, removendo o cabelo do seu rosto coberto de acne, "teremos que destruir vocs
dolorosamente."

       "Destruir!" Cal concordou, com um pouco mais de entusiasmo do que Leo
achou necessrio.

       "Espere!" Piper disse. "Esse  um pouso de emergncia."

       "Ahhh!" Cal pareceu to desapontado que Leo quase sentiu pena dele.

     Zetes estudou Piper, o que naturalmente o que obviamente j esteve fazendo.
"Como a garota bonita decide que  uma emergncia, ento?"

        "Temos que ver Breas.  totalmente urgente! Por favor?" Ela forou um
sorriso, o que Leo pensou que devia estar lhe matando; mas ela ainda tinha aquela
bno de Afrodite funcionando, e ela parecia incrvel. Algo na sua voz, tambm --
Leo se encontrou acreditando em cada palavra. Jason estava assentindo, parecendo
absolutamente convencido.

       Zetes pegou sua camisa cruel, provavelmente verificando se ainda estava aberta
o suficiente. "Bem... eu odeio desapontar uma senhorita amvel, mas voc entende,
minha irm, ela teria uma avalanche se permitssemos que vocs --"

      "E nosso drago est falhando!" Piper acrescentou. "Pode quebrar a qualquer
minuto!"

       Festus estremeceu utilmente, ento virou a cabea e derramou leo da orelha,
esparramando uma Mercedes preta no estacionamento abaixo.

       "Sem destruio?" Cal choramingou.

      Zetes ponderou o problema. Ento ele deu a Piper outra piscadela convulsiva.
"Bem, voc est linda. Digo, voc est certa. Um drago falhando -- essa pode ser uma
emergncia."

      "Destrui-los depois?" Cal ofereceu, o que provavelmente era o mais prximo de
`amigvel' que ele jamais chegou.

        "Vou dar algumas explicaes," Zetes decidiu. "Papai no tem sido dcil com
visitantes ultimamente. Mas, sim. Venham, pessoas do drago quebrado. Sigam-nos."

       Os borades embainharam as espadas e puxaram armas menores dos seus cintos
-- ou pelo menos Leo pensou que eram armas. Ento os borades as ligoram, e Leo
percebeu que eram lanternas com cones laranja, como os que controladores de trfego
usam numa pista. Cal e Zetes viraram e mergulharam para a torre do hotel.

                                        154
       Leo virou para seus amigos. "Eu amo esses caras. Seguir eles?"

       Jason e Piper no pareceram ansiosos.

       "Eu acho," Jason decidiu. "Estamos aqui agora. Mas me pergunto por que
Breas no tem sido dcil com visitantes."

       "Tsc, ele s no conheceu a gente ainda." Leo assobiou. "Festus, atrs daquelas
lanternas!"



Enquanto se aproximavam, Leo se preocupou que eles bateriam na torre. Os borades
sinalizaram a direita para o telhado e no diminuram a velocidade. Ento uma parte do
telhado tendencioso deslizou abrindo-se, revelando uma entrada grande o bastante para
Festus. O topo e o fundo eram alinhados com pingentes como dentes com reentrncias.

        "No deve ser nada bom," Jason murmurou, mas Leo induziu o drago para
baixo, e eles mergulharam atrs dos borades.

        Eles pousaram no que devia ser a sute; mas o lugar foi batido por um freezer. O
salo de entrada arqueou tetos de doze metros de altura, grandes janelas com cortinas, e
tapetes orientais de luxo. Uma escadaria no fundo da sala levava a outro salo
igualmente slido, e mais corredores se separavam  esquerda e direita. Mas o gelo fez a
beleza do quarto um pouco assustadora. Quando Leo deslizou do drago, o tapete se
triturou sob seus ps. Uma camada fina de frieza cobria a moblia. As cortinas no se
mexiam porque estavam congeladas e slidas, e as janelas cobertas de gelo deixava
entrar um mido pr-do-sol. At o teto estava cheio de pingentes. Como para as
escadas, Leo tinha certeza que escorregaria e quebraria o pescoo se tentasse subi-las.

       "Gente," Leo disse, "consertem o termostato aqui, e eu iria me mexer
totalmente."

       "Eu no." Jason olhava preocupadamente para a escada. "Algo parece errado.
Algo ali em cima..."

       Festus estremeceu e bufou chamas. Gelo comeou a se formar no seu corpo.

       "No, no e no." Zetes marchou, embora como ele pudesse andar naqueles
sapatos de couro pontudos, Leo no tinha ideia. "O drago deve ser desativado. No
permitimos fogo aqui. O calor arruna meu cabelo."

       Festus rugiu e girou seus dentes de broca.

       "T tudo ok, garoto." Leo virou para Zetes. "O drago  um sensvel sobre o
conceito todo de desativao. Mas eu tenho uma soluo melhor."

                                          155
       "Destruir?" Cal sugeriu.

       "No, cara. Voc tem que parar com a conversa de destruir. S espere."

       "Leo," Piper disse nervosamente, "o que voc vai --"

       "Veja e aprenda, linda rainha. Quando estava reparando Festus na noite passada,
eu encontrei todos os tipos de botes. Alguns, voc no quer nem saber o que fazem.
Mas outros... ah, aqui vamos ns."

        Leo encaixou seus dedos atrs da pata dianteira esquerda do drago. Ele puxou
um interruptor, e o drago estremeceu da cabea at o p. Todos recuaram enquanto
Festus se dobrava como origami. Seu chapeamento de bronze se empilhou junto. Seu
pescoo e rabo contraram no seu corpo. Suas asas caram e seu tronco se compactou at
ele ser uma fatia de metal retangular do tamanho de uma mala.

        Leo tentou levant-la, mas a coisa pesada aproximadamente seis bilhes de
quilos. "H... . Espere. Eu acho -- ah."

       Ele empurrou outro boto. Uma ala virou no topo, e rodas clicaram embaixo.

       "Ta-da!" ele anunciou. "A bagagem de mo mais pesada do mundo!"

       " impossvel," Jason disse. "Algo daquela grandeza no poderia --"

       "Pare!" Zetes ordenou. Ele e Cal puxaram as espadas e olharam para Leo.

       Leo levantou as mos. "Ok... o que eu fiz? Fiquem calmos, gente. Se isso lhes
perturba tanto, eu no tenho que deixar o drago como bagagem --"

      "Quem  voc?" Zetes ps a ponta da sua espada no peito de Leo. "Uma criana
do Vento Sul, nos espionando?"

      "O qu? No!" Leo disse. "Filho de Hefesto. Ferreiro amigvel, sem danos a
ningum!"

        Cal rosnou. Ele encostou seu rosto no de Leo, e ele definitivamente no era mais
bonito olhando direto, com seus olhos feridos e boca desregulada. "Cheira fogo," ele
disse. "Fogo  mau."

       "Ah." O corao de Leo bateu fortemente. "Sim, bem... minhas roupas esto um
pouco chamuscadas, e eu estive trabalhando com leo, e --"

       "No!" Zetes colocou Leo de volta na ponta da espada. "Ns podemos cheirar
fogo, semideus. Ns assumimos que eram do drago rangedor, mas agora o drago 
uma mala. E eu ainda sinto cheiro... em voc."



                                          156
       Se no fosse pelos trs graus na sute, Leo teria comeado a suar. "Ei... olhem...
Eu no sei --" Ele olhou para os seus amigos desesperadamente. "Gente, uma pequena
ajuda?"

      Jason j estava com sua moeda de ouro na mo. Ele deu um passo para a frente
com os olhos em Zetes.

      "Olhem, aqui tem algum erro. Leo no  um menino de fogo. Conte para eles,
Leo. Conte para eles que voc no  um menino de fogo."

       "H..."

       "Zethes?" Piper tentou seu sorriso deslumbrante de novo, embora ela parecesse
um pouco nervosa demais e fria para ceder. "Somos todos amigos aqui. Abaixe suas
espadas e vamos conversar."

        "A garota  bonita," Zetes admitiu, "e naturalmente ela no pode ajudar sendo
atrada ao meu assombro; mas infelizmente, eu no posso romance-la dessa vez." Ele
cutucou a ponta da espada mais fundo no peito de Leo, e Leo pde sentir o gelo e
espalhando pela sua camisa, formigando a pele.

       Ele desejou que pudesse reativar Festus. Ele precisava de alguma ajuda. Mas
demoraria vrios minutos, mesmo se ele pudesse alcanar o boto, com dois caras de
asas roxas no caminho.

       "Destru-lo agora?" Cal perguntou ao irmo.

       Zetes assentiu. "Infelizmente, eu acho --"

        "No," Jason insistiu. Ele soou calmo o suficiente, mas Leo calculou que ele
estava a dois segundos de arremessar aquela moeda e coloc-la em modo gladiador
completo. "Leo  s um filho de Hefesto. Ele no  uma ameaa. A Piper aqui  uma
filha de Afrodite. Eu sou o filho de Zeus. Estamos numa pacfica --"

       A voz de Jason vacilou, pois os borades subitamente viraram para ele.

       "O que voc disse?" Zetes exigiu. "Voc  o filho de Zeus?"

       "H... ," Jason disse. " uma coisa boa, certo? Meu nome  Jason."

       Cal pareceu to surpresa que quase deixou sua espada cair. "No pode ser o
Jason," ele disse. "No parece o mesmo."

       Zetes deu um passo  frente e manteve os olhos semicerrados no rosto de Jason.
"No, ele no  o nosso Jason. Nosso Jason era mais elegante. No tanto quanto eu --
mas elegante. Alm disso, o nosso Jason morreu a milnios atrs."


                                          157
       "Espere," Jason disse. "Nosso Jason... voc est dizendo, o Jason original? O
cara do Velocino de Ouro?"

       " claro," Zetes disse. "Fomos seus companheiros de tripulao a bordo do
navio dele, o Argo, nos tempos antigos, quando ramos semideuses mortais. Ento
aceitamos a imortalidade para servir nosso pai, ento eu pude pensar nisso como legal o
tempo todo, e meu irmo bobo pde gostar de pizza e hquei."

       "Hquei!" Cal concordou.

      "Mas Jason -- o nosso Jason -- ele morreu uma morte mortal," Zetes disse.
"Voc no pode ser ele."

       "Eu no sou," Jason concordou.

       "Ento, destruir?" Cal perguntou. Claramente a conversando estava dando para
os seus dois neurnios um srio exerccio.

       "No," Zetes disse pesarosamente. "Se ele  um filho de Zeus, ele pode ser o que
temos estado observando."

       "Observando?" Leo perguntou. "Voc diz num bom sentido: voc vai lhe encher
de prmios fabulosos? Ou observando num mau sentido: ele est em encrenca?"

       A voz de uma garota disse, "Depende da vontade do meu pai."

       Leo ergueu os olhos para a escadaria. Seu corao quase parou. No topo, uma
garota em p com um vestido branco de seda. Sua pele era anormalmente plida, a cor
da neve, mas seus cabelos eram uma cabeleira luxuriante de preto, e seus olhos eram
marrom caf. Ela se fechou em Leo sem expresso, sem sorriso, sem simpatia. Mas no
importava. Leo estava apaixonado. Ela era a garota mais deslumbrante que ele j viu.

       A ela olhou para Jason e Piper, e pareceu entender a situao imediatamente.

       "Meu pai ir querer ver o que  chamado de Jason," a garota disse.

       "Ento  ele?" Zetes perguntou, animado.

       "Veremos," a garota disse. "Zetes, traga nossos visitantes."

        Leo pegou a ala da mala do seu drago de bronze. Ele no tinha certeza como
ele iria se arrastar pelos degraus, mas ele tinha que se aproximar daquela garota e lhe
perguntar algumas perguntas importantes -- como qual era o e-mail dela e o nmero de
telefone.

       Antes que desse um passo, ela lhe congelou com um olhar. No literalmente
congelou, mas ela tambm podia ter feito isso.

                                          158
       "Voc no, Leo Valdez," ela disse.

       No fundo da sua mente, Leo se perguntou como ela sabia seu nome; mas na
maioria ele s estava se concentrando em como se sentia apaixonado.

       "Por que no?" Ele provavelmente soou como um gaoroto infantil e boba, mas
no pde pensar nisso.

       "Voc no pode ficar na presena do meu pai," a garota disse. "Fogo e gelo --
no seria sbio."

        "Estamos vindo juntos," Jason insistiu, colocando a mo no ombro de Leo, "ou
de jeito nenhum."

        A garota abaixou a cabea, como se no estivesse acostumada a pessoas
rejeitando suas ordenas. "Ele no ser machucado, Jason Grace, a menos que voc cause
problemas. Calais, mantenha Leo Valdez aqui. O guarde, mas no o mate."

       Cal fez beicinho. "S um pouco?"

       "No," a garota insistiu. "E cuide da mala interessante dele, at nosso pai passar
o julgamento."

        Jason e Piper olharam para Leo, suas expresses fazendo-lhe uma pergunta
silenciosa: Como voc quer jogar isso?

        Leo sentiu uma onda de gratido. Eles estavam prontos a lutar por ele. Eles no
o deixariam sozinho com o boi de hquei. Parte dele queria ir, usar seu novo cinto de
ferramentas e ver o que ele podia fazer, talvez at formar uma bola de fogo ou duas e
queimar esse lugar. Mas os borades haviam lhe assustado. E aquela garota maravilhosa
lhe assustou mais ainda, mesmo se ele ainda quisesse o seu nmero.

       "Est tudo bem, gente," ele disse. "No h sentido em causar problemas se no
precisamos. Vocs vo."

       "Ouam o seu amigo," a garota plida disse. "Leo Valdez estar perfeitamente
seguro. Eu queria poder dizer o mesmo de voc, filho de Zeus. Agora venham, Rei
Breas est esperando."




                                            159
Captulo XIX
JASON NO QUERIA DEIXAR LEO, mas ele comeou a pensar que sair na mo com o
atleta de hquei Cal era a menor opo de perigo nesse lugar.

        Enquanto eles subiam a escadaria congelada, Zetes ficava atrs dele, sua lmina
na mo. O rapaz podia parecer um danarino de disco, mas no havia nada engraado
naquela espada. Jason calculou que um golpe daquela coisa provavelmente iria lhe
transformar em picol.

        Ento havia a princesa do gelo. De vez em quando ela viraria e daria a Jason um
sorriso, mas no havia calor na sua expresso. Ela julgou Jason como se ele fosse uma
cincia de espcime especialmente interessante -- uma que ela no poderia esperar para
dissecar.

        Se essas eram as crianas de Breas, ele no estava certo se queria encontrar o
papai. Annabeth disse para ele que Breas era o mais amigvel dos deuses do vento.
Aparentemente aquilo significava que ele no matava heris to rpido quanto os outros
faziam.

        Jason se preocupou caso ele levasse seus amigos para uma armadilha. Se as
coisas ficassem ms, ele no sabia se poderia tir-los vivos. Sem pensar sobre isso, ele
pegou a mo de Piper para reassegurar-se.

       Ela levantou as sobrancelhas, mas no soltou.

       "Ficar tudo bem," ela prometeu. "S uma conversa, certo?"

       No topo da escada, a princesa do gelo olhou para trs e notou eles de mos
dadas. Seu sorriso sumiu. Subitamente a mo de Jason na de Piper virou gelo frio --
frio ardente. Ele soltou, e seus dedos estavam fumegando com gelo. Ento foi a de
Piper.

       "Calor no  uma boa ideia aqui," a princesa avisou, "especialmente quando eu
sou sua melhor chance de ficarem vivos. Por favor, por aqui."

       Piper franziu para ele, nervosa. Sobre o que foi aquilo?

       Jason no tinha uma resposta. Zetes o cutucou nas costas com sua espada
pingente, e eles seguiram a princesa por um slido corredor coberto por tapetes gelados.
                                          160
       Brisas geladas sopravam de um lado ao outro, e os pensamentos de Jason se
mexeram quase to rpido. Ele teve muito tempo para pensar enquanto montavam o
drago para o norte, mas ele se sentiu mais confuso que nunca.

        A foto de Thalia ainda estava no seu bolso, porm ele no precisava mais olhar
para ela. Sua imagem havia se queimado na sua mente. Era mau demais no lembrar seu
passado, mas saber que tinha uma irm em algum lugar por a que podia ter respostas e
no ter nenhuma maneira de encontr-la -- aquilo s o fazia subir o muro.

        Na foto, Thalia no tinha nada em comum com ele. Eles tinham olhos azuis, mas
era s isso. Seu cabelo era preto. Sua aparncia era mais mediterrnea. Seus traos
faciais eram mais violentos -- como os de um falco.

       Ainda assim, Thalia parecia to familiar. Hera s lhe deixara memria o bastante
para que ele pudesse ter certeza que Thalia era sua irm. Mas Annabeth agiu
completamente surpresa quando ele lhe contou, como se ela nunca tivesse ouvido falar
de Thalia ter um irmo. Thalia j sabia sobre ele? Como eles foram separados?

        Hera pegara aquelas memrias. Ela roubara tudo do passado de Jason, o
estatelado numa nova vida, e agora ela esperava que ele salvasse-a de alguma priso s
para que pudesse pegar de volta o que lhe foi tomado. Isso deixou Jason to irritado que
ele queria ir embora, deixar Hera apodrecer naquela priso: mas ele no podia. Ele
estava obcecado. Ele tinha que saber mais, e aquilo o fazia ainda mais ressentido.

       "Ei." Piper tocou seu brao. "Voc ainda est comigo?"

       "Sim... sim, desculpe."

        Ele estava gratificado por Piper. Ele precisava de uma amiga, e estava contente
que ela comeava a perder a bno de Afrodite. A maquiagem estava enfraquecendo.
Seu cabelo estava lentamente voltando ao seu estilo cortado com suas pequenas tranas
caindo nos lados. Isso a fez parecer mais real, e mais que Jason ficava preocupado, mais
linda ela ficava.

      Ele tinha que certeza agora que eles nunca se conheceram antes do Grand
Canyon. O relacionamento deles era s um truque da Nvoa na mente de Piper. Porm
com mais tempo que ele ficava com ela, mais ele desejava que fosse real.

         Pare isso, ele disse para si mesmo. No era justo com Piper, pensando desse
jeito. Jason no tinha ideia o que estava esperando para ele de volta  sua vida antiga --
ou quem estava esperando. Mas ele estava bastante certo que seu passado no se
misturaria com o Acampamento Meio-Sangue. Depois dessa misso, quem sabia o que
aconteceria? Assumindo ainda que eles sobrevivessem.



                                           161
       No fim do corredor eles se acharam na frente de um conjunto de portas de
carvalho esculpidas com um mapa do mundo. Em cada ponta havia uma face barbuda
de um homem, assoprando brisa. Jason teve certeza que j vira mapas assim antes. Mas
nessa verso, todos os sujeitos do vento eram Inverno, soprando gelo e neve de cada
canto do mundo.

       A princesa virou. Seus olhos marrons brilharam, e Jason sentiu que era um
presente de natal que ela estava esperando abrir.

       "Essa  a sala do trono," ela disse. "Comporte-se o melhor que puder, Jason
Grace. Meu pai pode ser... frio. Eu vou traduzir para voc, e tentar encoraj-lo a ouvi-lo.
Espero que ele te poupe. Podemos ter certa diverso."

       Jason sups que a definio da garota de `diverso' no era a mesma dele.

       "H, ok," ele controlou. "Mas na verdade, s estamos aqui para uma pequena
conversa. Estaremos partindo logo depois."

       A garota sorriu. "Eu adoro heris. Ignorantes to felizes."

       Piper descansou sua mo na adaga. "Bem, que tal voc nos esclarecer? Voc diz
que vai traduzir para ns, e nem sabemos quem voc . Qual seu nome?"

        A garota fungou com desagrado. "Suponho que no me surpreenderia que no
me reconhecesse. At nos tempos antigos, os gregos no me conheciam muito bem. As
ilhas deles eram muito quentes, muito longes do meu domnio. Eu sou Quione, filha de
Breas, deusa da neve."

       Ela agitou o ar com seu dedo, e uma nevasca em miniatura rodou ao seu redor --
grandes e fofos flocos to macios quanto algodo.

        "Agora, venham," Quione disse. As portas de carvalho foram sopradas, e luz
azul fria derramou da sala. "Esperanosamente vocs iro sobreviver  sua pequena
conversa."




                                           162
Captulo XX
SE O SALO DE ENTRADA ERA FRIO, a sala do trono era um depsito de carne.

        Nvoa se suspendia no ar. Jason tremeu, e seu corao ferveu. Ao longo das
paredes, tapetes reais mostravam cenas de florestas nevadas, montanhas estreis, e
geleiras. Alto acima, fitas de luz colorida -- a aurora boreal -- pulsavam no teto. Uma
camada de neve cobria o cho, de forma que Jason tinha que pisar cuidadosamente. Ao
redor do quarto havia esculturas de gelo de guerreiros em tamanho real -- alguns em
armadura grega, alguns medievais, alguns em camuflagem moderna -- todos
congelados em vrias posies de ataque, espadas erguidas, revlveres travados e
carregados.

       Pelo menos Jason pensou que eram esculturas. Ento ele tentou pasar entre os
dois lanceiros gregos, e eles se moveram com velocidade surpreendente, suas juntas
estalando e lanando cristais de gelo enquanto eles cruzavam seus dardos para bloquear
o caminho de Jason.

       No outro lado do salo, a voz de um homem soou numa linguagem que parecia
francs. A sala era to comprida e nevoenta que Jason no pde ver o outro lado; mas o
que quer que o homem falou, os guardas de gelo descruzaram seus dardos.

       "Est tudo bem," Quione disse. "Meu pai os ordenou a no matar vocs ainda."

       "Super," Jason disse.

       Zetes o cutucou nas costas com a espada. "Continue andando, Jason Jnior."

       "Por favor, no me chame assim."

        "Meu pai no  um homem paciente," Zetes alertou, "e a linda Piper,
infelizmente, est perdendo o seu penteado mgico muito rpido. Mais tarde, talvez, eu
possa emprest-la algo da minha vasta coleo de produtos de cabelo."

       "Obrigada," Piper grunhiu.

       Eles continuaram andando, e a nvoa se partiu para revelar um homem num
trono de gelo. Ele era firmemente feito, vestido num terno branco elegante que parecia
elaborado da neve, com asas escuras imperiais que se estendiam de cada lado. Seu longo
cabelo e barba peluda eram encrustados com pingentes, de forma que Jason no pudesse
                                          163
dizer se seu cabelo era cinza ou s branco com neve. Suas sobrancelhas arqueadas o
fazia parecer nervoso, mas seus olhos piscavam mais calorosamente do que sua filha --
como se ele pudesse ter um senso de humor enterrado em algum lugar sob aquele cho
permanentemente gelado. Jason esperou que sim.

       "Bienvenu," o rei disse. "Je suis Boreas le Roi. Et vous?"

      A deusa da neve Quione estava prestes a falar, mas Piper deu um passo  frente e
fez uma reverncia.

       "Votre Majest," ela disse, "je suis Piper McLean. Et c'est Jason, fils de Zeus."

       O rei sorriu com agradvel surpresa. "Vous parlez franais? Trs bien!"

        "Piper, voc fala francs?" Jason perguntou. Piper franziu a testa. "No. Por
qu?" "Voc acabou de falar francs." Piper pestanejou. "Falei?" O rei disse algo mais,
e Piper assentiu. "Oui, Votre Majest."

       O rei riu e bateu palmas, obviamente encantado. Ele disse mais algumas frases
ento moveu a mo rapidamente em direo  filha como se a mandasse ir embora.

       Quione pareceu ofendida. "O rei diz --"

       "Ele diz que eu sou uma filha de Afrodite," Piper interrompeu, "ento
naturalmente eu posso falar francs, que  a lngua do amor. Eu no tinha ideia. Vossa
majestade diz que Quione no ter que traduzir agora."

      Atrs deles, Zetes bufou, e Quione lhe atirou um olhar assassino. Ela se curvou
duramente ao pai e deu um passo para trs.

       O deus julgou Jason, e Jason decidiu que seria uma boa ideia se curvar. "Vossa
Majestade, eu sou Jason Grace. Obrigado por, h, no nos matar. Eu posso perguntar...
por que um deus grego fala francs?"

       Piper teve outra troca com o rei.

       "Ele fala a lngua do seu pas hospedeiro," Piper traduziu. "Ele diz que todos os
deuses fazem isso. A maioria dos deuses gregos fala ingls, como eles agora residem
nos Estados Unidos, mas Breas nunca foi bem-vindo no reino deles. Seu domnio
sempre foi distante ao norte. Nesses dias ele gosta de Quebec, ento ele fala francs."

       O rei disse mais alguma coisa, e Piper ficou plida.

       "O rei diz..." Ela vacilou. "Ele diz --"

       "Ah, me permita," Quione disse. "Meu pai diz que tem ordens para matar vocs.
Eu no mencionei isso mais cedo?"

                                           164
       Jason ficou tenso. O rei ainda estava sorrindo bondosamente, como se tivesse
entregado boas notcias.

       "Nos matar?" Jason disse. "Por qu?"

      "Por que," o rei disse, num ingls severamente acentuado, "meu lorde oo
comandou isso."

      Breas se levantou. Ele desceu do seu trono e dobrou as asas nas costas.
Conforme se aproximava, Quione e Zetes se curvaram. Jason e Piper seguiram o
exemplo.

       "Eu irei conceder falar sua lngua," Breas disse, "como Piper McLean me
honrou na minha. Toujours, eu tive um afeto pelos filhos de Afrodite. Como para voc,
Jason Grace, meu mestre olo no me esperaria matar um filho do Lorde Zeus... sem
primeiro deixar voc falar."

       A moeda de ouro de Jason pareceu ficar mais pesada no seu bolso. Se ele fose
forado a lutar, ele no gostava de suas chances. Dois segundos pelo menos para
convocar sua lmina. Ento ele estaria encarando um deus, dois dos seus filhos, e um
exrcito de guerreiros congelados a vcuo.

       "olo  o mestre dos ventos, certo?" Jason perguntou. "Por que ele iria nos
querer mortos?"

        "Vocs so semideuses," Breas disse, como se isso explicasse tudo. "O
trabalho de olo  conter os ventos, e semideuses sem causaram a ele muitas dores de
cabea. Eles lhe pedem por favores. Eles desatrelam os ventos e causam caos. Mas o
insulto final foi a batalha com Tfon no vero passado..."

       Breas acenou com a mo, e uma superfcie de gelo como uma TV de tela plana
apareceu no ar. Imagens de uma batalha tremeluziram pela superfcie -- um gigante
enrolado em nuvens de tempestade, prosseguindo com dificuldade atravs de um rio em
direo  linha do horizonte de Manhattan. Figuras minsculas e brilhantes -- os
deuses, Jason pensou -- se aglomeravam ao redor dele como vespas raivosas,
golpeando o monstro com raio e fogo. Finalmente o rio entrou em erupo num
redemoinho macio, e a forma fumegante caiu sob as ondas e desapareceu.

         "O gigante de tempestade, Tfon," Breas explicou. "Na primeira vez que os
deuses derrotaram ele, eras atrs, ele no morreu discretamente. Sua morte libertou uma
hospedagem de espritos de tempestade -- ventos selvagens que respondiam a ningum.
Era o trabalho de olo ir atrs de todos e aprision-los na sua fortaleza. Os outros
deuses -- eles no ajudaram. Nem se desculparam pela inconvenincia. Demorou
sculos para olo ir atrs de todos os espritos de tempestade, e naturalmente isso o
irritou. Ento, vero passado, Tfon foi derrotado novamente --"

                                         165
       "E sua morte libertou outra onda de ventus," Jason sups. "O que fez olo ficar
mais furioso ainda."

       "C'est vrai," Breas concordou.

       "Mas, Vossa Majestade," Piper disse, "os deuses no tinham escolha a no ser
batalhar com Tfon. Ele ia destruir o Olimpo! Alm disso, por que punir semideuses por
isso?"

       O rei deu de ombros. "olo no pode libertar sua fria nos deuses. Eles so seus
mestres, e muito poderosos. Ento ele fica impassvel com semideuses que ajudaram
eles na guerra. Ele emitiu ordens para ns: semideuses que vierem para ns por ajuda
no so mais tolerados. Estamos para esmagar suas pequenos rostos mortais."

       Houve um silncio inconfortvel.

        "Isso soa... extremo," Jason arriscou. "Mas voc no vai esmagar nossos rostos
ainda, certo? Voc ir nos ouvir primeiro, porque quando voc ouvir sobre nossa misso
--"

        "Sim, sim," o rei concordou. "Entenda, olo tambm disse que um filho de Zeus
poderia procurar minha ajuda, e se isso acontecer, eu deveria ouvir voc antes de lhe
destruir, enquanto voc possa -- como foi que ele colocou? -- fazer todas as nossas
vidas muito interessantes. Eu sou apenas obrigado a ouvir, porm. Depois disso, estou
livre para julgar como eu ver justo. Mas eu vou ouvir primeiro. Quione espera isso
tambm. Pode ser que no matemos vocs."

       Jason sentiu como se quase pudesse respirar novamente. "Que bom. Obrigado."

       "No me agradea." Breas sorriu. H vrias formas que voc poderia fazer
nossas vidas interessantes. "s vezes mantemos semideuses para nosso entretenimento,
como voc pode ver."

       Ele gesticulou em volta do quarto para as vrias esttuas de gelo.

      Piper fez um barulho sufocado. "Voc quer dizer -- so todos semideuses?
Semideuses congelados? Esto vivos?"

        "Uma pergunta interessante," Breas admitiu, como se isso nunca ocorreu a ele
antes. "Eles no se mexem a menos que estejam obedecendo minhas ordens. O resto do
tempo, eles esto meramente congelados. A menos que forem derreter, suponho, o que
seria muita baguna."

        Quione foi para trs de Jason e colocou seus dedos frios no seu pescoo. "Meu
pai me d presentes to bondosos," ela murmurou no seu ouvido. "Junte-se  nossa
corte. Talvez eu deixe seus amigos irem."

                                          166
      "O qu?" Zetes rompeu. "Se Quione ficar com esse, ento eu mereo a garota.
Quione sempre consegue mais presentes!"

       "Agora, filho," Breas disse firmemente. "Nosso visitantes vo achar que voc 
mimado! Alm disso, voc se mexeu muito rpido. Nem ouvimos ainda a histria do
semideus ainda. A decidiremos o que fazer com eles. Por favor, Jason Grace, nos
entretenha."

        Jason sentiu seu crebro se fechando. Ele no olhou para Piper pelo medo que
iria completamente perder. Ele os colocou nessa, e agora eles iriam morrer -- ou pior,
seriam diverso para os filhos de Breas e acabariam congelados para sempre na sua
sala do trono, lentamente corroendo na queimadura daquele congelador.

        Quione murmurou e alisou seu pescoo. Jason no planejou isso, mas
eletricidade faiscou pela sua pele. Houve um pop alto, e Quione voou para trs,
derrapando pelo cho.

       Zetes riu. "Foi legal! Estou contente que voc fez isso, mesmo que tenha de
matar voc agora."

       Por um momento, Quione ficou muito aturdida para reagir. Ento o ar ao redor
dela comeou a redemoinhar com uma micro nevasca. "Voc ousa --"

        "Pare," Jason ordenou, com mais fora do que podia reunir. "Vocs no vo nos
matar. E vocs no vo nos manter aqui. Estamos numa misso para a prpria rainha
dos deuses, e a menos que voc queira Hera explodindo as suas portas, voc ir nos
deixar ir."

       Ele soou muito mais confiante do que se sentia, mas chamou a ateno deles. A
nevasca de Quione redemoinhou at parar. Zetes baixou a espada. Eles olhavam em
dvida para o pai.

       "Humm," Breas disse. Seus olhos cintilaram, mas Jason no soube se era de
raiva ou de diverso. "Um filho de Zeus, favorecido por Hera? Essa  definitivamente
uma primeira. Conte-nos sua histria."

       Jason teria estragado tudo ali. Ele no esteve esperando ter a chance de falar, e
agora que ele podia, sua voz o abandonou.

        Piper o salvou. "Vossa Majestade." Ela fez uma referncia com um equilbrio
incrvel, considerando ter sua vida por um fio. Ela contou para Breas toda a histria,
do Grand Canyon at a profecia, muito melhor e mais rpido do que Jason teria feito.

       "Tudo pelo que pedimos  orientao," Piper concluiu. "Esses espritos de
tempestade nos atacaram, e eles esto trabalhando para alguma mestra do mal. Se
encontrarmos eles, talvez possamos encontrar Hera."
                                          167
        O rei alisou os pingentes na barba. Do lado de fora da janela, a noite havia cado,
e a nica luz vinha da aurora boreal acima, jogando vermelho e azul em tudo.

      "Eu conheo esses espritos de tempestade," Breas disse. "Eu sei onde eles so
mantidos, e do prisioneiro que capturaram."

       "Voc quer dizer o Treinador Hedge?" Jason perguntou. "Ele est vivo?"

        Breas balanou a pergunta de lado. "Por enquanto. Mas quem controla esses
espritos de tempestade... Seria loucura opor-se a ela. Seria melhor vocs ficarem aqui
como esttuas congeladas."

      "Hera est em apuros," Jason disse. "Em trs dias ela ser -- no sei --
consumida, destruda, alguma coisa. E um gigante ir se erguer."

       "Sim," Breas concordou. Era imaginao de Jason, ou ele atirou um olhar
raivoso a Quione? "Vrias coisas horrveis esto acordando. At meus filhos no me
contam as notcias que deviam. A Grande Agitao dos monstros que comeou com
Cronos -- seu pai Zeus tolamente acreditou que acabaria quando os tits fossem
derrotados. Mas assim como foi antes, assim  agora. A batalha final ainda est por vir,
e aquele que acordar  mais terrvel que qualquer tit. Espritos de tempestade -- esses
so s o comeo. A terra tem muito mais horrores para revelar. Quando os monstros no
ficam mais no Trtaro, e almas no esto mais confinadas no Hades... O Olimpo tem
uma boa razo para temer."

      Jason no tinha certeza do que tudo isso significava, mas ele no gostava do jeito
que Quione estava sorrindo -- como se isso fosse sua definio de `diverso.'

       "Ento voc ir nos ajudar?" Jason perguntou ao rei.

       Breas franziu a testa. "Eu no disse isso."

       "Por favor, Vossa Majestade," Piper disse.

       Os olhos de todos viraram para ela. Tinha que ser assustada da mente, mas ela
parecia bonita e confiante -- e no tinha nada a ver com a bno de Afrodite. Ela
parecia si mesma novamente, em velhas roupas de viagem com cabelo bagunado e sem
maquiagem. Mas ela quase brilhou com calor naquela sala do trono fria. "Se voc nos
contar onde esto os espritos de tempestade, podemos captur-los e traz-los para olo.
Voc pareceria bom em frente ao seu chefe. olo pode nos perdoar e os outros
semideuses. Poderamos at resgatar Gleeson Hedge. Todo o mundo ganha."

       "Ela est linda," Zetes murmurou. "Digo, ela est certa."

       "Pai, no oua ela," Quione disse. "Ela  uma filha de Afrodite. Ela ousa
encantar um deus? Congele-a agora!"

                                           168
      Breas considerou isso. Jason escorregou a mo no bolso e se preparou para tirar
a moeda de ouro. Se as coisas dessem errado, ele teria que se mover rapidamente.

      O movimento chamou a ateno de Breas. "O que  isso no seu antebrao,
semideus?"

       Jason no havia percebido que a manga do seu casaco foi forada, revelando a
borda da sua tatuagem. Relutantemente, ele mostrou a Breas suas marcas.

       Os olhos do deus se arregalaram. Quione sibilou e recuou.

        Ento Breas fez algo inesperado. Ele riu to alto que um pingente quebrou no
teto e se quebrou perto do seu trono. A forma do deus comeou a tremeluzir. Sua barba
desapareceu. Ele cresceu mais alto e mais magro, e suas roupas mudaram para uma toga
romana, alinhada com dignidade real. Sua cabea estava coroada com uma coroa de
louro gelada, e um gladius -- uma espada romana como a de Jason -- presa no seu
lado.

       "quilo," Jason disse, embora de onde ele conseguiu nome romano do deus, ele
no tinha ideia.

       O deus inclinou a cabea. "Voc me reconhece melhor nessa forma, sim? E voc
ainda diz que veio do Acampamento Meio-Sangue?"

       Jason mudou o peso do corpo de um p ao outro. "H... sim, Vossa Majestade."

        "E Hera te enviou aqui..." Os olhos do deus do inverno estavam cheios de
hilaridade. "Entendo agora. Ah, ela joga um game perigoso. Bravo, mas perigoso! No
me admira que o Olimpo esteja fechado. Eles devem estar tremendo no jogo que ela foi
pega."

       "Jason," Piper disse nervosamente, "por que Breas mudou de forma? A toga, a
coroa. O que est acontecendo?"

       " a sua forma romana," Jason disse. "Mas o que est acontecendo -- no sei."

       O deus riu. "No, tenho certeza que no. Deve ser muito interessante observar."

       "Significa que voc vai nos soltar?" Piper perguntou.

       "Minha querida," Breas disse, "no h motivo para matar vocs. Se o plano de
Hera falhar, o que eu acho que ir, vocs vo se rasgar um ao outro. olo nunca ter que
se preocupar com semideuses novamente."

       Jason sentiu com se os dedos frios de Quione estivessem no seu pescoo
novamente, mas no era ela -- era s a sensao de que Breas tinha razo. Aquele
senso de inexatido que perturbara Jason desde que ele chegou no Acampamento Meio-

                                          169
Sangue, e o comentrio de Quron sobre sua chegada ser desastrosa -- Breas sabia o
que aquilo significava.

       "Suponho que voc no possa explicar?" Jason perguntou.

      "Ah, pare de pensar! No sou eu que irei interferir no plano de Hera. No me
admira que ela pegou sua memria." Breas riu, aparentemente ainda tendo um
momento incrvel imaginando semideuses rasgando um ao outro. "Voc sabe, eu tenho
uma reputao como um deus do vento til. Ao contrrio dos meus irmos, eu fui
conhecido por me apaixonar com mortais. Porque, meus filhos Zetes e Calais
comearam como semideuses --"

       "O que explica porque eles so idiotas," Quione grunhiu.

       "Pare com isso!" Zetes respondeu bruscamente. "S porque voc nasceu uma
deusa completa --"

       "Vocs dois, congelem," Breas ordenou. Aparentemente, aquela palavra
carregava muito peso na famlia, pois os dois irmos ficaram absolutamente imveis.

       "Agora, como eu estava dizendo, eu tenho uma boa reputao, mas  raro que
Breas faa um papel importante nos negcios dos deuses. Eu me sinto no meu palcio,
na beira da civilizao, e muito raramente tenho animaes. Porque, at aquele idiota do
Ntus, o Vento Sul, tem frias de primavera. O que eu recebo? Um festival de inverno
com Qubcois nus rolando pela neve!"

       "Eu gosto do festival de inverno," Zetes murmurou.

        "Minha deciso," Breas vociferou, " que agora eu tenho a chance de ser o
centro. Ah, sim, eu lhe deixarem ir nessa misso. Vocs encontraro seus espritos de
tempestade na cidade tempestuosa,  claro. Chicago --"

       "Pai!" Quione protestou.

       Breas ignorou a filha. "Se voc puder capturar os ventos, voc possa conseguir
entrada segura na corte de olo. Se por algum milagre voc sair vivo, esteja certo de
cont-lo que voc capturou os ventos sob minhas ordens."

       "Ok, certo," Jason disse. "Chicago  ento onde encontrarem essa senhora que
est controlando os ventos.  ela que pegou Hera numa armadilha?"

       "Ah." Breas sorriu. "Essas so duas perguntas diferentes, filho de Jpiter."

       Jpiter, Jason notou. Antes, ele me chamava de filho de Zeus.

     "Aquela que controla os ventos," Breas continuou, "sim, voc ir encontr-la
em Chicago. Mas ela  s uma serva -- uma serva que  muito amigvel para te

                                          170
destruir. Se voc tiver sucesso com ela e pegar os ventos, ento voc pode ir a olo. S
ele tem conhecimento de todos os ventos da terra. Consequentemente, todos os segredos
vm de sua fortaleza. Se algum pode lhes dizer onde Hera est aprisionada, esse 
olo. Quanto a quem vocs iro encontrar quando finalmente encontrarem a priso de
Hera -- sinceramente, se eu os contasse isso, vocs implorariam para eu lhes congelar."

       "Pai," Quione protestou, "voc no pode simplesmente deix-los --"

       "Eu posso fazer o que eu gostar," ele disse, sua voz endurecendo, "Ainda sou o
mestre aqui, no sou?"

       O jeito que Breas olhou para sua filha, era bvio que eles tinham alguma
discusso em andamento.

        Os olhos de Quione brilharam em raiva, mas ela apertou os dentes. "Como voc
quiser, Pai."

      "Agora vo, semideuses," Breas disse, "antes que eu mude de ideia. Zetes
acompanhe-os para fora seguramente."

       Todos se curvaram, e o deus do Vento Norte dissolveu em nvoa.



De volta ao salo de entrada, Cal e Leo estavam esperando por eles. Leo parecia
congelado, mas ileso. Ele at foi limpo, e suas roupas pareciam recentemente lavadas,
como se houvesse usado o servio de camareiro do hotel. Festus, o drago, estava de
volta  sua forma normal, soprando fogo sobre suas estruturas para se manter
descongelado.

       Conforme Quione os levava para as escadas, Jason notou que os olhos de Leo a


seguiam. Leo comeou a pentear o cabelo para trs com suas mos. Ops, Jason pensou.
Ele fez um lembrete mental de alertar a Leo sobre a deusa do gelo depois. Ela no era
algum para se apaixonar.

        No ltimo passo, Quione virou para Piper. "Voc enganou meu pai, garota. Mas
voc no me enganou. Ns no acabamos. E voc, Jason Grace, irei te ver como uma
esttua na sala do trono muito em breve."

        "Breas tem razo," Jason disse. "Voc  uma criana mimada. Vejo voc por
a, princesa do gelo."

       Os olhos de Quione cintilaram um branco puro. Por um momento, ela pareceu
perder as palavras. Ela se tempestuou de volta para as escadas -- literalmente. Na
metade do caminho acima, ela virou uma nevasca e desapareceu.


                                          171
        "Tome cuidado," Zetes alertou. "Ela nunca esquece um insulto."

        Cal grunhiu, concordando. "Irm m."

       "Ela  a deusa da neve," Jason disse. "O que ela vai fazer, jogar bolas de neve na
gente?"

      Mas assim que ele disse isso, Jason teve a sensao que Quione poderia fazer
uma coisa muito pior.

        Leo pareceu devastado. "O que aconteceu l em cima? Voc a deixou louca? Ela
est louca comigo, tambm? Gente, era meu baile de formatura!"

       "Vamos explicar depois," Piper prometeu, mas quando ela olhou para Jason, ele
percebeu que ela esperava que ele explicasse.

       O que havia acontecido l em cima? Jason no tinha certeza. Breas tinha virado
quilo, sua forma romana, como se a presena de Jason causasse ele ficar
esquizofrnico.

        A ideia que Jason foi mandado para o Acampamento Meio-Sangue parecia
divertir o deus, mas Breas / quilo no havia os deixado sair de bondade. Animao
cruel danou aos seus olhos, como se eles acabasse de apostar numa briga de ces.

      Vocs iro rasgar um ao outro, ele disse com deleito. olo nunca ter que se
preocupar com semideuses novamente.

       Jason desviou os olhos de Piper, tentando no mostr-la como ele estava
desanimado. "," ele concordou, "vamos explicar depois."

        "Tenha cuidado, linda garota," Zetes disse. "Os ventos entre aqui e Chicago so
mal temperados. Vrias outras coisas ms esto se agitando. Sinto muito por voc no
ficar. Voc faria uma esttua de gelo adorvel, onde eu poderia verificar meu reflexo."

        "Obrigada," Piper disse. "Porm, mais cedo ou mais tarde eu jogaria hquei com
Cal."

        "Hquei?" Os olhos de Cal se iluminaram.

       "Brincadeira," Piper disse. "E os ventos de tempestade no so nosso pior
problema, so?"

        "Ah, no," Zetes concordou. "Algo mais. Algo pior."

        "Pior," Cal ecoou.

        "Voc pode me contar?" Piper lhe deu um sorriso.


                                          172
       Dessa vez, o charme no funcionou. Os borades alados balanaram a cabea em
unssono. As portas do galpo se abriram numa noite congelante e estrelada, e o drago
Festus bateu as patas, ansioso para voar.

          "Pergunte para olo o que  pior," Zetes disse obscuramente. "Ele sabe. Boa
sorte."

       Ele quase soou como se importasse com o que acontecesse a eles, mesmo que
alguns minutos atrs ele quisesse transformar Piper numa escultura de gelo.

      Cal bateu de leve no ombro de Leo. "No se destrua," ele disse, o que
provavelmente foi a maior frase que ele j tentou. "Prxima vez -- hquei. Pizza."

       "Vamos, gente." Jason olhou para a escurido. Ele estava ansioso para sair
daquela sute fria, mas tinha uma sensao que era o lugar mais hospitaleiro que eles
veriam por um tempo. "Vamos para Chicago e tentar no nos destruir."




                                          173
Captulo XXI
PIPER NO RELAXOU AT QUE O BRILHO da Cidade de Quebec enfraquecesse atrs
deles.

         "Voc foi incrvel," Jason lhe disse.

       O elogio deveria ter feito o dia dela. Mas tudo que podia pensar era o problema
adiante. Coisas ms esto se agitando, Zetes os alertou. Ela sabia daquilo em primeira
mo. Quanto mais eles se aproximassem do solstcio, menos tempo Piper tinha para
tomar sua deciso.

       Ela falou para Jason em francs: "Se voc soubesse a verdade sobre mim, voc
no acharia que fui to incrvel."

         "O que disse?" ele perguntou.

         "Disse que s falei com Breas. No foi to incrvel."

         Ela no virou para olhar, mas imaginou-o sorrindo.

      "Ei," ele disse, "voc me salvou de entrar na coleo de heris sub-zero de
Quione. Eu te devo uma."

        Aquela foi definitivamente a parte fcil, ela pensou. No havia jeito de Piper
deixar aquela bruxa do gelo ficar com Jason. O que mais perturbava Piper era o modo
em que Breas mudou de forma, e por que ele os deixou ir. Tinha algo a ver com o
passado de Jason, aquelas tatuagens no seu brao. Breas assumiu que Jason era algum
tipo de romano, e romanos no se misturavam com gregos. Ela continuou esperando que
Jason oferecesse uma explicao, mas ele claramente no queria falar sobre isso.

       At agora, Piper conseguira recusar a sensao de Jason que ele no pertencia ao
Acampamento Meio-Sangue. Obviamente ele era um semideus.  claro que ele
pertencia. Mas agora... e se ele fosse algo mais? E se ele realmente fosse um inimigo?
Ela no podia suportar aquela ideia mais do que no podia suportar Quione.

        Leo lhes passou alguns sanduches da sua mala. Ele esteve quieto desde que lhe
contaram o que aconteceu na sala do trono. "Eu ainda no posso acreditar em Quione,"
ele disse. "Ela parecia to legal."



                                             174
        "Confie em mim, cara," Jason disse. "Neve pode ser bonita, mas de perto ela 
fria e desagradvel. Vamos lhe achar um baile de formatura melhor."

        Piper sorriu, mas Leo no pareceu agradecido. Ele no falara muito sobre seu
perodo no palcio, ou por que os borades haviam o discriminado por cheirar a fogo.
Piper teve a sensao que ele estava escondendo alguma coisa. O que quer que fosse, o
seu nimo parecia estar afetando Festus, que grunhia e emitia fumaa enquanto tentava
se manter quente no ar frio canadense. Feliz, o Drago, no parecia to feliz.

        Eles comeram seus sanduches enquanto voavam. Piper no tinha ideia de como
Leo se abastecera com suprimentos, mas ele at lembrou-se de trazer comida vegetal
para ela. O sanduche de queijo e abacate era impressionante.

       Ningum falou nada. O que quer que encontrassem em Chicago, todos eles
sabiam que Breas s os havia deixado ir pois ele calculou que eles j estavam numa
misso suicida.

        A lua se ergueu e as estrelas viraram acima. Os olhos de Piper comearam a se
sentir pesados. O encontro com Breas e seus filhos a assustara mais do que queria
admitir. Agora que ela estava de estmago cheio, sua adrenalina estava diminuindo.

       Engula isso! O Treinador Hedge teria gritado para ela. No seja uma banana!

        Piper estivera pensando no treinador desde que Breas mencionou que ele estava
vivo. Ela nunca gostou do Treinador Hedge, mas ele havia saltado um penhasco para
salvar Leo, e ele se sacrificou para proteg-los no Skywalk. Ela agora percebeu que
sempre que o treinador havia lhe empurrado na escola, gritado com ela para correr mais
rpido ou fazer mais flexes, ou at quando ele virou de costas e deixou-a lutar suas
prprias batalhas com as garotas mdias, o velho homem-bode estivera tentando ajud-
la no seu prprio modo irritante -- tentando prepar-la para vida como semideusa.

        No Skywalk, o esprito de tempestade Dylan dissera algo sobre o treinador
tambm: como ele seria aposentado da Wilderness School porque estava ficando muito
velho, como se fosse algum tipo de castigo. Piper se perguntou o que significava aquilo,
e se isso explicava por que o treinador sempre estava to mal disposto. Qualquer que
seja a verdade, agora que Piper sabia que Hedge estava vivo, ela tinha uma obrigao
forte de salv-lo.

       No se precipite, ela repreendeu. Voc tem problemas maiores. Essa viagem no
ter um final feliz.

      Ela era uma traidora, assim como Silena Beauregard. Era s uma questo de
tempo antes que seus amigos descobrissem.



                                          175
       Ela ergueu os olhos para as estrelas e pensou sobre uma noite a tempos atrs
quando ela e seu pai haviam acampado na frente da casa do seu av Tom. O av Tom
morrera anos antes, mas seu pai mantivera sua casa em Oklahoma, pois era onde ele
cresceu.

        Eles haviam voltado por alguns dias, com a ideia de deixar o lugar arrumado
para vender, apesar de Piper no saber quem iria querer comprar um chal em estado
precrio com folhas de janelas ao invs delas e duas portas minsculas que cheiravam a
cigarro. A primeira noite fora to quente e sufocante -- sem ar condicionado no meio
de agosto -- que seu pai sugeriu que eles dormissem do lado de fora.

       Eles abriram seus sacos de dormir e ouviram cigarras zumbindo nas rvores.
Piper apontou para as constelaes que estava lendo sobre -- Hrcules, a lira de Apolo,
o centauro Sagitrio.

        Seu pai cruzou os braos atrs da cabea. Na sua camiseta e nos seus jeans
antigos ele parecia s outro cara de Tahlequah, Oklahoma, um Cherokee que nunca
poderia ter deixado terras tribais. "O seu av diria que esses padres gregos so um
bando de bobagem. Ele me disse que as estrelas eram criaturas com pele brilhante,
como ourios mgicos. Uma vez, a um tempo atrs, alguns caadores at capturaram
poucos na floresta. Eles no estavam cientes do que fizeram at a noite, quando as
criaturas das estrelas comearam a brilhar. Fascas douradas voaram da pele deles, ento
os Cherokee liberaram eles de volta ao cu."

       "Voc acredita em ourios mgicos?" Piper perguntou.

       Seu pai riu. "Eu acho que o vov Tom era cheio de bobagem, tambm, assim
como os gregos. Mas  um cu grande. Suponho que haja um quarto para Hrcules e os
ourios."

        Eles se sentaram um pouco, at Piper ter o nervo de fazer uma pergunta que
estivera lhe aborrecendo.

       "Pai, por que voc no faz personagens nativo-americanos?"

        Na semana anterior, ele havia recusado vrios milhes de dlares para
interpretar Tonto num remake de The Lone Ranger. Piper ainda estava tentando
entender o por qu. Ele j interpretara todos os tipos de papis -- um professor latino
numa escola de valentes em L.A., um elegante espio israelense numa bomba de ao
de aventura, at um terrorista srio num filme de James Bond. E, naturalmente, ele
sempre seria conhecido como o Rei de Esparta. Mas se o personagem era nativo-
americano -- no importava que tipo de papel fosse -- o pai recusava.

       Ele piscou para ela. "Muito perto de casa, Pipes. Mais fcil fingir que sou algo
que no sou."

                                          176
       "Isso no fica velho? Voc no esteve sempre tentado, tipo, se voc encontrasse
o personagem perfeito que pudesse mudar as opinies das pessoas?"

       "Se h um personagem assim, Pipes," ele disse lamentavelmente, "eu no o
encontrei."

       Ela olhou para as estrelas, tentando imagin-los como ourios brilhantes. Tudo
que ela via eram as figuras com bastes que ela conhecia -- Hrcules correndo pelo
cu, no seu jeito para matar monstros. O pai estava provavelmente certo. Os gregos e os
Cherokee eram igualmente loucos. As estrelas eram apenas bolas de fogo.

      "Pai," ela disse, "se voc no gosta de ficar perto de casa, por que estamos
dormindo no jardim do vov Tom?"

       Sua risada ecoou na noite silenciosa de Oklahoma. "Acho que voc me conhece
muito bem, Pipes."

       "Voc no realmente vender esse lugar, vai?"

       "No," ele suspirou. " provvel que no."

        Piper piscou, sacudindo a cabea para esquecer-se da memria. Ela percebeu que
estava caindo no sono nas costas do drago. Como o seu pai poderia fingir ser tantas
coisas que no era? Ela estava tentando fazer isso agora, e isso estava lhe rasgando.

       Talvez ela pudesse fingir um pouco mais. Ela podia sonhar em encontrar um
caminho para salvar seu pai sem trair os amigos -- mesmo se agora um final feliz
parecia to amigvel como ourios mgicos.

       Ela se encostou no peito quente de Jason. Ele no reclamou. Assim que fechou
os olhos, ela caiu no sono.



No seu sonho, ela voltou ao topo do Monte. A espectral fogueira roxa lanava sombras
sobre as rvores. Os olhos de Piper arderam com a fumaa, e o cho estava to quente
que a sola das suas botas estava grudenta.

       Uma voz da escurido ressoou, "Voc esqueceu o seu dever."

       Piper no podia v-lo, mas era definitivamente o seu gigante menos favorito --
o que se chamava de Enclado. Ela olhou ao redor procurando algum sinal do seu pai,
mas a estaca onde ele esteve acorrentado no estava mais l.

       "Onde ele est?" ela perguntou. "O que voc fez com ele?"



                                         177
       A risada do gigante era como lava sibilando de um vulco. "O corpo dele est
bastante seguro, embora eu tenha medo que a mente do pobre homem no possa tomar
muito mais da minha companhia. Por algum motivo ele me encontra -- perturbador.
Voc deve se apressar, agora, ou temo que haja pouco dele para salvar."

       "Deixe-o ir!" ela gritou. "Pegue-me no lugar dele. Ele  s um mortal!"

       "Mas, minha querida," o gigante assobiou, "ns devemos provar nosso amor aos
nossos pais.  o que eu estou fazendo. Mostre-me que voc vale a vida do seu pai
fazendo o que eu peo. Quem  mais importante -- seu pai, ou uma deusa enganosa que
usou voc, brincou com suas emoes, manipulou suas memrias, hein? O que Hera 
para voc?"

        Piper comeou a tremer. Tanta raiva e medo ferviam dentro dela que mal podia
falar. "Voc est me pedindo para trair os meus amigos."

        "Infelizmente, minha querida, seus amigos esto destinados a morrer. A misso
deles  impossvel. Mesmo se vocs tivessem sucesso, voc ouviu a profecia: desatrelar
a ira de Hera significaria sua destruio. A nica pergunta agora -- voc morrer com
seus amigos, ou viver com seu pai?"

       A fogueira bradou. Piper tentou recuar, mas seus ps estavam pesados. Ela
percebeu que o cho estava lhe arriando, agarrando-se s suas botas como areia
molhada. Quando ela olhou para cima, uma chuva de fascas roxas espalhou-se pelo
cu, e o sol estava se erguendo no leste. Um fragmento de cidades brilhava no vale
abaixo, e ao oeste, sobre uma linha de colinas reverberantes, ela viu um ponto de
referncia familiar subindo de um mar de nvoa.

       "Por que voc est me mostrando isso?" Piper perguntou. "Voc est revelando
onde est."

       "Sim, voc conhece esse lugar," o gigante disse. "Traga os seus amigos para c
em vez do verdadeiro destino deles, e irei negociar com eles. Ou ainda melhor, arranjar
a morte deles antes de voc chegar. No me importo com isso. S esteja no cume ao
meio-dia no solstcio, e voc pode coletar seu pai e ir em paz."

       "No posso," Piper disse. "Voc no pode me pedir --"

       "Trair aquele tolo do Valdez, que sempre irritou voc e est agora escondendo
segredos de voc? Desistir de um namorado que voc na verdade nunca teve? Isso 
mais importante que o seu prprio pai?"

      "Eu vou encontrar um jeito de derrot-lo," Piper disse. "Eu vou salvar meu pai e
meus amigos."


                                         178
        O gigante grunhiu nas sombras. "Eu j fui orgulhoso tambm. Pensei que os
deuses nunca poderiam me derrotar. Ento eles atiraram um monte em cima de mim, me
esmagaram no cho, onde eu lutei por eras, com a metade da conscincia em dor.
Aquilo me ensinou a ter pacincia, garota. Aquilo me ensinou a no agir
temerariamente. Agora eu recuperei a minha maneira com a ajuda da terra reveladora.
Eu sou apenas o primeiro. Meus irmos se erguero. Piper McLean precisa de uma lio
de humildade. Eu vou te mostrar como  fcil o seu esprito rebelde poder ser trazido a
terra."

       O sonho dissolveu. E Piper acordou gritando, descendo em queda livre pelo ar.




                                         179
Captulo XXII
PIPER TOMBOU ATRAVS DO CU. Logo abaixo ela viu luzes de cidade cintilando no
amanhecer, e a vrias centenas de jardas de distncia o corpo de um drago de bronze
girando fora de controle, suas asas moles, fogo tremeluzindo na sua boca como uma
luminria conectada de forma errada.

      Um corpo passou por ela -- Leo, gritando e freneticamente agarrando nas
nuvens. "No  legaaaaaal!"

       Ela tentou chamar ele, mas ele j estava distante demais abaixo. Em algum lugar
acima dela, Jason gritou, "Piper, fique plana! Estenda seus braos e pernas!"

        Era difcil controlar seu medo, mas ela fez o que ele disse e ganhou algum
equilbrio. Ela caiu em forma de uma guia com as asas abertas do mesmo jeito que um
paraquedista, o vento abaixo dela como um slido bloco de gelo. Ento Jason estava ali,
colocando seus braos ao redor da sua cintura.

      Graas a Deus, Piper pensou. Mas parte dela tambm pensou: timo. Segunda
vez nessa semana que ele me abraa, e em ambas as vezes  porque eu estou
mergulhando para a minha morte.

       "Temos que pegar o Leo!" ela gritou.

       A cada deles diminuiu conforme Jason controlava os ventos, mas eles se
balanavam para cima e para baixo como se os ventos no quisessem cooperar.

       "Vai ficar duro," Jason alertou. "Segure-se!"

      Piper trancou seus braos ao redor dele, e Jason se atirou para o cho. Piper
provavelmente gritou, mas o som foi rompido da sua boca. Sua viso se desfocou.

      E ento, tum! Eles bateram com fora em outro corpo quente -- Leo, ainda se
mexendo e xingando.

       "Pare de lutar!" Jason disse. "Sou eu!"

       "Meu drago!" Leo gritou. "Voc tem que salvar Festus!"



                                          180
       Jason j estava lutando para mant-los no alto, e Piper sabia que no havia
chance de ajudar um drago de metal de quinze toneladas. Mas antes que ela pudesse
raciocinar com Leo, ela ouviu uma exploso abaixo deles. Uma bola de fogo girou ao
cu de trs de um complexo de armazns, e Leo soluou, "Festus!"

       O rosto de Jason se avermelhou com fora enquanto ele tentava manter um curso
de ar abaixo deles, mas redues de velocidade interruptas eram o melhor que ele podia
controlar. Melhor que cair em queda livre, pareceu que eles estavam saltando uma
escadaria gigante, cem ps de vez, o que no estava favorecendo o estmago de Piper.

       Enquanto eles bamboleavam e ziguezagueavam, Piper pde distinguir detalhes
do complexo de fbricas abaixo -- armazns, chamins, cercas de arame farpado, e
estacionamentos alinhados com veculos cobertos de neve. Eles ainda estavam altos
demais de forma que bater no cho os achataria num atropelamento na estrada -- ou no
cu -- quando Jason gemeu, "Eu no posso --"

       E eles caram feito pedras.

       Eles bateram no telhado do maior armazm e colidiram na escurido.

       Infelizmente, Piper tentou pousar de p. Seus ps no gostavam disso. Dor
brilhou no seu tornozelo esquerdo enquanto ela caia sobre uma superfcie fria de metal.

      Por alguns segundos ela no estava consciente de nada a no ser dor -- dor to
mau que suas orelhas zumbiram e sua viso ficou vermelha.

       Ento ela ouviu a voz de Jason em algum lugar abaixo, ecoando pela construo.
"Piper! Onde est Piper?"

       "Ai, cara!" Leo gemeu. "Essas so as minhas costas! No sou um sof! Piper,
onde voc foi?"

       "Aqui," ela conseguiu falar, sua voz como um gemido.

       Ela ouviu arrastar de ps e grunhidos, ento ps dando passos no metal.

        Sua viso comeou a clarear. Ela estava numa passarela de metal que circulava o
interior do armazm. Leo e Jason pousaram no trreo, e agora estavam subindo as
escadas em direo a ela. Ela olhou ao seu p, e uma onda de nusea se varreu sobre ela.
Seus dedos no deviam apontar para aquela direo, deviam?

       Oh, deuses. Ela se forou para desviar o olhar antes que vomitasse. Focar em
mais alguma coisa. Qualquer coisa.

       O buraco que eles fizeram no telhado era um teto solar maltrapilho seis metros
acima. Como eles sobreviveram quela queda, ela no tinha ideia. Pendurados no teto,

                                          181
algumas lmpadas eltricas cintilavam debilmente, mas elas no faziam muito para
iluminar o enorme espao. Do lado de Piper, a parede de metal ondulada estava
brasonada com a logomarca de uma companhia, mas ela estava quase completamente
borrifada com grafite. Abaixo, no armazm escuro, ela pde perceber grandes
mquinas, braos robticos, caminhes finalizados pela metade numa linha de
montagem. O lugar parecia abandonado por anos.

       Jason e Leo chegaram ao seu lado.

       Leo comeou a perguntar, "Est bem...?" Ento ele ouviu o seu p. "Ah no,
voc no est."

       "Obrigada pelo reconforto," Piper gemeu.

       "Voc ficar bem," Jason disse, embora Piper pudesse ouvir a preocupao na
voz. "Leo, voc tem alguns suprimentos de primeiros-socorros?"

       "Sim -- sim, certo." Ele escavou no seu cinto de ferramentas e tirou um monte
de gazes e um rolo de fita -- ambos pareciam muito grandes para bolsos de cinto. Piper
notara o cinto de ferramentas ontem de manh, mas ela no pensara em perguntar a Leo
sobre ele. No parecia nada especial -- s um daqueles aventais de couro envoltrios
com vrios bolsos, como um ferreiro ou um carpinteiro pode usar. E parecia estar vazio.

       "Como foi que --" Piper tentou se sentar, e encolheu-se. "Como voc puxou
essas coisas de um cinto vazio?"

       "Magia," Leo disse. "No compreendi isso completamente, mas posso convocar
ferramentas normais dos bolsos, e mais algumas outras coisas teis. Ele colocou a mo
em outro bolso e tirou uma pequena caixa feita de estanho. "Balas de menta?"

       Jason pegou as mentas. "Incrvel, Leo. Agora, voc pode consertar o p dela?"

       "Eu sou um mecnico, cara. Talvez se ela fosse um carro..." Ele estalou os
dedos. "Espere, o que foi aquela cura divina que eles te deram para comer no
acampamento -- comida do Rambo?"

      "Ambrosia, boneco," Piper disse com os dentes trincados. "Deve ter um pouco
na minha mochila, se no estiver amassado."

       Jason cuidadosamente tirou a mochila dos seus ombros. Ele vasculhou os
suprimentos que as crianas de Afrodite colocaram para ela, e encontrou uma caixa
cheia de pedaos esmagados de pastel como barras de limo. Ele tirou um pedao e
entregou para ela.

        O gosto no era nada como o que ela esperava. A fez lembrar-se da sopa escura
de feijo do seu pai quando ela era uma garotinha. Ele costumava aliment-la com isso

                                           182
quando ficasse doente. A memria a relaxou, embora isso a deixasse triste. A dor no
tornozelo diminuiu.

       "Mais," ela disse.

       Jason franziu a testa. "Piper, no deveramos arriscar. Eles disseram que muito
poderia lhe consumir. Eu acho que deveria tentar colocar seu p."

       O estmago de Piper tremeu. "Voc j fez isso antes?"

       "Sim... acho que sim."

       Leo encontrou um pedao velho de madeira e o quebrou no meio como uma tala.
Ento ele deixou a gaze e a fita prontas.

       "Deixe a perna dela imvel," Jason falou para ele. "Piper, isso vai doer."

        Quando Jason colocou o p, Piper se retraiu tanto que ela socou Leo no brao, e
ele gritou quase tanto quando ela. Quando sua viso clareou e ela pde respirar
normalmente de novo, ela encontrou que seu p estava apontando para a direo certa,
seu tornozelo entalado com madeira compensada, gaze, e fita.

       "Ai," ela disse.

       "Caramba, rainha da beleza!" Leo esfregou o brao. "Ainda bem que meu rosto
no estava ali."

       "Desculpa," ela disse. "E no me chame de `rainha da beleza,' ou eu vou te
socar novamente."

      "Vocs dois foram incrveis." Jason achou um cantil na mala de Piper e lhe deu
um pouco de gua. Depois de alguns minutos, seu estmago comeou a acalmar.

        Quando ela parou de gritar de dor, ela pde ouvir o vento bramindo do lado de
fora. Flocos de neve flutuaram pelo buraco no telhado, e depois do encontro deles com
Quione, neve era a ltima coisa que Piper queria ver.

       "O que aconteceu com o drago?" ela perguntou. "Onde estamos?"

       A expresso de Leo ficou pesada. "No sei o que houve com Festus. Ele
simplesmente estremeceu de lado como se batesse numa parede invisvel e comeou a
cair."

        Piper se lembrou do alerta de Enclado: Eu vou te mostrar como  fcil o seu
esprito rebelde poder ser trazido a terra. Ele conseguira acert-los daquela distncia?
Parecia impossvel. Se ele fosse to poderoso, porque precisaria que ela trasse seus



                                          183
amigos quando poderia simplesmente mat-los por si? E como o gigante poderia estar
olhando ela numa tempestade de neve milhares de quilmetros de distncia?

        Leo apontou para a logomarca na parede. "Pelo que onde estamos..." Era difcil
ver pelo grafite, mas Piper conseguiu distinguir um grande olho vermelho com palavras
escritas em matriz: motores monculos, sesso de fbrica 1.

       "Fbrica de carros fechada," Leo disse. "Acho que camos em Detroit."

       Piper ouvira sobre fbricas de carro fechadas em Detroit, ento aquilo fez
sentido. Mas parecia um lugar bastante depressivo para pousar. "Qual  a distncia 
daqui para Chicago?"

       Jason deu a ela o cantil. "Talvez trs quartos do caminho de Quebec? O
problema  que sem o drago, estamos presos viajando por terra."

       "Sem chance," Leo disse. "No  seguro."

       Piper pensou sobre o jeito que o cho havia se grudado aos seus ps no sonho, e
o que Rei Breas dissera sobre a terra revelar mais horrores.

       "Ele tem razo. Alm disso, eu no sei se posso andar. E trs pessoas -- Jason,
voc no pode voar tanto pelo pas sozinho."

       "Sem chance," Jason disse. "Leo, voc tem certeza que o drago no falhou?
Digo, Festus  velho, e --"

       "E eu posso no ter reparado-o direito?"

       "Eu no disse isso," Jason protestou. " s -- talvez voc pudesse consert-lo."

       "Eu no sei." Leo soou cabisbaixo. Ele tirou alguns parafusos dos seus bolsos e
comeou a remexer neles. "Eu teria que encontrar onde ele caiu, se ele ainda est num
s pedao."

       "Foi minha culpa." Piper disse sem pensar. Ela no podia mais aguentar isso. O
segredo sobre seu pai estava aquecendo dentro dela como muita ambrosia. Se ela
continuasse mentindo aos amigos, ela sentiria como se queimasse em cinzas.

      "Piper," Jason disse gentilmente, "voc estava dormindo quando Festus quebrou.
No poderia ser sua culpa."

       ", voc est s abalada," Leo concordou. Ele nem tentou fazer uma piada com
o gasto dela. "Voc est com dor. Basta descansar."




                                          184
       Ela queria cont-los tudo, mas as palavras se prenderam na sua garganta. Eles
estavam sendo muito gentis com ela. Contudo, se Enclado estivesse observando-os de
algum jeito, dizer a coisa errada poderia matar o pai dela.

       Leo se levantou. "Olhe, h, Jason, por que voc no fica com ela, cara? Eu vou
fazer uma escolta por a procurando Festus. Eu acho que ele caiu fora do armazm em
algum lugar. Se eu puder encontr-lo, talvez eu possa descobrir o que aconteceu e
consert-lo."

       " perigoso demais," Jason disse. "Voc no deveria ir sozinho."

       "Ah, eu tenho fita e balas de mental. Ficarei legal," Leo disse, um pouco rpido
demais, e Piper percebeu que ele estava muito mais abalado do que estava deixando
parecer.

       "E vocs, no fujam sem mim."

      Leo colocou a mo no seu cinto de ferramentas mgico, tirou uma lanterna, e
rumou para as estrelas deixando Piper e Jason sozinhos.

       Jason a deu um sorriso, embora ele parecesse um pouco nervoso. Era a exata
expresso que ele tinha no rosto depois dele beij-la pela primeira vez, em cima do
telhado do dormitrio da Wilderness School -- aquela pequena cicatriz bonita no seu
lbio curvando numa meia-lua. A memria lhe deu uma sensao quente. Ento ela
lembrou que o beijo realmente nunca aconteceu.

       "Voc parece melhor," Jason ofereceu.

       Piper no tinha certeza se ele mencionava seu p, ou o fato que ela no estava
mais magicamente linda. Seus jeans estavam surrados da queda pelo telhado. Suas botas
estavam espirradas de neve suja e derretida. Ela no sabia como seu rosto parecia, mas
provavelmente horrvel.

       Por que isso importava? Ela nunca se importou com coisas assim antes. Ela
pensou se era sua estpida me, a deusa do amor, brincando com os seus pensamentos.
Se Piper comeasse a ter impulsos para ler revistas de moda, ela iria ter que encontrar
Afrodite e dar-lhe uma tapa.

       Porm, ela decidiu focar no seu tornozelo. Enquanto ela no o mexia, a dor no
era m. "Voc fez um bom trabalho," ela falou para Jason. "Onde voc aprendeu
primeiros-socorros?"

       Ele deu de ombros. "A mesma resposta de sempre. Eu no sei."

       "Mas voc est comeando a ter algumas memrias, no est? Como aquela
profecia em latim l no acampamento, ou aquele sonho com a loba."

                                         185
       " indistinto," ele disse. "Como dj vu. J esqueceu uma palavra ou um nome,
e voc que devia estar na ponta da sua lngua, mas no est?  assim -- mas  com a
minha vida toda."

       Piper meio que entendeu o que ele estava dizendo. Os ltimos trs meses -- uma
vida que ela pensou que tinha um relacionamento com Jason -- havia virado Nvoa.

       Um namorado que voc na verdade nunca teve, Enclado dissera. Isso  mais
importante que o seu prprio pai?

      Ela deveria ter deixado sua boca fechada, mas disse a pergunta que estivera na
sua mente desde ontem.

       "Aquela foto no seu bolso," ela disse. " algum do seu passado?"

       Jason recuou.

       "Desculpe-me," ela disse. "No  negcio meu. Esquea."

        "No -- est tudo bem." Suas feies relaxaram. "S estou tentando descobrir as
coisas. Seu nome  Thalia. Ela  minha irm. Eu no me lembro de mais detalhes. No
tenho nem certeza de como sei, mas -- h, por que voc est sorrindo?"

        "Nada." Piper tentou matar o sorriso. No era uma namorada antiga. Ela se
sentiu ridiculamente feliz. "H,  s --  bom que voc lembrou. Annabeth me disse
que se tornou uma Caadora de rtemis, certo?"

       Jason assentiu. "Eu tenho a sensao que devo encontr-la. Hera me deixou
aquela memria por um motivo. Tem algo a ver com essa misso. Mas... eu tambm
tenho a sensao que pode ser perigoso. Eu no sei se quero descobrir a verdade. 
loucura?"

       "No," Piper disse. "No completamente."

      Ela olhou para a logomarca na parede: motores monculos, o nico olho
vermelho. Algo naquela logomarca a incomodava.

       Talvez fosse a ideia que Enclado estava lhe observando, segurando o seu pai
para puxar a alavanca. Ela tinha que salv-lo, mas como ela poderia trair os amigos?

        "Jason," ela disse. "Falando a verdade, eu preciso te falar uma coisa -- uma
coisa sobre meu pai --"

      Ela no teve a chance. Em algum lugar abaixo, metal ressoou contra metal,
como uma porta batendo. O som ecoou pelo armazm.



                                         186
        Jason se levantou. Ele tirou sua moeda e a lanou, pegando sua espada dourada
no ar. Ele olhou para o parapeito. "Leo?" ele chamou.

       Sem resposta.

       Ele agachou ao lado de Piper. "No gosto disso."

       "Ele pode estar com problemas," Piper disse. "V checar."

       "No posso te deixar sozinha."

       "Ficarei bem." Ela se sentia aterrorizada, mas no iria admitir isso. Ela puxou
sua adaga Katoptris e tentou parecer confiante. "Se algum chegar perto, eu espeto
eles."

       Jason hesitou. "Eu vou te deixar a mala. Se eu no voltar em cinco minutos --"

       "Pnico?" ela sugeriu.

      Ele controlou um sorriso. "Estou feliz que voc tenha voltado ao normal. A
maquiagem e o vestido eram muito mais intimidantes que a adaga."

       "V logo, Sparky, antes de eu espetar voc."

       "Sparky?"

       Mesmo ofendido, Jason parecia bonito. No era justo. Ento ele foi para as
escadas e desapareceu na escurido.

       Piper contou suas respiraes, tentando medir quanto tempo passara. Ela perdeu
a conta em aproximadamente quarenta e trs. Ento algo no armazm fez bang! O eco
morreu. O corao de Piper pesou, mas ela no gritou. Seus instintos lhe disseram que
no devia ser uma boa ideia.

       Ela olhou para o seu tornozelo entalado. No  como se eu pudesse correr. Ento
ela olhou novamente para o sinal da Motores Monculos. Uma pequena voz na sua
cabea a incomodou, alertando o perigo. Algo da mitologia grega...

      Sua mo foi  mochila. Ela tirou os quadrados de ambrosia. Muito lhe
consumiria, mas um pouco mais consertaria seu tornozelo?

       Boom. O som estava mais perto dessa vez, diretamente abaixo dela. Ela cavou
um quadrado inteiro de ambrosia e encheu-o na boca. Seu corao bateu mais rpido.
Sua pele parecia febril.

        Hesitantemente, ela flexionou o tornozelo na tala. Sem dor, nem mesmo
inflexibilidade. Ela cortou a fita com sua adaga e ouviu passos pesados nas escadas --
como botas de metal.
                                         187
        Passaram cinco minutos? Mais? Os passos no pareciam os de Jason, mas talvez
ele estivesse carregando Leo. Finalmente ela no pde aguentar. Apertando sua adaga,
ela gritou, "Jason?"

         "," ele disse da escurido. "Subindo."

         Definitivamente era a voz de Jason. Ento por que todos os seus instintos diziam
Corra?

         Com esforo, ela se levantou.

         Os passos ficaram mais prximos.

         "Est tudo bem," a voz de Jason prometeu.

       No topo das escadas, um rosto apareceu da escurido -- um sorriso negro e
horrvel, um nariz esmagado, e um nico olho injetado de sangue no meio da testa.

         "Est tudo bem," o ciclope disse, numa perfeita imitao da voz de Jason. "Voc
                               est bem na hora do jantar."




                                            188
Captulo XXIII
LEO ESPEROU QUE O DRAGO NO TIVESSE CADO nos toaletes.

        De todos os lugares para cair, uma linha de banheiros qumicos no teria sido
sua primeira escolha. Uma dzia de caixas azuis de plstico foi posta no jardim da
fbrica, e Festus havia achatado todas elas. Felizmente, elas no eram usadas h muito
tempo, e a bola de fogo da batida incinerou a maioria delas; mas mesmo assim, havia
substncias qumicas bastante grossas transpirando dos destroos. Leo tinha que passar
por elas e tentar no respirar pelo nariz. Neve pesada estava caindo, mas o esconderijo
do drago ainda estava fervendo quente.  claro, aquilo no incomodou Leo.

         Depois de alguns minutos escalando o corpo inanimado de Festus, Leo comeou
a irritar-se. O drago estava perfeitamente bem. Sim, ele caiu do cu e pousou com um
grande cabum, mas seu corpo no estava nem amassado. A bola de fogo aparentemente
veio dos gases compostos dentro dos banheiros, e no do prprio drago. As asas de
Festus estavam intactas. Nada parecia quebrado. No havia motivo para ter parado.

        "No foi minha culpa," ele murmurou. "Festus, voc est me fazendo parecer
mal."

      Ento ele abriu o painel de controle na cabea do drago, e o corao de Leo
afundou. "Ah, Festus, o que  isso?"

        A fiao estava coberta de gelo. Leo sabia que estava tudo bem ontem. Ele
trabalhara tanto para reparar as linhas corrodas, mas algo causou um congelamento
instantneo dentro do crnio do drago, onde deveria ser quente demais para gelo se
formar. O gelo fez com que a fiao sobrecarregasse e torrado o painel de controle. Ele
no via um motivo para que isso acontecesse. Certo, o drago era velho, mas mesmo
assim, no fazia sentido.

       Ele podia recolocar os cabos. Aquele no era o problema. Mas o disco de
controle chamuscado no era bom. As letras gregas e fotos esculpidas nas bordas, que
provavelmente carregavam todos os tipos de magia, estavam manchadas e enegrecidas.

        A pea que Leo no poderia recolocar -- e ela estava danificada. De novo.

       Ele imaginou a voz de sua me: A maioria dos problemas parece pior do que ,
mijo. Nada  inconsertvel.
                                          189
       Sua me podia reparar quase tudo, mas Leo tinha muita certeza que ela nunca
trabalhara num drago mgico de metal de cinquenta anos de idade.

       Ele apertou os dentes e decidiu que tinha que tentar. Ele no iria andar de Detroit
at Chicago numa tempestade de neve, e ele no seria responsvel por fazer seus amigos
fracassarem.

       "Certo," ele murmurou, limpando a neve dos ombros.

       "D um item de escova de cerdas de nilon, algumas luvas descartveis, e talvez
uma lata daquele solvente aerossol de limpeza."

       O cinto de ferramentas obedeceu. Leo no pde deixar de sorrir enquanto tirava
os objetos. Os bolsos do cinto tinham limites. Eles no lhe dariam qualquer coisa
mgica, como a espada de Jason, ou algo grande, como uma motosserra. Ele tentara
pedir as duas coisas. E se ele pedisse muitas coisas de vez, o cinto precisaria de um
tempo para se resfriar antes que pudesse funcionar novamente. Quanto mais complicado
o pedido, mais tempo para resfriar. Mas algo pequeno e simples como os que voc pode
encontrar numa oficina -- tudo que Leo precisava fazer era pedir.

       Ele comeou a limpar o disco de controle. Enquanto trabalhava, neve recobria o
drago frio. Leo tinha que parar de tempos em tempos para convocar fogo e derreter
tudo, mas na maioria das vezes ele trabalhava como piloto automtico, suas mos
trabalhando por si prprias enquanto seus pensamentos fluam.

       Leo no acreditava em como ele foi estpido agindo no palcio de Breas. Ele
deveria ter calculado que uma famlia de deuses do inverno o odiaria  primeira vista.
Filho do deus do fogo voando num drago que respira fogo numa sute de gelo -- ,
talvez no fosse o melhor. Ainda assim, ele odiava se sentir rejeitado. Jason e Piper
conseguiram visitar a sala do trono. Leo teve que esperar no salo com Cal, o semideus
do hquei e a cabea dos maiores insultos.

       Fogo  mau, Cal lhe disse.

       Aquilo praticamente resumia. Leo sabia que ele no esconderia a verdade dos
seus amigos por muito tempo. Desde o Acampamento Meio-Sangue, uma linha daquela
Grande Profecia continuava voltando para ele: Em tempestade ou fogo o mundo deve
perecer.

       E Leo era o garoto do fogo, o primeiro desde 1666 quando Londres havia
queimado. Se ele contasse aos seus amigos o que ele realmente podia fazer -- Ei,
adivinha, galera? Eu posso destruir o mundo! -- por que algum iria lhe dar as boas-
vindas no acampamento de novo? Leo teria que correr novamente. Mesmo que ele
conhecesse aquele exerccio, a ideia o deprimia.


                                           190
       A havia Quione. Maldio, aquela garota era linda. Leo sabia que agira como
um idiota total, mas no pde deixar de pensar nela. Ele teve suas roupas limpas com o
servio de camareiro de uma hora -- o que havia sido totalmente demais, a propsito.
Ele penteou o cabelo -- nunca era algo fcil -- e at descobriu que o cinto de
ferramentas podia fazer balas de menta, tudo na esperana de se aproximar dela.
Naturalmente, sem tal sorte.

       Ser excludo -- histria da sua vida -- pelos seus parentes, casas de adoo,
voc escolhe. At na Wilderness School, Leo gastara as ltimas semanas se sentindo
uma terceira roda enquanto Jason e Piper, seus nicos amigos, se tornavam um casal.
Ele estava feliz por eles e tudo, mas ainda assim o fazia se sentir como se no
precisassem mais dele.

        Quando ele descobriu que a vida inteira de Jason no colgio fora uma iluso --
um tipo de arroto de memria -- Leo ficou secretamente animado. Era uma chance para
recomear. Agora Jason e Piper estavam indo ser um casal novamente -- que era bvia
pelo jeito que agiram no armazm agora pouco, como se quisessem conversar sem Leo
por perto. O que ele esperava? Ele iria reanimar o homem estranho novamente. Quione
s havia lhe dado a indiferena um pouco mais rpido que a maioria.

       "Basta, Valdez," ele se repreendeu. "Ningum vai tocar violinos para voc s
porque voc no  importante. Conserte o drago estpido."

       Ele ficou to envolvido com o trabalho que no sabia quanto tempo passara
antes de ouvir a voz.

       Voc est errado, Leo, ela disse.

       Ele se atrapalhou com a escova e a deixou cair na cabea do drago. Ele se
levantou, mas no pde ver quem falava. Ento ele olhou para o cho. Neve e esgoto
qumico dos toaletes, at o asfalto estava se deslocando como se virasse lquido. Uma
rea de trs metros formou olhos, um nariz, e uma boca -- o rosto gigante de uma
mulher adormecida.

       Ela no falou exatamente. Seus lbios no se mexiam. Mas Leo pde ouvir sua
voz na cabea dele, como se as vibraes estivesse vindo pelo cho, direto aos seus ps
e repercutindo no seu esqueleto.

       Eles precisam de voc desesperadamente, ela disse. Em algumas maneiras, voc
 o mais importante dos sete -- como o disco de controle no crebro do drago. Sem
voc, o poder dos outros no significa nada. Eles nunca me alcanaro, nunca me
pararo. E eu vou acordar completamente.




                                           191
      "Voc." Leo estava to mexido que no tinha certeza se falou em voz alta. Ele
no ouvira aquela voz desde que tinha oito, mas era ela: a mulher trrea da oficina
mecnica. "Voc matou minha me."

        O rosto descolou. A boca formou um sorriso sonolento, como se estivesse tendo
um sonho agradvel. Ah, mas Leo. Eu sou sua me tambm -- a Primeira Me. No se
oponha a mim. Parta agora. Deixe meu filho Porfrio se erguer e tornar-se rei, e eu irei
aliviar suas cargas. Voc ir andar brilhantemente na terra.

      Leo pegou a coisa mais prxima que pde encontrar -- um assento de banheiro
qumico -- e jogou no rosto. "Me deixe em paz!"

        O assento do toalete afundou na terra lquida. Neve e esgoto ondularam, e o
rosto dissolveu.

       Leo olhou para o cho, esperando o rosto reaparecer. Mas no reapareceu. Leo
quis pensar que imaginou isso.

        Ento da direo da fbrica, ele ouviu um estrondo -- como dois caminhes de
lixo batendo juntos. Metal caiu e vergou, e o barulho ecoou pelo jardim.
Instantaneamente Leo sabia que Jason e Piper estavam em apuros.

       Parta agora, a voz urgira.

       "Provavelmente no," Leo grunhiu. "D o maior martelo que voc tiver."

       Ele colocou a mo no cinto de ferramentas e tirou um martelo de trs quilos com
uma cabea de duas faces do tamanho de uma batata assada. Ento ele pulou das costas
do drago e correu para o armazm.




                                          192
Captulo XXIV
LEO PAROU NAS PORTAS E TENTOU controlar sua respirao. A voz da mulher de terra
ainda cercava os seus ouvidos, fazendo-lhe lembrar da morte da me. A ltima coisa
que ele queria fazer era mergulhar em outro armazm escuro. Subitamente ele sentia
que tinha oito anos novamente, sozinho e desamparado enquanto algum que ele se
importava fora pego numa armadilha e estava em perigo.

         Pare, ele falou para si.  como ela quer que voc se sinta.

       Mas aquilo no o deixava menos assustado. Ele respirou profundamente e
examinou o lado de dentro. Nada parecia diferente. A luz cinza da manh infiltrava pelo
buraco no telhado. Algumas lmpadas tremeluziam, mas a maioria do cho da fbrica
ainda estava perdida em sombras. Ele podia distinguir a passarela acima, as foras
escuras de maquinaria pesada pela linha de montagem, mas nenhum movimento.
Nenhum sinal dos amigos.

       Ele quase gritou, mas algo o parou -- um sentido que ele no pde identificar.
Ento ele percebeu que era cheiro. Algo cheirava estranho -- como leo de motor
ardente e bafo cido.

       Algo no humano estava dentro da fbrica. Leo tinha certeza. Seu corpo se
mexia em marcha alta, todos os nervos zunindo.

         Em algum lugar no cho da fbrica, a voz de Piper gritou: "Leo, ajude!"

       Mas Leo segurou a lngua. Como Piper poderia ter sado da passarela com seu
tornozelo quebrado?

       Ele deslizou para dentro e se abaixou atrs de um container de carga.
Lentamente, apertando seu martelo, ele foi para o centro da sala, escondido atrs de
caixas e chassis de caminhes vazios. Finalmente ele alcanou a linha de montagem.
Ele agachou atrs da pea mais prxima de maquinaria -- um guindaste com um brao
robtico.

         A voz de Piper gritou novamente: "Leo?" Menos certa dessa vez, mas muito
perto.

      Leo espiou ao redor da maquinaria. Pendurado diretamente acima da linha de
montagem, suspenso por uma corrente de um guindaste no lado oposto, havia um
                                            193
pesado motor de caminho -- balanando s a nove metros de altura, como se houvesse
sido deixado ali quando a fbrica foi abandonada. Abaixo na esteira transportadora
havia o chassi de um caminho, e aglomerado ao redor havia trs formas escuras do
tamanho de empilhadeiras. Perto, balanando de correntes em dois outros braos
robticos, havia duas formas menores -- talvez mais motores, mas um deles estava
virando em volta como se estivesse vivo.

       Ento uma das formas de empilhadeira levantou, e Leo percebeu que era um
humanoide tamanho compacto. "Eu te disse que no era nada," a coisa resmungou. Sua
voz era muito profunda e feroz para ser humana.

        Uma das formas do tamanho de empilhadeiras se deslocou, e gritou na voz de
Piper: "Leo, me ajude! Ajude --" Ento a voz mudou, virando um rosnado masculino.
"Bah, no tem ningum ali. Nenhum semideus pode ser to quieto, n?"



       O primeiro monstro riu. "Provavelmente fugiu, se ele sabe o que  bom para ele.
Ou a garota estava mentindo sobre um terceiro semideus. Vamos cozinhar."

       Estalo. Uma luz laranja brilhante chiou  vida -- um sinalizador -- e Leo
temporariamente ficou cego. Ele se abaixou atrs do guindaste at o borro clarear nos
seus olhos. Ento ele deu outra espiada numa cena que nem Ta Callida poderia ter
pensado.

        As duas coisas menores balanando dos braos de guindaste no eram motores.
Eles eram Jason e Piper. Ambos pendurados de cabea para baixo, amarrados nos
tornozelos e isolados com correntes nos pescoos. Piper estava se debatendo, tentando
se livrar. Sua boca estava amordaada, mas pelo menos ela estava viva. Jason no
parecia to bem. Ele estava pendurado sem firmeza, os olhos rolando na cabea. Ele
tinha uma marca de pancada vermelha inchada do tamanho de uma ma sobre sua
sobrancelha esquerda.

       Na esteira transportadora, a base da picape no finalizada estava sendo usada
como um buraco de fogo. O sinalizador havia inflamado uma mistura de pneus e
madeira, que, pelo cheiro, fora mergulhada em querosene. Um grande mastro de metal
estava suspenso sobre as chamas -- uma p, Leo percebeu, o que significava que era
um fogo para cozinhar.

       Mas o mais aterrorizante de tudo eram os cozinheiros.

       Motores Monculos: aquela logomarca de um olho vermelho. Por que Leo no
percebeu antes?

       Trs humanoides pesados se reuniram ao redor do fogo. Dois estavam em p,
atiando as chamas. O maior se abaixou com as costas para Leo. Os dois encarando-o
tinham, cada um, trs metros de altura, com coros musculares e cabeludos e pele que

                                         194
brilhava vermelha na luz do fogo. Um dos monstros usava usava uma tanga de malhas
de ferro que realmente parecia desconfortvel. O outro usava uma toga esfarrapada e
felpuda feita de fibra de vidro de isolamento, que tambm no seria uma das ideias de
guarda-roupa principais de Leo. Alm disso, os dois monstros poderiam ser gmeos.
Cada um tinha um rosto selvagem com um nico olho no centro da testa. Os cozinheiros
eram ciclopes.

       As pernas de Leo comearam a tremer. Ele vira algumas coisas estranhas at
agora -- espritos de tempestade e deuses alados e um drago de metal que gostava de
molho de pimenta. Mas isso era diferente. Esses eram verdadeiros monstros vivos de
carne e sangue e de trs metros de altura que queriam seus amigos como jantar.



        Ele estava to aterrorizado que mal podia pensar. Se ele ao menos tivesse Festus.
Ele podia usar um tanque respirador de fogo de dezoito metros de comprimento agora.
Mas tudo que ele tinha era um cinto de ferramentas e uma mochila. Seu martelo de trs
quilos parecia tremendamente pequeno comparado a aqueles ciclopes.

        Era isso que a senhora trrea adormecida estivera falando. Ela queria que Leo
partisse e deixasse seus amigos morrerem.

       Aquilo decidia a questo. Sem chance que Leo ia deixar aquela mulher trrea lhe
fazer se sentir sem poder -- nunca mais. Leo tirou sua mochila e silenciosamente
comeou a abrir o zper.

       O ciclope na tanga de malhas de ferro avanou para Piper, que contorcia e
tentava acert-lo no olho. "Eu posso tirar a mordaa dela agora? Eu gosto quando eles
gritam."

        A pergunta era direcionada para o terceiro ciclope, aparentemente o lder. A
figura abaixada grunhiu, e Tanga arrancou a mordaa da boca de Piper.

       Ela no gritou. Ela tomou um flego trmulo, como se tentasse se manter calma.

        Entretanto, Leo encontrou o que queria na mochila: uma pilha de controles
remotos minsculos que ele pegara na Carvoeira 9. Pelo menos ele esperava que fosse
isso. O painel de manuteno do guindaste robtico era fcil de encontrar. Ele
escorregou uma chave de fenda do cinto de ferramentas e foi ao trabalho, mas tinha que
ir lentamente. O lder ciclope estava a s seis metros na frente dele. Os monstros
obviamente tinham sentidos excelentes. Ter sucesso no plano sem fazer barulho parecia
impossvel, mas ele no tinha muitas chances.

       O ciclope na toga atiou o fogo, que agora estava inflamando mais e elevava
fumaa negra nociva para o teto. Seu amigo Tanga fitou Piper, esperando ela fazer algo
engraado. "Grite, garota! Eu acho gritar engraado!"


                                          195
        Quando Piper finalmente falou, seu tom estava calmo e razovel, como se
estivesse corrigindo um filhote desobediente. "Ah, sr. ciclope, voc no quer nos matar.
Seria muito melhor se vocs nos soltasse."

        Tanga coou sua cabea disforme. Ele virou para o amigo na toga de fibra de
vidro. "Ela  um pouco bonita, Torque. Talvez eu devesse solt-la."

      Torque, o cara na toga, grunhiu. "Eu vi ela primeiro, Sump. Eu vou solt-la!"
Sump e Torque comearam a discutir, mas o terceiro ciclope levantou e gritou, "Tolos!"

       Leo quase derrubou a chave de fenda. O terceiro ciclope era feminino. Ela era
vrios metros mais alta que Torque ou Sump, e mais forte ainda. Ela usava uma tenda
de malhas de ferro cortada como um daqueles vestidos-saco que a desprezvel Tia Rosa
de Leo costumava vestir. Como eles chamavam aquilo -- um muumuu? , a senhora
ciclope tinha um muumuu de malhas de ferro. Seu escuro cabelo graxo era entranado
em rabo de porco, entrelaado com cabos de cobre e arruelas de metal. Seu nariz e boca
eram grossos e esmagados juntos, como se ela gastasse as horas vagas batendo seu rosto
nas paredes; mas seu nico olho vermelho brilhava com inteligncia maligna.

        A mulher ciclope se aproximou silenciosamente de Sump e o empurrou para o
lado, o fazendo bater na esteira transportadora. Torque recuou rapidamente.

       "A garota  prole de Vnus," a senhora ciclope rosnou. "Ela est usando
encantamento em vocs."

       Piper comeou a dizer, "Por favor, madame --"

      "R!" A senhora ciclope pegou Piper pela cintura. "No tente sua bonita fala
comigo, garota! Eu sou Ma Gasket! J comi heris mais valentes que voc como
almoo!"

       Leo temeu que Piper fosse ser triturada, mas Ma Gasket s a soltou e a deixou
balanar na corrente. Ento ela comeou a gritar com Sump sobre como ele era
estpido.

        As mos de Leo trabalharam furiosamente. Ele emaranhou fios e virou chaves,
dificilmente pensando no que ele estava fazendo. Ele terminou de encaixar o remoto.
Ento ele engatinhou para o prximo brao robtico enquanto os ciclopes estavam
conversando.

       "-- com-la por ltimo, Ma?" Sump estava dizendo.

        "Idiota!" Ma Gasket gritou, e Leo percebeu que Sump e Torque deviam ser seus
filhos. Nesse caso, feiura definitivamente corria na famlia. "Eu devia ter lhes jogado
nas ruas quando vocs eram bebs, como filhos prprios de ciclope. Vocs poderiam ter
aprendido algumas habilidades teis. Aflija meu delicado corao que eu te deserto!"
                                          196
         "Delicado corao?" Torque murmurou.

         "O que disse, seu ingrato?"

       "Nada, Ma. Eu disse que voc tem um corao delicado. Temos que trabalhar
para voc, alimentar voc, lixar suas unhas --"

       "E voc devia ser grato!" Ma Gasket berrou. "Agora, atia o fogo, Torque! E
Sump, seu idiota, minha embalagem de salsa est no outro armazm. No me diga que
voc esperou que eu comesse esses semideuses sem salsa!"

         "Sim, Ma," Sump disse. "Digo, no, Ma. Digo --"

         "V peg-la!" Ma Gasket levantou um chassi de caminho prximo e atirou na
cabea de Sump. Sump caiu aos joelhos. Leo tinha certeza que um golpe daquele iria
mat-lo, mas Sump aparentemente fora batido por muitos outros caminhes. Ele
conseguiu desatracar o chassi da cabea. Ento ele cambaleou de p e correu para trazer
a salsa.

         A hora  agora, Leo pensou. Enquanto eles esto separados.

       Ele terminou a fiao da segunda mquina e moveu-se para a terceira. Enquanto
ele se batia contra os braos robticos, os ciclopes no o viram, mas Piper sim. Sua
expresso mudou de terror para incredulidade, e ela ofegou.

         Ma Gasket virou para ela. "Qual o problema, garota? To frgil que eu quebrei
voc?"

        Reconhecidamente, Piper era uma pensadora rpida. Ela desviou o olhar de Leo
e disse, "Acho que so minhas costelas, madame. Se eu estiver batida por dentro, eu vou
ter um gosto horrvel."

       Ma Gasket gritou em risadas. "Boa. O ltimo heri que comemos -- lembra-se
dele, Torque? Filho de Mercrio, no era?"

         "Sim, Ma," Torque disse. "Saboroso. Pouco pegajoso."

        "Ele tentou um truque assim. Disse que estava em medicao. Mas o gosto dele
era incrvel!"

      "Parecia carne de carneiro," Torque recordou. "Camisa roxa. Falava em Latim.
Sim, um pouco pegajoso, mas bom."

        Os dedos de Leo congelaram no painel de manuteno. Aparentemente, Piper
estava tendo o mesmo pensamento que ele, pois ela perguntou, "Camisa roxa? Latim?"



                                          197
       "Comida boa," Ma Gasket disse afetuosamente. "O ponto, garota,  que no
somos to estpidos como as pessoas pensam! No camos naqueles truques e enigmas
estpidos, no ns, ciclopes do norte."

       Leo se forou de volta ao trabalho, mas sua mente estava correndo. Uma criana
que falava latim fora pega aqui -- numa camisa roxa como a de Jason? Ele no sabia o
que significava, mas tinha que deixar o interrogatrio para Piper. Se ele fosse ter
alguma chance de ganhar daqueles monstros, ele tinha que se mexer rpido antes que
Sump voltasse com a salsa.

       Ele olhou para o bloco de motor suspenso logo acima do acampamento dos
ciclopes. Ele desejou que pudesse us-lo -- faria uma grande arma. Mas o guindaste
que o segurava estava no lado oposto da esteira transportadora. No havia jeito de Leo
chegar ali sem ser visto e, alm disso, ele estava correndo contra o tempo.

        A ltima parte do seu plano era a mais malandra. Do seu cinto de ferramentas
ele convocou alguns fios, um adaptador de rdio, e uma chave de fenda menor e
comeou a construir um controle universal. Pela primeira vez, ele disse um obrigado
silencioso ao pai -- Hefesto -- pelo cinto de ferramentas. Me tire daqui, ele rezou, e
talvez voc no seja to ignorante.

       Piper continuou falando, impondo elogios. "Ah, eu ouvi falar dos ciclopes do
norte!" o que Leo calculou que era conversa furada, mas ela pareceu convencida. "Eu
no sabia que vocs eram to grandes e espertos!"

        "Bajulao no vai funcionar tambm," Ma Gasket disse, embora parecesse
satisfeita. " verdade, voc ser o caf da manh para os melhores ciclopes dessa
regio."

       "Mas os ciclopes no so bons?" Piper perguntou. "Pensei que vocs faziam
armas para os deuses."

       "Bah! Eu sou muito boa. Boa em comer pesoas. Boa em esmagar. E boa em
construir coisas, sim, mas no para os deuses. Nossos primos, os ciclopes ancies, eles
fazem isso, sim. Pensar que eles so to altos e fortes porque so alguns milhares de
anos mais velhos. Ento h nossos primos do sul, vivendo em ilhas e cuidando de
ovelhas. Trouxas! Mas ns, ciclopes hiperbreos, o cl do norte, ns somos os
melhores! Fundamos a Motores Monculos nessa fbrica velha -- as melhores armas,
armaduras, bigas, SUVs eficientes! E ainda -- bah! Forados a ficarmos reclusos.
Maioria da tribo parada. A guerra foi muito rpida. Os tits perderam. Nada bom! Sem
mais necessidade de armas dos ciclopes."

        "Ah, no," Piper simpatizou. "Tenho certeza que voc fez algumas armas
incrveis."

                                         198
      Torque riu. "Martelo de guerra guinchante!" Ele pegou uma estaca larga com
uma caixa de metal na ponta, parecendo um acorden.

      Ele o bateu contra o cho e o cimento rachou, mas tambm houve um som como
o do maior patinho de borracha do mundo sendo apertado.

       "Aterrorizante," Piper disse.

       Torque pareceu agradecido. "No to bom quanto o machado detonador, mas
esse pode ser usado mais de uma vez."

       "Eu posso ver?" Piper perguntou. "Se voc s pudesse soltar minhas mos --"

       Torque deu um passo para frente ansiosamente, mas Ma Gasket disse,
"Estpido! Ela est lhe enganando de novo. Chega de conversa! Mate o garoto primeiro,
antes que ele morra sozinho. Eu gosto de carne fresca."

       No! Os dedos de Leo voaram, conectando os cabos para o remoto. S mais
alguns minutos!

       "Ei, espere," Piper disse, tentando chamar a ateno dos ciclopes. "Ei, eu posso
s perguntar --"

       Os fios faiscaram na mo de Leo. Os ciclopes congelaram e viraram na sua
direo. Ento Torque pegou um caminho e jogou nele.



Leo rolou enquanto o caminho voou pela maquinaria. Se ele fosse meio segundo mais
lento, ele teria sido esmagado.

        Ele subiu aos ps, e Ma Gasket o localizou. Ela gritou, "Torque, sua desculpa
pattica para um ciclope, pegue-o!"

       Torque embarrilou na direo dele. Leo freneticamente atirou o trabelho no seu
controle remoto temporrio.

       Torque estava a quinze metros de distncia. Seis metros.

        Ento o primeiro brao robtico zumbiu  vida. Uma garra metlica amarela de
trs toneladas golpeou o ciclope nas costas to duro que ele caiu plano de cara. Antes
que Torque pudesse se recuperar, a mo robtica o pegou por uma perna e o arremessou
direto para cima.

       "AHHHHH!" Torque voou verticalmente para a escurido. O teto era muito
escuro e muito alto para ver exatamente o que aconteceu, mas julgando pelo metal rude
clang, Leo sups que o ciclope batera em uma das vigas de suporte.

                                         199
      Torque nunca mais voltou. Em vez disso, p amarelo choveu para o cho.
Torque fora desintegrado.

       Ma Gasket olhou para Leo em choque. "Meu filho... Voc... Voc..."

      Como se em sugesto, Sump entrou com rudos na luz do fogo com uma
embalagem de salsa. "Ma, eu trouxe o extra picante --"

       Ele nunca finalizou a frase. Leo girou o trabelho do remoto, e o segundo brao
robtico golpeou Sump no peito. A embalagem de salsa explodiu como uma piata e
Sump voou para trs, direto na base da terceira mquina de Leo. Sump pode ter sido
imune a ser acertado com chassis de caminho, mas ele no era imune a braos
robticos que podiam desferir dez milhes de quilos de fora. O terceiro brao do
guindaste o golpeou contra o cho to forte que ele explodiu em p como um saco de
farinha rasgado.

       Duas baixas de ciclopes. Leo estava comeando a se sentir o Comandante Cinto
de Ferramentas quando Ma Gasket prendeu seus olhos nele. Ela pegou o guindaste mais
prximo e o arrancou do seu pedestal com um rugido selvagem. "Voc degradou meus
garotos! S eu degrado os meus garotos!"

       Leo socou um boto, e os dois braos restantes balanaram em ao. Ma Gasket
pegou o primeiro e o dilacerou pela metade. O segundo brao a acertou na cabea, mas
aquilo s pareceu deix-la louca. Ela o pegou pelas braadeiras, o arrancou, e o
balanou como um taco de beisebol. No acertou Piper e Jason por pouco. Ento Ma
Gasket o soltou -- lanando-o em direo a Leo. Ele gritou e rolou para um lado
enquanto a mquina ao lado dele era demolida.

       Leo comeou a pensar que uma me ciclope com raiva no era algo que voc
queira lutar com um controle remoto universal e uma chave de fenda. O futuro para o
Comandante Cinto de Ferramentas no estava parecendo to incrvel.

        Ela estava a aproximadamente seis metros dele agora, do lado do fogo. Seus
punhos estavam cerrados, seus dentes a mostra. Ela parecia ridcula no seu muumuu e
seus rabos de porco graxos -- mas dado o olhar assassino no seu grande olho vermelho
e o fato que ela tinha seis metros de altura, Leo no estava rindo.

       "Mais algum truque, semideus?" Ma Gasket exigiu.

        Leo olhou para cima. O bloco de motor suspenso na corrente -- se ele s tivesse
tempo de manipul-lo. Se ele s pudesse fazer com que Ma Gasket desse mais um passo
para frente. A corrente em si... Aquela ligao... Leo no conseguiria ver, especialmente
de to longe, mas seus sentidos o disseram que havia uma fadiga metlica.



                                          200
        "Uhum, sim, eu tenho truques!" Leo levantou seu controle remoto. "D mais um
passo, e eu vou te destruir com fogo!"

       Ma Gasket riu. "Ah, ? Ciclopes so imunes a fogo, seu idiota. Mas se voc
deseja brincar com chamas, deixe-me ajudar!"

       Ela escavou brasas vermelhas e quentes com as mos nuas e as arremessou em
Leo. Todas pousaram ao redor dos seus ps.

        "Voc errou," ele disse incredulamente. Ento Ma Gasket sorriu e levantou um
barril do lado do caminho. Leo s teve tempo de ler a palavra escrita em matriz no lado
-- querosene -- antes de Ma Gasket jogar. O barril se quebrou no cho em frente a ele,
derramando fluido isqueiro em todo o lugar.

       Brasas reluziram. Leo fechou os olhos, e Piper gritou, "No!"

        Uma tempestade de fogo entrou em erupo ao seu redor. Quando Leo abriu os
olhos, ele estava banhado em chamados redemoinhando em seis metros no ar.

      Ma Gasket riu alto em deleito, mas Leo no oferecia combustvel bom ao fogo.
O querosene extinguiu, morrendo em pequenos fragmentos ardentes no cho.

       Piper ofegou. "Leo?"

        Ma Gasket ficou pasma. "Voc est vivo?" Ento deu aquele passo extra para
frente, que colocou sua direita onde Leo queria. "Voc  o qu?"

       "O filho de Hefesto," Leo disse. "E eu lhe alertei que eu te destruiria com fogo."

       Ele apontou um dedo para o ar e convocou toda a sua vontade. Ele nunca tentara
fazer algo to focado e intenso -- mas ele atirou uma flecha de chamas brancas e
ardentes para a corrente que suspendia o bloco de motor sobre a cabea da ciclope --
direcionando para a ligao que parecia mais fraca que a maioria.

       As chamas morreram. Nada aconteceu. Ma Gasket riu. "Uma tentativa
impressionante, filho de Hefesto. Se passaram vrios sculos desde que vi um usurio
de fogo. Voc far um aperitivo forte!"

       A corrente estalou -- aquela nica ligao aqueceu alm do seu ponto de
tolerncia -- e o bloco de motor caiu, mortfero e silencioso.

       "Eu acho que no," Leo disse.

       Ma Gasket nem teve tempo de olhar para cima.

        Smash! Sem mais ciclopes -- s uma pilha de p sob um bloco de motor de
cinco toneladas.

                                          201
       "No  imune a motores, hein?" Leo disse. "Boa!"

       Ento ele caiu aos joelhos, sua cabea zumbindo. Depois de alguns minutos ele
percebeu que Piper estava chamando o seu nome.

       "Leo! Voc est bem? Pode se mexer?"

       Ele tropeou nos ps. Ele nunca tentou convocar tal intensidade de fogo antes, e
aquilo havia lhe deixado completamente drenado.

        Demorou um pouco de tempo para descer Piper das suas correntes. Ento juntos
eles abaixaram Jason, que ainda estava inconsciente. Piper conseguiu escorrer um pouco
de nctar na sua boca, e ele grunhiu. A pancada na cabea comeou a diminuir. A sua
cor voltou um pouco.

       ", ele tem um crnio bastante duro," Leo disse. "Acho que ele vai ficar bem."

     "Graas a Deus," Piper suspirou. Ento ela olhou para Leo com algo parecido
com medo. "Como voc -- o fogo -- voc sempre...?"

      Leo olhou para o cho. "Sempre," ele disse. "Eu sou uma ameaa danada.
Desculpe, eu devia ter contado para vocs antes, mas --"

       "Desculpa?" Piper socou seu brao. Quando ele olhou para cima, ela estava
sorrindo. "Aquilo foi incrvel, Valdez! Voc salvou nossas vidas. Por que voc est se
desculpando?"

      Leo pestanejou. Ele comeou a sorrir, mas seu senso de alvio estava arruinado
quando ele percebeu algo ao lado do p de Piper.

        P amarelo -- os restos pulverizados de um dos ciclopes, talvez Torque --
estava se deslocando no cho como se uma brisa invisvel estivesse empurrando-o para
trs de novo.

       "Eles esto se formando de novo," Leo disse. "Olha."

       Piper recuou do p. "No  possvel. Annabeth me disse que os monstros se
dissipam quando so mortos. Eles voltam ao Trtaro e no podem retornar por um longo
tempo."

        "Bom, ningum falou sobre p." Leo observou enquanto ele se coletava numa
pilha, ento muito lentamente se espalhava, formando uma forma com braos e pernas.

       "Ah, deus." Piper ficou plida. "Breas disse algo sobre isso -- a terra revelando
horrores. `Quando os monstros no ficam mais no Trtaro, e almas no esto mais
confinadas no Hades.' Quanto tempo voc acha que temos?"


                                          202
      Leo pensou sobre o rosto que formara no cho do lado de fora -- a mulher
adormecida que era definitivamente um horror da terra.

      "Eu no sei," ele disse. "Mas precisamos sair daqui."




                                         203
Captulo XXV
JASON   SONHOU QUE ESTAVA PRESO        em algemas, pendurado de cabea para baixo
como um pedao de carne. Tudo doa -- seus braos, suas pernas, seu peito, sua cabea.
Especialmente a sua cabea. Parecia um balo de gua acima da capacidade.

        "Se estou morto," ele murmurou, "por que di tanto?"

       "Voc no est morto, meu heri," disse a voz de uma mulher. "No  a sua
hora. Venha, fale comigo."

       Os pensamentos de Jason flutuaram do seu corpo. Ele ouviu monstros gritando,
seus amigos berrando, exploses ardentes, mas tudo parecia estar acontecendo em outro
plano de existncia -- se distanciando cada vez mais.

       Ele se encontrou de p numa priso de terra. Gavinhas de razes de rvore e
pedra redemoinhavam juntas, o confinando. Do lado de fora das barras, ele pde ver o
cho de um tanque refletor seco, outra espiral de terra crescendo no lado mais longe, e
acima dele, as pedras vermelhas arruinadas de uma casa quebrada.

       Do seu lado na priso, uma mulher sentada de pernas cruzadas de robes negros,
sua cabea coberta por uma mortalha. Ela colocou seu vu de lado, revelando um rosto
era orgulhoso e bonito -- mas tambm endurecido de sofrimento.

        "Hera," Jason disse.

      "Bem-vindo  minha priso," disse a deusa. "Voc no morrer hoje, Jason.
Seus amigos no vo lhe deixar iludir -- por enquanto."

        "Por enquanto?" ele perguntou.

       Hera gesticulou para as gavinhas da sua priso. "H julgamentos piores a vir. As
agitaes extremas da terra contra ns."

        "Voc  uma deusa," Jason disse. "Por que voc no pode escapar?"

      Hera sorriu, triste. Sua forma comeou a brilhar, at o seu brilho encher a priso
com luz dolorosa. O ar zuniu em poder, molculas se dividindo em pedaos como uma


                                          204
exploso nuclear. Jason suspeitou que se estivesse realmente ali em corpo, ele teria sido
vaporizado.

        A priso deveria ter sido explodida em pedregulhos. O cho deveria ter rachado
e a casa arruinada deveria ter sido demolida. Mas quando o brilho morreu, a priso no
fora sada do lugar. Nada do lado de fora das barras mudara. S Hera parecia diferente
-- um pouco mais curvada e cansada.

       "Alguns poderes so ainda maiores que os deuses," ela disse. "Eu no sou
facilmente contida. Eu posso estar em vrios lugares de vez. Mas quando a maior parte
da minha essncia  capturada,  como um p numa ratoeira, por assim dizer. Eu no
posso escapar, e estou escondida dos olhos dos outros deuses. S voc pode me
encontrar, e eu fico mais fraca a cada dia."

       "Ento por que voc veio aqui?" Jason perguntou. "Como voc foi pega?"

        A deusa suspirou. "Eu no podia ficar inativa. Seu pai Jpiter acredita que pode
se retrair do mundo, e assim acalmar nossos inimigos, colocando-os de volta para
dormir. Ele acredita que ns, olimpianos, nos tornamos muito envolvidos nos negcios
dos mortais, nos destinos dos nossos filhos semideuses, especialmente desde que
concordamos reclamar todos eles depois da guerra. Ele acredita que  isso o que fez
nossos inimigos se agitarem.  por isso que ele fechou o Olimpo."

       "Mas voc no concorda."

       "No," ela disse. "Na maioria das vezes eu no entendo os modos do meu
marido ou suas decises, mas at para Zeus, isso pareceu paranoia. Eu no posso sondar
por que ele era to insistente e to convencido. Era... ao contrrio dele. Como Hera, eu
posso ter me contentado em seguir os desejos do meu lorde. Mas eu tambm sou Juno."
Sua imagem tremeluziu, e Jason viu armadura sob seus robes negros simples, uma capa
de pele de cabra -- o smbolo de um guerreiro romano -- pelo seu manto de bronze. "J
me chamaram uma vez de Juno Moneta -- Juno, Aquela Que Adverte. Eu fui guardi
do estado, patrono da Roma Eterna. Eu no podia descansar enquanto os descendentes
do meu povo eram atacados. Eu senti perigo nesse lugar sagrado. Uma voz --" Ela
hesitou. "Uma voz me disse que eu devia vir aqui. Os deuses no tem o que voc pode
chamar de conscincia, nem temos sonhos; mas a voz era assim -- suave e persistente,
me alertando para vir aqui. E ento no mesmo dia Zeus fechou o Olimpo, eu sai
despercebida sem lhe contar os meus planos, ento ele no pde me parar. E eu vim
aqui para investigar."

       "Era uma armadilha," Jason chutou.

        A deusa assentiu. "S foi tarde demais que eu percebi a velocidade que a terra
estava se agitando. Eu era ainda mais tola que Jpiter -- uma escrava dos meus prprios

                                          205
impulsos.  exatamente assim como aconteceu a primeira vez. Eu fui pega presa pelos
gigantes, e minha priso comeou uma guerra. Agora os nossos inimigos se erguem
novamente. Os deuses s podem derrot-los com a ajuda dos maiores heris vivos. E
aquele a quem os gigantes servem... ela no pode ser absolutamente detida -- somente
mantida dormindo."

       "Eu no entendo."

       "Voc ir em breve," Hera disse.

       A priso comeou a contrair, as gavinhas espiralando mais firmes. A forma de
Hera se despedaou como a chama de uma vela na brisa. Fora da priso, Jason pde ver
formas se reunindo na borda do tanque -- humanoides pesados com costas encurvadas e
cabeas carecas. A menos que os olhos de Jason o estivessem enganando -- eles tinham
mais que um par de braos. Ele ouviu lobos tambm, mas no os lobos que ele vira com
Lupa. Ele pde ver pelos seus uivos que era uma matilha diferente -- mais faminta,
mais agressiva, sedenta de sangue.

       "Depressa, Jason," Hera disse. "Meus carcereiros se aproximam, e voc comea
a acordar. Eu no serei forte o suficiente para aparecer para voc novamente, nem nos
sonhos."

        "Espere," ele disse. "Breas nos disse que voc fizera um jogo perigoso. O que
ele quis dizer?"

        Os olhos de Hera pareceram selvagens, e Jason se perguntou se ela realmente
fizera algo maluco.

       "Uma troca," ela disse. "O nico jeito de trazer paz. A inimiga conta com nossas
divises, e se estamos divididos, seremos destrudos. Voc  minha oferta de paz, Jason
-- uma ponte para superar um milnio de dio."

       "O qu? Eu no --"

       "No posso lhe dizer mais," Hera disse. "Voc s viveu tanto tempo porque eu
peguei sua memria. Encontre esse lugar. Volte ao seu ponto de partida. Sua irm ir
ajudar."

       "Thalia?"

       A cena comeou a dissolver. "Adeus, Jason. Cuidado com Chicago. Sua inimiga
mortal mais perigosa espera l. Se voc for morrer, ser pelas mos dela."

       "Quem?" ele exigiu.

       Mas a imagem de Hera enfraqueceu, e Jason acordou.

                                          206
Seus olhos abriram com um estalo. "Ciclope!"

        "Uou, dorminhoco." Piper sentava atrs dele no drago de bronze, segurando sua
cintura para mant-lo em equilbrio. Leo sentava na frente, dirigindo. Eles voavam
pacificamente pelo cu invernoso como se nada tivesse acontecido.

       "D-Detroit," Jason gaguejou. "Ns no camos? Pensei --"

       "Est tudo bem," Leo disse. "Ns fugimos, mas voc teve uma concusso
srdida. Como est se sentindo?"

       A cabea de Jason palpitava. Ele se lembrou da fbrica, depois descendo a
passarela, depois uma criatura aparecendo subitamente sobre ele -- um rosto com um
olho, um punho pesado -- e tudo ficou preto.

       "Como vocs -- o ciclope --"

       "Leo os demoliu em pedaos," Piper disse. "Ele foi incrvel. Ele pode convocar
fogo --"

       "No foi nada," Leo disse rapidamente.

       Piper riu. "Cale a boca, Valdez. Eu vou contar para ele. Continue dirigindo."

        E ela fez -- como Leo sozinho derrotou a famlia dos ciclopes; como eles
libertaram Jason, depois notou os ciclopes comeando a reformarem-se; como Leo
recolocara a fiao do drago e os colocaram de volta no ar assim que comearam a
ouvir os ciclopes rugindo por vingana dentro da fbrica.

       Jason estava impressionado. Tirar trs ciclopes do caminho sem nada a no ser
um kit de ferramentas? Nada mau. Isso no exatamente o assustou ouvir como
chegaram perto da morte, mas isso o fez se sentir horrvel. Ele entrou direto numa
emboscada e gastou a luta toda nocauteado enquanto seus amigos se afastavam por si
mesmos. Que tipo de lder de misso ele era?

       Quando Piper lhe contou sobre a outra criana que os ciclopes alegaram ter
comido, aquele da camisa roxa que falava latim, Jason sentiu que sua cabea ia
explodir. Um filho de Mercrio... Jason sentiu que devia conhecer aquela criana, mas o
nome estava perdido da sua mente.

       "Eu no estou sozinho, ento," ele disse. "H outros como eu."

       "Jason," Piper disse, "voc nunca esteve sozinho. Voc tem a gente."

       "Eu -- eu sei... mas algo que Hera disse. Eu estava tendo um sonho..."

                                          207
       Ele lhes contou o que vira, e o que a deusa dissera na sua priso.

       "Uma troca?" Piper perguntou. "O que significa?"

       Jason balanou a cabea. "Mas o jogo de Hera sou eu. S por me mandar para o
Acampamento Meio-Sangue, tenho a sensao que ela quebrou algum tipo de regra,
algo que pode ser destrudo num grande modo --"

      "Ou nos salvar," Piper disse esperanosamente. "Essa parte sobre a inimiga
adormecida -- parece a senhora que Leo nos contou."

        Leo limpou a garganta. "Sobre isso... ela meio que apareceu para mim l em
Detroit, num charco de esgoto de banheiro qumico."

       Jason no teve certeza se ouviu aquilo direito. "Voc disse... banheiro qumico?"

        Leo lhes contou sobre o grande rosto no jardim da fbrica. "Eu no se ela 
completamente imatvel," ele disse, "mas ela no pode ser detida por assentos de
toalete. Eu posso garantir isso. Ela queria que eu trasse vocs, e eu fiquei tipo, `Uhum,
certo, eu vou dar ouvidos a um rosto no esgoto qumico.'"

       "Ela est tentando nos dividir." Piper escorregou seus braos da cintura de
Jason. Ele podia sentir sua tenso sem nem olhar para ela.

       "Qual  o problema?" ele perguntou.

      " s... Por que eles esto brincando conosco? Quem  aquela mulher, e qual  a
conexo dela com Enclado?"

       "Enclado?" Jason no achou que ouvira aquele nome antes.

       "Digo..." Piper disse em voz trmula. " um dos gigantes. S um dos nomes eu
pude lembrar."

       Jason teve a sensao que havia muito mais a perturbando, mas ele decidiu no
pression-la. Ela tivera uma manh agitada.

       Leo coou a cabea. "Bem, no sei sobre enchiladas --"

       "Enclado," Piper corrigiu.

       "No importa. Mas o Rosto de Esgoto Velho mencionou outro nome. Algo como
Porfato."

       "Porfrio?" Piper perguntou. "Ele era o rei gigante, eu acho."




                                           208
        Jason visionou aquela espiral escura no tanque refletor antigo -- crescendo mais
larga enquanto Hera enfraquecia. "Vou dar um chute," ele disse. "Nas histrias antigas,
Porfrio raptou Hera. Foi o primeiro tiro na guerra entre os gigantes e os deuses."

        "Acho que sim," Piper concordou. "Mas aqueles mitos so realmente
adulterados e combatidos.  quase como se ningum quisesse que algum sobrevivesse
na histria. Eu s lembro que houve uma guerra, e os gigantes eram quase impossveis
de matar."

          "Heris e deuses tiveram que trabalhar juntos," Jason disse. " o que Hera me
disse."

          "Um pouco difcil de fazer," Leo grunhiu, "se os deuses nem vo falar com a
gente."

       Eles voaram para o oeste, e Jason ficou perdido nos seus pensamentos -- todos
maus. Ele no sabia quanto tempo passou antes do drago mergulhar por um intervalo
nas nuvens, e abaixo deles, brilhando no sol de inverno, uma cidade na borda de um
lago ponderoso. Um crescente de arranha-cus alinhava a costa. Atrs deles, espalhando
para o horizonte do oeste, uma vasta grade de bairros e estradas cobertos de neve.

          "Chicago," Jason disse.

        Ele pensou sobre o que Hera dissera no seu sonho. Sua pior inimiga mortal
estaria esperando aqui. Se ele fosse morrer, seria pelas mos dela.

       "Um problema a menos," Leo disse. "Chegamos aqui vivos. Agora, como
encontramos os espritos de tempestade?"

        Jason viu um brilho de movimento abaixo deles. A princpio ele pensou que era
um avio pequeno, mas era muito pequeno, muito escuro e rpido. A coisa espiralava
em direo aos arranha-cus, tecendo e mudando de forma -- e, s por um momento ela
virou a figura esfumaada de um cavalo.

          "Que tal seguirmos aquele," Jason sugeriu, "e ver aonde ele vai?"




                                            209
Captulo XXVI
JASON TEVE MEDO QUE ELES PERDESSEM O ALVO. O ventus se movia como... bem,
como o vento.

       "Acelera!" ele urgiu.

       "Cara," Leo disse, "se eu chegar mais perto, ele vai nos localizar. Drago de
bronze no  exatamente um avio discreto."

       "Diminua," Piper gritou.

       O esprito de tempestade mergulhou na grade de ruas na parte baixa da cidade.
Festus tentou seguir, mas as envergaduras das asas eram muito largas. Sua asa esquerda
cortou o canto de um prdio, cortando fora uma grgula de pedra antes de Leo subir.

       "Fique acima dos edifcios," Jason sugeriu. "Vamos rastre-lo de l."

       "Voc quer dirigir essa coisa?" Leo grunhiu, mas fez o que Jason pediu.

       Depois de alguns minutos, Jason localizou o esprito de tempestade novamente,
silvando pelas ruas com nenhum propsito aparente -- assoprando pedestres, agitando
bandeiras, fazendo carros desviarem.

       "Ah, timo," Piper disse. "So dois."

       Ela tinha razo. Um segundo ventus saiu como uma rajada do canto do Hotel da
Renascena e se uniu com o primeiro. Eles ondearam juntos numa dana catico, se
atirando para o topo de um arranha-cu, curvando uma torre de rdio, e mergulhando de
volta para a rua.

       "Esses a no precisam de mais cafena," Leo disse.

       "Acho que Chicago  um bom lugar para se exporem," Piper disse. "Ningum
vai questionar mais um par de ventos malignos."

       "Mais que um par," Jason disse. "Olhem."

        O drago circulou uma vasta avenida perto de um parque do lado dum lago.
Espritos de tempestade estavam convergindo -- pelo menos uma dzia deles,
rodopiando ao redor de uma grande instalao de arte pblica.
                                          210
         "Qual voc acha que  Dylan?" Leo perguntou. "Eu quero jogar alguma coisa
nele."

         Mas Jason focou na instalao de arte. Quanto mais perto chegavam, mais
rpido o seu corao batia. Era s uma fonte pblica, mas era desagradavelmente
familiar. Dois monlitos de cinco andares se erguiam de cada lado de um longo tanque
refletor de granito. Os monlitos pareciam ser feitos de telas de vdeo, brilhando a
imagem combinada de um rosto gigante que cuspia gua no tanque.

       Talvez fosse s coincidncia, mas ele parecia uma verso high-tech e em
tamanho super daquele tanque refletor arruinado que ele vira nos sonhos, com aquelas
duas massas escuras ressaltando de cada lado. Enquanto Jason observava, a imagem nas
telas mudou para o rosto de uma mulher com os olhos fechados.

         "Leo..." ele disse nervosamente.

         "Eu a vejo," Leo disse. "Eu no gosto dela, mas eu a vejo."

       Ento as telas ficaram escuras. Os ventus redemoinharam juntos num nico funil
de nuvem e deslizaram pela fonte, erguendo no ar uma tromba d'gua quase to alta
quanto os monlitos. Eles foram ao centro dela, revelando a cobertura de um fosso, e
desapareceram sob o cho.

         "Eles desceram um fosso?" Piper perguntou. "Como vamos segui-los?"

       "Talvez no devssemos," Leo disse. "Aquela fonte est me dando vibraes
seriamente negativas. E no devamos, tipo, ter cuidado com a terra?"

        Jason sentiu o mesmo, mas eles tinham que seguir. Era o nico caminho em
frente para eles. Eles tinham que encontrar Hera, e agora s tinham dois dias at o
solstcio.

         "Nos abaixe naquele parque," ele sugeriu. "Vamos verificar de p."



Festus pousou numa rea aberta entre o lago e o horizonte. As placas diziam Grant Park,
e Jason imaginou que seria um bom lugar no vero; mas agora era um campo de gelo,
neve, e aleias salgadas. Os ps quentes do drago de metal silvaram enquanto ele
aterrissava. Festus bateu as asas tristemente e atirou fogo no cu, mas no havia
ningum por perto para notar. A brisa saindo do lado era fria e penetrante. Qualquer um
com senso estaria dentro. Os olhos de Jason ardiam tanto que ele mal podia ver.

       Eles desmontaram, e o drago Festus bateu os ps. Um dos seus olhos de rubi
tremeluzindo, de forma que parecia que ele estava piscando.


                                            211
       "Isso  normal?" Jason perguntou.

        Leo puxou um malho de borracha da sua mala de ferramentas. Ele deu uma
pancada forte no olho ruim do drago, e a luz voltou ao normal. "Sim," Leo disse.
"Festus no pode ficar  mostra por aqui, embora, no meio do parque. Eles iro det-lo
por estacionamento. Talvez se eu tivesse um apito de cachorro..."

       Ele remexeu seu cinto de ferramentas, mas voltou com nada.

        "Especializado demais?" chutou. "Ok, me d um apito de segurana. Eles tm
vrios desses em oficinas mecnicas."

        Dessa vez, Leo tirou um grande apito de plstico laranja. "O Treinador Hedge
ficaria com inveja! Ok, Festus, oua." Leo assoprou o apito. O som agudo
provavelmente rolou todo o caminho pelo Lago Michigan. "Voc ouve isso, e vem me
pegar, ok? At l, voc voa para qualquer lugar que quiser. S tente no tente cozinhar
algum pedestre."

        O drago bufou -- esperanosamente em concordncia. Ento ele desdobrou as
asas e se lanou no ar.

       Piper deu um passo e estremeceu. "Ai!"

        "Seu tornozelo?" Jason se sentiu mal por ter esquecido seu ferimento l na
fbrica ciclope. "Aquele nctar que lhe demos deve estar perdendo o efeito."

       "Est tudo bem." Ela tremeu, e Jason lembrou sua promessa de arranj-la um
novo casaco de snowboard. Ele esperou que vivesse longe o bastante para lhe achar um.

        Ela deu mais alguns passos com s uma manqueira leve, mas Jason via que ela
estava tentando no fazer uma careta.

       "Vamos sair do vento," ele sugeriu.

       "Descendo um fosso?" Piper estremeceu. "Parece aconchegante."

       Eles se agasalharam o mximo que puderam e rumaram para a fonte.

                                             * * *

Segundo a placa, se chamava Fonte da Coroa. Toda a gua esvaziara exceto por alguns
fragmentos que estavam comeando a congelar. Afinal, no parecia certo para Jason que
a fonte tivesse gua no inverno. Mais uma vez, aqueles grandes monitores brilhavam o
rosto da misteriosa inimiga Mulher-Sujeira. Nada nesse lugar estava certo.




                                           212
       Eles foram at o centro do tanque. Nenhum esprito tentou par-los. As paredes
do monitor gigante ficaram escuras. O buraco do fosso estava facilmente grande o
bastante para uma pessoa, e uma escada de manuteno descia na escurido.

       Jason foi primeiro. Enquanto subia, ele se reforou para cheiros horrveis de
cano de esgoto, mas no era to mau. A escada descia num tnel de pedreiro correndo
do norte a sul. O ar era quente e seco, com s um gotejamento de gua no cho.

        Piper e Leo desceram atrs dele.

        "Todos os canos de esgoto so agradveis assim?" Piper se admirou.

        "No," Leo disse. "Confie em mim."

        Jason franziu a testa. "Como voc sabe --"

       "Ei, man, eu j fugi seis vezes. Eu j dormi em alguns lugares estranhos, ok?
Agora, para que lado vamos?"

        Jason abaixou a cabea, ouvindo, depois apontou para o sul. "Por aqui."

        "Como pode ter certeza?" Piper perguntou.

       "H uma corrente de ar soprando para o sul," Jason disse. "Talvez os ventus
foram com o fluxo."

        No era muito de uma orientao, mas ningum ofereceu nada melhor.

       Infelizmente, assim que comearam a andar, Piper tropeou. Jason teve que
peg-la.

        "Tornozelo estpido," xingou.

       "Vamos descansar," Jason decidiu. "Poderamos todos fazer isso. Estivemos
trabalhando sem descanso por mais de um dia. Leo, voc pode puxar alguma comida
desse cinto de ferramentas alm de balas de menta?"

        "Pensei que voc nunca fosse pedir. Chef Leo na rea!"

        Piper e Jason sentaram numa salincia de tijolos enquanto Leo revirava sua
mala.

        Jason estava contente em descansar. Ele ainda estava cansado e atordoado, e
faminto, tambm. Mas na maioria, ele no estava ansioso para encarar o que quer que
existisse  frente. Ele virou sua moeda dourada nos dedos.

        Se voc for morrer, Hera advertira, ser pelas mos dela.


                                           213
      Quem quer que "ela" fosse. Depois de Quione, a me ciclope, e a senhora
adormecida esquisita, a ltima coisa que Jason precisava era outra vil psictica na sua
vida.

          "No foi sua culpa," Piper disse.

          Ele olhou para ela vagamente. "O qu?"

          "Ser capturado pelos ciclopes," ela disse. "No foi sua culpa."

       Ele abaixou o olhar para a moeda na sua palma. "Eu fui estpido. Eu lhe deixei
sozinha e cai numa armadilha. Eu devia ter sabido..."

        Ele no acabou. Havia muitas coisas que ele devia ter sabido -- quem ele era,
como lutar com monstros, como ciclopes iludiam suas vtimas imitando vozes e se
escondendo em sombras e uma centena de outros truques. Toda aquela informao
devia estar na sua cabea. Ele podia sentir os lugares onde devia estar -- como bolsos
vazios. Se Hera queria que ele tivesse sucesso, por que ela roubara as memrias que
podiam ajud-lo? Ela exclamou que sua amnsia o mantera vivo, mas aquilo no fazia
sentido. Ele estava comeando a entender porque Annabeth queria deixar a deusa na sua
priso.

       "Ei." Piper cutucou seu brao. "Se d uma folga. S porque voc  o filho de
Zeus, no significa que voc vale por um exrcito inteiro."

       Alguns metros de distncia, Leo acendeu um pequeno fogo para cozinhar. Ele
cantava enquanto tirava suprimentos da mala e do cinto de ferramentas.

       Na luz do fogo, os olhos de Piper pareciam danar. Jason estivera estudando-os
por dias agora, e ainda no pde decidir de que cor eles eram.

       "Eu sei como isso deve lhe absorver," ele disse. "No s a misso, quero dizer.
O jeito que apareci no nibus, a Nvoa brincando com a sua mente, e lhe fazendo
pensar que eu era... voc sabe."

          Ela abaixou seu olhar. ", bem. Nenhum de ns pediu por isso. No  a sua
culpa."

       Ela puxou pequenas fitas de cada lado da sua cabea. Mais uma vez, Jason
pensou em como ele estava contente por ela perder a bno de Afrodite. Com a
maquiagem e o vestido e o cabelo perfeito, ela parecia ter vinte e cinco anos, fascinante,
e completamente demais para ele. Ele nunca pensara em beleza como uma forma de
poder, mas era o jeito que Piper parecera -- poderosa.

        Ele gostava melhor da Piper normal -- algum com que ele podia aparecer. Mas
a coisa estranha era que ele no podia tirar aquela outra imagem da sua cabea. No fora

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uma iluso. Aquele lado de Piper estava ali tambm. Ela s fazia o melhor para
escond-lo.

          "L na fbrica," Jason disse, "voc ia falar algo sobre seu pai."

       Ela traou seus dedos nos tijolos, quase como se estivesse escrevendo um grito
que ela no queria vocalizar. "Ia?"

          "Piper," ele disse, "ele est em algum tipo de problema, no est?"

       No fogo, Leo mexia em alguns pimentes e carne numa panela. "Yeah, baby!
Quase l."

          Piper considerou a beira de lgrimas. "Jason... eu no posso falar a respeito
disso."

          "Somos seus amigos. Nos deixe ajudar."

       Aquilo pareceu lhe fazer se sentir pior. Ela tomou flego, trmula. "Eu queria
poder, mas --"

          "E bingo!" Leo anunciou.

        Ele voltou com trs bandejas empilhadas nos seus braos como um garom.
Jason no tinha de onde ele conseguira toda a comida, ou como ele reuniu tudo to
rpido, mas parecia incrvel: pimenta e tacos de carne com batata e salsa.

          "Leo," Piper disse em espanto. "Como voc --?"

       "A Garagem de Taco do Chef Leo vai te consertar!" ele disse orgulhosamente.
"E a propsito,  tofu, e no carne, rainha da beleza, ento no estranhe. Basta cavar!"



Jason no tinha certeza a respeito do tofu, mas os tacos tinham um gosto to bom
quanto cheiravam. Enquanto comiam, Leo tentou animar o astral fazendo piadas. Jason
estava grato por Leo estar com eles. Fazia estar com Piper um pouco menos intenso e
desconfortvel. Ao mesmo tempo, ele meio que esperava que estivesse sozinho com ela;
mas ele se repreendeu por sentir aquilo.

       Depois de Piper comer, Jason a encorajou para dormir um pouco. Sem outra
palavra, ela enrolou o cabelo e colocou a sua cabea no colo de Jason. Em dois
segundos ela estava roncando.

          Jason olhou para Leo, que estava obviamente tentando no rir.

        Eles se sentaram em silncio por alguns minutos, bebendo limonada que Leo
fizera de um cantil de gua e uma mistura em p.
                                              215
          "Bom, hein?" Leo sorriu.

          "Voc devia abrir uma barraquinha," Jason disse. "Ganhar algum dinheiro
srio."

        Mas enquanto ele olhava para as brasas do fogo, algo comeou a incomod-lo.
"Leo... sobre o negcio do fogo que voc pode fazer...  verdade?"

        O sorriso de Leo vacilou. ", bem..." Ele abriu a mo. Uma pequena bola de
fogo irrompeu  vida, danando pela sua palma.

          "Isso  to legal," Jason disse. "Por que voc no disse antes?"

          Leo fechou sua mo e o fogo morreu. "No queria parecer uma aberrao."

       "Eu tenho poderes de raio e vento," Jason o fez lembrar. "Piper pode ficar bonita
e encantar as pessoas para lhe darem BMWs. Voc no  uma aberrao mais do que
ns somos. E, ei, talvez voc possa voar, tambm. Tipo, pular de um prdio e gritar,
`Em chamas!'"

        Leo bufou. "Se eu fizesse isso, voc veria um garoto chamejante caindo para a
morte, e estaria gritando algo um pouco mais forte que `Em chamas!' Confie em mim, o
chal de Hefesto no v poderes com fogo to legais. Nyssa me disse que eles so super
raros. Quando um semideus como eu est por perto, coisas ruins acontecem. Realmente
ruins."

       "Talvez seja ao contrrio," Jason sugeriu. "Talvez as pessoas com dons especiais
apaream quando as coisas ruins esto acontecendo porque  quando eles so mais
necessrios."

          Leo limpou as chapas. "Talvez. Mas estou te dizendo... no  sempre um dom."

       Jason caiu em silncio. "Voc est falando sobre sua me, no est? A noite que
ela morreu."

        Leo no respondeu. Ele tinha precisava. O fato de que ele estava quieto, sem
fazer piadas -- aquilo j dizia o suficiente para Jason.

        "Leo, a morte dela no foi sua culpa. O que quer que tenha acontecida naquela
noite -- no foi porque voc podia convocar fogo. Essa Mulher-Sujeira, quem quer que
seja, estivera tentando lhe arruinar por anos, bagunar sua confiana, lhe tirar tudo que
voc se importa. Ela tentando fazer com que voc se sinta um fracasso. Voc no .
Voc  importante."




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        " o que ela disse." Leo ergueu o olhar, seus olhos cheios de dor. "Ela disse que
eu iria fazer algo importante -- algo que iria refrear ou quebrar aquela grande profecia
sobre os sete semideuses.  o que me assusta. No sei se estou preparado para isso."

      Jason queria lhe dizer que tudo ficaria bem, mas soaria falso. Jason no sabia o
que aconteceria. Eles eram semideuses, o que significava que s vezes as coisas no
acabavam bem. s vezes voc  comida pelo ciclope.

       Se voc perguntasse  maioria das crianas, "Ei, vocs querem convocar fogo ou
raio ou maquiagem mgica?" elas achariam que parecia bastante legal. Mas aqueles
poderes traziam coisas difceis, como sentar num cano de esgoto no meio do inverno,
correr de monstros, perder a memria, assistir seus amigos serem quase cozidos, e ter
sonhos que lhe alertava sobre a sua prpria morte.

      Leo atiou as sobras do seu fogo, virando brasas vermelhas com sua mo nua.
"Voc j se perguntou sobre os outros quatro semideuses? Digo... se somos trs da
Grande Profecia, quem so os outros? Cad eles?"

       Jason pensara nisso, certo, mas ele tentou tirar isso da sua mente. Tinha uma
suspeita horrvel que esperariam que ele liderasse aqueles outros semideuses, e ele tinha
medo de falhar.

       Vocs iro rasgar um ao outro, Breas prometera.

        Jason fora treinado para nunca demonstrar medo. Ele tinha certeza daquilo pelo
sonho com os lobos. Ele devia agir confiante, mesmo se no se sentisse assim. Mas Leo
e Piper estavam dependendo dele, e ele estava aterrorizado em fracass-los. Se ele
tivesse que liderar um grupo de seis -- dos quais ele no convivia -- aquilo seria pior
ainda.

       "Eu no sei," ele disse por fim. "Acho que os outros quatro iro aparecer quando
chegar a hora. Quem sabe? Talvez eles estejam em outra misso agora mesmo."

       Leo grunhiu. "Aposto que o cano de esgoto deles  melhor que o nosso."

       A corrente de ar tomou fora, soprando em direo ao lado sul do tnel.

       "Descanse um pouco, Leo," Jason disse. "Vou fazer a primeira patrulha."



Era difcil medir o tempo, mas Jason calculou que seus amigos dormiram por
aproximadamente quatro horas. Jason no se importou. Agora que ele estava sobrando,
no via realmente a necessidade de dormir mais. Ele dormira tempo o suficiente no
drago. E ainda por cima, ele precisava de tempo para pensar sobre a misso, sua irm
Thalia, e os alertas de Hera. Ele tambm no se importou por Piper us-lo de

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travesseiro. Ela tinha um jeito gracioso de respirar enquanto dormia -- inalando pelo
nariz, exalando com um pequeno sopro pela boca. Ele ficou quase desapontado quando
ela acordou.

       Finalmente eles quebraram o acampamento e comearam a descer o tnel.

        Ele se torcia e virava e parecia continuar para sempre. Jason no estava certo
sobre o que esperar no fim -- uma masmorra, um laboratrio de cientista maluco, ou
talvez um reservatrio onde todos os esgotos de banheiro qumico acabavam, formando
um rosto de toalete maligno grande o bastante para engolir o mundo.

       Ao contrrio, eles encontraram portas de elevador polidas de ao, cada uma
entalhada com uma letra cursiva M. Do lado do elevador havia um diretrio, como o de
um shopping.

      "M de Macy's?" Piper chutou. "Acho que eles tm um na parte baixa de
Chicago."

      "Ou Motores Monculos ainda?" Leo disse. "Gente, leiam o diretrio. Est
bagunado."



                Estacionamento, Canis, Entrada Principal: Esgoto

                                  Moblia e Caf M: 1

                     Moda de Mulher e Aplicaes Mgicas: 2

                        Roupas de Homens e Armamento: 3

                    Cosmticos, Poes, Venenos & Diversos: 4



       "Canis para qu?" Piper disse. "E que tipo de shopping tem sua entrada num
esgoto?"

        "Ou vende venenos," Leo disse. "Cara, o que  que `diversos' significa? 
aquilo tipo cueca?"

       Jason respirou fundo. "Na dvida, comece pelo topo."

                                           * * *

As portas deslizaram e abriram no quarto andar, e o aroma de perfume flutuou para o
elevador. Jason saiu primeiro, espada pronta.

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       "Galera," disse. "Vocs tm que ver isso."

       Piper se juntou a ele e prendeu a respirao. "Esse no  o Macy's."

        O shopping parecia o lado de dentro de um caleidoscpio. O teto inteiro era um
mosaico vitral com sinais astrolgicos ao redor de um sol gigante. A luz do dia correndo
por ele banhava tudo em milhes de cores diferentes. Os pisos superiores faziam um elo
de balces em volta de um saguo central imenso, de forma que eles podiam ver todo o
caminho pelo trreo. Grades douradas resplandeciam to claramente que era difcil olhar
para elas.

        Exceto pelo teto vitral e o elevador, Jason no pde ver outras janelas ou portas,
mas dois conjuntos de escadas rolantes de vidro corriam entre os nveis. O tecido do
tapete era uma exuberncia de padres orientais e cores, e as prateleiras de mercadoria
eram do mesmo jeito bizarro. Havia muito para registrar de uma vez, mas Jason viu
coisas normais como prateleiras de camisa e formas de sapatos misturados com
manequins com armaduras, camas de prego, e casacos de pele que pareciam estar se
mexendo.

       Leo andou at a grade e olhou para baixo. "Venham ver."

       No meio do saguo havia uma fonte jogando gua a seis metros do cho,


mudando de cor de vermelho para amarelo e azul. O reservatrio brilhava com moedas
de ouro, e em cada lado da fonte havia uma jaula dourada -- como a gaiola de um
canrio em tamanho real.

       Dentro de uma, um ciclone em miniatura redemoinhava, e raios reluziam.
Algum aprisionara os espritos de tempestade, e a jaula estremecia enquanto eles
tentavam sair. Na outra, congelado como uma esttua, havia um stiro baixo e amarelo,
segurando uma clava de ramo de rvore.

       "Treinador Hedge!" Piper disse. "Temos que chegar l embaixo."

       Uma voz disse, "Posso lhes ajudar a encontrar alguma coisa?"

       Todos os trs pularam para trs.

       Uma mulher simplesmente apareceu na frente deles. Ela vestia um vestido preto
elegante com joias de diamante, e parecia uma modelo afastada -- talvez cinquenta
anos de idade, mas era difcil para Jason julgar. Seu longo cabelo escuro caia sobre um
ombro, e seu rosto era deslumbrante naquele modo surreal de supermodelo -- fino,
arrogante e frio, no exatamente humano. Com suas unhas longas pintadas de vermelho,
seus dedos pareciam mais como garras.

       Ela sorriu. "Estou to feliz por ver novos clientes. Como posso ajudar vocs?"


                                           219
       Leo olhou para Jason tipo, Toda sua.

       "H," Jason comeou, "essa  a sua loja?"

       A mulher assentiu. "Eu a encontrei abandonada, voc sabe. Eu acredito que h
    muitas lojas nesses dias. Eu decidi que faria o lugar perfeito. Eu amo colecionar objetos
saborosos, ajudar pessoas, e oferecer coisas de qualidade a preos razoveis. Ento essa
pareceu uma boa... como vocs dizem... primeira aquisio nesse pas."



       Ela falava num acento agradvel, mas Jason no pode pensar de onde era.
Contudo, claramente ela no era hostil. Jason comeou a relaxar. Sua voz era rica e
extica. Jason queria ouvir mais.

       "Ento voc  nova na Amrica?" perguntou.

      "Eu sou... nova," a mulher concordou. "Eu sou a Princesa de Clquida. Meus
amigos me chamam de Vossa Alteza. Agora, o que esto procurando?"

        Jason ouvira falar sobre ricos estrangeiros construindo shoppings americanos. 
claro que na maioria das vezes eles no vendiam venenos, casacos de pele vivos,
espritos de tempestade, ou stiros, mas ainda assim -- com uma voz gentil assim, a
Princesa de Clquida no poderia ser completamente mau.

       Piper o cutucou nas costelas. "Jason..."

       "H, certo. Na verdade, Vossa Alteza..." Ele apontou para a jaula dourada no
primeiro andar. "Aquele  o nosso amigo l baixo, Gleeson Hedge. O stiro.
Poderamos... peg-lo de volta, por favor?"

        " claro!" a princesa concordou imediatamente. "Eu amaria mostr-los o meu
inventrio. Primeiro, posso saber seus nomes?"

       Jason hesitou. Parecia uma m ideia dar seus nomes. Uma memria puxou no
fundo da sua mente -- algo que Hera alertara, mas parecia indistinto.

       Por outro lado, Vossa Alteza estava no limite de cooperao. Se eles pudessem
conseguir o que queriam sem uma luta, seria melhor. Alm disso, essa senhora no
parecia uma inimiga.

       Piper comeou a dizer, "Jason, eu no iria --"

       "Essa  Piper," ele disse. "Esse  Leo. Eu sou Jason."

       A princesa ficou os olhos nele e, s por um momento, seu rosto literalmente
brilhou, queimando com tanta raiva que Jason pde ver seu crnio debaixo da pele. A
mente de Jason estava ficando mais manchada, mas ele sabia que algo no parecia


                                          220
correto. Ento o momento passou, e Vossa Alteza parecia uma normal e elegante
mulher novamente, com um sorriso cordial e uma voz suavizante.

      "Jason. Que nome interessante," ela disse, seus olhos to frios quanto o ar de
Chicago. "Acho que teremos de fazer um negcio especial com voc. Venham, crianas.
Vamos fazer compras."




                                        221
Captulo XXVIII
PIPER QUERIA CORRER PARA O ELEVADOR.

       Sua segunda escolha: atacar a princesa estranha agora, pois ela tinha certeza que
uma luta estava vindo. O jeito que o rosto da senhora brilhou quando ela ouvira o nome
de Jason fora ruim o bastante. Agora Vossa Alteza estava sorrindo como se nada tivesse
acontecido, e Jason e Leo no pareciam achar que havia algo errado.

      A princesa gesticulou para o balco de cosmticos. "Devemos comear com
poes?"

       "Legal," Jason disse.

       "Gente," Piper interrompeu, "estamos aqui para pegar os espritos de tempestade
e o Treinador Hedge. Se essa -- princesa --  realmente nossa amiga --"

      "Ah, eu sou melhor que uma amiga, minha querida," Vossa Alteza disse. "Eu
sou uma vendedora." Seus diamantes faiscaram, e seus olhos brilharam como os de uma
cobra -- frios e obscuros. "No se preocupe. Vamos descer para o primeiro andar, viu?"

       Leo assentiu ansiosamente. "Certo, ! Parece ok. Certo, Piper?"

       Piper deu o seu melhor para olhar feito um punhal para ele: No, no est ok!

       " claro que est ok." Vossa Alteza colocou suas mos nos ombros de Leo e
Jason e os guiou para os cosmticos. "Vamos, garotos."

       Piper no teve muitas escolhas a no ser seguir.

        Ela odiava shoppings -- na maioria porque ela era pega roubando de vrios
deles. Bem, no exatamente pega, e no exatamente roubando. Ela falava para os
vendedores lhe darem computadores, novas botas, um anel de ouro, uma vez at um
cortador de grama, embora ela no tivesse ideia por que queria um. Ela nunca ficava
com as coisas. Ela s fazia isso para chamar a ateno do pai. Geralmente ela falava
para o cara do bairro para pegar as coisas de volta. Mas naturalmente os vendedores que
ela ludibriara sempre voltavam ao senso e chamavam a polcia, que consequentemente
iam ao encalo dela.


                                          222
        Porm, ela no estava animada por voltar num shopping -- especialmente um
dirigido por uma princesa louca que brilhava no escuro.

       "E aqui," a princesa disse, " a melhor seleo de misturas mgicas de todos os
lugares."

        O balco estava abarrotado de canecas borbulhantes e frascos fumegantes em
trips. Alinhando as prateleiras de exposio havia cantis de cristal -- alguns com
forma de cisnes ou boticrios de urso com mel. Os lquidos dentro eram de todas as
cores, de branco brilhante a bolinhas. E os cheiros -- ugh! Alguns eram agradveis,
como biscoitos recm-cozidos ou rosas, mas eles eram misturados com aromas de pneus
queimados, spray de gamb, e armrios de ginsio.

       A princesa apontou para um frasco vermelho como sangue -- um simples tubo
de ensaio com uma rolha de cortia. "Esse vai curar qualquer doena."

       "At cncer?" Leo perguntou. "Mal de Hansen? Cutcula solta?"

       "Qualquer doena, doura. E esse frasco" -- ela apontou para um recipiente em
forma de cisne com lquido azul dentro -- "vai lhe matar muito dolorosamente."

       "Incrvel," Jason disse. Sua voz soava ofuscada e sonolenta.

       "Jason," Piper disse. "Temos um trabalho a fazer. Lembra?" Ela tentou colocar
fora nas suas palavras, apanh-los de volta do transe com encanto, mas sua voz soava
trmula at para ela. A mulher princesa a assustou demais, fez a sua confiana se
desintegrar, do mesmo jeito que ela se sentiu no chal de Afrodite com Drew.

       "Trabalho a fazer," Jason murmurou. "Certo. Mas compras primeiro, ok?"

       A princesa sorriu radiantemente para ele. "Ento temos poes para resistir a
fogo --"

       "Estou coberto dessa," Leo disse.

       "Mesmo?" A princesa fitou o rosto de Leo mais de perto. "Voc no parece estar
usando meu filtro solar de marca registrada... mas no importa. Tambm temos poes
que causam cegueira, insanidade, sono, ou --"

     "Espere." Piper ainda estava fitando o frasco vermelho. "Essa poo pode curar
memria perdida?"

      A princesa estreitou os olhos. "Possivelmente. Sim. Bastante possvel. Por que,
minha querida? Voc se esqueceu de algo importante?"

     Piper tentou manter sua expresso neutra, mas se aquele frasco pudesse curar a
memria de Jason...

                                           223
       Eu realmente quero isso? ela se perguntou.

        Se Jason descobrisse quem ele era, ele poderia no ser mais seu amigo. Hera
tirara suas memrias por um motivo. Ela lhe dissera que era o nico jeito dele
sobreviver ao Acampamento Meio-Sangue. E se Jason descobrisse que ele era o inimigo
deles, ou algo parecido? Ele poderia sair da sua amnsia e decidir que odiava Piper. Ele
poderia ter uma namorada de onde quer que ele viesse.

       No importa, ela decidiu, o que meio que a surpreendeu.

       Jason sempre parecia to aflito quando ele tentava lembrar-se das coisas. Piper
odiava v-lo daquela maneira. Ela queria ajud-lo porque se importava com ele, mesmo
se aquilo significasse perd-lo. E talvez isso fizesse a viagem pelo shopping da Vossa
Loucura lucrativa.

       "Quanto?" Piper perguntou.

       A princesa teve um olhar distante nos seus olhos. "Bem, agora... O preo 
sempre enganador. Eu amo ajudar as pessoas. Honestamente, amo. E eu sempre
mantenho minhas barganhas, mas s vezes as pessoas tentam trapacear." Seu olhar caiu
em Jason. "Uma vez, por exemplo, eu conheci um jovem bonito que queria um tesouro
do reino do meu pai. Fizemos uma barganha, e prometi ajud-lo a roubar."

        "Do seu prprio pai?" Jason ainda parecia ter sua metade num transe, mas a
ideia pareceu incomod-lo.

       "Ah, no se preocupe," a princesa disse. "Eu ordenei um preo alto. O jovem
tinha que me levar embora com ele. Ele era bastante bonito, elegante, forte..." Ela olhou
para Piper. "Tenho certeza, minha querida, que voc entende agora como uma pessoa
pode ser atrada para tal heri, e querer ajud-lo."

       Piper tentou controlar suas emoes, mas ela provavelmente corou. Ela teve a
sensao mais arrepiante que a princesa podia ler seus pensamentos.

       Ela tambm achou a histria da princesa perturbadoramente familiar. Peas dos
mitos antigos que ela lera com seu pai comeavam a se juntar, mas essa mulher no
podia ser a que ela estava pensando.

        "De qualquer forma," Vossa Alteza continuou, "meu heri tinha que fazer vrias
tarefas impossveis, e eu no estou me gabando quando digo que ele no poderia ter
feito-as sem mim. Eu tra minha prpria famlia para ganhar do heri o seu prmio. E
ainda assim ele trapaceou com o meu pagamento."

       "Trapaceou?" Jason franziu o cenho, como se tentasse lembrar-se de algo
importante.


                                          224
       "Est bagunado," Leo disse.

       Vossa Alteza deu uma tapinha na sua bochecha afetuosamente. "Tenho certeza
que voc no precisa se preocupar, Leo. Voc parece honesto. Voc sempre pagaria um
preo justo, no iria?"

       Leo assentiu. "O que estvamos comprando mesmo? Vou levar dois."

       Piper rompeu: "Ento, o frasco, Vossa Alteza -- quanto?"

       A princesa avaliou as roupas de Piper, seu rosto, sua postura, como se colocasse
uma etiqueta de preo num semideus levemente usado.

        "Voc daria qualquer coisa por ele, minha querida?" a princesa perguntou. "Eu
sinto que voc iria."

       As palavras encharcaram Piper, to poderosas quanto uma boa onda de surfe. A
fora da sugesto quase a fez decolar dos ps. Ela queria pagar qualquer preo. Ela
queria dizer sim.

       Ento seu estmago se torceu. Piper percebeu que ela estava sendo encantada.
Ela sentira algo assim antes, quando Drew falou na fogueira, mas esse era um milho de
vezes mais potente. No admira que seus amigos estavam entorpecidos. Era isso que as
pessoas sentiam quando Piper usava encantamento? Uma sensao de culpa se assentou
sobre ela.

      Ela chamou toda a sua fora de vontade. "No, eu no vou pagar qualquer preo.
Mas um preo justo, talvez. Depois disso, precisamos partir. Certo, garotos?"

       "Partir?" Jason disse.

       "Voc diz... depois das compras?" Leo perguntou.

        Piper queria gritar, mas a princesa abaixou sua cabea, examinando Piper com
respeito recm-encontrado.

        "Impressionante," a princesa disse. "No so muitas as pessoas que resistem s
minhas sugestes. Voc  uma filha de Afrodite, minha querida? Ah, sim -- eu devia
ter percebido. No importa. Talvez devssemos ver um pouco mais antes de decidirem o
que comprar, n?"

       "Mas o frasco --"

       "Agora, garotos." Ela virou para Jason e Leo. Sua voz era muito mais poderosa
do que a de Piper, to cheia de confiana que Piper no aguentava uma chance.

       "Vocs gostariam de ver mais?"

                                         225
      "Certo," Jason disse.

      "Ok," Leo disse.

      "Excelente," a princesa disse. "Vocs precisaro de toda a ajuda que
conseguirem se forem para a rea da Baa."

        As mos de Piper se moveram para a sua adaga. Ela pensou sobre seu sonho no
topo do Monte -- a cena que Enclado lhe mostrara, um lugar que ela conhecia, onde
devia trair seus amigos em dois dias.

      "A rea da Baa?" Piper disse. "Por que a rea da Baa?"

      A princesa sorriu. "Bem,  onde eles morrero, no ?"

      Ento ela os levou para as escadas rolantes, Jason e Leo ainda parecendo
animados para comprar.




                                        226
Captulo XXVIII
PIPER LEVOU A PRINCESA PARA A PAREDE enquanto Jason e Leo partiam para ver os
casacos de pele vivos.

       "Voc quer que eles comprem para morrerem?" Piper perguntou.

        "Mmm." A princesa soprou poeira de uma estante de exposio de espadas. "Eu
sou uma vidente, minha querida. Eu sei seu pequeno segredo. Mas no queremos insistir
nisso, no ? Os garotos esto se divertindo."

        Leo ria enquanto eles experimentavam um chapu que parecia ser feito de pele
de guaximim encantada. Seu rabo anelado se retorcia, e suas pequenas pernas se
sacudiam freneticamente enquanto Leo andava. Jason estava olhando com ansiedade a
roupa de esporte dos homens. Garotos interessados em comprar roupas? Um sinal
definitivo que eles estavam sob um feitio maligno.

       Piper olhou para a princesa. "Quem  voc?"

       "Eu lhe disse, minha querida. Eu sou a Princesa de Clquida."

       "Onde  Clquida?"

        A expresso da princesa ficou um pouco triste. "Onde era Clquida, voc quer
dizer. Meu pai comandava as costas distantes do Mar negro, to longe ao leste como um
navio grego podia velejar naqueles dias. Mas no h mais Clquida -- eras perdidas
atrs."

      "Eras?" Piper perguntou. A princesa no parecia mais ter cinquenta, mas uma
m sensao comeou a se estabelecer em Piper -- algo que Rei Breas mencionara em
Quebec. "Quantos anos voc tem?"

       A princesa riu. "Uma dama deveria evitar perguntar ou responder essa pergunta.
Vamos s dizer que, h, o processo de imigrao para entrar no seu pas demorou um
pouco. Meu patrono finalmente me restaurou. Ela fez tudo isso possvel." A princesa
correu a mo ao redor do shopping.

       O gosto da boca de Piper pareceu metal. "Seu patrono..."


                                         227
        "Ah, sim. Ela no cura qualquer um, caso se importe -- s aqueles que tm
talentos especiais, aqueles como eu. E realmente, ela insiste pouco -- a entrada de uma
loja que deve ser no subterrnea para que ela, h, monitore minha clientela; e um favor
agora e depois. Em troca de uma nova vida? Realmente, foi a melhor pechincha que fiz
em sculos."

       Corra, Piper pensou. Temos que sair daqui.

       Mas antes mesmo que ela pudesse transformar seus pensamentos em palavras,
Jason gritou, "Ei, venham ver!"

        De uma prateleira com roupas etiquetadas, ele puxou uma camiseta roxa como a
que ele vestia na excurso escolar -- exceto que essa camisa parecia como se tivesse
sido arranhada por tigres.

       Jason franziu a testa. "Por que isso parece to familiar?"

       "Jason,  como a sua," Piper disse. "Agora realmente temos que partir." Mas ela
no tinha certeza que ele ao menos podia ouvi-la mais pelo encantamento da princesa.

       "No faz sentido," a princesa disse. "Os garotos no acabaram ainda, no ? E
sim, minha querida. Essas camisas so muito populares -- transaes de clientes
prvios. Cai bem em voc."

        Leo ergueu uma camiseta laranja do Acampamento Meio-Sangue com um
buraco pelo meio, como se tivesse sido golpeada por um dardo. Do lado dela havia um
peitoral de bronze amassado cedido com corroso -- cido, talvez? -- e uma toga
romana lascada em pedaos e manchada com algo que parecia perturbadoramente como
sangue seco.

       "Vossa Alteza," Piper disse, tentando controlar os nervos. "Por que voc no
conta para os garotos como traiu sua famlia? Tenho certeza que eles adorariam ouvir
essa histria." Suas palavras no tinham efeito na princesa, mas os garotos se viraram,
subitamente interessados.

       "Mais histria?" Leo perguntou.

       "Eu gosto de mais histria!" Jason concordou.

       A princesa chamejou um olhar irritado para Piper. "Ah, um desejo faz coisas
estranhas para o amor, Piper. Voc deveria saber disso. Eu ca por aquele jovem heri,
na verdade, porque sua me Afrodite me mantinha em fascinao. Se no fosse por ela
-- mas no posso guardar rancor de uma densa, posso?"

       O tom da princesa significava claramente: Eu posso tir-lo de voc.


                                           228
       "Mas aquele heri lhe levou com ele quando fugiu de Clquida," Piper lembrou.
"No , Vossa Alteza? Ele se casou com voc assim como prometeu."

         O olhar nos olhos da princesa fez Piper querer se desculpar, mas ela no voltou
atrs.

       "A princpio," Sua Alteza admitiu, "parecia que ele manteria sua palavra. Mas
mesmo depois de ajud-lo a roubar o tesouro do meu pai, ele ainda precisava de minha
ajuda. Enquanto fugamos, a frota do meu irmo veio atrs de ns. Seus navios de
guerra nos alcanaram. Ele teria nos destrudo, mas eu convenci meu irmo a vir a
bordo do nosso barco primeiro e conversar sob bandeira de trgua. Ele confiou em
mim."

       "E voc matou seu prprio irmo," Piper disse, a histria terrvel completa
voltando para ela, ao longo com um nome -- um nome infame que comeava com a
letra M.

      "O qu?" Jason se animou. Por um momento parecia quase como si prprio.
"Matou seu prprio --"

       "No," a princesa vociferou. "Essas histrias so mentiras. Foi meu novo marido
e seus homens que mataram meu irmo, embora eles no pudessem ter feito isso sem
meu engano. Eles jogaram o seu corpo ao mar, e a frota importunada teve que parar e
procur-lo para que eles pudessem dar ao meu irmo um enterro adequado. Isso nos deu
tempo para fugir. Tudo isso, eu fiz por meu marido. E ele esqueceu nossa barganha. Ele
me traiu no final."

         Jason ainda se sentia inconfortvel. "O que ele fez?"

       A princesa segurou a toga fatiada contra o peito de Jason, como se o medisse
para um assassinato. "Voc no conhece a histria, meu garoto? Todos vocs deveriam.
Voc foi nomeado para ele."

       "Jason," Piper disse. "O Jason original. Mas ento voc est -- voc devia estar
morta!"

        A princesa sorriu. "Como disse, uma nova vida em um novo pas. Certamente
cometi erros. Eu virei minhas costas para o meu prprio povo. Eu fui chamada de
traidora, ladra, mentirosa, assassina. Mas eu agi por amor." Ela virou para os garotos e
lhes deu um olhar lamentvel, piscando seus clios. Piper pde sentir a magia correndo
sobre ela, tomando controle mais firmemente que nunca.

         "Vocs no fariam o mesmo por algum que amam, meus queridos?"

         "Ah, claro," Jason disse.


                                            229
       "Ok," Leo disse.

       "Gente!" Piper rangeu os dentes em frustrao. "Vocs no vem que ela est
encantando vocs? Vocs no --"

        "Vamos continuar, ok?" a princesa disse friamente. "Creio que vocs queiram
falar sobre o preo dos espritos de tempestade -- e o seu stiro."



Leo se distraiu no segundo andar com os dispositivos.

       "Sem chance," ele disse. "Essa  uma forja de armaduras?"

       Antes que Piper pudesse par-lo, ele partiu da escada rolante e correu por um
grande forno oval que parecia uma grelha em esteroides.

       Quando o alcanaram, a princesa disse, "Voc tem bom gosto. Essa  a H-2000,
desenhada pelo prprio Hefesto. Quente o suficiente para derreter bronze Celestial ou
ouro Imperial."

       Jason recuou como se reconhecesse aquele termo. "Ouro Imperial?"

       A princesa assentiu. "Sim, meu querido. Como essa arma to habilmente
escondida no seu bolso. Para ser propriamente forjado, o ouro Imperial teve que ser
consagrado no Templo de Jpiter no Monte Capitlio em Roma. Um metal poderoso e
bastante raro, mas como os imperadores romanos, bastante volteis. Tenha certeza de
nunca quebrar essa lmina..." Ela sorriu agradavelmente. "Roma foi depois do meu
tempo, naturalmente, mas eu ouo histrias. E agora aqui -- esse trono dourado  um
dos meus melhores itens de luxo. Hefesto o fez como uma punio para a sua me,
Hera. Sente nele e voc ser imediatamente preso."

       Leo aparentemente tomou isso como uma ordem. Ele comeou a andar em
direo a ele em transe.

       "Leo, no!" Piper alertou.

       Ele pestanejou. "Quanto pelos dois?"

       "Ah, o assento eu poderia lhe dar por cinco grandes feitos. A forja, sete anos de
servitude. E s por um pouco da sua fora --" Ela deixou Leo na seo de dispositivos,
lhe dando preos em vrios itens. Piper no queria deix-lo sozinho com ela, mas ela
tinha que tentar raciocinar com Jason. Ela o empurrou para um lado e lhe deu uma tapa
no rosto.

       "Ei," ele murmurou sonolentamente. "Para que isso?"


                                          230
       "Sai dessa!" Piper sibilou.

       "O que voc quer dizer?"

       "Ela est lhe encantando. No est sentindo?"

       Ele juntou as sobrancelhas. "Ela parece legal."

        "Ela no  legal! Ela no devia nem estar viva! Ela foi casada com Jason -- o
outro Jason -- trs milhes de anos atrs. Lembra o que Breas disse -- algo sobre as
almas no ficarem mais confinadas no Hades? No so s monstros que no podem
ficar vivos. Ela veio do Mundo Inferior!"

       Ele balanou a cabea inquietamente. "Ela no  um fantasma."

       "No, ela  pior! Ela  --"

         "Crianas." A princesa voltou com Leo no reboque. "Se vocs fizerem um
favor, agora vamos ver para o que vocs vieram.  isso que vocs querem, sim?"

        Piper teve que reprimir um grito. Ela estava tentada a puxar sua adaga e cuidar
da bruxa ela mesma, mas no gostava das suas chances -- no no meio do shopping de
Sua Alteza enquanto seus amigos estavam sob um feitio. Piper no podia nem saber se
eles estariam do lado dela numa luta. Ela tinha que descobrir um plano melhor.

        Eles desceram as escadas rolantes para a base da fonte. Pela primeira vez, Piper
notou dois relgios de sol grandes de bronze -- cada um do tamanho aproximado de um
trampolim -- incrustado no piso de mrmore do norte ao sul da fonte. As gaiolas
douradas de canrio em tamanho real iam do leste a oeste, e a mais longe prendia os
espritos de tempestade. Eles eram to densamente empacotados, redemoinhando
parecendo um tornado superconcentrado, que Piper no podia dizer quantos havia ali --
dzias, no mnimo.

       "Ei," Leo disse, "o Treinador Hedge parece bem!"

       Eles correram para a gaiola de canrio mais prxima. O velho stiro parecia ter
sido petrificado no momento que foi sugado no cu acima do Grand Canyon. Ele foi
congelado no meio de um grito, sua clava erguida sobre sua cabea como se estivesse
ordenando  classe do ginsio para cair e pagar cinquenta. Seu cabelo encaracolado de
p em ngulos bizarros. Se Piper s se concentrasse em certos detalhes -- a clara
camisa polo laranja, o fino cavanhaque, o apito ao redor do pescoo -- ela podia
imaginar o Treinador Hedge como seu bom e antigo ser irritante. Mas era difcil ignorar
os grossos chifres na sua cabea, e o fato que ele tinha pernas de bode peludas e cascos
ao invs de calas de exerccio e Nikes.



                                          231
       "Sim," a princesa disse. "Eu sempre deixo meus artigos em boas condies.
Podemos certamente negociar pelos espritos de tempestade e o stiro. Um pacote de
acordo. Se formos a termos, vou at dar o frasco de poo de cura, e vocs podem ir em
paz." Ela deu a Piper um olhar sagaz. " melhor do que comear aborrecimento, no ,
querida?"

        No confie nela, alertou uma voz na sua cabea. Se Piper tinha razo sobre a
identidade da senhora, ningum estaria partindo em paz. Um acordo justo no era
possvel. Era tudo um truque. Mas seus amigos estavam olhando para ela, assentindo
urgentemente e gesticulando com a boca, Diga sim! Piper precisava de mais tempo para
pensar.

       "Podemos negociar," disse.

       "Totalmente!" concordou Leo. "D seu preo."

       "Leo!" Piper vociferou.

       A princesa riu. "Dar meu preo? Talvez no a melhor estratgia de pechincha,
meu garoto, mas pelo menos voc sabe o valor de uma coisa. Realmente, liberdade vale
muito. Voc me pediria para libertar seu stiro, que atacou meus ventos de tempestade
--"

       "Que nos atacaram," contra-atacou Piper.

       Sua Alteza deu de ombros. "Como disse, meu patrono me pede pequenos
favores de tempos em tempos. Mandar os espritos de tempestade para abduzir vocs --
foi um deles. Garanto a vocs que no foi nada pessoal. E sem nenhum dano, como
vocs vieram aqui, no fim, de sua livre e espontnea vontade! Em qualquer caso, vocs
querem libertar o stiro, e vocs querem meus espritos de tempestade -- que so servos
muito valiosos, por sinal -- de forma que voc possa leg-los quele tirano do olo.
No parece muito justo, parece? O preo ser alto."

      Piper pde ver que seus amigos estavam prontos para oferecer qualquer coisa,
prometer qualquer coisa. Antes que eles pudessem falar, ela jogou sua ltima carta.

       "Voc  Medeia," ela disse. "Voc ajudou o Jason original a roubar o Velocino
de Ouro. Foi voc uma das vils mais malignas na mitologia grega. Jason, Leo -- no
confiem nela."

       Piper colocou toda a intensidade que pde reunir naquelas palavras. Ela estava
sendo totalmente sincera, e pareceu ter algum efeito. Jason recuou da feiticeira.

       Leo coou a cabea e olhou ao redor como se estivesse saindo de um sonho.

       "O que estamos fazendo, de novo?"

                                         232
        "Garotos!" A princesa abriu suas mos num gesto de boas-vindas. Suas joias de
diamante brilharam, e seus dedos pintados se dobraram como garras com sangue nas
pontas. " verdade, eu sou Medeia. Mas eu sou to mal interpretada. Ah, Piper, minha
querida, voc no sabe o que era ser mulher nos dias antigos. No tnhamos poder,
nenhuma influncia. Na maioria das vezes nem mesmo escolhamos os nossos maridos.
Mas eu era diferente. Eu escolhi meu prprio destino me tornando uma feiticeira. Isso 
to errado? Eu fiz um pacto com Jason: minha ajuda para ganhar o velocino, em troca
do seu amor. Um acordo justo. Ele se tornou um heri famoso! Sem mim, ele teria
morrido desconhecido nas margens de Clquida."

        Jason -- o Jason de Piper -- franziu a testa. "Ento... voc realmente morreu a
trs milhes de anos atrs? Voc retornou do Mundo Inferior?"

       "A morte no me prende mais, jovem heri," Medeia disse. "Graas ao meu
patrono, eu sou carne e sangue novamente."

       "Voc se... reformou?" Leo pestanejou. "Como um monstro?"

       Medeia desdobrou seus dedos, e vapor assobiou das suas unhas, como gua
esparramada em ferro quente.

       "Vocs no tm ideia do que est acontecendo, tem, meus queridos?  muito
pior do que uma agitao de monstros do Trtaro. Meu patrono sabe que gigantes e
monstros no so seus maiores servos. Eu sou mortal. Eu aprendo pelos meus erros. E
agora que eu retornei  vida, no serei trapaceada novamente. Agora, esse  o meu preo
para o que vocs pedem."

       "Gente," Piper disse. "O Jason original deixou Medeia porque ela era louca e
sedenta de sangue."

       "Mentiras!" Medeia disse.

       "No caminho de volta para Clquida, o navio de Jason parou em outro reino, e
Jason concordou em liquidar Medeia e se casar com a filha do rei."

      "Depois de lhe dar dois filhos!" Medeia disse. "Ainda assim ele quebrou sua
promessa! Eu lhe pergunto, isso foi certo?"

       Jason e Leo obedientemente balanaram suas cabeas, mas Piper no.

       "Isso pode no ter sido certo," ela disse, "mas tampouco foi a vingana de
Medeia. Ela assassinou seus prprios filhos para voltar para Jason. Ela envenenou sua
nova esposa e evitou o reino."

       Medeia rosnou. "Uma inveno para arruinar a minha reputao! As pessoas de
Corinto -- aquela multido rebelde -- mataram os meus filhos e me expulsaram. Jason

                                         233
no fez nada para me proteger. Ele roubou tudo de mim. Ento sim, eu entrei
rapidamente no palcio e envenenei sua nova noiva encantadora. Foi s justo -- um
preo adequado."

       "Voc  insana," Piper disse.

       "Eu sou a vtima!" Lamentou Medeia. "Eu morri com os meus sonhos
despedaados, mas no mais. Agora sei como no confiar em heris. Quando eles vm
pedindo por tesouros, eles pagaro um preo grave. Especialmente quando esse que
pede tem o nome de Jason!"

      A fonte virou vermelho-vivo. Piper puxou sua adaga, mas sua mo estava
tremendo quase tanto para segur-la. "Jason, Leo --  hora de ir. Agora."

        "Antes de voc fechar o acordo?" perguntou Medeia. "E a sua misso, garotos?
E meu preo  to baixo. Vocs sabiam que essa fonte  mgica? Se um homem morto
for jogado nela, mesmo se ele estiver cortado em pedaos, ele seria estourado de volta
para a sua forma completa -- mais forte e mais poderoso que nunca."

       " srio?" Leo perguntou.

        "Leo, ela est mentindo," Piper disse. "Ela fez esse truque com algum antes --
um rei, eu acho. Ela convenceu suas filhas a cort-lo em pedaos para que ele pudesse
sair da gua jovem e cheio de sade novamente, mas s o matou!"

       "Ridculo," Medeia disse, e Piper podia ouvir o poder carregado em cada slaba.
"Leo, Jason -- meu preo  bastante simples. Por que vocs dois no lutam? Se vocs
se machucarem, ou at morrerem, sem problemas. Vamos s jogar vocs na fonte e
vocs ficaro melhores do que nunca. Vocs querem lutar, no querem? Vocs
ressentem um ao outro!"

        "Gente, no!" Piper disse. Mas j estavam olhando um para o outro, como s
estivesse expandindo neles como realmente se sentiam.

       Piper nunca se sentiu mais intil. Agora ela entendia o que parecia uma feiticeira
verdadeira. Ela sempre pensou que magia significava varinhas e bolas de fogo, mas isso
era pior. Medeia no s contava com venenos e poes. Sua arma mais potente era a
voz.

      Leo fez carranca. "Jason  sempre a estrela. Ele sempre ganha a ateno e me
toma por certo."

       "Voc  irritante, Leo," Jason disse. "Voc nunca leva nada a srio. Voc nem
pode consertar um drago."



                                          234
        "Parem!" Piper suplicou, mas ambos puxaram as armas -- Jason a sua espada de
ouro, e Leo um martelo do seu cinto de ferramentas.

       "Solte-os, Piper," Medeia urgiu. "Estou lhe fazendo um favor. Deixe isso
acontecer agora, e deixar sua escolha muito mais fcil. Enclado estar agradecido.
Voc pode ter o seu pai de volta hoje!"

        O encanto de Medeia no funcionava nela, mas a feiticeira ainda tinha uma voz
persuasiva. Seu pai de volta hoje? Apesar das suas melhores intenes, Piper queria
isso. Ela queria seu pai de volta tanto que doa.

       "Voc trabalha para Enclado," ela disse.

       Medeia riu. "Servir um gigante? No. Mas todos servimos  mesma grande
causa -- um patrono que voc no pode comear a lutar. Parta, filha de Afrodite. Isso
no tem que ser a sua morte, tambm. Salve-se, e seu pai pode ir livre."

        Leo e Jason ainda estavam se encarando, prontos para lutar, mas eles pareciam
inseguros e confusos -- esperando por outra ordem. Parte deles tinha que estar
resistindo, Piper esperou. Isso ia completamente contra a natureza deles.

       "Oua-me, garota." Medeia arrancou um diamante do seu bracelete e o jogou
num spray de gua da fonte. Enquanto ele passava pela luz multicolorida, Medeia disse,
"Oh, ris, deusa do arco-ris, me mostre o escritrio de Tristan McLean."

       A nvoa tremulou, e Piper viu o escritrio do pai. Sentada atrs da sua mesa,
falando ao telefone, estava a assistente do seu pai, Jane, no seu terno escuro de trabalho,
seu cabelo tranado num coque firme.

       "Ol, Jane," Medeia disse.

     Jane colocou o telefone no gancho calmamente. "Como posso ajud-la,
madame? Ol, Piper."

       "Voc --" Piper estava to irritada que mal podia falar.

      "Sim, criana," disse Medeia. "A assistente do seu pai. Bastante fcil de
manipular. Uma mente organizada para um mortal, mas incrivelmente fraca."

       "Obrigada, madame," disse Jane.

        "No faa meno a isso," Medeia disse. "Eu s queria lhe dar os parabns,
Jane. Fazer o Sr. McLean sair da cidade to subitamente, mandar o seu jato para
Oakland sem alertar a imprensa ou a polcia -- bem feito! Ningum parece saber onde
ele foi. E lhe contar a vida da filha estava sob um fio -- foi um toque timo para
conseguir sua cooperao."

                                           235
        "Sim," Jason concordou num tom suave, como se ela estivesse sonmbula. "Ele
foi bastante cooperativo quando acreditou que Piper estava em perigo."

        Piper olhou para sua adaga. A lmina tremeu na sua mo. Ela no podia us-la
como arma melhor do que Helena de Troia podia, mas ainda era um espelho, e o que ela
via nele era uma garota assustada sem chances de vitria.

        "Eu posso ter novas ordens para voc, Jane," disse Medeia. "Se a garota
cooperar, pode ser a hora para o Sr. McLean voltar para casa. Voc arranjaria uma
histria apropriada para explicar a sua ausncia, se acontecer? E imagino que o pobre
homem precisar de algum tempo num hospital psiquitrico."

       "Sim, madame. Estarei na espera."

       A imagem enfraqueceu, e Medeia virou para Piper. "Ento, entende?"

       "Voc ludibriou meu pai para uma armadilha," Piper disse. "Voc ajudou o
gigante --"

       "Ah, por favor, querida. Voc vai se trabalhar num desmaio! Eu estive
preparando essa guerra por anos, mesmo antes de ser trazida de volta  vida. Eu sou
uma vidente, como disse. Eu posso narrar o futuro to bem como o seu pequeno
orculo. Anos atrs, ainda sofrendo nos Campos de Punio, eu tive uma viso dos sete
na sua assim chamada Grande Profecia. Eu vi seu amigo Leo aqui, e vi que ele seria um
importante inimigo algum dia. Eu mexi a conscincia do meu patrono, lhe deu essa
informao, e ela conseguiu acordar s um pouco -- s o suficiente para visit-lo."

       "A me de Leo," Piper disse. "Leo, oua isso! Ela ajudou a matar a sua me!"

       "Ah," Leo resmungou, ofuscado. Ele franziu a testa para o martelo. "Ento... eu
s ataco o Jason? Est ok?"

       "Perfeitamente seguro," Medeia prometeu. "E Jason, o acerte forte. Mostre-me
que voc  merecedor do seu xar."

       "No!" Piper ordenou. Ela sabia que era a sua ltima chance. "Jason, Leo -- ela
est enganando vocs. Abaixem as suas armas."

        A feiticeira rolou os olhos. "Por favor, garota. Voc no  capaz para mim. Eu
treinei com a minha tia, a imortal Circe. Eu posso guiar homens  loucura ou cur-los
com a minha voz. Que esperana esses dois jovens heris dbeis tem contra mim?
Agora, garotos, matem um ao outro!"

        "Jason, Leo, me ouam." Piper colocou toda a sua emoo da voz. Por anos ela
tentara controlar-se e no mostrar fraqueza, mas agora ela despejou tudo nas palavras --
seu medo, seu desespero, sua fria. Ela sabia que podia estar assinando o atestado de

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bito do pai, mas ela se importava muito com seus amigos para deix-los ferir um ao
outro. "Medeia est enfeitiando vocs.  parte da sua magia. Vocs so melhores
amigos. No lutem entre si. Lutem com ela!"

       Eles hesitaram, e Piper pde sentir o feitio se despedaar.

       Jason pestanejou. "Leo, eu estava prestes a perfur-lo?"

       "Algo sobre minha me...?" Leo franziu a testa, ento virou para Medeia.
"Voc... voc est trabalhando para a Mulher-Sujeira. Voc a mandou para a oficina
mecnica." Ele levantou o brao. "Senhora, eu tenho um martelo de trs quilos com seu
nome nele."

       "Bah!" Medeia zombou. "Simplesmente coletarei o pagamento de outro modo."

       Ela pressionou um ladrilho de mosaico no cho, e a construo estremeceu.
Jason gingou sua espada para Medeia, mas ela dissolveu em fumaa e reapareceu na
base do elevador.

       "Voc  lento, heri!" Ela riu. "Despeje a sua frustrao nas minhas mascotes!"

       Antes que Jason pudesse ir atrs dela, os relgios de sol gigantes de bronze em
cada lado da fonte balanaram, abrindo. Duas bestas douradas rosnando -- drages
alados de carne e osso -- rastejaram para fora dos buracos abaixo. Cada um era do
tamanho uma v de acampamento, talvez no grandes comparados a Festus, mas
grandes o suficiente.

       "Ento era isso que estava nos canis," Leo disse humildemente.

        Os drages abriram as asas e sibilaram. Piper podia sentir o calor partindo da
pele brilhante deles. Um virou seus raivosos olhos laranja para ela.

       "No os olhem no olho!" Jason alertou. "Vo paralis-los!"

        "De fato!" Medeia estava vagarosamente subindo a escada rolante, se
encostando no corrimo enquanto assistia a diverso. "Esses dois bolinhos estiveram
comigo por um longo tempo -- drages do sol, vocs sabem, presente do meu av
Hlio. Eles empurraram a minha biga quando parti de Corinto, e agora eles sero sua
destruio. Ta-r!"

        Os drages bufaram. Leo e Jason carregaram para interceptar. Mas estava
assustada com quanta coragem que os garotos atacaram -- trabalhando como um time
que treinara junto por anos.

       Medeia estava quase no segundo andar, onde poderia escolher dentre uma vasta
coleo de dispositivos mortais.

                                           237
       "Ah, no, voc no vai," Piper grunhiu, e partiu atrs dela.

       Quando Medeia localizou Piper, ela comeou a subir com seriedade. Ela era
rpida para uma mulher de trs milhes de anos. Piper subiu em velocidade mxima,
dando trs passos de vez, e ainda assim ela no podia alcan-la. Medeia no parou no
piso dois. Ela pulou para a prxima escada rolante e continuou a ascender.

       As poes, Piper pensou.  claro que ela iria para l. Ela era famosa por poes.

        Abaixo, Piper ouviu a batalha assolando. Leo estava soprando seu apito de
segurana, e Jason estava gritando para chamar a ateno dos drages. Piper no ousou
olhar -- no enquanto corria com uma adaga na mo. Ela s pde se ver cambaleando e
batendo no prprio nariz. Aquilo seria super heroico.

        Ela agarrou um escudo de um manequim de armadura no piso trs e continuou a
subir. Ela imaginou o Treinador Hedge gritando na sua mente, assim como de volta 
classe de ginsio na Wilderness School: Ande, McLean! Voc chama isso de escalada-
de-escada-rolante?

       Ela chegou ao piso superior, respirando duro, mas estava muito atrasada. Medeia
alcanara o balco de poes.

       A feiticeira pegou um frasco em forma de cisne -- o azul que causava morte
dolorosa -- e Piper fez a nica coisa que lhe veio em mente. Ela jogou seu escudo.

       Medeia virou triunfantemente na hora de ser golpeada no peito por um frisbee de
metal de cinquenta quilos. Ela tropeou para trs, batendo contra o balco, quebrando
frascos e derrubando prateleiras. Quando a feiticeira se levantou dos destroos, seu
vestido estava manchado em uma dzia de cores diferentes. Vrias das manchas
estavam queimando e brilhando.

       "Tola!" Medeia gemeu. "Voc tem ideia do que tantas poes faro quando
misturadas?"

       "Te matar?" Piper disse esperanosamente.

        O tapete comeou a emitir fumaa em volta dos ps de Medeia. Ela tossiu, e seu
rosto se contorceu de dor -- ou ela estava fingindo?

       Abaixo, Leo gritou, "Jason, ajuda!"

       Piper arriscou uma rpida olhada, e quase chorou em desespero. Um dos drages
tinha Leo preso no cho. Estava mostrando suas presas, pronto para abocanhar. Jason
estava batalhando com o outro drago por toda a sala, muito mais distante para auxiliar.




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       "Voc condenou todos ns!" Medeia gritou. Fumaa estava correndo pelo tapete
enquanto a mancha se estendia, lanando fascas e pondo fogo em prateleiras de roupa.
"Vocs s tm segundos antes dessa mistura consumir tudo e destruir a construo. No
h tempo --"

       CRASH! O teto vitral se estilhaou numa chuva de fragmentos multicoloridos, e
o drago de bronze Festus rompeu no shopping.

       Ele se lanou  briga, agarrando um drago do sol em cada garra. S agora que
Piper apreciou como o amigo deles era grande e forte.

       " o meu garoto!" Leo gritou.

       Festus voou a metade do caminho acima do saguo, ento atirou os drages do
sol nos buracos de onde vieram. Leo correu para a fonte e pressionou o ladrilho de
mrmore, fechando os relgios de sol. Eles estremeceram enquanto os drages se
debatiam, tentando sair, mas pelo momento estavam contidos.

       Medeia xingou em alguma lngua antiga. O quarto andar inteiro estava
incendiado agora. O ar se enchia com gs nocivo. At na abertura do telhado, Piper
podia sentir o calor s intensificando. Ela recuou para a borda da grade, mantendo sua
adaga apontada para Medeia.

       "Eu no serei abandonada de novo!" A feiticeira se ajoelhou e lanou a poo
vermelha de cura, que se algum jeito sobreviveu  coliso. "Voc quer a memria do
seu namorado restaurada? Me leve com vocs!"

        Piper olhou para trs dela. Leo e Jason estavam a bordo das costas de Festus. O
drago de bronze batia suas asas imensas, pegou as duas jaulas com o stiro e os
espritos de tempestade nas garras, e comeou a ascender.

       A construo fez um rudo. Fogo e a fumaa se torciam pelas paredes,
derretendo as grades, transformando o ar em cido.

       "Vocs nunca sobrevivero  sua misso sem mim!" Medeia grunhiu. "Seu
garoto heri ficar ignorante para sempre, e seu pai morrer. Me leve com vocs!"

       Por um batimento cardaco, Piper estava atrada. Ento ela viu o sorriso
malandro de Medeia. A feiticeira estava confiante nos seus poderes de persuaso,
confiante que sempre podia fazer um acordo, sempre escapar e ganhar no fim.

       "Hoje no, bruxa." Piper pulou para a lateral. Ela caiu por s um segundo antes
de Leo e Jason a pegarem, lhe puxando a bordo do drago.

       Ela ouviu Medeia gritando de raiva enquanto eles subiam pelo telhado quebrado
e sobre a parte baixa de Chicago. Ento o shopping explodiu atrs deles.

                                         239
240
Captulo XXIX

Captulo XXIX
LEO   CONTINUOU OLHANDO PARA TRS.              METADE    DELE ESPEROUver aqueles
drages do sol desagradveis carregando uma biga voadora com uma vendedora mgica
berrante jogando poes, mas nada os seguiu.

       Ele guiou o drago para o sudoeste. Finalmente, a fumaa do shopping
flamejante enfraqueceu na distncia, mas Leo no relaxou at os subrbios de Chicago
derem lugar a campos nevados, e o sol comeou a se por.

      "Bom trabalho, Festus." Ele deu um soco de leve na pele de metal do drago.
"Voc foi incrvel."

       O drago estremeceu. Engrenagens estalaram e clicaram no seu pescoo.

        Leo franziu a testa. Ele no gostava daqueles barulhos. Se o disco de controle
estivesse falhando de novo -- no, confiantemente era algo menor. Algo que ele
pudesse consertar.

      "Eu vou te dar um tune na prxima vez que pousarmos," Leo prometeu. "Voc
mereceu algum leo de motor e molho de pimenta."

        Festus girou os dentes, mas at aquilo parecia fraco. Ele voava a um passo firme,
suas grandes asas se curvando em ngulo para empurrar o vento, mas ele estava levando
uma carga pesada. Duas gaiolas nas garras mais trs pessoas nas costas -- quanto mais
Leo pensava sobre isso, mas preocupado ele ficava. At drages de metal tinham
limites.

       "Leo." Piper bateu no seu ombro. "Voc est se sentindo ok?"

        "Sim... nada mal para um zumbi passado por lavagem cerebral." Ele esperou que
no parecesse to embaraado como se sentia. "Obrigado por nos salvar l, rainha da
beleza. Se voc no tivesse me influenciado a sair daquele feitio --"

       "No se preocupe sobre isso," Piper disse.

      Mas Leo se preocupava muito. Ele se sentia terrvel sobre como foi fcil para
Medeia coloc-lo contra seu melhor amigo. E aquelas sensaes no vieram de lugar

                                          241
nenhum -- seu ressentimento do jeito que Jason sempre ficava aos holofotes e no
realmente parecia precisar dele. Leo s vezes sentia aquilo, mesmo se no tivesse
orgulho disso.

        O que mais o incomodava era a notcia sobre sua me. Medeia vira o futuro l
embaixo, no Mundo Inferior. Era como o seu patrono, a mulher em robes negros e
trreos, viera  oficina mecnica sete anos depois para assust-lo, arruinar a sua vida. 
como sua me morrera -- por causa de algo que Leo poderia fazer algum dia. Ento de
um modo esquisito, mesmo se seus poderes com fogo no fossem acusar, a morte da
me ainda era sua culpa.

       Quando deixaram Medeia naquela loja explosiva, Leo se sentiu um pouco
melhor. Ele esperou que ela no escapasse, e fosse direto para os Campos de Punio, o
lugar que ela pertencia. Aquelas sensaes tambm no o orgulhavam.

       E se as almas estivessem voltando do Mundo Inferior... era possvel que a me
de Leo pudesse ser trazida de volta?

       Ele tentava colocar a ideia de lado. Aquele era o pensamento de Frankenstein.
No era natural. No era certo. Medeia podia ser trazida de volta  vida, mas ela no
parecia exatamente humana, com as unhas sibilantes e a cabea brilhante e no se sabe o
que mais.

       No, a me de Leo passou adiante. Pensar de outra maneira s iria conduzir Leo
 loucura. Ainda assim, o pensamento continuava lhe cutucando, como um eco da voz
de Medeia.

        "Vamos ter que descer logo," ele avisou os amigos. "Mais algumas horas, talvez,
para termos certeza que Medeia no est nos seguindo. No acho que Festus possa voar
muito mais que isso."

        "," Piper concordou. "O Treinador Hedge provavelmente quer sair da sua
gaiola de canrio, tambm. A pergunta  -- para onde estamos indo?"

       "A rea da Baa," Leo chutou. Suas memrias do shopping eram vagas, mas ele
pareceu se lembrar de ouvir aquilo. "Medeia no disse algo sobre Oakland?"

          Piper no respondeu por tanto tempo que Leo se perguntou se ele falou algo
errado.

       "O pai de Piper," Jason interviu. "Algo aconteceu com o seu pai, certo? Ele foi
iludido em algum tipo de armadilha."

      Piper soltou uma respirao trmula. "Olhem, Medeia disse que vocs
morreriam na rea da Baa. E alm disso... mesmo se fssemos l, a rea da Baa 


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imensa! Primeiro precisamos encontrar olo e despachar os espritos de tempestade.
Breas disse que olo era o nico que podia nos contar onde exatamente ir."

         Leo grunhiu. "Ento como encontramos olo?"

       Jason se inclinou para frente. "Est dizendo que voc no v?" Ele apontou para
frente deles, mas Leo no viu nada exceto nuvens e as luzes de algumas cidades
brilhando no crepsculo.

         "O qu?" Leo perguntou.

         "Aquele... o que quer que seja," Jason disse. "No ar."

         Leo olhou para trs. Piper parecia mais confusa que ele.

       "Certo," disse Leo. "Voc poderia ser mais especfico na parte do `o-que-quer-
que-seja'?"

        "Como uma trilha de vapor," Jason disse. "Exceto que est brilhando. Realmente
fraca, mas est definitivamente aqui. Estivemos seguindo-a desde Chicago, ento pensei
que voc a viu."

         Leo balanou a cabea. "Talvez Festus possa senti-la. Voc acha que olo fez
isso?"

       "Bem,  uma trilha mgica no vento," Jason disse. "olo  o deus do vento.
Acho que ele sabe que temos prisioneiros para ele. Ele est nos dizendo para onde
voar."

         "Ou  outra armadilha," Piper disse.

       O seu tom preocupou Leo. Ela no soava s nervosa. Ela soava quebrada de
desespero, como se eles j tivessem selados os seus destinos, e como se fosse culpa
dela.

         "Pipes, voc est bem?" ele perguntou.

         "No me chame assim."

        "Ok, certo. Voc no gosta de nenhum nome que eu decido para voc. Mas se
seu pai est em perigo e ns podemos ajudar --"

       "Vocs no podem," ela disse, sua ficando mais vacilante. "Olhe, estou cansada.
Se vocs no se importam..."

         Ela se encostou em Jason e fechou os olhos.

         Tudo bem, Leo pensou -- um sinal bastante claro que ela no queria conversar.

                                            243
       Eles voaram em silncio por um tempo. Festus parecia saber para onde estava
indo. Ele manteu o curso, gentilmente curvando para o sudoeste e esperanosamente
para a fortaleza de olo. Outro deus do vento para visitar, um novo sabor inteiramente
louco -- Ah, cara, Leo no podia esperar.

      Ele tinha muito desejo na sua mente para dormir, mas agora que ele estava fora
de perigo, seu corpo tinha ideias diferentes. Seu nvel de energia estava se
despedaando. A batida montona das asas do drago fazia seus olhos se sentirem
pesados. Sua cabea comeou a assentir.

       "Durma um pouco," Jason disse. "Est tranquilo. Me d as rdeas."

       "Nh, estou bem --"

       "Leo," Jason disse, "voc no  uma mquina. Alm disso, eu sou o nico que
pode ver a trilha de vapor. Vou fazer com que ns fiquemos no curso."

       Os olhos de Leo comearam a se fecharem sozinhos. "Tudo bem. Talvez s..."

       Ele no completou a frase at de cair para frente sobre o pescoo quente do
drago.



No seu sonho, ele ouviu uma voz cheia de esttica, como um rdio AM ruim: "Al?
Est coisa est funcionando?"

      A viso de Leo voltou a foco -- um pouco. Tudo estava nebuloso e cinza, com
bandas de interferncia correndo pela sua viso. Ele nunca sonhara com uma m
conexo antes.

       Ele parecia estar numa oficina. Fora do canto dos seus olhos ele viu uma serra de
banco, tornos mecnicos de metal, e gaiolas de ferramentas. Uma forja brilhava
vivamente numa parede.

       No era a forja do acampamento -- grande demais. No a Carvoeira 9 -- muito
mais quente e mais confortvel, obviamente no abandonada.

       Ento Leo percebeu que algo estava bloqueando o meio da sua viso -- algo
grande e indistinto, e to perto que Leo tinha de ficar vesgo para v-la propriamente.
Era um rosto grande e feio.

       "Santa me!" ele gritou.

     O rosto se afastou e voltou a foco. Olhando para ele estava um homem barbudo
em macaces azuis e sujos. Seu rosto era granuloso e coberto de machucados, como se


                                          244
houvesse sido reprimido por um milho de abelhas, ou arrastado em cascalho.
Possivelmente os dois.

       "Umpf," o homem disse. "Santo pai, garoto. Eu pensei que voc conheceria a
diferena."

       Leo pestanejou. "Hefesto?"

       Estar na presena do pai pela primeira vez, Leo provavelmente ficaria mudo ou
intimidado ou alguma coisa. Mas depois do que ele passou nos ltimos dias, com
ciclopes e uma feiticeira e um rosto no esgoto qumico, tudo que Leo sentia era uma
onda de aborrecimento completo.

       "Agora voc aparece?" perguntou. "Depois de quinze anos? Grande paternidade,
Rosto Peludo. Onde voc comea a pregar seu nariz feio nos meus sonhos?"

       O deus levantou uma sobrancelha. Uma pequena fagulha pegou fogo na sua
barba. Ento ele recuou sua cabea e ria to alto que as ferramentas chocalharam nas
bancadas.

       "Voc parece a sua me," Hefesto disse. "Sinto falta de Esperanza."

       "Ela morreu h sete anos." A voz de Leo vacilou. "No que voc se importe."

       "Mas eu me importo, garoto. Com vocs dois."

       "Ah.  por isso que eu nunca vi voc antes de hoje."

       O deus fez um som retumbante na sua garganta, mas pareceu mais
desconfortvel que irritado. Ele puxou um motor em miniatura do seu bolso e comeou
a mexer distraidamente nos mbolos -- o mesmo que Leo fazia quando ficava nervoso.

       "Eu no sou bom com crianas," o deus confessou. "Ou pessoas. Bem, nenhuma
forma de vida orgnica, na verdade. Pensei sobre falar com voc no funeral da sua me.
E de novo quando voc estava na quarta srie... aquele projeto de cincias que voc fez,
o cacarejador de galinhas movido a fumaa. Muito impressionante."

       "Voc viu aquilo?"

        Hefesto apontou para a mesa de trabalho mais prximo, onde um espelho
lustroso de bronze mostrava uma imagem nebulosa de Leo adormecido nas costas do
drago.

      "Sou eu?" Leo perguntou. "Tipo -- eu agora, tendo esse sonho -- olhando para
mim tendo um sonho?"



                                          245
      Hefesto coou a barba. "Agora voc me confundiu. Mas sim --  voc. Estou
sempre dando uma olhada em voc, Leo. Mas falar com voc , h... diferente."

       "Voc est assustado," Leo disse.

       "Ilhs e engrenagens!" o deus gritou. " claro que no!"

       "Sim, voc est assustado." Mas a raiva de Leo vazou. Ele gastou anos pensando
no que diria ao pai se um dia encontrasse -- como Leo iria o censurar por ser um
malandro. Agora, olhando para aquele espelho bronzeado, Leo pensou sobre seu pai
observando o seu progresso pelos anos, at seus estpidos experimentos de cincias.

        Talvez Hefesto ainda fosse um simplrio, mas Leo meio que entendeu de onde
ele estava vindo. Leo sabia fugir das pessoas, no se encaixar. Ele sabia se esconder em
oficinas melhor do que tentar negociar com formas de vida orgnica.

       "Ento," Leo rosnou, "voc fica olhando todas as suas crianas? Voc tem umas
vinte no acampamento. Como voc j -- No importa. Eu no quero saber."

        Hefesto teria corado, mas seu rosto estava to mal conservado e vermelho que
era difcil dizer. "Deuses so diferentes de mortais, garoto. Podemos existir em vrios
lugares de vez -- em qualquer lugar que as pessoas nos chamarem, em qualquer lugar
que nossa esfera de influncia  forte. Na verdade,  raro nossa essncia inteira estiver
junta num s lugar -- nossa verdadeira forma.  perigoso, poderoso o bastante para
destruir qualquer mortal que olhar para ns. Ento, sim... muitas crianas.
Acrescentando aqueles nossos aspectos diferentes, gregos e romanos --" Ele congelou
os dedos no seu projeto de motor. "Er,  isso a dizer, ser um deus  complicado. E sim,
eu tento dar uma olhada em todas as minhas crianas, mas especialmente voc."

       Leo tinha bastante certeza que Hefesto havia quase escorregado e dito algo
importante, mas ele no tinha certeza do qu.

       "Por que me contatar agora?" Leo perguntou. "Pensei que os deuses entraram
em silncio."

        "Entramos," Hefesto se irritou. "Ordens de Zeus -- muito estranhas, at para
ele. Ele bloqueou todas as vises, sonhos, e mensagens de ris de e para o Olimpo.
Hermes fica sentado o tempo todo chateado, perdendo a cabea porque no pode
entregar o correio. Felizmente, fiquei com o meu antigo equipamento de transmisso
pirata."

       Hefesto deu uma tapinha numa mquina da mesa. Parecia uma combinao de
pratos por satlite, motor V-6, e mquina de expresso. Sempre que Hefesto apertava a
mquina, o sonho de Leo tremeluzia e mudava de cor.


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       "Usei esse na Guerra Fria," o deus disse cordialmente. "Radio Livre Hefesto.
Aqueles foram os dias. Eu o mantenho por perto para pay-per-view, na maioria, ou fazer
vdeos virais de crebro --"

       "Vdeos virais de crebro?"

         "Mas agora est acessvel novamente. Se Zeus souber que estou lhe contatando,
ele iria querer minha cabea."

       "Por que Zeus est sendo to ignorante?"

       "Humpf. Ele se sobressaiu a isso, garoto." Hefesto o chamou de garoto como se
Leo fosse a parte de uma mquina irritante -- um lavador extra, talvez, que no tinha
propsito claro, mas que Hefesto no queria jog-lo fora por medo de precisar dele
algum dia.

       No exatamente agradvel. E mais uma vez, Leo no tinha certeza se queria ser
chamado de "filho." Leo no iria comear a chamar esse cara feio, grande e desajeitado
de "pai."

       Hefesto se cansou do seu motor e o jogou sobre o ombro. Antes que pudesse
bater no cho, brotou hlices de helicpteros nele e voou numa lixeira.

        "Foi a segunda Guerra dos Tits, suponho," Hefesto disse. " o que deixou Zeus
desajeitado. Ns deuses ficamos... bem, embaraados. No acho que h outro modo de
dizer isso."

       "Mas vocs ganharam," Leo disse.

        O deus grunhiu. "Ganhamos por causa dos semideuses do" -- novamente ele
hesitou, como se sempre escorregasse -- "do Acampamento Meio-Sangue que tomou a
dianteira. Ganhamos por causa dos nossos filhos que lutaram nossas batalhas por ns,
mais inteligentes do que fomos. Se ns confissemos no plano de Zeus, teramos cado
para o Trtaro lutando com o tempestuoso gigante Tfon, e Cronos teria ganho. Mortais
maus o bastante ganharam nossa guerra por ns, mas ento aquele jovem arrogante,
Percy Jackson --"

       "O cara que est desaparecido."

        "Humpf. Sim. Ele. Ele teve a ousadia de rejeitar a nossa oferta de imortalidade e
nos falar para prestar ateno melhor a nossos filhos. Er, sem ofensas."

       "Ah, como eu poderia me ofender? Por favor, continue me ignorando."

       "Entendimento considervel o seu..." Hefesto franziu a testa, ento suspirou
exaustamente. "Foi sarcasmo, no foi? Mquinas no tem sarcasmo, geralmente. Mas

                                          247
como estava dizendo, os deuses se sentiram humilhados, desmascarados por mortais. A
princpio, naturalmente, estvamos gratos. Mas depois de alguns meses, aquelas
sensao ficaram amargas. Somos deuses, afinal. Precisamos ser admirados,
procurados, acompanhados de medo e admirao."

       "Mesmo se estiverem errados?"

       "Especialmente a! E Jackson ter negado nosso presente, como se ser mortal
fosse de algum jeito melhor que ser um deus... bem, aquilo se prendeu em Zeus no
estmago. Ele disse que o tempo de voltar aos valores tradicionais passou. Deuses
haviam para serem respeitados. Nossos filhos eram para ser vistos e no visitados. O
Olimpo foi fechado. Pelo menos aquilo era parte do seu raciocnio. E,  claro,
comeamos a ouvir falar de coisas ms se agitando sob a terra."

       "Os gigantes, voc quer dizer. Monstros se reformando instantaneamente. Os
mortos se erguendo de novo. Coisas pequenas assim?"

        ", garoto." Hefesto virou um boto na sua velha mquina de transmisso pirata.
O sonho de Leo se adaptou a colorido, mas o rosto do deus estava um tumulto grande de
machucados vermelhos e contuses preto e amarela que Leo desejou que voltasse para
preto e branca.

        "Zeus acha que pode reverter a mar," o deus disse, "acalmar a terra para ela
voltar a dormir contanto que fiquemos quietos. Nenhum de ns realmente acredita
nisso. E eu no me importo em dizer, no estamos em forma de lutar em outra guerra.
Ns mal sobrevivemos aos tits. Se vamos repetir o padro antigo, o que vem depois 
ainda pior."

        "Os gigantes," Leo disse. "Hera disse que semideuses e deuses tinham que unir
foras para derrub-los.  verdade?"

       "Mmm. Odeio concordar com a minha me em algo, mas sim. Aqueles gigantes
so duros de matar, garoto. Eles so de um gnero diferente."

       "Gnero? Voc os faz parecer cavalos de corrida."

        "R!" o deus disse. "Mais como cachorros de guerra. De volta ao comeo,
entende, tudo na criao veio dos mesmos pais -- Gaia e Urano, Terra e Cu. Eles
tinham seus grupos diferentes de filhos -- seus tits, seus ciclopes ancies, e assim por
diante. Ento Cronos, o lder tit -- bem, voc provavelmente ouviu como ele picou seu
pai Urano com uma foice e tomou o mundo. Ento os deuses vieram, filhos dos tits, e
derrubaram eles. Mas aquele no foi o fim. A terra trouxe um novo grupo de filhos,
exceto os que foram procriados por Trtaro, o esprito do abismo eterno -- o lugar mais
maligno e obscuro do Mundo Inferior. Aqueles filhos, os gigantes, foram produzidos


                                          248
por um propsito -- se vingar de ns pela queda dos tits. Eles se ergueram para
destruir o Olimpo, e eles chegaram tremendamente perto."

        A barba de Hefesto comeou a entrar em combusto. Ele distraidamente
esmagou as chamas. "O que a minha maldita me Hera est fazendo agora -- ela  uma
tola intrometida jogando um game perigoso, mas ela tem razo sobre uma coisa: vocs
semideuses tm que se unir.  o nico jeito de abrir os olhos de Zeus, convencer os
olimpianos que eles devem aceitar a sua ajuda. E  o nico modo de vencer o que est
vindo. Voc  uma grande parte disso, Leo."

        O olhar do deus pareceu muito longe. Leo se perguntou se realmente poderia se
dividir em partes diferentes -- onde mais ele estava agora? Talvez seu lado grego
estivesse consertando um carro ou indo num encontro, enquanto seu lado romano estava
assistindo um jogo de bola e pedindo pizza. Leo tentou imaginar o que devia ser ter
mltiplas personalidades. Ele esperou que no fosse hereditrio.

       "Por que eu?" ele perguntou, e assim que disse isso, mais perguntas inundaram.
"Por que me reclamar agora? Por que no quando eu tinha treze, como voc devia? Ou
voc podia me reclamar quando eu tinha sete, antes da minha me morrer! Por que voc
no me encontrou mais cedo? Por que voc no me alertou sobre isso?"

       A mo de Leo rompeu em chamas.

        Hefesto o olhou tristemente. "A parte mais difcil, garoto. Deixar meus filhos
andarem seus prprios caminhos. Interferncia no funciona. As Moiras se asseguram
disso. Como para a reclamao, voc  um caso especial, garoto. O tempo teve que ser
certo. Eu no posso explicar muito mais, porm --"

       O sonho de Leo ficou vago. S por um momento, ele virou uma reprise da Roda
da Fortuna. Ento Hefesto voltou a foco.

        "A capacidade," ele disse. "Eu no posso falar mais. Zeus est sentindo um
sonho ilegal. Ele  o lorde do ar, afinal, incluindo as linhas areas. S oua, garoto: voc
tem um papel a interpretar. Seu amigo Jason tem razo -- fogo  um dom, no uma
maldio. Eu no dou essa bno para qualquer um. Eles nunca derrubaro os gigantes
sem voc, muito menos a mestra a quem eles servem. Ela  pior do que qualquer deus
ou tit."

       "Quem?" Leo exigiu.

       Hefesto franziu a testa, sua imagem ficando mais vaga. "Eu te disse. Sim, tenho
certeza que te disse. Apenas se alerte: pelo caminho, voc perder alguns amigos e
algumas ferramentas valiosas. Mas no  a sua culpa, Leo. Nada dura para sempre, nem
as melhores mquinas. E tudo pode ser reutilizado."


                                            249
      "O que voc quer dizer? No gosto como isso soa."

      "No, voc no deveria." A imagem de Hefesto estava pouco visvel agora, s
uma bolha na esttica. "S ficar alerta para --"

       O sonho de Leo virou a Roda da Fortuna assim que a roda bateu em Falido e a
audincia disse, "Ahhhhhhh!"

      Ento Leo acordou com Jason e Piper gritando.




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                                        Captulo XXX

ELES ESPIRALARAM PELO ESCURO em queda livre no escuro, ainda em cima do
drago, mas a pele de Festus estava fria. Seus olhos de rubi estavam sombrios.

       "De novo no!" Leo gritou. "Voc no pode cair de novo!"

        Ele mal conseguia se segurar. O vento picava seus olhos, mas ele conseguiu
abrir o painel sobre o pescoo do drago. Ele alternou os interruptores. Puxou os fios.
As asas do drago bateram mais uma vez, mas Leo achou um sopro de bronze em
chamas. O sistema de acionamento foi sobrecarregado. Festus no tinha fora para
continuar a voar, e Leo no poderia chegar ao painel de controle principal na cabea do
drago -- no no ar. Ele viu as luzes de uma cidade abaixo deles -- apenas brilhos no
escuro enquanto caam em crculos. Eles teriam apenas alguns segundos antes de
baterem.

       "Jason," ele gritou. "Pegue Piper e voe para fora daqui!"

       "O qu?"

        "Ns precisamos aliviar a carga! Eu poderia ser capaz de fazer Festus ser
reiniciado, mas ele est carregando muito peso!"

       "E voc?" Piper chorou. "Se voc no puder reinici-lo --"

       "Eu vou ficar bem," Leo gritou. "Sigam-me at o cho. Vo!"

       Jason agarrou Piper pela cintura. Ambos soltaram seus arreios, e num piscar de
olhos eles se foram, disparando pelo ar.

       "Agora," disse Leo. " s voc e eu, Festus -- e duas gaiolas pesadas. Voc
pode fazer isso, rapaz!"

       Leo conversou com o drago enquanto ele trabalhava, caindo numa velocidade
terminal. Ele podia ver as luzes da cidade abaixo dele, cada vez mais prximas.
Convocou fogo em sua mo para que ele pudesse ver o que estava fazendo, mas o vento
continuava a extingui-lo.




                                          251
       Ele puxou um fio que considerou estar ligado ao nervo central da sua cabea,
esperando por um pequeno choque de despertar.

      Festus gemeu -- metal rangendo dentro do seu pescoo. Seus olhos brilharam
fracamente, e ele abriu as asas. Sua queda se transformou em um ngreme deslize.

       "Boa!" Leo disse. "Vamos l, garoto. Vamos!"

       Eles ainda estavam voando de um jeito muito quente, e o cho estava se
aproximando. Leo precisava de um lugar para pousar -- rpido.

        Havia um grande rio -- no. No  bom para um drago que cospe fogo. Ele
nunca iria conseguir tirar Festus do fundo se ele afundasse, especialmente em
temperaturas congelantes. Ento, nas margens do rio, Leo viu uma manso branca com
um gramado enorme nevado cercado por um muro alto feito de tijolos -- como alguns
recintos privados de pessoas ricas, todo resplandescente com a luz. Um campo de pouso
perfeito. Ele fez o seu melhor para dirigir o drago nessa direo, e Festus parecia voltar
 vida. Eles poderiam conseguir!

       Ento tudo deu errado. Quando eles se aproximaram do gramado, os holofotes
ao longo do cercado se fixaram neles, cegando Leo. Ele ouviu estouros como projteis
de fogo, o som de metal sendo cortado em retalhos -- e BUM.

       Leo desmaiou.



       Quando Leo voltou a si, Jason e Piper estavam debruados sobre ele. Ele estava
deitado na neve, coberto de lama e graxa. Ele cuspiu um pedao congelado de grama de
sua boca.

       "Onde --"

       "Se acalme." Piper tinha lgrimas em seus olhos. "Voc bateu bem duro quando
-- quando Festus --"

       "Onde ele est?" Leo sentou-se, mas sua cabea parecia que estava flutuando.
Eles pousaram no interior do complexo. Algo tinha acontecido no caminho -- fogo?

       "Srio, Leo," disse Jason. "Voc pode estar ferido. Voc no deve --"

       Leo fez fora para ficar de p. Ento ele viu os destroos. Festus deve ter
deixado cair as gaiolas de canrio enquanto ele veio por cima da cerca, porque tinham
rolado em diferentes direes e caram no lado deles, perfeitamente intactas.

       Festus no teve a mesma sorte.


                                           252
       O drago tinha se desintegrado. Seus membros estavam espalhados pelo
gramado. Sua cauda pendurada em cima do muro. A seo principal do seu corpo tinha
uma vala de seis metros de largura e se rompendo a quinze metros da manso. O que
restava dele ou estava carbonizado, ou tinha virado uma pilha de sucata. S o pescoo e
a cabea estavam um pouco intactas, descansando em uma fila de roseiras congeladas
como um travesseiro.

       "No," Leo soluou. Ele correu para a cabea do drago e acariciou o seu
fucinho. Os olhos do drago tremeluziam fracamente. leo derramava do seu ouvido.

       "Voc no pode ir," suplicou Leo. "Voc  a melhor coisa que eu j consertei."



       A cabea do drago girou suas engrenagens, como se estivesse ronronando.
Jason e Piper ficaram ao lado dele, mas Leo manteve os olhos fixos no drago.

      Ele lembrou que Hefesto havia dito: No  a sua culpa, Leo. Nada dura para
sempre, nem as melhores mquinas.

       Seu pai estava tentando avis-lo.

       "No  justo," disse ele.

       O drago clicou. Houve um longo rangido. Dois curtos clique. Rangido.
Rangido. Quase como um padro... desencadeando uma antiga lembrana na mente de
Leo. Leo percebeu que Festus estava tentando dizer algo. Ele estava usando o cdigo
Morse, exatamente como a me de Leo lhe havia ensinado anos atrs. Leo ouviu
atentamente, traduzindo os cliques em letras: uma mensagem simples repetindo vrias
vezes.

       "Sim," disse Leo. "Eu entendo. Eu vou. Eu prometo."

       Os olhos do drago escureceram. Festus havia partido.

       Leo chorou. Ele no ficou envergonhado. Seus amigos estavam do seu lado,
batendo no seu ombro, dizendo coisas reconfortantes; mas o zumbido nos ouvidos de
Leo abafavam suas palavras.

       Leo fungou. Ele abriu o painel da cabea do drago, s para ter certeza, mas o
disco de controle estava rachado e queimado alm de reparo.

       "Algo que meu pai me disse," Leo disse. "Tudo pode ser reutilizado."

       "Seu pai falou com voc?" Jason perguntou. "Quando foi isso?"



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       Leo no respondeu. Mecheu nas dobradias do pescoo de drago e levou at a
cabea que fora desanexada. Pesava cerca de quarenta quilos, mas Leo conseguiu
segur-la em seus braos. Ele olhou para o cu estrelado e disse, "Leve-o de volta para a
carvoeira, pai. Por favor, at que eu possa reutiliz-lo. Eu nunca pedi nada a voc."

      O vento aumentou, e a cabea do drago flutuou para fora dos braos de Leo,
como se no pesasse nada. Voou para o cu e desapareceu.

       Piper olhou para ele com espanto. "Ele te respondeu?"

       "Eu tive um sonho," Leo controlou. "Conto a vocs mais tarde."

        Ele sabia que devia uma explicao melhor a seus amigos, mas Leo mal podia
falar. Sentia-se como uma mquina quebrada -- como se algum tivesse removido uma
pequena parte dele, e agora ele nunca mais seria completo. Ele poderia se mover, ele
poderia falar, ele poderia continuar e fazer o seu trabalho. Mas ele sempre estaria fora
de equilbrio, nunca estaria calibrado corretamente.

       Ainda assim, ele no podia dar ao luxo de ficar triste para sempre. Caso
contrrio, Festus haveria morrido em vo. Ele tinha que terminar essa misso -- por
seus amigos, por sua me, por seu drago.

       Ele olhou em volta. A grande manso branca brilhava no centro do terreno.
Paredes de tijolo altas com luzes e cmeras de segurana cercavam o permetro, mas
agora Leo podia ver -- ou melhor, sentir -- como as paredes foram defendidas bem.

       "Onde estamos?" perguntou ele. "Quero dizer, que cidade?"

       "Omaha, Nebraska," disse Piper. "Eu vi um cartaz enquanto vovamos. Mas no
sei o que  esta manso. Ns viemos atrs de voc, mas como voc estava pousando,
Leo, eu juro que parecia que -- eu no sei --"

       "Lasers," disse Leo. Ele pegou um pedao dos destroos do drago e jogou em
direo ao topo do muro. Imediatamente, um revlver surgiu a partir do tijolo da parede
e um raio de puro calor incinerou a placa de bronze em cinzas.

       Jason silvou. "Sistema de defesa. Como ainda estamos vivos?"

       "Festus," Leo disse miseravelmente. "Ele tomou o fogo. Os lasers o cortaram em
pedaos enquanto entrava ento no focou em vocs. Eu o levei para uma armadilha
mortal."

       "Voc no poderia saber," disse Piper. "Ele salvou nossas vidas novamente."

      "Mas e agora?" Jason disse. "Os portes principais esto trancados, e eu estou
supondo que no posso voar para nos tirar daqui sem levar um tiro."

                                          254
      Leo olhou para a passagem na grande manso branca. "Como no podemos sair,
vamos ter que entrar."




                                      255
Captulo XXXI
JASON TERIA MORRIDO CINCO VEZES no caminho para a porta da frente se no fosse
por Leo.

        Primeiro o alapo sensvel a calor no passeio, ento os lasers nas escadas, ento
o gs de nervos na grade da varanda, os pregos envenenados sensveis  presso no
tapete de boas-vindas, e  claro a campainha explosiva.

       Leo desativou todos. Era como se ele pudesse cheirar as armadilhas, e s pegou
a ferramenta certa do seu cinto para desabilit-las.

       "Voc  incrvel, man," Jason disse.

        Leo fez carranca enquanto ele examinava a fechadura da porta da frente. ",
incrvel," ele disse. "No posso consertar um drago direito, mas sou incrvel."

       "Ei, aquilo no foi a sua --"

       "A porta da frente j est destrancada," Leo anunciou.

       Piper olhou para a porta em incredulidade. "Est? Todas aquelas armadilhas, e a
porta est destrancada?"

       Leo virou a maaneta. A porta girou facilmente. Ele pisou no lado de dentro sem
hesitao.

      Antes que Jason pudesse seguir, Piper pegou seu brao. "Ele precisar de algum
tempo para superar Festus. No leve isso para o lado pessoal."

       "," disse Jason. ", ok."

       Mas ele ainda se sentia horrvel. Na loja de Medeia, ele dissera coisas bastante
cruis para Leo -- coisas que um amigo no deveria dizer, sem mencionar o fato que
ele quase espetara Leo com uma espada. Se no fosse por Piper, ambos estariam mortos.
E Piper tambm no teria sado daquele encontro facilmente.

       "Piper," disse, "eu sei que estava confuso em Chicago, mas aquela coisa sobre o
seu pai -- se ele est em perigo, eu quero ajudar. No me importo se  uma armadilha
ou no."

                                           256
       Seus olhos sempre eram de cores diferentes, mas agora eles pareciam abalados,
como se ela tivesse visto algo com que no pudesse competir. "Jason, voc no sabe o
que est dizendo. Por favor -- no me faa sentir pior. Vamos l. Deveramos ficar
unidos."

       Ela mergulhou para dentro.

       "Unidos," Jason disse para si prprio. ", estamos indo bem nisso."



A primeira impresso de Jason da casa: Escura.

        Do eco dos seus passos ele podia dizer que o saguo de entrada era enorme, at
maior que a sute de Breas; mas a nica iluminao vinha das luzes do jardim afora.
Um brilho fraco espreitava pelos intervalos nas cortinas grossas de veludo. As janelas se
erguiam em trs metros. Espaadas entre elas pelas paredes havia esttuas metlicas de
tamanho real. Enquanto os olhos de Jason se ajustavam, ele viu sofs arranjados num U
no meio da sala, com uma mesa de caf central e uma grande cadeira no outro lado. Um
candelabro pesado reluzia suspenso. Pela parede traseira se encontrava uma fila de
portas fechadas.

       "Cad o interruptor?" Sua voz ecoou assustadoramente pela sala.

       "No vejo um," Leo disse.

       "Fogo?" Piper sugeriu.

       Leo levantou sua mo, mas nada aconteceu. "No est funcionando."

       "Sem fogo? Por qu?" Piper perguntou.

       "Bem, se eu soubesse que --"

       "Ok, ok," ela disse. "O que fazemos -- exploramos?"

       Leo balanou a cabea. "Depois de todas aquelas armadilhas l fora? M idia."

         A pele de Jason formigou. Ele odiava ser um semideus. Olhando ao redor, ele
via uma sala confortvel para ficar. Ele imaginou espritos de tempestade viciados se
espreitando nas cortinas, drages sob o tapete, um candelabro feito de pedaos de gelo
letais, prontos para empal-los.

        "Leo tem razo," disse. "No vamos nos separar de novo -- no como em
Detroit."

       "Ah, obrigada por me fazer lembrar os ciclopes." A voz de Piper tremulou. "Eu
tava precisando disso."
                                          257
       "So algumas horas at o amanhecer," Jason chutou. "Muito frio para esperar do
lado de fora. Vamos trazer as jaulas para dentro e acampar nessa sala. Esperamos pela
luz do dia; ento podemos decidir o que fazer."

      Ningum ofereceu uma idia melhor, ento eles rolaram para dentro as jaulas
com o Treinador Hedge e os espritos de tempestade, e se estabeleceram.
Agradecidamente, Leo no encontrou nenhum veneno jogado nos travesseiros ou
almofadas eltricas nos sofs.

       Leo no parecia no nimo de fazer mais tacos. Alm disso, eles no tinham fogo,
ento se assentaram com comida fria.

        Enquanto Jason comia, ele estudava as esttuas de metal pelas paredes. Eles
pareciam deuses gregos ou heris. Talvez fosse um bom sinal. Ou talvez eles fossem
usadas para prtica de alvo. Na mesa de caf tinha um aparelho de ch e vrios folhetos
lisos, mas Jason no podia distinguir as palavras. A grande cadeira no outro lado da
mesa parecia um trono. Nenhum deles tentou sentar nela.

        As gaiolas de canrio no faziam o lugar menos arrepiador. Os ventus
continuavam se debatendo na priso, sibilando e girando, e Jason teve a sensao
desconfortvel que eles estavam o observando. Ele podia sentir seu dio pelas crianas
de Zeus -- o lorde do cu que ordenou a olos aprisionar sua espcie. Os ventus no
gostariam de nada melhor que rasgar Jason.

        A respeito do Treinador Hedge, ele ainda estava congelado no meio de um grito,
seu porrete levantado. Leo estava trabalhando na gaiola, tentando abri-la com vrias
ferramentas, mas a fechadura parecia estar lhe dando tempos difceis. Jason decidiu no
sentar perto dele no caso de Hedge subitamente descongelar e entrar no modo de bode-
ninja.

       Apesar de como ele se sentia agitado, uma vez que seu estmago estava cheio,
Jason comeou a adormecer. Os sofs eram um pouco confortveis demais -- muito
melhores que as costas do drago -- e ele fizera as duas ltimas patrulhas enquanto seus
amigos dormiam. Ele estava exausto.

       Piper j se enrolara em outro sof. Jason quis saber se ela estava realmente
dormindo ou evitando uma conversa sobre o seu pai. O que quer que Medeia quis dizer
em Chicago, sobre Piper ter seu pai de volta se ela cooperasse -- no soou bem. Se
Piper arriscara seu prprio pai para salv-los, aquilo fez Jason se sentir mais culpado
ainda.

       E eles estavam correndo contra o tempo. Se Jason contou os dias certo, agora era
de manh cedo de 20 de Dezembro. O que significava que amanh era o solstcio de
inverno.

                                          258
        "Durma um pouco," Leo disse, ainda trabalhando na gaiola trancada. " a sua
vez."

        Jason respirou fundo. "Leo, me desculpe sobre aquelas coisas que disse em
Chicago. No era eu. Voc no  irritante e voc leva as coisas a srio -- especialmente
o seu trabalho. Eu queria poder fazer metade das coisas que voc pode fazer."

      Leo abaixou sua chave de fenda. Ele olhou para o teto e balanou a cabea
como, O que eu vou fazer com esse garoto?

        "Eu tento muito ser irritante," Leo disse. "No insulte minha habilidade de
irritar. E como  que eu vou te ofender se voc fica se desculpando? Eu sou um
mecnico humilde. Voc  como o prncipe do cu, filho do Lorde do Universo. Eu
tenho que te ofender."

        "Lorde do Universo?"

       "Certo, voc  todo -- bam! Homem raio. E `Me veja voando. Eu sou a guia
que sobe --'"

        "Cale a boca, Valdez."

        Leo controlou um sorriso. ", entendo. Eu irrito voc."

        "Desculpo-me por desculpar."

       "Obrigado." Ele voltou ao trabalho, mas a tenso diminuiu entre eles. Leo ainda
parecia exausto e triste -- apenas no exatamente to irritado.

       "V dormir, Jason," ordenou. "Vai demorar algumas horas para libertar esse
homem bode. Depois eu ainda tenho que descobrir como fazer aos ventos uma cela
menor, porque eu no vou arrastar aquela gaiola de canrio para Califrnia."

       "Voc consertou Festus, voc sabe," Jason disse. "Voc lhe deu um propsito de
novo. Acho que essa misso foi o ponto alto de sua vida."

       Jason teve medo de falasse isso e deixasse Leo doido mais uma vez, mas Leo s
suspirou.

       "Espero," ele disse. "Agora, durma, cara. Eu quero algum tempo sem vocs,
formas de vida orgnicas."

       Jason no tinha muita certeza do que aquilo significava, mas no discutiu. Ele
fechou os olhos e teve um sono sem sonhos felizmente.

        Ele s acordou quando a gritaria comeou.



                                          259
"Ahhhggggggh!"

       Jason ficou de p. Ele no tinha certeza do que era mais irritante -- a luz do sol
toda que agora banhava a sala, ou o stiro berrante.

       "O Treinador est acordado," Leo disse, o que foi meio que desnecessrio.
Gleeson Hedge estava dando cambalhotas por perto nas suas traseiras peludas,
sacudindo sua clava e gritando, "Morram!" enquanto esmagava a mquina de ch,
golpeava os sofs, e carregava contra o trono.

       "Treinador!" Jason gritou.

      Hedge virou, respirando duro. Seus olhos estavam to selvagens que Jason teve
medo que ele pudesse atacar.

        O stiro ainda estava vestindo sua camisa plo laranja e seu apito de treinador,
mas seus chifres estavam claramente visveis acima do seu cabelo encaracolado, e sua
traseira carnuda era definitivamente toda de bode. Voc podia chamar um bode de
carnudo? Jason colocou o pensamento de lado.

        "Voc  a nova criana," Hedge disse, baixando a clava. "Jason." Ele olhou para
Leo, depois Piper, que aparentemente tambm acabara de acordar. Seu cabelo parecia
ter sido transformado num ninho para um hamster amigvel.

        "Valdez, McLean," o treinador disse. "O que est acontecendo? Estvamos no
Grand Canyon. Os anemoi thuellai estavam atacando e --" Ele mirou para a gaiola dos
espritos de tempestade, e seus olhos voltaram para prontido mxima. "Morram!"

        "Uou, Treinador!" Leo entrou no seu caminho, o que era bastante corajoso,
mesmo que Hedge fosse quinze centmetros mais baixo. "Est tudo bem. Eles esto
trancafiados. Ns s te emergimos da outra gaiola."

        "Gaiola? Gaiola? O que est acontecendo? S porque eu sou um stiro no
significa que no posso fazer vocs pagarem flexes, Valdez!"

        Jason tossiu. "Treinador -- Gleeson -- h, o que quer que voc queira que a
gente te conte. Voc nos salvou no Grand Canyon. Voc foi totalmente corajoso."

       " claro que fui!"

      "A equipe de extrao veio e nos levou para o Acampamento Meio-Sangue.
Pensamos que havamos perdido voc. Ento tivemos conhecimento que os espritos de
tempestade haviam te levado para a sua -- h, operadora, Medeia."

       "Aquela bruxa! Espere --  impossvel. Ela  mortal. Ela est morta."

       ", bem," Leo disse, "de algum jeito ela no est mais."

                                          260
       Hedge assentiu, seus olhos se estreitando. "Certo! Vocs foram mandados numa
misso perigosa para me resgatar. Excelente!"

       "H." Piper ficou de p, retendo as mos para que o Treinador Hedge no lhe
atacasse. "Na verdade, Glee -- eu ainda posso te chamar de Treinador Hedge? Gleeson
parece errado. Estamos numa misso por algo mais. Ns meio que encontramos voc
por acidente."

       "Ah." A disposio do treinador pareceu esvaziar, mas s por um segundo. A
seus olhos brilharam novamente. "Mas no h acidentes! No em misses. Isso estava
destinado a acontecer! Ento, esse  o covil da bruxa, ? Por que  tudo ouro?"

       "Ouro?" Jason olhou em volta. Do jeito que Leo e Piper prenderam a respirao,
ele sups que eles tambm no haviam notado ainda.

       A sala era repleta de ouro -- as esttuas, a mquina de ch que Hedge esmagara,
a cadeira que era definitivamente um trono. At as cortinas -- que pareciam ter se
abertas sozinhas no romper do dia -- pareciam ser tecidas com fibra de ouro.

       "Legal," Leo disse. "No me admira que eles tenham tanta segurana."

      "Esse no  --" Piper gaguejou. "Esse no o lugar de Medeia, Treinador.  a
manso de alguma pessoa rica em Omaha. Fugimos de Medeia e aterrissamos aqui."

      " o destino, bolinhos!" Hedge insistiu. "Estou destinado a proteg-los. Qual  a
misso?"

      Antes que Jason pudesse decidir se queria explicar ou s empurrar o Treinador
Hedge de volta para a sua gaiola, uma porta abriu no outro lado da sala.

       Um homem atarracado num roupo branco saiu com uma escova de dente
dourada na boca. Ele tinha uma barba branca e um daqueles longos e antiquados quepes
de dormir pressionava para baixo o seu cabelo branco. Ele congelou quando os viu, e a
escova de dente caiu da sua boca.

       Ele olhou para a sala atrs dele e chamou, "Filho? Lit, saia aqui, por favor. H
pessoas estranhas na sala do trono."

       O Treinador Hedge fez a coisa bvia. Ele levantou sua clava e gritou, "Morra!"




                                         261
Captulo XXXII
FORAM PRECISOS TODOS OS TRS para deter o stiro. "Uou, Treinador!" Jason disse.
"Acalme-se um pouco." Um homem mais novo carregou na sala. Jason sups que ele
devia ser Lit, o filho do sujeito velho. Ele estava vestindo calas de pijama com uma
camiseta sem manga que dizia Descascadoresdemilho, e ele segurava uma espada que
parecia poder descansar muitas coisas alm de milho. Seus braos violentos estavam
cobertos de cicatrizes, e seu rosto, ajustado com cabelo escuro e encaracolado, seria
bonito se no estivesse tambm fatiado.

       Lit imediatamente mirou em Jason como se ele fosse a maior ameaa, e
aproximou-se silenciosamente dele, balanando sua espada acima. "Espere!" Piper deu
um passo para frente, tentando sua melhor voz calma. "Isso  s um mal entendido! Est
tudo bem." Lit parou nos seus passos, mas ainda parecia alerta. No ajudou que Hedge
estava gritando, "Eu vou peg-los! No se preocupem!"

       "Treinador," Jason argumentou, "eles podem ser gentis. Alm disso, estamos
dentro da casa dele ilegalmente."

       "Obrigado!" disse o velho homem no roupo. "Agora, quem so vocs, e por
que esto aqui?"

       "Vamos todos abaixar as nossas armas," Piper disse. "Treinador, voc primeiro."

       Hedge apertou o maxilar. "S uma paulada?"

       "No," Piper disse.

       "E um acordo? Eu matarei eles primeiro, e se confirmar que eles so gentis, me
desculparei."

       "No!" Piper insistiu.

       "Meh." O Treinador Hedge baixou sua clava.

       Piper deu a Lit um bondoso sorriso desculpe-por-isso. At com o seu cabelo
bagunado e usando as mesmas roupas h dois dias, ela parecia extremamente bonita, e
Jason sentiu um pouco de cime por ela estar dando a Lit aquele sorriso.



                                         262
       Lit xingou e embainhou a espada. "Voc fala bem, garota -- felizmente para os
seus amigos, ou eu teria acabado com eles."

       "Aprecie," Leo disse. "Eu tento no ser acabado antes da hora do almoo."

      O velho no roupo suspirou, chutando o bule de ch que o Treinador Hedge
esmagara.

       "Bem, j que vocs esto aqui, por favor, sentem-se."

       Lit franziu a testa. "Vossa Majestade --"

       "No, no, est tudo bem, Lit," o velho disse. "Nova terra, novos costumes. Eles
podem se sentar na minha presena. Afinal, eles me viram em roupas de dormir. No h
sentido em observar formalidades." Ele deu o seu melhor para sorrir, embora parecesse
um pouco forado. "Bem-vindos  minha humilde casa. Eu sou Rei Midas."

       "Midas? Impossvel," disse o Treinador Hedge. "Ele morreu."

       Eles agora estavam sentados em sofs, enquanto o rei reclinava o seu trono.
Esperto fazer isso num roupo, e Jason continuou se preocupando se o velho esqueceria
e descruzaria as pernas. Com sorte ele estaria usando cuecas douradas por baixo.

        Lit ficou atrs do trono, ambas as mos na espada, olhando para Piper e
flexionando seus braos musculosos s para ser irritante. Jason quis saber se ele parecia
to ridculo segurando uma espada. Tristemente, ele duvidou disso.

       Piper se acomodou mais para frente. "O que nosso amigo stiro quer dizer,
Vossa Majestade,  que voc  o segundo mortal que encontramos que devia estar --
desculpe -- morto. O Rei Midas viveu milhes de anos atrs."

        "Interessante." O rei olhou pelas janelas para os brilhantes cus azuis e a luz do
sol de inverno.  distncia, Omaha parecia blocos de Lego -- um lugar muito limpo e
pequeno para uma cidade normal.

       "Vocs sabem," o rei disse, "eu acho que estive um pouco morto por um tempo.
 estranho. Parece um sonho, n, Lit?"

       "Um sonho muito longo, Vossa Majestade."

        "E ainda assim, agora estamos aqui. Eu me estou divertindo muito. Eu gosto de
estar vivo."

       "Mas como?" Piper perguntou. "Voc no aconteceu de ter um... patrono?"

       Midas hesitou, mas houve uma piscadela maliciosa nos seus olhos. "Isso
importa, minha querida?"

                                           263
       "Poderamos mat-los de novo," Hedge sugeriu.

       "Treinador, no ajude," Jason disse. "Por que voc no sai e fica de guarda?"

       Leo tossiu. " seguro? Eles tm segurana pesada."

       "Ah, sim," o rei disse. "Me desculpem sobre isso. Mas so coisas adorveis, no
so? Incrvel o que ouro ainda pode comprar. Brinquedos excelentes que vocs tm
nesse pas!"

      Ele pescou um controle remoto do bolso do roupo e pressionou alguns botes
-- uma senha, sups Jason.

       "A," Midas disse. "Seguro para sair agora."

       O Treinador Hedge grunhiu. "Certo. Mas se vocs precisarem de mim..." Ele
piscou para Jason significativamente. Depois ele apontou para si, depois apontou para
os seus anfitries, e cortou um dedo pela garganta. Linguagem de sinais muito sutil.

       ", obrigado," Jason disse.

       Depois de o stiro partir, Piper tentou outro sorriso diplomtico. "Ento... voc
no sabe como chegou aqui?"

      "Ah, bem, sim. Um pouco," o rei disse. Ele franziu a testa para Lit. "Por que
pegamos Omaha, de novo? Eu sei que no foi o clima."

       "O orculo," Lit disse.

       "Sim! Me contaram que havia um orculo em Omaha." O rei deu de ombros.
"Aparentemente eu estava errado. Mas essa  uma casa bastante bonita, n? Lit -- 
abreviao de Lityerses, a propsito -- nome horrvel, mas a me dele insistiu -- Lit
tem um amplo espao aberto para praticar o seu manejo de espada. Ele tem uma grande
reputao para isso. Eles o chamavam de Ceifeiro dos Homens nos dias antigos."

       "Ah." Piper tentou parecer entusiasmada. "Que legal."

       O sorriso de Lit foi mais como um sarcasmo cruel. Jason tinha agora cem por
cento de certeza que ele no gostava desse garoto, e estava comeando a pesar em
mandar Hedge voltar.

       "Ento," Jason disse. "Todo esse ouro --"

       Os olhos do rei se iluminaram. "Voc est aqui por ouro, meu garoto? Por favor,
pegue um folheto!"

       Jason olhou para os folhetos na mesa de caf. O ttulo dizia OURO: Investir
para Eternidade.
                                          264
         "H, voc vende ouro?"

       "No, no," o rei disse. "Eu fao. Em tempos incertos como esses, ouro  o
investimento mais sbio, no acha? Governos caem. Os mortos se erguem. Os gigantes
atacam o Olimpo. Mas ouro retm o seu valor!"

         Leo franziu a testa. "Eu vi esse comercial."

       "Ah, no seja enganado por imitaes baratas!" o rei disse. "Lhe asseguro, eu
posso fechar qualquer preo para um investidor srio. Eu posso fazer uma grande
seleo de itens de ouro na ateno de um momento."

       "Mas..." Piper balanou a cabea em confuso. "Vossa Majestade, voc desistiu
do toque dourado, no desistiu?"

         O rei pareceu surpresa. "Desisti?"

         "Sim," Piper disse. "Voc pegou de algum deus --"

      "Dioniso," o rei concordou. "Eu resgatei um dos seus stiros, e em troca, o deus
me concedeu um desejo. Eu escolhi o toque dourado."

      "Mas voc acidentalmente transformou sua prpria filha em ouro," Piper
lembrou. "E voc percebeu como foi ganancioso. Ento voc se arrependeu."

       "Arrependi!" Rei Midas olhou para Lit incredulamente. "Est vendo, filho?
Voc fica fora por alguns milhares de anos, e a histria se torce por todo o lugar. Minha
querida garota, aquelas histrias j disseram que eu perdi meu toque mgico?"

       "Bem, eu acho que no. Elas s disseram que voc aprendeu como invert-lo em
gua corrente, e voc trouxe sua filha de volta  vida."

       " tudo verdade. s vezes eu ainda tenho que inverter meu toque. No h gua
corrente na casa porque eu no quero acidentes" -- ele gesticulou para as suas esttuas
-- "mas escolhemos viver perto de um rio s no caso de precisar. Ocasionalmente, e
esqueo e dou uma tapinha nas costas de Lit --"

         Lit se afastou em alguns passos. "Eu odeio isso."

        "Eu te disse que sentia muito, filho. Em todo caso, ouro  maravilhoso. Por que
eu iria desistir?"

      "Bem..." Piper pareceu realmente perdida agora. "No  o ponto da histria?
Que voc aprendeu sua lio?"

         Midas riu. "Minha querida, posso ver sua mochila por um momento? Jogue-a
aqui."

                                              265
       Piper hesitou, mas ela no estava ansiosa para ofender o rei. Ela esvaziou tudo
dela e a jogou para Midas. Assim que ele pegou, a mochila virou ouro, como gelo se
expandindo no tecido. Ainda parecia flexvel e leve, mas definitivamente ouro. O rei a
jogou de volta.

       "Como voc v, eu ainda posso transformar qualquer coisa em ouro," Midas
disse. "Essa mochila  mgica agora, tambm. V em frente -- colocou os seus
inimigos espritos de tempestade a."

       "Srio?" Leo estava subitamente interessado. Ele pegou a mochila de Piper e a
exps para a gaiola. Assim que ele abriu o zper da mochila, os ventos se agitaram e
berraram em protesto. As barras da gaiola estremeceram. A porta da priso voou e os
ventos foram aspirados diretamente para a mochila. Leo fechou o zper e sorriu. "Tenho
que admitir. Foi legal."

       "Est vendo?" Midas disse. "Meu toque dourado uma maldio? Eu no aprendi
lio nenhuma, e a vida no  uma histria, garota. Honestamente, minha filha Zoe
ficou muito mais amena como uma esttua de ouro."

       "Ela falava demais," Lit ofereceu.

        "Exatamente! E ento eu a transformei de volta em ouro." Midas apontou. Ali no
canto estava uma esttua dourada de uma garota com uma expresso chocada, como se
estivesse pensando, pai!

       " horrvel!" Piper disse.

        "Sem sentido. Ela no se importa. Alm disso, se eu tivesse aprendido minha
lio, eu teria conseguido isso?"

       Midas despiu seu quepe de dormir enorme, e Jason no sabia se ria ou ficava
doente. Midas tinha longas, felpudas e cinzas orelhas ressaltando do seu cabelo branco
-- como as orelhas do Pernalonga, mas no eram orelhas de coelho. Eram orelhas de
burro.

       "Ah, uou," Leo disse. "Eu no precisava ver isso."

        "Terrvel, no?" Midas suspirou. "Alguns anos depois do incidente do toque
dourado, eu julguei um concurso de msica entre Apolo e P, e eu declarei P como
vencedor. Apolo, o perdedor ofendido, disse que eu devia ter as orelhas de um burro, e
voil. Esse foi o meu prmio por ser sincero. Eu tentei mant-las em segredo. S o meu
barbeiro sabia, mas ele no pde deixar de tagarelar." Midas apontou para outra esttua
dourada -- um homem careca de toga, segurando um par de tesouras. " ele. Ele no
estar contando o segredo de mais ningum novamente."


                                            266
       O rei sorriu. Subitamente ele no ocorreu a Jason como um velho inocente num
roupo. Seus olhos tinham um brilho alegre neles -- o olhar de um alienado que sabia
que era louco, aceitava sua loucura, e se divertia com ela. "Sim, ouro tem vrios usos.
Eu acho que deve ser porque eu fui trazido de volta, n Lit? Para financiar o nosso
patrono."

       Lit assentiu. "Isso e o meu brao bom de espada."

       Jason olhou para os amigos. De repente o ar na sala parecia muito mais frio.

       "Ento voc tem um patrono," Jason disse. "Voc trabalha para os gigantes."

       O Rei Midas acenou sua mo desconsiderando. "Bem, eu no me importo com
os gigantes,  claro. Mas at exrcitos sobrenaturais precisam ser pagos. Eu devo ao
meu patrono um grande dbito. Eu tentei explicar isso para o ltimo grupo que passou,
mas eles eram muito hostis. No cooperariam no fim."

       Jason deslizou a mo ao bolso e pegou sua moeda de ouro. "O ltimo grupo?"

       "Caadoras," Lit rosnou. "Garotas detestveis de rtemis."

       Jason sentiu uma fasca de eletricidade -- uma fasca literal -- viajar pela sua
espinha. Ele pegou uma corrente de fogo eltrico como se acabasse de dissolver algo
das molas do sof.

       Sua irm esteve aqui.

       "Quando?" ele perguntou. "O que aconteceu?"

       Lit deu de ombros. "Poucos dias atrs? Eu no consegui mat-las, infelizmente.
Elas estavam procurando alguns lobos do mal, ou algo assim. Disseram que estavam
seguindo uma trilha, indo para o oeste. Semideus desaparecido -- no me recordo."

       Percy Jackson, Jason pensou. Annabeth mencionara que as Caadoras estavam
procurando por ele. E no sonho de Jason da casa quebrada na floresta de paus-brail, ele
ouvira lobos inimigos ladrando. Hera os chamara de carcereiros. Tinha que estar
conectado de algum modo.

        Midas coou suas orelhas de burro. "Mocinhas muito desprezveis, aquelas
Caadoras," ele se lembrou. "Elas absolutamente recusaram serem transformadas em
ouro. Muito do sistema de segurana do lado de fora eu instalei para impedir que esse
tipo de coisa aconteca novamente, voc sabe. Eu no tenho tempo para aqueles que no
so investidores srios."

      Jason se levantou cuidadosamente e olhou para os amigos. Eles captaram a
mensagem.

                                          267
       "Bem," Piper disse, controlando um sorriso. "Foi uma grande visita. Bem-vindo
de volta  vida. Obrigada pela mochila de ouro."

        "Ah, mas vocs no podem partir!" Midas disse. "Eu sei que vocs no so
investidores srios, mas est tudo bem! Eu tenho que reconstruir a minha coleo."

         Lit estava sorrindo cruelmente. O rei levantou, e Leo e Piper recuaram dele.

       "No se preocupem," o rei os assegurou. "Vocs no tm ser transformados em
ouro. Eu dou a todos os visitantes uma escolha -- se juntarem  minha coleo, ou
morrer nas mos de Lityerses. Realmente, cada modo  bom."

         Piper tentou usar seu encanto. "Vossa Majestade, voc no pode --"

         Mais rpido que qualquer velho poderia se mover, Midas atacou e agarrou seu
pulso.

         "No!" Jason gritou.

        Mas um congelamento de ouro se expandia em Piper, e num batimento cardaco
ela era uma esttua brilhante. Leo tentou convocar fogo, mas ele esqueceu que o seu
poder no estava funcionando. Midas tocou sua mo, e Leo se transformou em metal
slido.

       Jason estava to aterrorizado que no podia se mexer. Seus amigos --
simplesmente partiram. Ele no podia parar.

       Midas sorriu apologeticamente. "Ouro supera fogo, eu receio." Ele acenou ao
redor dele, em todas as cortinas douradas e a moblia. "Nessa sala, meu poder refreia
todos os outros: fogo... at encantamento. O que me deixa s mais um trofu para
colecionar."

         "Hedge!" Jason gritou. "Preciso de ajuda aqui!"

      De primeira, o stiro no correu para dentro. Jason se perguntou se os lasers o
pegaram, ou se ele estava sentado no fundo de um buraco.

       Midas riu. "Nenhum bode ao resgate? Triste. Mas no se preocupe, meu garoto.
No  realmente doloroso. Lit pode lhe contar."

      Jason se fixou numa idia. "Eu escolho combate. Voc disse que eu podia lutar
com Lit em vez disso."

       Midas pareceu suavemente desapontado, mas deu de ombros. "Eu disse que voc
podia morrer lutando com Lit. Mas  claro, se voc deseja."

         O rei recuou, e Lit levantou a espada.

                                            268
       "Vou gostar disso," Lit disse. "Eu sou o Ceifeiro dos Homens!"

       "Vamos, Descascadordemilho." Jason convocou sua prpria arma. Dessa vez ela
apareceu como uma lana, e Jason ficou contente pelo comprimento extra.

       "Ah, arma de ouro!" disse Midas. "Muito bom."

       Lit atacou.

       O cara era rpido. Ele golpeou e cortou, e Jason mal pde desviar golpes, mas
sua mente entrou num modo diferente -- padres analistas, aprendendo o estilo de Lit,
que era todo ofensivo, sem defesa.

       Jason ops, evadiu e bloqueou. Lit pareceu surpreso por encontr-lo vivo.

       "Que estilo  esse?" Lit rosnou. "Voc no luta como um grego."

       "Treinamento da legio," Jason disse, embora no tivesse certo de como sabia
daquilo. " romano."

       "Romano?" Lit golpeou de novo, e Jason desviou a lmina. "O que  romano?"

       "Chamada," Jason disse. "Enquanto voc estava morto, Roma derrotou a Grcia.
Criaram o maior imprio de todos os tempos."

       "Impossvel," Lit disse. "Nunca ouvi falar deles."

     Jason girou em um calcanhar, acertou Lit no peito com o cabo da lana, e o
mandou tombando no trono de Midas.

       "Ah, querido," Midas disse. "Lit?"

       "Estou bem," Lit grunhiu.

       "Seria melhor ajud-lo a se levantar," disse Jason.

       Lit gritou, "Pai, no!"

        Tarde demais. Midas colocou sua mo no ombro do filho, e de repente uma
esttua de ouro de aparncia muito zangada estava sentada no trono de Midas.

       "Maldies!" lamuriou Midas. "Foi um truque malvado, semideus. Voc vai
pagar por isso." Ele bateu no ombro dourado de Lit. "No se preocupe, filho. Eu vou te
submergir no rio logo depois de colecionar esse prmio."

       Midas correu para frente. Jason desviou, mas o velho tambm era rpido. Jason
chutou a mesa de caf nas pernas do velho e o derrubou, mas Midas no ficaria cado
por muito tempo.

                                            269
        Ento Jason olhou para esttua dourada de Piper. Raiva se arrastou nele. Ele era
o filho de Zeus. Ele no podia falhar os amigos.

        Ele sentiu uma sensao de puxo no intestino, e a presso do ar caiu to
rapidamente que suas orelhas se moveram. Midas deve ter sentido isso tambm, porque
ele tropeou com os ps e pegou as orelhas de burro.

       "Ei! O que voc est fazendo?" ele exigiu. "Meu poder  supremo aqui!"

       Um trovo ribombou. Fora, o cu ficou preto.

       "Voc conhece outro bom uso para ouro?" Jason disse.

       Midas levantou as sobrancelhas, subitamente animado. "Sim?"

       " um excelente condutor de eletricidade."

       Jason levantou sua lana, e o teto explodiu. Um raio rompeu pelo telhado como
se fosse uma casca de ovo, conectada com a ponta da lana de Jason, e emitiu arcos de
energia que destruram os sofs em farrapos. Pedaos grandes do gesso do teto foram
em encontro ao cho. O candelabro vergou e soltou sua corrente, e Midas gritou
enquanto ele o alfinetou no cho. O vidro imediatamente virou ouro.

        Quando o ribombo parou, chuva congelada vazava na construo. Midas xingou
em grego antigo, completamente preso sob o candelabro. A chuva encharcou tudo,
transformando o candelabro de ouro de volta a vidro. Piper e Leo estavam lentamente
mudando tambm, ao longo com as outras esttuas na sala.

        Ento a porta da frente estourou, e o Treinador Hedge correu para dentro, clava
pronta. Sua boca estava coberta de sujeira, neve e grama.

       "O que eu perdi?" ele perguntou.

         "Onde voc estava?" Jason perguntou. Sua cabea estava girando por convocar o
raio, e foi tudo que ele pde fazer para impedir que passasse dessa para melhor.

       "Eu estava gritando por ajuda."

       Hedge arrotou. "Pegando uma refeio. Desculpe. Quem precisa matar?"

       "Ningum, agora!" Jason disse. "S pegar Leo. Vou pegar Piper."

       "No me deixe assim!" choramingou Midas.

       Tudo ao redor dele, as esttuas das vtimas estavam virando carne -- sua filha,
seu barbeiro, e vrios caras irritados com espadas.

       Jason pegou a mochila dourada de Piper e seus prprios pertences.

                                          270
       Ento ele jogou um tapete sobre a esttua dourada de Lit no trono. Com sorte,
aquilo iria impedir o Ceifeiro dos Homens de voltar  carne -- pelo menos at depois
que as vtimas de Midas voltassem.

       "Vamos sair daqui," Jason falou para Hedge. "Acho que esses caras iro querer
algum tempo de qualidade com Midas."




                                        271
                                      Captulo XXXIII

PIPER ACORDOU COM FRIO E TREMENDO.

       Ela teve o pior sonho sobre um velho com orelhas de burro correndo atrs dela e
gritando, Voc  isso!

       "Ah, deus." Seus dentes batiam. "Ele me transformou em ouro!"

       "Voc est bem agora." Jason inclinou-se e passou um cobertor quente em torno
dela, mas ela ainda se sentia fria como uma borade.

        Ela piscou, tentando entender onde estavam. Perto dela, uma fogueira ardia,
tornando o ar cortante com a fumaa. A luz do fogo cintilava nas paredes de rocha. Eles
estavam em uma pequena caverna, mas ela no lhes oferecia muita proteo. Do lado de
fora, o vendo assobiava. Neve soprava de um lado para outro. Poderia ser dia ou noite.
A tempestade estava escura demais para dizer.

       "L-L-Leo?" Piper tentou.

       "Presente e desdourado." Leo tambm estava envolto em cobertores. Ele no
parecia timo, mas melhor do que Piper se sentia. "Eu ganhei o tratamento de metal
precioso tambm," falou, "mas eu ca fora dessa mais rpido. No sei porqu. Tivemos
que afundar voc no rio para te trazer de volta completamente. Tentei secar voc, mas...
est muito, muito frio."

      "Voc estava com hipotermia," Jason falou. "Ns arriscamos tanto nctar quanto
podamos. O Treinador Hedge tambm fez uma magia da natureza --"

       "Remdio para esporte." A cara feia do treinador pairava sobre ela. " uma
espcie de hobby meu. Sua respirao pode cheirar a cogumelos selvagens e Gatorade
por alguns dias, mas vai passar. Voc provavelmente no vai morrer. Provavelmente."

       "Obrigada," Piper disse, fraca. "Como vocs venceram Midas?"

       Jason a contou a histria, jogando a culpa na sorte.

        Treinador bufou. "O garoto est sendo modesto. Voc deveria ter visto ele. Ih-
h! Fatiou! Explodiu com um raio!"


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      "Treinador, voc nem viu isso," Jason falou. "Voc estava do lado de fora
comendo o gramado."

       Mas o stiro s estava se aquecendo. "Ento eu cheguei com a minha clava e ns
dominamos a sala! Depois, eu falei pra ele, `Garoto, estou orgulho de voc! Se voc
pudesse apenas dar alguma ateno  fora dos membros superiores --'"

       "Treinador," Jason chamou.

       "Sim?"

       "Cale a boca, por favor."

       "Claro." O treinador se sentou junto ao fogo e comeou a mastigar seu porrete.

       Jason colocou sua mo sobre a testa de Piper e mediu sua temperatura. "Leo,
voc pode atiar o fogo?"

       "L vai." Leo convocou um amontoado de chamas do tamanho de bolas de
beisebol e as arremessou na fogueira.

       "Eu pareo assim to mal?" Piper tremeu.

       "Que nada," Jason disse.

       "Voc  um pssimo mentiroso," ela falou. "Onde ns estamos?"

       "Peaks Pike," Jason respondeu. "Colorado."

       "Mas isso , o qu? -- oitocentos quilmetros de Omaha?"

       "Por a," Jason concordou. "Eu fiz os espritos de tempestade nos trazer at aqui.
Eles no gostaram muito -- foi um pouco mais rpido do que eu queria, quase nos
esmagaram contra o Monte antes que eu conseguisse coloc-los de volta na mochila.
No vou tentar isso de novo."

       "E porque estamos aqui?"

       Leo fungou. "Isso foi o que eu perguntei a ele."

        Jason encarou a tempestade como se estivesse esperando por algo. "Aquela
trilha de vento brilhante que vimos ontem? Ainda estava no cu, mesmo que tenha se
apagado bastante. Eu a segui at que no a pudesse ver mais. Ento -- honestamente
no estou certo. Eu s senti que este era o lugar certo para parar."

       " claro que ." Treinador Hedge cuspiu algumas lascas de porrete. "O palcio
flutuante de olo deve estar ancorado acima de ns, bem no pico. Este  um de seus
pontos favoritos para atracar."

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        "Pode ter sido isso." Jason franziu as sobrancelhas. "Eu no sei. Alguma outra
coisa, tambm..."

       "As Caadoras se dirigiam para o oeste," Piper lembrou "Voc acha que elas
esto por aqui?"

       Jason esfregou seu antebrao, como se as tatuagens o estivessem incomodando.
"Eu no vejo como algum poderia sobreviver no Monte agora. A tempestade est
muito ruim. J  a noite antes do solstcio, mas no tivemos outra escolha a no ser
esperar a tempestade passar. Tivemos que dar a voc algum tempo para descansar antes
que tentssemos nos mover."

       Ele no precisava convenc-la. O vento assobiando no lado de fora da caverna a
assustava, e ela no conseguia parar de tremer.

       "Ns precisamos te aquecer." Jason sentou perto dela e estendeu os braos um
pouco sem jeito. "H, voc se importa se eu..."

       "Acho que no." Ela tentou parecer desinteressado.

       Ele passou os braos ao seu redor e a segurou. Eles chegaram mais perto do
fogo. Treinador Hedge mastigava pedaos de seu porrete e cuspia as lascas no fogo.

        Leo pegou alguns suprimentos de cozinha e comeou a fritar hambrgueres em
uma frigideira de ferro. "Ento, gente, j que vocs esto aninhados para hora da
histria... Tem algo que eu preciso contar a vocs. No caminho pra Omaha, eu tive esse
sonho. Um pouco difcil de entender com a esttica e a Roda da Fortuna interrompendo
--"

       "Roda da Fortuna?" Piper achou que Leo estava brincando, mas quando ele
levantou os olhos dos hambrgueres sua expresso estava mortalmente sria.

       "O negcio  que," ele falou, "meu pai Hefesto falou comigo."

        Leo contou a eles sobre seu sonho. Na luz do fogo, com o vento assobiando, a
histria era ainda mais assustadora. Piper podia imaginar a voz cheia de esttica do
deus avisando sobre os gigantes que eram filhos de Trtaro, e sobre Leo perdendo
alguns amigos no caminho.

       Ela tentou se concentrar em algo bom: os braos de Jason em volta dela, o calor
lentamente se espalhando por seu corpo, mas ela estava aterrorizada. "Eu no entendo.
Se semideuses e deuses tm que trabalhar juntos para matar os gigantes, por que os
deuses ficariam em silncio? Se eles precisam da gente --"




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        "R," falou o Treinador Hedge. "Os deuses odeiam precisar de humanos. Eles
gostam de ser precisados por humanos, mas no o contrrio. As coisas devem ficar bem
piores antes que Zeus admita que cometeu um erro fechando o Olimpo."

       "Treinador," falou Piper, "esse foi quase um comentrio inteligente."

        Hedge bufou. "O qu? Eu sou inteligente! Eu no estou surpreso que vocs
bolinhos no tenham ouvido falar da Guerra dos Gigantes. Os deuses no gostam de
falar sobre isso.  um RP ruim admitir que voc precisou de mortais para ajudar a
vencer um inimigo.  simplesmente embaraoso."

        "No entanto, h mais," disse Jason. "Quando eu sonhei com Hera em sua priso,
ela falou que Zeus estava anormalmente paranico. E Hera -- ela falou que foi para
aquelas runas porque uma voz estava falando em sua cabea. E se algum estiver
manipulando os deuses, como Medeia estava nos manipulando?"

       Piper estremeceu. Ela teve um pensamento parecido -- que alguma fora que
eles no podiam ver estava manipulando as cordas por trs da cortina, ajudando os
gigantes. Talvez a mesma fora estivesse mantendo Enclado informado sobre seus
movimentos, e at mesmo derrubou seu drago em Detroit. Talvez a Mulher-Sujeira
adormecida de Leo, ou outro servo dela...

        Leo colocou alguns pes de hambrguer na frigideira para torrar. ", Hefesto
falou algo parecido, como se Zeus estivesse agindo mais estranho que o normal. Mas o
que me incomodou foi o que meu pai no falou. Como se em algumas vezes ele
estivesse falando sobre os semideuses e como ele tinha tantos filhos e tudo mais. Eu no
sei. Ele agiu como se juntar os maiores semideuses fosse quase impossvel -- como
Hera est tentando, mas que era uma coisa estpida de se fazer, e tinha algum segredo
que Hefesto no deveria me contar."

       Jason se mexeu. Piper podia sentir a tenso em seus braos.

        "Quron agiu da mesma forma no acampamento," ele falou. "Ele mencionou um
juramento secreto para no falar -- alguma coisa. Treinador, voc sabe alguma coisa
sobre isso?"

       "Nah. Eu sou s um stiro. Eles no nos contam as coisas suculentas.
Especialmente um velho --" Ele parou.

       "Um velho como voc?" Piper perguntou. "Mas voc no  assim to velho, ?"

       "Cento e seis," o treinador murmurou.

       Leo tossiu. "Como  que ?"



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       "No bote fogo nas calas, Valdez. So s cinquenta e trs em anos humanos.
Ainda assim, , eu fiz alguns inimigos no Conselho dos Ancios do Casco Fendido. Eu
fui um protetor por um longo tempo. Mas eles comearam a dizer que eu estava ficando
imprevisvel. Muito violento. Pode imaginar?"

       "Nossa." Piper tentou no olhar para seus amigos. "Essa  difcil de acreditar."

       Treinador fez uma careta. ", ento ns tnhamos uma boa guerra com os tits, e
eles me colocaram na frente de batalha? No! Eles me mandaram para o mais longe
possvel -- na fronteira canadense, voc pode acreditar? Ento depois da guerra, eles
me colocaram no pasto. Wilderness School. Bah! Como se eu fosse velho demais para
ajudar, s porque eu gosto de alguma ao. Todos aqueles colhedores de flores do
Conselho -- falando sobre natureza"

       "Pensei que stiros gostavam de natureza," Piper arriscou.

        "Na mosca, eu amo natureza," disse Hedge "Natureza significa coisas grandes
matando e comendo coisas pequenas! E quando voc  -- voc sabe -- um stiro
verticalmente desafiado como eu, voc fica em boa forma, carrega uma grande vara e
no leva desaforo pra casa. Isso  natureza." Hedge bufou indignado. "Colhedores de
flores. De qualquer forma, espero que voc tenha comida vegetariana, Valdez. Eu no
como carne."

      "Sim, treinador, no coma seu porrete. Eu tenho alguns bifes de tofu. Piper
tambm  vegetariana. Vou frit-los em um segundo."

       O cheiro de hambrgueres fritos encheu o ar. Piper normalmente odiava o cheiro
de carne sendo cozida, mas seu estmago roncou como se fosse fazer um motim.

       Estou perdendo a cabea, ela pensou. Pense em brcolis. Cenouras. Lentilha.

       Seu estmago no era a nica coisa se rebelando. Deitada perto do fogo, com
Jason a segurando, a conscincia de Piper parecia uma bala quente lentamente fazendo
seu caminho at o corao. Toda a culpa que estava sentindo pela ltima semana, desde
que o gigante Enclado lhe mandou um sonho pela primeira vez, estava prestes a mat-
la.

        Seus amigos queriam ajud-la. Jason falou que at mesmo cairia em uma
armadilha pra salvar seu pai. E Piper os calou. At onde sabia, ela j tinha condenado
seu pai quando atacou Medeia.

       Ela sufocou um soluo. Talvez tivesse feito a coisa certa em Chicago, salvando
seus amigos, mas s retardou o problema. Ela nunca poderia trair seus amigos, mas seu
lado mais egosta estava desesperado o bastante para pensar, E se eu fizesse?


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       Ela tentou imaginar o que seu pai diria. Ei, pai, se alguma vez voc fosse
acorrentado por um gigante canibal e eu tivesse que trair alguns amigos para te salvar,
o que deveria fazer?

       Engraado, ela nunca tinha pensado naquilo quando jogavam Trs Perguntas
Quaisquer. Seu pai nunca levaria a pergunta a srio,  claro. Ele provavelmente a
contaria alguma velha histria de seu av Tom -- algo com ourios brilhantes e
pssaros falantes -- e, em seguida, riria como se o conselho fosse bobo.

      Piper desejou lembrar-se melhor de seu av. Algumas vezes sonhava com aquela
pequena casa de dois cmodos em Oklahoma. Ela se perguntava como seria crescer por
l.

       Seu pai pensaria que era loucura. Ele tinha passado toda sua vida fugindo
daquele lugar, se distanciando do resto, fazendo qualquer papel menos o de um nativo-
americano. Ele sempre falava para Piper como ela era sortuda por crescer rica e bem
cuidada, em uma boa casa na Califrnia.

       Ela aprendeu a ser vagamente desconfortvel sobre seus ancestrais -- como as
fotos antigas de seu pai, dos anos oitenta, quando ele tinha cabelo emplumado e roupas
estranhas. Voc acredita que eu um dia me vesti assim? ele diria. Ser Cherokee
funcionava do mesmo jeito pra ele -- algo engraado e levemente embaraoso.

       Mas o que mais eles eram? O pai parecia no saber. Talvez fosse por isso que ele
estava sempre to infeliz, mudando de papis. Talvez seja por isso que Piper comeou a
roubar coisas, procurando por algo que seu pai no poderia lhe dar.

      Leo colocou os bifes de tofu na frigideira. O vento continuava furioso. Piper
pensou em uma antiga histria que seu pai havia lhe contado... uma que talvez
respondesse mesmo algumas de suas dvidas.



Um dia na segunda srie ela chegou em casa chorando e perguntando porque seu pai a
tinha dado o nome de Piper. As crianas estavam zuando ela por que Piper Cherokee era
uma espcie de avio.

       Seu pai riu, como se nunca tivesse pensado naquilo. "No, Pipes. Belo avio.
Mas no foi assim que chamei voc. Foi o vov Tom que escolheu seu nome. A
primeira vez que a ouviu chorar, ele falou que voc tinha uma voz poderosa -- melhor
que qualquer flautista (flautista  `piper', em ingls) doce. Ele falou que voc aprenderia
a cantar as mais difceis canes Cherokee, at mesmo a cano da cobra."

       "A cano da cobra?"


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       Papai contou a lenda a ela -- como um dia uma Cherokee viu uma cobra
brincando perto de seus filhos e matou-a com uma pedra, sem perceber que era o Rei
das Cascavis. As cobras se prepararam para a guerra contra os humanos, mas o marido
daquela mulher tentou a paz. Ele prometeu que faria qualquer coisa para recompensar as
cascavis. As cobras o fizeram cumprir a promessa. Elas falaram para que ele levasse
sua mulher para sacrifcio, de maneira que as cobras pudessem pic-la e levar sua vida
em troca. O homem estava com o corao partido, mas fez o que lhe pediram. Depois,
as cobras ficaram impressionas pelo homem ter desistido de tanto e mantido sua
promessa. Elas o ensinaram a Cano da cobra para que todos os Cherokee a usassem.
Dali em diante, se algum Cherokee encontrasse uma cobra e cantasse aquela cano, a
cobra o reconheceria como um amigo, e no o picaria.

       "Isso  horrvel!" Piper falou. "Ele deixou sua mulher morrer?"

        Seu pai abriu as mos. "Foi um grande sacrifcio. Mas uma vida levou paz por
geraes entre cobras e os Cherokee. Vov Tom acreditava que as canes Cherokee
podiam resolver quase todos os problemas. Ele pensou que voc saberia vrias canes,
e seria a quase musicista da famlia. Foi por isso que te chamamos de Piper."

       Um grande sacrifcio. Ser que seu av havia previsto algo sobre ela, mesmo
quando era apenas um beb? Ser que ele sentiu que ela era uma filha de Afrodite? Seu
pai provavelmente diria que era loucura. Vov Tom no era um orculo.

        Mas ainda assim... ela prometeu ajudar nessa misso. Seus amigos contavam
com ela. Eles a salvaram quando Midas a transformou em ouro. Eles a trouxeram de
volta  vida. Ela no poderia recompens-los com mentiras.



Gradualmente, ela comeou a se sentir mais quente. Parou de tremer e se sentou contra
o peito de Jason. Leo lhe entregou a comida. Piper no queria se mexer, falar ou fazer
qualquer coisa para quebrar o momento. Mas ela precisava fazer isso.

       "Precisamos conversar." Ela se sentou de maneira a olhar para Jason. "Eu no
quero esconder mais nada de vocs."

        Eles a olharam com suas bocas cheias de hambrguer. Tarde demais para mudar
de idia agora.

       "Trs noites antes da ida ao Grand Canyon," ela falou, "eu tive uma viso em
um sonho -- um gigante, me dizendo que meu pai havia sido sequestrado. Ele me disse
que eu deveria cooperar, ou meu pai seria morto."

       As chamas crepitaram.

       Finalmente, Jason perguntou, "Enclado? Voc mencionou esse nome antes."
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       Treinador Hedge se virou. "Grande gigante. Cospe fogo. No algum que eu ia
querer fazendo churrasco do meu pai bode."

       Jason o mandou um olhar de cala boca. "Piper, continue. O que aconteceu
depois?"

        "Eu -- eu tentei falar com meu pai, mas tudo o que eu consegui foi sua
assistente pessoal, e ela me disse para no me preocupar."

       "Jane?" Leo lembrou "Medeia no falou algo sobre control-la?"

        Piper concordou com um aceno. "Para ter meu pai de volta, eu deveria sabotar
esta misso. Eu no tinha pensado que seramos ns trs. Ento depois que comeamos
a misso, Enclado me mandou outro aviso: Ele me falou que queria vocs dois mortos.
Ele queria que eu os levasse at um Monte. No sei qual exatamente, mas na rea da
Baa -- eu podia ver a ponte Golden Gate do cume. Eu deveria estar l ao anoitecer no
solstcio, amanh. Uma troca."

        Ela no podia encarara seus amigos nos olhos. Ela esperou que gritassem com
ela, que lhe virassem as costas ou que a jogassem na tempestade de neve.

      Ao invs disso, Jason se aproximou dela e a envolveu com seus braos
novamente. "Deuses, Piper. Eu sinto muito."

      Leo concordou. "Sem sacanagem. Voc esteve carregando isso por quase uma
semana? Piper, ns poramos te ajudar."

      Ela olhou para eles. "Por que vocs no gritam comigo ou algo do tipo? Me
mandaram matar vocs!"

      "Ah, qual ," disse Jason. "Voc salvou a ns dois nessa misso. Eu colocaria
minha vida em suas mos a qualquer hora."

       "Idem." Leo falou "Posso ganhar um abrao tambm?"

        "Vocs no entendem!" Piper falou "Eu provavelmente matei meu pai contando
isso a vocs!"

       "Eu duvido." O Treinador Hedge arrotou. Ele estava comendo seu hambrguer
de tofu embrulhado no prato de papel, mastigando como um taco. "O gigante ainda no
conseguiu o que queria, ento ele ainda precisa do seu pai para chantagem. Ele vai
esperar at que o seu prazo se acabe, v se voc aparece. Ele quer que voc desvie a
misso para este Monte, certo?"

       Piper confirmou, incerta.



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        "Ento isso significa que Hera est presa em outro lugar." Hedge argumentou.
"E ela tem que ser salva no mesmo dia. Ento voc tem que escolher -- resgatar seu
pai, ou resgatar Hera. Se voc for atrs de Hera, ento Enclado cuida do seu pai. Alm
disso, Enclado nunca te deixaria ir mesmo se voc cooperasse. Voc  obviamente um
dos sete na Grande Profecia."

       Um dos sete. Ela falou sobre isso antes com Jason e Leo, e sups que deveria ser
verdade, mas ainda tinha problemas em acreditar nisso. Ela no se sentia to importante.
Ela era s uma estpida filha de Afrodite. Como poderia valer  pena enganando e
matando?

       "Ento ns no temos escolha," ela falou miseravelmente. "Temos que salvar
Hera, ou o Rei dos Gigantes ser libertado. Essa  a nossa misso. O mundo depende
disso. E Enclado parece ter meios de me vigiar. Ele no  burro. Ele vai saber se
mudarmos o curso e formos  direo errada. Ele vai matar meu pai."

        "Ele no vai matar seu pai," Leo falou "Ns vamos salv-lo."

        "Ns no temos tempo!" choramingou Piper. "Alm disso,  uma armadilha."

       "Ns somos seu amigos, rainha da beleza," disse Leo "No vamos deixar seu pai
morrer. S temos que bolar um plano."

       Treinador Hedge resmungou. "Ajudaria se soubssemos onde  esse Monte.
Talvez olo possa dizer. A rea da Baa tem uma m reputao para os semideuses.
Antigo lar dos Tits, Monte tris, fica acima do Monte Tam, onde Atlas segura o cu
nas costas. Eu espero que essa no seja o Monte que voc viu."

       Piper tentou lembrar-se da vista em seu sonho. "Eu acho que no. Essa era no
continente"

        Jason franziu o cenho para o fogo, como se estivesse tentando lembrar-se de
algo.

        "M reputao... isso no parece certo. A rea da Baa...."

        "Voc acha que j esteve l?" Piper perguntou.

       "Eu..." Ele parecia estar quase na ponta de uma importante descoberta. Ento a
angstia voltou a seus olhos. "Eu no sei. Hedge, o que aconteceu no Monte tris?"

       Hedge mordeu novamente papel e hambrguer. "Bom, Cronos construiu um
novo castelo l no ltimo vero. Lugar bem desagradvel, era para ser o novo quartel-
general de seu novo reino e tudo mais. No entanto, no tiverem muitas batalhas l.
Cronos marchou por Manhattan, tentou tomar o Olimpo. Se eu me lembro bem, ele


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deixou alguns outros tits cuidando do palcio, mas depois que Cronos foi derrotado em
Manhattan, o lugar todo simplesmente desabou."

       "No," Jason falou.

       Todos olharam para ele.

       "Como assim, `No'?" Leo perguntou.

      "No foi isso que aconteceu. Eu --" Ele se retraiu, olhando para fora da caverna.
"Ouviram isso?"

       Por um segundo, nada. Ento Piper ouviu: uivos cortando a noite.




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Captulo XXXIV
"LOBOS," PIPER DISSE. "ELES PARECEM PERTO."

      Jason se levantou e pegou sua espada. Leo e o Treinador Hedge ficaram de p
tambm. Piper tentou, mas borres pretos danaram na frente dos seus olhos.

       "Fique a," Jason lhe disse. "Iremos te proteger."

        Ela rangeu os dentes. Ela odiava se sentir intil. Ela no queria que algum a
protegesse. Primeiro o tornozelo estpido. Agora hipotermia estpida. Ela queria ficar
de p, com sua adaga na mo.

      Ento, fora da luz do fogo na entrada da caverna, ela viu um par de olhos
vermelhos brilhando na escurido.

       Ok, ela pensou. Talvez um pouco de proteo seja legal.

       Mais lobos se apertaram na luz do fogo -- bestas negras maiores que ces
dinamarqueses, com gelo e neve endurecidos no pelo. Suas presas cintilavam, e seus
brilhantes olhos vermelhos pareciam perturbadoramente inteligentes. O lobo no centro
era quase to alto quanto um cavalo, sua boca manchada como se ele tivesse acabado de
matar a pouco tempo.

       Piper puxou a adaga da bainha.

       Ento Jason deu um passo para frente e disse algo em latim.

       Piper no achou que uma lngua morta teria muito efeito em animais selvagens,
mas o lobo alfa enrugou o lbio. O pelo se levantou pela sua espinha. Um dos seus
tenentes tentou avanar, mas o lobo alfa mordeu a sua orelha. Ento todos os lobos
voltaram para a escurido.

       "Rapaz, eu tenho que estudar latim." O martelo de Leo sacudiu na sua mo. "O
que voc disse, Jason?"

       Hedge xingou. "O quer que fosse, no foi o bastante. Olhem."




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        Os lobos estavam voltando, mas o alfa no estava com eles. Eles no atacaram.
Eles esperaram -- pelo menos uma dzia deles agora, num semicrculo irregular fora da
luz do fogo, bloqueando a sada da caverna.

       O treinador suspendeu sua clava. "Esse  o plano. Eu vou matar todos eles, e
vocs escapam."

       "Treinador, eles vo te rasgar em pedaos," Piper disse.

       "Nh, estou bem."

        Ento Piper viu a silhueta de um homem vindo pela tempestade, passando com
dificuldade pela matilha de lobos.

       "Mantenham-se juntos," Jason disse. "Eles respeitam um grupo. E Hedge, sem
coisas malucas. No vamos deixar voc ou ningum mais para trs."

      Piper sentiu um n na garganta. Ela era um elo fraco no "grupo" deles agora.
No havia dvida que os lobos podiam cheirar o seu medo. Ela tambm podia estar
usando uma placa que dizia almoo grtis.

        Os lobos se partiram, e o homem pisou na luz. Seu cabelo era graxo e desigual, a
cor da fuligem da lareira, com uma coroa acima dele que parecia ser ossos de dedos.
Seus robes eram esfarrapados com pelos -- lobo, coelho, ursos, cervos, e vrios outros
que Piper no pde identificar. Os pelos no pareciam tratados, e pelo cheiro, no eram
novos. Seu corpo era gil e musculoso, como o de um corredor distante. Mas a coisa
mais horrvel era o seu rosto. Sua pele fina e plida era puxada firmemente sobre seu
crnio. Seus dentes eram afiados como presas. Seus olhos brilhavam em vermelho vivo
como os dos lobos -- e se fixaram em Jason com dio absoluto.

       "Ecce," disse, "filli Romani."

       "Fale ingls, homem lobo!" Hedge gritou.

      O homem lobo rosnou. "Fale para o seu fauno controlar sua lngua, filho de
Roma. Ou ele ser a primeira refeio."

        Piper lembrou que fauno era o nome romano de stiro. No exatamente uma
informao til. Agora, se ele pudesse lembrar quem esse homem lobo era na mitologia
grega, e como derrot-lo, isso ela poderia usar.

        O homem lobo estudou seu pequeno grupo. Suas narinas se contraram. "Ento 
verdade," refletiu. "Uma filha de Afrodite. Um filho de Hefesto. Um fauno. E um filho
de Roma, de Lorde Jpiter, nada menos. Todos juntos, sem matar um ao outro. Que
interessante."


                                          283
       "Contaram sobre ns?" Jason perguntou. "Quem?"

       O homem rosnou -- talvez uma risada, talvez um desafio. "Ah, estivemos
fazendo patrulha por vocs em todo o oeste, semideus, esperando que fssemos os
primeiros a encontr-los. O rei gigante me recompensar bem quando se erguer. Sou
Licao, rei dos lobos. E a minha matilha est com fome."

       Os lobos rosnaram na escurido.

       No canto do olho, Piper viu Leo erguer seu martelo e deslizar mais algo do seu
cinto de ferramentas -- uma garrafa de vidro cheia de lquido limpo.

       Piper quebrou a cabea tentando localizar o nome do homem lobo. Ela sabia que
o ouvira antes, mas no podia lembrar-se de detalhes.

      Licao olhou para espada de Jason. Ele moveu para cada como se procurasse
uma abertura, mas a lmina de Jason se moveu com ele.

       "Parta," ordenou Jason. "No h comida para vocs aqui."

       "A menos que queiram hambrguer de tofu," Leo ofereceu.

       Licao exibiu suas presas. Aparentemente ele no era um f de tofu.

       "Se eu tivesse a minha conduta," Licao disse com pesar, "eu mataria voc
primeiro, filho de Jpiter. Seu pai me fez o que sou. Eu fui o poderoso rei mortal da
Arcdia, com cinquenta perfeitos filhos, assassinou todos eles com raios."

       "R," o Treinador Hedge disse. "Por um bom motivo!"

       Jason olhou sobre o ombro. "Treinador, voc conhece essa coroa?"

        "Eu conheo," Piper respondeu. Os detalhes do mito voltaram para ela -- uma
histria curta e horrvel que ela e seu pai riram no caf-da-manh. Ela no estava rindo
agora.

      "Licao convidou Zeus para um jantar," disse. "Mas o rei no tinha certeza se
realmente era Zeus. Ento para testar os seus poderes, Licao tentou lhe dar carne
humana para comer. Zeus ficou ultrajado --"

       "E matou meus filhos!" Licao urrou. Os lobos atrs dele urraram tambm.

     "Ento Zeus o transformou em lobo," Piper disse. "Eles se chamam... eles se
chamam lobisomens licantropos, nomeados por causa dele, o primeiro lobisomem."

        "O rei dos lobos," o Treinador Hedge finalizou. "Um vira-lata imortal, fedorento
e viciado."


                                          284
       Licao rosnou. "Eu vou te partir em pedaos, fauno!"

       "Ah, voc quer um pouco de bode, amigo? Porque eu vou te dar bode."

       "Parem," Jason disse. "Licao, voc disse que queria me matar primeiro,
mas...?"

       "Infelizmente, Filho de Roma, voc est prometido. Desde que essa" -- ele
balanou suas garras para Piper -- "falhou em te matar, voc est para ser entregue vivo
 Casa dos Lobos. Uma dos meus compatriotas pediu pela honra de te matar ela
mesma."

       "Quem?" Jason disse.

       O rei lobo riu em silncio. "Ah, uma grande admiradora sua. Aparentemente,
voc realmente deixou uma impresso nela. Ela tomar cuidado de voc muito em
breve, e eu realmente no posso reclamar. Derramar o seu sangue na Casa dos Lobos
deve marcar meu novo territrio muito bem. Lupa pensar duas vezes antes de desafiar
a minha matilha."

        O corao de Piper tentou pular do seu peito. Ela no entendia tudo que Licao
dissera, mas uma mulher que queria matar Jason? Medeia, ela pensou. De algum modo,
ela devia ter sobrevivido  exploso.

       Piper lutou para ficar de p. Borres danaram nos seus olhos de novo. A
caverna parecia girar.

       "Voc partir agora," Piper disse, "antes de destruirmos voc."

       Ela tentou colocar poder nas palavras, mas estava muito fraca. Tremendo nos
seus cobertores, plida, suada e com pouca possibilidade de segurar uma faca, ela no
poderia ter parecido muito ameaadora.

        Os olhos vermelhos de Licao se enrugaram com humor. "Uma brava tentativa,
garota. Admiro isso. Infelizmente,  o jantar."

        Naquele momento, Piper sabia que iria morrer. Mas pelo menos ela morreria de
p, lutando do lado de Jason.

      Jason deu um passo para frente. "Voc no vai matar ningum, homem lobo.
No sem passar por mim."

       Licao bramiu e estendeu as garras. Jason o aoitou, mas sua espada dourada
atravessou ele como se o rei lobo no estivesse ali.

        Licao riu. "Ouro, bronze, ao -- nenhum desses funciona contra meus lobos,
filho de Jpiter."

                                          285
       "Prata!" Piper gritou. "Lobisomens no so feridos por prata?"

       "No temos prata!" Jason disse.

       Lobos saltaram na luz do fogo. Hedge correu com um orgulhoso "Raiz!"

        Mas Leo atacou primeiro. Ele jogou sua garrafa de vidro e ela se rachou no cho,
esparramando todo o lquido sobre os lobos -- o cheiro inconfundvel de gasolina. Ele
atirou uma rajada de fogo na confuso, e uma parede de chamas entrou em erupo.

       Lobos latiram e se retiraram. Vrios pegaram fogo e tivera que correr de volta
para neve. At Licao olhava preocupadamente a barreira de chamas agora separando
seus lobos dos semideuses.

        "Ah, que isso," o Treinador Hedge reclamou. "Eu no posso acert-los se eles
esto l."

        Todas as vezes que um lobo se aproximava, Leo atirava uma nova onda de fogo
das mos, mas cada esforo parecia deix-los um pouco mais cansado, e a gasolina j
estava diminuindo. "Eu no posso convocar mais gs!" Leo avisou. Ento seu rosto
ficou vermelho. "Uau, essa saiu errada. Eu digo o gs abrasador. Vou colocar o cinto
de ferramentas um pouco para recarregar. Vocs tm o qu, cara?"

       "Nada," Jason disse. "Nem uma arma que funcione."

       "Raio?" Piper perguntou.

        Jason se concentrou, mas nada aconteceu. "Acho que a tempestade de neve est
interferindo, ou algo."

       "Liberte os ventus!" Piper disse.

      "Ento no teremos nada para dar a olo," Jason disse. "Viemos todo esse
caminho para nada."

      Licao riu. "Eu posso cheirar o seu medo. Mais alguns minutos de vida, heris.
Rezem para deuses que quiserem. Zeus no me concedeu clemncia, e vocs no tero
nenhuma de mim."

       As chamas comearam a se extinguirem. Jason xingou e abaixou sua espada. Ele
se agachou como se estivesse pronto para ir mo-a-mo. Leo puxou seu martelo da
mochila. Piper levantou sua adaga -- no muito, mas era tudo que ela tinha. O
Treinador Hedge suspendeu a sua clava, e ele era o nico que parecia animado em
morrer.




                                           286
        A um som espetacular cortou pelo ar -- como um pedao de papelo rasgado.
Um longo graveto se projetava do pescoo do lobo mais prximo -- o cabo de uma
flecha de prata. O lobo se debateu e caiu, dissolvendo numa poa de escurido.

        Mais flechas. Mais lobos cados. A matilha rompeu em confuso. Uma flecha
flamejou para Licao, mas o rei lobo a pegou no ar. Ento ele gritou em dor. Quando ele
deixou a flecha cair, ela deixou um corte fumegante e chamuscado na sua palma. Outra
flecha o pegou no ombro, e o rei lobo cambaleou.

       "Os amaldioem!" Licao gritou. Ele urrou para matilha, e os lobos viraram e
correram. Licao fixou Jason com aqueles olhos brilhantes rubros. "Isso no acabou,
garoto."

       O rei lobo desapareceu na noite.

       Segundos depois, Piper ouviu mais lobos latindo, mas o som era diferente --
menos ameaador, mais como caada de cachorros por farejamento. Um lobo menor
branco rompeu na caverna, seguido por mais dois.

       Hedge disse, "Matar?"

       "No!" Piper disse. "Espere."

      Os lobos inclinaram a cabea e estudaram os campistas com grandes olhos
dourados.

       Um batimento cardaco depois e seus mestres apareceram: um grupo de
caadoras em camuflagem de inverno em branco-e-cinza, pelo menos meia dzia. Todas
carregavam arcos, com aljavas de brilhantes flechas prateadas nas costas.

        Seus rostos estavam cobertos com capuzes de pele, mas claramente eram todas
meninas. Uma um pouco mais alta que o resto, se agachou na luz do fogo e apanhou a
flecha que feriu a mo de Licao.

       "To perto." Ela virou para as suas companhias. Phoebe, fique comigo. Observe
a entrada. O resto de vocs, sigam Licao. No podemos perd-lo agora. Eu vou seguir
vocs."

        As outras caadoras resmungaram em concordncia e desapareceram, rumando
atrs da matilha de Licao.

       A garota de branco virou em direo a eles, seu rosto ainda escondido no capuz
de pele. "Estivemos seguindo a trilha daquele demnio por mais de uma semana. Esto
todos bem? Ningum foi mordido?"




                                          287
       Jason se levantou congelado, olhando para garota. Piper percebeu que algo na
sua voz soou familiar. Era difcil atribuir diferenas, mas o jeito que ela falou, o jeito
que ela formou as palavras, a fazia lembrar-se de Jason.

       "Voc  ela," chutou Piper. "Voc  Thalia."

       A garota enrijeceu. Piper teve medo que ela pudesse puxar o arco, mas ao invs
disso ela abaixou o capuz de pele. Seu cabelo era preto e pontudo, com uma tiara
prateada na sua testa. Seu rosto tinham um brilho super-saudvel nele, como se ela fosse
um pouco mais que humana, e seus olhos eram azul brilhante. Ela era a garota da
fotografia de Jason.

       "Eu conheo voc?" Thalia perguntou.

       Piper tomou flego. "Pode ser um choque, mas --"

       "Thalia." Jason deu um passo para frente, sua voz tremendo. "Eu sou Jason, seu
irmo."




                                           288
Captulo XXXV
LEO PENSOU QUE TINHA A PIOR SORTE do grupo, e aquilo era dizer muito. Por que
ele no tinha uma irm perdida h muito tempo ou um pai estrela de cinema que
precisava de resgate? Tudo que ele tinha era um cinto de ferramentas e um drago que
cara no meio da misso. Talvez fosse uma maldio estpida do chal de Hefesto, mas
Leo achava que no. Sua vida fora to azarada antes mesmo de chegar ao acampamento.

        Mil anos depois, enquanto essa misso estivesse sendo contada ao redor de uma
fogueira, ele estimou que as pessoas falariam sobre o bravo Jason, a linda Piper, e o seu
assistente Chamejante Valdez, que os acompanhava com uma mochila de chaves de
fenda mgicas e ocasionalmente preparava hambrgueres de peru.

        Se aquilo no fosse ruim o suficiente, Leo se apaixonava com toda garota que
via -- contanto que ela fosse totalmente demais para ele.

        Quando ele viu Thalia pela primeira vez, Leo imediatamente pensou que ela era
muito bonita para ser a irm de Jason. Ento ele pensou que seria melhor no falar isso
ou ele estaria em problemas. Ele gostava do seu cabelo escuro, seus olhos azuis, e sua
atitude confiante. Ela parecia o tipo de garota que podia agredir qualquer um num
campo de bola ou de batalha, e no diria para Leo as horas -- simplesmente o tipo de
Leo!

         Por um minuto, Jason e Thalia encararam um ao outro, aturdidos. Ento Thalia
investiu e o abraou.

        "Meus deuses! Ela me disse que voc estava morto!" Ela agarrou o rosto de
Jason e pareceu estar examinando tudo nele. "Graas a rtemis,  voc. Aquela pequena
cicatriz no seu lbio -- voc tentou comer um grampeador quando tinha dois anos!"

       Leo riu. "Srio?"

       Hedge assentiu como se aprovasse o gosto de Jason. "Grampeadores -- fonte
excelente de ferro."

       "E-espere," Jason gaguejou. "Quem te disse que eu estava morto? O que
aconteceu?"



                                          289
       Na entrada da caverna, um dos lobos brancos latiu. Thalia olhou para trs e
assentiu ao lobo, mas ela manteve suas mos no rosto de Jason, como se tivesse medo
que ele desaparecesse. "Minha loba est me contando que no tenho muito tempo, e ela
tem razo. Mas temos que conversar. Vamos nos sentar."

      Piper fez melhor que isso. Ela caiu. Ela teria batido a cabea no cho da caverna
se Hedge no a tivesse pegado.

       Thalia se precipitou. "Qual  o problema dela? Ah -- no importa. Entendo.
Hipotermia. Tornozelo."

       Ela franziu a testa para o stiro. "Voc no conhece a cura da natureza?"

       Hedge zombou. "Por que voc acha que ela parece to bem? No est cheirando
o Gatorade?"

      Thalia olhou para Leo pela primeira vez, e naturalmente era um olhar acusatrio,
como Por que voc deixou o bode como mdico? Como se a culpa fosse de Leo.

       "Voc e o stiro," Thalia ordenou, "levem essa garota para minha amiga na
entrada. Phoebe  uma excelente curandeira."




       "Est frio l fora!" Hedge disse. "Vou congelar meus chifres."

       Mas Leo sabia quando eles no eram necessrios. "Vamos, Hedge. Esses dois
precisam de tempo para conversar."

      "Humpf. Certo," o stiro murmurou. "Nem consegui quebrar a cabea de
algum."

      Hedge carregou Piper para a entrada. Leo estava prestes a seguir quando Jason o
chamou, "Na verdade, cara, voc poderia, h, ficar por perto?"

       Leo viu algo nos olhos de Jason que ele no esperava: Jason estava pedindo
ajuda. Ele queria mais algum ali. Ele estava assustado.

       Leo sorriu. "Ficar por perto  a minha especialidade."

        Thalia no pareceu muito feliz a respeito disso, mas os trs se sentaram ao fogo.


Por alguns minutos, ningum falou. Jason estudou a irm como se fosse uma inveno
assustadora -- uma que podia explodir se manipulada incorretamente. Thalia parecia
mais a vontade, como se estivesse acostumada a tropear em coisas mais estranhas que
parentes perdidos. Mas ainda assim ela olhava Jason num tipo de transe maravilhoso,
talvez lembrando um pequeno de dois anos de idade que tentava comer um grampeador.
Leo pegou alguns pedaos de fios de cobre dos bolsos e os torceu juntos.



                                          290
       Finalmente ele no pde suportar o silncio. "Ento... as Caadoras de rtemis.
Esse negcio todo do `sem compromisso' --  assim sempre, ou mais como uma
sazonal, ou o qu?"

       Thalia olhou para ele como se tivesse acabado de ser desenvolvido por espuma
do mar. , ele estava definitivamente gostando dessa garota.

       Jason o chutou na canela. "No se importe com Leo. Ele s est tentando
quebrar o gelo. Mas, Thalia... o que aconteceu com a nossa famlia? Quem te disse que
eu estava morto?"

        Thalia puxou um bracelete de prata no pulso. Na luz do fogo, na sua
camuflagem de inverno, ela quase parecia Quione, a princesa do gelo -- porm mais
fria e bonita.

          "Voc se lembra de alguma coisa?" ela perguntou.

          Jason balanou a cabea. "Eu acordei trs dias atrs num nibus com Leo e
Piper."

     "O que no foi nossa culpa," Leo acrescentou ligeiramente. "Hera roubou suas
memrias."

          Thalia enrijeceu. "Hera? Como vocs sabem disso?"

       Jason explicou sobre a misso -- a profecia no acampamento, Hera sendo
aprisionada, o gigante pegando o pai de Piper, e o prazo final no solstcio de inverno.

       Leo interrompeu e adicionou a coisa importante: como ele consertara o drago
de bronze, podia jogar bolas de fogo, e fazer tacos excelentes.

       Thalia era uma boa ouvinte. Nada parecia surpreend-la -- os monstros, as
profecias, os mortos se erguendo. Mas quando Jason mencionou o Rei Midas, ela
xingou em grego antigo.

       "Sabia que deveramos ter queimado aquela manso," ela disse. "Aquele homem
 uma ameaa. Mas estamos to concentrados em seguir Licao -- Bem, estou feliz que
vocs escaparam. Ento Hera esteve... o que, escondendo voc todos esses anos?"

        "Eu no sei." Jason tirou a foto do bolso. "Ela s me deixou memria o
suficiente para reconhecer o seu rosto."

        Thalia olhou para a foto, e sua expresso suavizou. "Eu me esqueci disso. Eu
deixei no Chal Um, no foi?"




                                           291
       Jason assentiu. "Acho que Hera queria que nos encontrssemos. Quando
pousamos aqui, nessa caverna... tive uma sensao que era importante. Como se
soubesse que voc estava perto.  loucura?"

       "Que nada," Leo lhe assegurou. "Estvamos absolutamente destinados a
encontrar a sua irm bonita."

       Thalia o ignorou. Provavelmente ela s no queria deixar parecer o quanto Leo a
impressionara.

       "Jason," ela disse, "quando voc est negociando com os deuses, nada  muita
loucura. Mas voc no pode confiar em Hera, especialmente j que somos filhos de
Zeus. Ela odeia todos os filhos de Zeus."

       "Mas ela disse algo sobre Zeus lhe dar a minha vida como uma oferta de paz.
No faz algum sentido?"

       A cor drenou do rosto de Thalia. "Ah, deuses. Nossa me no teria... Voc no
lembra -- No,  claro que no."

       "O qu?" Jason perguntou.

        Os traos de Thalia pareceram envelhecer na luz, como se sua imortalidade no
estivesse funcionando to bem. "Jason... Eu no sei como dizer isso. Nossa me no era
exatamente estvel. Ela pegou os olhos de Zeus porque ela era uma atriz de televiso, e
ela era bonita, mas ela no guiou a fama bem. Ela bebeu, teve atraes estpidas. Ela
estava sempre nos tabloides. Ela nunca poderia conseguir ateno o bastante. Mesmo
antes de voc nascer, ela e eu discutamos o tempo todo. Ela... ela sabia que o meu pai
era Zeus, e acho que era muito para ela aceitar. Foi como a faanha suprema para ela
atrair o senhor dos cus, e ela no pde aceitar isso quando ele partiu. A coisa sobre os
deuses... bem, eles no ficavam  toa."

        Leo se lembrou da prpria me, o jeito que ela o assegurava cada vez mais que
seu pai voltaria um dia. Mas ela nunca agiu maluca por isso. Ela no parecia querer
Hefesto para ela mesma -- s para que Leo pudesse conhecer o pai. Ela acordava em
um trabalho com fim mortal, vivendo num apartamento minsculo, nunca tendo
dinheiro o bastante -- e ela parecia bem com isso. Contanto que tivesse Leo, ela sempre
dizia que a vida ficaria ok.

       Ele observou o rosto de Jason -- parecendo cada vez mais devastado enquanto
Thalia descreveu a me deles -- e dessa vez, Leo no sentiu inveja do amigo. Leo podia
ter perdido a me. Ele podia ter tido alguns momentos difceis. Mas pelo menos ele
lembrava dela. Ele se encontrou batendo no seu joelho, formando um cdigo Morse:
Amo voc. Ele se sentiu mal por Jason, sem ter memrias assim -- no ter nada para
recorrer.

                                          292
       "Ento..." Jason no pareceu capaz de acabar a pergunta.

        "Jason, voc tem amigos," Leo lhe disse. "Agora voc tem uma irm. Voc no
est sozinho."

       Thalia ofereceu a sua mo, e Jason a pegou.

       "Quando eu tinha uns sete," ela disse, "Zeus comeou a visitar minha me de
novo. Acho que ele se sentiu mal por arruinar sua vida, e ele pareceu -- diferente de
algum jeito. Um pouco mais velho e severo, mais como um pai para mim. Por um
momento, minha me melhorou. Ela amava ter Zeus por perto, lhe trazendo presentes,
fazendo o cu ribombar. Ela sempre queria mais ateno. Foi o ano que voc nasceu. A
mame... bem, eu nunca me dei bem com ela, mas voc me deu um motivo para ficar
por perto. Voc era to bonito.

        E eu no confiei na minha me para tomar conta de voc.  claro, Zeus
consequentemente parou de vir novamente. Ele provavelmente no podia mais suportar
as exigncias da mame mais, sempre o importunando para deix-la visitar o Olimpo,
ou faz-la imortal ou eternamente bonita. Quando ele partiu definitivamente, mame
ficou cada vez mais instvel. Aquela foi aproximadamente a hora que os monstros
comearam a me atacar. Minha me culpou Hera. Ela alegou que a deusa estava vindo
atrs de voc tambm -- que Hera mal tolerara o meu nascimento, mas dois semideuses
filhos da mesma famlia era um insulto muito grande. Minha me at disse que ela no
queria te nomear como Jason, mas Zeus insistiu, como um jeito de satisfazer Hera
porque a deusa gostava daquele nome. Eu no sabia no que acreditar."

       Leo mexeu com seus fios de cobre. Ele se sentia como um intruso. Ele no
deveria estar ouvindo isso, mas tambm o fez se sentir como estivesse conseguindo
conhecer Jason pela primeira vez -- como se talvez estivesse aqui agora enfeitado por
aqueles quatro meses na Wilderness School, quando Leo s imaginava que eles tinham
uma amizade.

       "Como vocs se separaram?" ele perguntou.

       Thalia apertou a mo do irmo. "Se eu soubesse que voc estava vivo... deuses,
as coisas teriam sido to diferentes. Mas quando voc tinha dois anos, nossa me nos
carregou no carro para frias de famlia. Dirigimos para o norte, em direo ao pas do
vinho, para esse parque que ela queria nos mostrar. Eu me lembro de ter pensado que
isso era estranho, porque mame nunca nos levou para lugar nenhum, e ela estava
agindo super nervosa. Eu estava segurando a sua mo, lhe fazendo andar para essa
grande construo no meio do parque, e..." Ela respirou tremulamente. "A mame me
disse para voltar ao carro e pegar a cesta de piquenique. Eu no queria te deixar sozinho
com ela, mas era s por alguns minutos. Quando voltei... minha me estava ajoelhada
nas escadas de pedra, se abraando e chorando. Ela disse -- ela disse que voc havia

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partido. Ela disse que Hera lhe reclamou e voc era to bom quanto morto. Eu no sabia
o que ela fizera. Eu tive medo que ela perdesse a cabea completamente. Eu corri por
todo o lugar lhe procurando, mas voc simplesmente sumiu. Ela teve que me arrastar
para longe, chutando e gritando. Pelos dias seguintes eu estava histrica. Eu no lembro
de tudo, mas chamei palcio para mame e eles a questionaram por um longo tempo.
Mais tarde, brigamos. Ela me disse que eu a tra, que eu deveria ajud-la, como se ela
fosse a nica que se importava. Finalmente no pude aguentar. Seu desaparecimento foi
a gota d'gua. Eu fugi, e nunca voltei, nem mesmo quando a mame morreu alguns
anos depois. Pensei que voc havia partido para sempre. Eu nunca contei a ningum
sobre voc -- nem Annabeth ou Luke, meus dois melhores amigos. Foi simplesmente
muito doloroso."

      "Quron sabia." A voz de Jason soava distante. "Quando cheguei ao
acampamento, ele olhou uma vez para mim e disse, `Voc deveria estar morto.'"

       "Isso no faz sentido," Thalia insistiu. "Eu nunca contei para ele."

      "Ei," Leo disse. "A coisa importante  que vocs tm um ao outro agora, certo?
Vocs dois tm sorte."

       Thalia assentiu. "Leo tem razo. Olhe para voc. Voc  da minha idade. Voc
tem crescido."

       "Mas onde estive?" Jason disse. "Como eu poderia estar desaparecido por todo
esse tempo? E as coisas romanas..."

       Thalia franziu a testa. "As coisas romanas?"

        "Seu irmo fala latim," Leo disse. "Ele chama os deuses pelos seus nomes
romanos, e ele tem tatuagens." Leo apontou para as marcas no brao de Leo. Ento ele
deu a Thalia o resumo sobre as outras coisas estranhas que aconteceram: Breas se
transformando em quilo, Licao chamando Jason de "um filho de Roma," e o lobos
voltarem para fora quando Jason falou latim com eles.

       Thalia puxou a corda do arco. "Latim. Zeus falava em latim s vezes, na segunda
vez que ficou com a mame. Como disse, ele pareceu diferente, mais formal."

       "Voc acha que ele estava no seu aspecto romano?" Jason perguntou. "E por
isso que eu penso em mim como um filho de Jpiter?"

       "Possivelmente," Thalia disse. "Eu nunca ouvi falar de algo assim acontecendo,
mas pode explicar porque voc pensa em termos romanos, porque voc pode falar latim
melhor que grego antigo. Isso lhe faria nico. Ainda assim, no explica como voc
sobreviveu sem o Acampamento Meio-Sangue. Um filho de Zeus, ou Jpiter, ou como
voc quiser cham-lo -- teria sido caado por monstros. Se ficasse por si prprio, voc

                                           294
deveria ter morrido anos atrs. Eu sei que eu no teria sido capaz de sobreviver sem
amigos. Voc precisaria de treinamento, um abrigo seguro --"

         "Ele no estava sozinho," Leo falou sem pensar. "Ouvimos sobre outros como
ele."

         Thalia olhou para ele estranhamente. "O que voc quer dizer?"

       Leo lhe contou sobre a camisa roxa cortada no shopping de Medeia, e a histria
que os ciclopes contaram sobre o filho de Mercrio que falava latim.

       "No tem mais algum lugar para semideuses?" Leo perguntou. "Digo, alm do
Acampamento Meio-Sangue? Talvez algum professor louco de latim tenha estado
abduzindo crianas dos deuses ou alguma coisa, os fazendo pensar como romanos."

       Assim que disse isso, Leo percebeu como a ideia parecia estpida. Os
deslumbrantes olhos azuis de Thalia o estudaram atentamente, fazendo ele se sentir um
suspeito numa fila.

       "Eu estive por todo o pas," refletiu Thalia. "Eu nunca vi evidncia de um
professor louco de latim, ou semideuses com camisas roxas. Ainda assim..." Sua voz
morreu, como se tivesse acabado de lhe ocorrer um pensamento problemtico.

         "O qu?" Jason perguntou.

         Thalia balanou a cabea. "Terei que falar com a deusa. Talvez rtemis nos
guie."

       "Ela ainda est falando com vocs?" Jason perguntou. "A maioria dos deuses
entraram em silncio."

       "rtemis segue suas prprias regras," Thalia disse. "Ela tem que tomar cuidado
para no deixar Zeus saber, mas acha que Zeus est sendo ridculo fechando o Olimpo.
 ela que nos pe na trilha de Licao. Ela disse que encontraramos uma direo para
um amigo perdido nosso."

         "Percy Jackson," Leo sups. "O cara que Annabeth est procurando."

         Thalia assentiu, seu rosto cheio de preocupao.

       Leo quis saber se algum j pareceu to preocupado todas as vezes que ele
desaparecia. Ele meio que duvidou disso.

       "Ento o que Licao teria a ver com isso?" Leo perguntou. "E como isso se
conecta a ns?"



                                            295
      "Precisamos descobrir logo," Thalia admitiu. "Se o prazo de vocs  amanh,
estamos perdendo tempo. olo poderia lhes dizer --"

       A loba branca apareceu novamente na porta e ganiu insistentemente.

      "Eu tenho que ir." Thalia se levantou. "Entretanto perderei a trilha das outras
Caadoras. Primeiro, porm, vou levar vocs para o palcio de olo."

       "Se voc no puder, est tudo bem," Jason disse, embora soasse um pouco aflito.

       "Ah, por favor." Thalia sorriu e o ajudou a levantar. "Eu no tenho um irmo h
anos. Acho que posso suportar alguns minutos com voc antes de ficar chato. Agora,
vamos l!"




                                         296
                                           Captulo XXXVI

QUANDO LEO         VIU COMO    PIPER   E   HEDGE estavam sendo tratados bem, ele ficou
profundamente ofendido.

        Ele os imaginou congelando os traseiros na neve, mas a Caadora Phoebe
montou esse pavilho de tenda prata bem do lado de fora da caverna. Como ela fez isso
to rpido, Leo no tinha ideia, mas dentro havia um aquecedor a querosene mantendo-
os aquecidos e um bando de travesseiros confortveis. Piper pareceria normal de novo,
coberta por um novo casaco, luvas e uma cala camuflada como uma Caadora. Ela e
Hedge e Phoebe estavam relaxando, bebendo chocolate quente.

       "Ah, no mesmo," Leo falou. "Ns estvamos sentados em uma caverna e vocs
ficam com a tenda de luxo? Algum me d hipotermia! Eu quero chocolate quente e um
casaco!"

          Phoebe fungou. "Garotos," ela falou como se fosse o pior insulto em que podia
pensar.

       "Est tudo bem, Phoebe," disse Thalia. "Eles vo precisar de casacos extras. E
acho que podemos compartilhar algum chocolate."

       Phoebe resmungou, mas logo Leo e Jason tambm estavam vestindo roupas de
inverno prateadas que eram incrivelmente leves e quentes. O chocolate quente era de
primeira.

        "Sade," disse o Treinador Hedge. Ele mastigou e engoliu seu copo trmico de
plstico.

          "Isso no pode ser bom para seus intestinos," disse Leo.

          Thalia deu tapinhas nas costas de Piper. "Est bem para irmos?"

       Piper assentiu. "Graas a Phoebe, sim. Vocs so mesmo muitos boas nessa
coisa de sobrevivncia na selva. Eu poderia correr 20 quilmetros."

          Thalia piscou para Jason. "Ela  durona para uma filha de Afrodite. Gostei
dessa."


                                              297
       "Ei, eu poderia correr 20 quilmetros tambm," Leo se voluntariou. "Filho duro
de Hefesto aqui. Manda ver."

       Naturalmente, Thalia o ignorou.

       Phoebe levou exatamente 6 segundos para desmontar o acampamento, no que
Leo no podia crer. A tenda se encolheu em um quadrado do tamanho de uma caixinha
de chicletes. Leo queria pedir para ela a planta, mas eles no tinham tempo.

         Thalia correu montanha acima pela neve, seguindo um pequeno caminho pela
lateral, e logo Leo lamentava tentar parecer o valento, porque as Caadoras o estavam
fazendo comer poeira.

       O Treinador Hedge estava saltitando em volta como uma feliz cabra montesa,
adulando-os como costumava fazer em dia de trilha na escola. "Vamos, Valdez! Acerte
o passo! Vamos cantar. Eu tenho uma garota em Kalamazoo --"

       "No vamos no," Thalia rebateu.

       Ento, correram em silncio.

       Leo ficou para trs ao lado de Jason, no fim do grupo. "Como est indo, cara?"

       A expresso de Jason foi suficiente para responder: Nada bem.

       "Thalia leva isso to bem," Jason disse "Como se no fosse grande coisa eu ter
aparecido. Eu no sei o que eu esperava, mas... ela no  como eu. Ela parece bem mais
integrada."

      "Ei, ela no est lutando com a amnsia," Leo falou. "E outra, ela teve mais
tempo para se habituar a essa coisa toda de semideus. Voc luta com monstros e fala
com os deuses, provavelmente se acostuma s surpresas."

       "Talvez," Jason respondeu. "Eu s queria entender o que aconteceu quando eu
tinha dois anos, porque minha me se livrou de mim. Thalia fugiu por minha causa."

      "Ei, seja l o que aconteceu, no foi sua culpa. E sua irm  muito legal. Ela 
bem parecida com voc."

        Jason ficou em silncio. Leo se perguntou se havia dito as palavras certas. Ele
queria fazer Jason se sentir melhor, mas isso estava fora da sua zona de conforto.

        Leo desejou poder enfiar a mo em seu cinto de ferramentas e pegar justamente
a que consertaria a memria de Jason -- talvez um martelo pequeno -- bater no lugar
certo e talvez tudo funcionasse direito. Isso seria muito mais fcil que tentar conversar
sobre o assunto. No sou bom com as formas de vida orgnica. Obrigado pelos traos
herdados, pai.

                                          298
       Ele estava to perdido em pensamentos que no percebeu que as Caadoras
haviam parado. Ele se chocou contra Thalia e quase os mandou montanha abaixo pelo
caminho mais difcil. Felizmente, a Caadora era boa com os ps. Ela firmou aos dois, e
ento apontou para o alto.

       "Isso sim," Leo engasgou-se, " uma pedra muito grande."

        Eles estavam perto do topo do Peaks Pike. Abaixo deles o mundo estava coberto
por nuvens. O ar era to rarefeito que Leo mal conseguia respirar. A noite j tinha cado,
mas uma grande lua cheia brilhava e as estrelas estavam incrveis. Se estendendo ao
norte e ao sul, picos de outras montanhas surgiam entre as nuvens, como ilhas -- ou
dentes.

        Mas o show de verdade estava acima deles. Pairando no cu, a cerca de meio
quilmetro de distncia, estava uma enorme ilha flutuante de uma brilhante pedra roxa.
Era difcil julgar seu tamanho, mas Leo percebeu que era to grande quanto um estdio
de futebol e to alta quanto. As laterais eram de rochedos speros, crivados de cavernas,
e de vez em quando uma raja da de vento escapava, com um toque de rgo. No topo da
rocha, muros de bronze rodeavam uma espcie de fortaleza.

       A nica coisa ligando o topo do Peaks Pike para rocha flutuante era uma estreita
ponte de gelo que brilhava ao luar.

        Ento Leo percebeu que a ponte no era exatamente feita de gelo, porque no era
slida. Tal qual os ventos mudavam de direo, a ponte serpenteava -- borrando e
afinando, em alguns pontos at mesmo quebrando em uma linha pontilhada, como o
rastro de vapor de um avio.

       "Ns no vamos mesmo atravessar isso," Leo disse.

        Thalia deu ombro. "Eu no sou uma grande f de altura, admito. Mas se voc
quiser chegar a fortaleza de olo, esse  o nico jeito."

       "A fortaleza sempre fica pairando l?" Piper perguntou. "Como as pessoas no
percebem isso no topo do Peaks Pike?"

      "A nvoa," Thalia respondeu. "Ainda assim, os mortais a notam indiretamente.
Tem dias que o Peaks Pike parece roxo. As pessoas dizem que  um truque da luz, mas
em verdade  o palcio de olo, refletindo no Monte."

       " enorme," disse Jason.

       Thalia riu. "Voc deveria ver o Olimpo, maninho."

       "Voc t falando srio? Esteve l?"


                                           299
       Thalia fez uma careta, como se no fosse uma boa recordao. "Ns devemos
atravessar em dois grupos. A ponte  frgil."

      "Isso  tranquilizador," Leo disse. "Jason, voc no pode simplesmente nos levar
voando?"

       Thalia riu. Ento pareceu notar que a pergunta de Leo no era uma piada.
"Espere... Jason, voc pode voar?"

        Jason encarou a Fortaleza flutuante. "Bem, mais ou menos.  mais como se eu
controlasse o vento. Mas os ventos aqui em cima so to fortes que no sei se quero
tentar. Thalia, quer dizer que... voc no pode voar?"

       Por um segundo, Thalia pareceu genuinamente assustada. Ento ela controlou
novamente sua expresso. Leo percebeu que ela tinha bem mais medo de altura do que
deixava transparecer.

          "Sinceramente," ela disse, "eu nunca tentei. Talvez seja melhor nos atermos a
ponte."

        Treinador Hedge bateu no vapor de gelo com o casco, ento pulou para a ponte.
Surpreendentemente, ela suportou seu peso. "Moleza! Eu vou primeiro! Piper, vamos l,
garota. Eu te dou uma mo."

        "No, est tudo bem," Piper comeou a dizer, mas o treinador segurou sua mo e
a iou pra a ponte.

          Quando eles estavam quase na metade, a ponte continuou segurando-os bem.

        Thalia se virou para sua amiga Caadora. "Phoebe, eu volto logo. V achar as
outras. Diga a elas que estou bem."

       "Tem certeza?" Phoebe estreitou os olhos para Leo e Jason, como se eles fossem
sequestrar Thalia ou algo do tipo.

          "Est tudo bem," Thalia prometeu.

       Phoebe concordou, relutante, e depois desceu correndo pelo caminho do Monte,
os lobos brancos no seu encalo.

       "Jason, Leo, s tomem cuidado onde pisam," Thalia falou. "Ela quase nunca
quebra."

          "Ela no me conheceu ainda," Leo murmurou, mas ele e Jason caminharam pela
ponte.



                                              300
No meio da subida, as coisas deram errado, e  claro que a culpa era de Leo. Piper e
Hedge j estavam so e salvos no topo, acenando para eles, encorajando-os a continuar
subindo, mas Leo se distraiu. Ele estava pensando em pontes -- como ele projetaria
algo bem mais estvel que negcio de vapor mvel de gelo, se esse fosse o seu palcio.
Ele ponderava sobre corrimes e colunas de suporte. Em seguida, uma revelao sbita
parou sua linha de pensamento.

       "Por que eles tm uma ponte?" ele questionou.

       Thalia franziu o cenho. "Leo, este no  um bom lugar para parar. O que voc
quer dizer?"

       "Eles so espritos do vento," Leo disse. "No podem voar?"

      "Sim, mas em algumas ocasies eles precisam de uma forma de se ligar ao
mundo abaixo."

       "Ento a ponte no fica sempre aqui?" Leo perguntou.

       Thalia balanou a cabea. "Os espritos de vento no gostam de se ancorar a
terra, mas algumas vezes  necessrio. Como agora. Eles sabe que vocs esto
chegando."

        A mente de Leo estava a mil. Ele estava to empolgado que ele quase podia
sentir sua temperatura corporal aumentando. Ele no podia botar seus pensamentos em
palavras, mas ele sabia que estava chegando a algo importante.

       "Leo?" Jason falou. "No que est pensando?"

       "Oh, deuses" Thalia disse. "Continue andando. Olhe para seus ps."

        Leo recuou. Com horror, percebeu que sua temperatura realmente estava
aumentando, tal como tinha acontecido anos atrs, na mesa de piquenique debaixo de
uma noz-pec, quando sua ira fugiu ao controle. Agora, a empolgao estava causando a
mesma reao. Suas calas soltavam vapor no ar frio. Seus sapatos estavam,
literalmente, fumegando, e a ponte no gostou. O gelo estava afinando.

       "Leo, pare com isso," Jason avisou. "Voc vai derret-la."

        "Vou tentar," Leo disse. Mas seu corpo estava superaquecendo sozinho, indo to
rpido quanto seus pensamentos. "Escuta, Jason, de que Hera te chamou naquele sonho?
Ela falou que voc era uma ponte."

       "Leo, srio, esfria," Thalia disse. "No sei do que est falando, mas a ponte est
--"



                                          301
       "Apenas escutem," Leo insistiu. "Se Jason for uma ponte, o que ele est
conectando? Talvez dois lugares diferentes que normalmente no tm contato -- como
o palcio no ar e o cho. Voc tinha que estar em algum lugar antes disso, certo? E Hera
falou que voc era uma troca."

       "Uma troca." Os olhos de Thalia se arregalaram. "Ah, deuses."

       Jason franziu o cenho. "Do que vocs dois esto falando?"

       Thalia murmurou algo como uma orao. "Eu entendo agora porque rtemis me
mandou aqui. Jason -- ela me falou para caar Licao e que eu encontraria uma pista
sobre Percy. Voc  a pista. rtemis queria que nos encontrssemos para que eu pudesse
ouvir sua histria."

       "Eu no entendo," ele protestou. "Eu no tenho uma historia. Eu no me lembro
de nada."

       "Mas Leo est certo," Thalia disse. "Est tudo ligado. Se ns apenas
soubssemos onde --"

      Leo estalou os dedos. "Jason, como voc chamou aquele lugar no seu sonho?
Aquela casa em runas. A Casa dos Lobos?"

       Thalia quase se engasgou. "A Casa dos Lobos? Jason, porque voc no me
contou! Esse  o lugar onde esto mantendo Hera?"

       "Voc sabe onde fica?" Jason perguntou.

        Em seguida, a ponte se dissolveu. Leo teria cado para a morte, mas Jason
segurou sua capa e o puxou em segurana. Os dois escalaram a ponte e, quando se
viraram, Thalia estava do outro lado de um abismo de nove metros. A ponte continuava
a derreter.

        "Vo!" Thalia gritou, recuando na ponte enquanto ela se desintegrava.
"Descubra onde o gigante est mantendo o pai de Piper. Salvem-no! Eu vou levar as
Caadoras para a Casa do Lobo e retard-los at que vocs cheguem. Ambos podemos
fazer!"

       "Mas onde  a Casa do Lobo?" Jason gritou de volta.

        "Voc sabe onde , maninho!" Ela estava to distante agora que eles mal podiam
ouvir sua voz sobre o vento. Leo tinha quase certeza de que ela tinha dito: "Vejo vocs
l. Eu prometo."

       Ento ela se virou e correu pela ponte em dissoluo.



                                          302
       Leo e Jason no tiveram tempo para ficar l. Eles escalaram por suas vidas, o
gelo afinando sob seus ps. Vrias vezes Jason agarrou Leo e usou os ventos para
mant-los no alto, mas parecia mais bungee jump que voo.

        Quando chegaram  ilha flutuante, Piper e Treinador Hedge os colocaram a
bordo assim que o final da ponte de vapor se dissolveu. Eles tentaram recuperar o
flego na base de uma escadaria de pedra esculpida ao lado do penhasco, levando at a
fortaleza.

      Leo olhou para baixo. O topo do Peaks Pike flutuava abaixo deles em um mar de
nuvens, mas nem sinal de Thalia.

       "O que aconteceu?," Piper exigiu. "Leo, por que suas roupas esto fumegando?"

       "Eu me esquentei um pouco," ele cuspiu. "Desculpe, Jason. Honestamente. Eu
no --"

       "Est tudo bem," Jason disse, mas sua expresso era sombria. "Ns temos menos
de vinte e quatro horas para resgatar uma deusa e o pai de Piper. Vamos ver o rei dos
ventos."




                                        303
Captulo XXXVII
JASON   ENCONTROU SUA IRM E       a perdeu em menos de uma hora. Enquanto eles
escalavam os rochedos da ilha flutuante, ele continuou olhando para trs, mas Thalia
havia partido.

        Apesar do que ela dissera sobre encontr-lo novamente, Jason ficou se
questionando. Ela encontrou uma nova famlia com as Caadoras, e uma nova me em
rtemis. Ela parecia to confiante e confortvel com a vida que Jason no tinha certeza
se ele um dia seria parte dela. E ela parecia to decidida em encontrar seu amigo Percy.
Ela j procurara por Jason desse jeito?

        No  justo, ele falou para si. Ela pensou que voc estava morto.

        Ele mal podia tolerar o que ela dissera sobre sua me. Era quase como se Thalia
tivesse lhe passado um beb -- um beb realmente barulhento e feio -- e dito, Aqui,
esse  seu. Carregue. Ele no queria carreg-lo. Ele no queria olhar para ele ou lhe
sustentar. Ele no queria saber que tinha uma me instvel que havia se desfeito dele
para satisfazer uma deusa. No admira que Thalia fugira.

        Ento ele se lembrou do chal de Zeus no Acampamento Meio-Sangue --
aquela alcova minscula que Thalia usara como beliche, fora da vista da esttua
carrancuda do deus do cu. O pai deles tambm no era muito de barganhar. Jason
entendeu porque Thalia renunciara aquela parte da sua vida tambm, mas ele ainda
estava ressentido. Ele no podia ter tanta sorte. Ele foi deixado segurando a mala --
literalmente.

       A mochila dourada de ventos estava alada aos seus ombros. Quanto mais perto
eles chegavam ao palcio de olo, mais pesada  mala ficava. Os ventos lutavam,
bramindo e colidindo.

       O nico que parecia estar num bom nimo era o Treinador Hedge. Ele
continuava pulando a escadaria escorregadia e trotando de volta para baixo. "Vamos,
bolinhos! S mais alguns mil degraus!"

        Enquanto subiam, Leo e Piper deixaram Jason no silncio. Talvez eles pudessem
sentir sua m disposio. Piper continuou olhando para trs, preocupada, como se
tivesse sido ele que quase morreu de hipotermia no ela. Ou talvez ela estivesse

                                           304
pensando sobre a idia de Thalia. Eles contaram o que Thalia dissera na ponte -- como
eles podiam salvar ambos seu pai e Hera -- mas Jason realmente no entendia como
eles iriam fazer isso, e ele no tinha certeza se a possibilidade deixara Piper mais
esperanosa ou s mais ansiosa.

        Leo continuou batendo nas prprias pernas, procurando sinais de que suas calas
estavam pegando fogo. Ele no estava mais fumegando, mas o incidente na ponte de
gelo realmente alucinara Jason. Leo no pareceu perceber que tinha fumaa saindo dos
ouvidos e chamas danando no seu cabelo. Se Leo comeasse espontaneamente a entrar
em combusto toda vez que ficava animado, seria desagradvel lev-lo para algum
lugar. Jason imaginou tentar pegar comida num restaurante. Eu quero um cheeseburguer
e -- Ahhh! Meu amigo est pegando fogo! D-me um balde!

       Na sua maioria, porm, Jason se preocupava sobre o que Leo disse. Jason no
queria ser uma ponte, ou uma troca, ou nada mais. Ele s queria saber de onde viera. E
Thalia pareceu to enervada quando Leo mencionou a casa arruinada nos seus sonhos
-- o lugar que a loba Lupa lhe contara que era seu ponto de partida. Como Thalia
conhecia aquele lugar, e por que ela assumiu que Jason poderia encontr-lo?

       A resposta parecia perto. Mas quanto mais perto Jason chegava, menos isso
cooperava, como os ventos nas suas costas.

       Finalmente eles chegaram ao topo da ilha. Paredes de bronze manchavam todo o
caminho ao redor da rea da fortaleza, embora Jason no pudesse imaginar quem
possivelmente atacaria esse lugar. Portes altos de seis metros se abriram para eles, e
uma estrada de pedra polida roxa liderava at a cidadela principal -- uma rotunda de
colunas brancas, estilo grego, como um dos monumentos em Washington, DC -- exceto
pelo grupo de antenas de satlite e torres de rdio no telhado.

       " bizarro," Piper disse.

      "Acho que voc no pode conseguir cabo numa ilha flutuante," Leo disse.
"Diabos, olha o jardim de frente desse cara."

        A rotunda ocupava o centro de um crculo de quatrocentos metros. A rea era
incrvel de um jeito assustador. Eles eram divididos em quatro sees como grandes
pedaos de pizza, cada um representando uma estao.

       A seo  direita deles era um deserto de gelo, com rvores nuas e um lago
congelado. Bonecos de neve rolavam na paisagem enquanto o vento soprava, ento
Jason no tinha certeza se eles eram decoraes ou estavam vivos.

        Na esquerda deles estava um parque de outono com rvores douradas e rubras.
Montculos de folhas sopravam em padres -- deuses, pessoas, animais que corriam um
atrs do outro antes de se espalharem de volta em folhas.

                                         305
         distncia, Jason podia ver mais duas reas atrs da rotunda. Uma parecia um
pasto verde com carneiros fingidos de nuvens. A ltima seo era um deserto onde
salsolas rabiscavam formas estranhas na areia como letras gregas, rostos sorridentes, e
uma grande propaganda que se lia: assista olo  noite!

       "Uma seo para cada um dos quatro deuses do vento," Jason sups. "Quatro
direes cardinais."

       "Estou amando aquele pasto." O Treinador Hedge lambeu os beios. "Vocs se
importam --"

       "V em frente," Jason disse. Ele estava realmente aliviado de expedir o stiro.
Seria suficientemente difcil ir para o lado bom de olo sem o Treinador Hedge brandir
sua clava e gritar, "Morra!"

       Enquanto o stiro corria para atacar a primavera, Jason, Leo, e Piper desceram a
estrada para as escadas do palcio. Eles atravessaram as portas da frente num saguo
branco de mrmore decorado com estandartes roxos que se liam canais de clima
olimpianos, e alguns que s se liam ei!

       "Ol!" Uma mulher flutuou para eles. Literalmente flutuou. Ela era linda
naquela forma lfica que Jason associou com os espritos da natureza no Acampamento
Meio-Sangue -- pequena, orelhas levemente pontudas, e um rosto sem idade que
poderia ter dezesseis ou trinta. Seus olhos castanhos brilhavam alegremente. Mesmo
que no houvesse vento, seu cabelo soprava num movimento lento, no estilo de
comercial de xampu. Seu vestido branco se elevava em volta dela como material de
paraquedas. Jason no podia dizer se ela tinha ps, mas se tivesse, eles no tocavam o
cho. Ela tinha um tablet branco na sua mo. "Voc  do Lorde Zeus?" perguntou.
"Estvamos te esperando."

        Jason tentou responder, mas era um pouco difcil pensar claramente, porque ele
percebeu que podia ver atravs da mulher. Sua forma ficava forte e fraca como se fosse
feita de nvoa.

       "Voc  um fantasma?" ele perguntou.

        Imediatamente ele soube que a insultou. O sorriso virou um beio espichado.
"Eu sou uma aura, senhor. Uma ninfa do vento, como voc poderia esperar, trabalhando
para o senhor dos ventos. Meu nome  Mellie. Ns no temos fantasmas."

       Piper foi ao resgate. "No,  claro que no! Meu amigo simplesmente te
confundiu com a Helena de Troia, a mortal mais bonita de todos os tempos.  um
equvoco fcil."



                                         306
       Uau, ela era boa. O elogio pareceu um pouco fora do limite, mas a aura Mellie
corou. "Ah... bem, ento. Ento voc  de Zeus?"

       "Er," Jason disse, "eu sou o filho de Zeus, sim."

       "Excelente! Por favor, por aqui." Ela os levou por algumas portas de segurana
em outro saguo, consultando seu tablet enquanto flutuava. Ela no olhava para onde
estava indo, mas aparentemente no importava enquanto ela flutuava direto por uma
coluna de mrmore sem problemas. "Estamos fora do tempo primrio agora, ento 
bom," ela refletiu. "Eu posso encaixar vocs na direita antes da sua posio 11:12."

       "H, ok," Jason disse.

       O saguo era um lugar bastante distrativo. Ventos explodiam ao redor deles,
assim Jason sentiu como se estivesse se empurrando numa multido invisvel. As portas
sopraram, abrindo, e bateram sozinhas.

       As coisas que Jason via eram mais bizarras ainda. Avies de papel de todos os
tamanhos e formas aceleravam em volta, e as outras ninfas do vento, aurai,
ocasionalmente os arrancavam do ar, os desdobravam e os liam, ento os jogavam de
volta no ar, onde os avies se redobravam e continuavam voando.

       Uma criatura feia passou flutuando. Ela parecia  mistura de uma velha e uma
galinha em esterides. Ela tinha um rosto enrugado com cabelo preto amarrado numa
toca, braos como um humano com asas como uma galinha, e um corpo gordo
emplumado com garras no lugar dos ps. Era incrvel que ela tambm podia voar. Ela
continuava andando ao redor e se chocando em coisas como um balo de cortejo.

       "No  uma aura?" Jason perguntou para Mellie enquanto a criatura se agitava.

       Mellie riu. " uma harpia,  claro. Nossas, er, meias-irms feitas, acho que vocs
diriam. Vocs no tm harpias no Olimpo? Elas so espritos de rajadas de vento
violentas, diferentes das aurai. Somos todas brisas gentis."

       Ela piscou os olhos para Jason.

       "Claro que so," ele disse.

       "Ento," Piper sugeriu, "voc estava nos levando para ver olo?"

      Mellie os levou atravs de um conjunto de portas como uma cmara de
compresso. Sobre a porta interior, uma luz verde piscou.

      "Temos alguns minutos antes dele comear," Mellie disse alegremente. "Ele
provavelmente no matar vocs se entrarmos agora. Venham comigo!"



                                          307
                                      Captulo XXXVIII

O   QUEIXO DE   JASON CAIU. A    SEO CENTRAL   da fortaleza de olo era to grande
quanto uma catedral, com o formidvel teto copulado coberto em prata. Equipamentos
de televiso flutuavam aleatoriamente no ar -- cmeras, refletores, peas de cenrio,
plantas em vaso. E no tinha cho. Leo quase caiu dentro do abismo antes de Jason
pux-lo de volta.

        "Santo --!" Leo engoliu em seco. "Ei, Mellie. Um pequeno aviso na prxima
vez!"

        Uma enorme cratera circular mergulhava no corao do Monte. Tinha
provavelmente oitocentos metros de profundidade, minada com cavernas. Alguns dos
tneis provavelmente levavam direto para fora. Jason se lembrava de ter visto os ventos
que sopram para fora deles quando estavam no Pikes Peak. Outras cavernas estavam
seladas com algum material brilhante como vidro ou cera. A caverna inteira alvoroava
com harpias, aurai, e avies de papel, mas para algum que no podia voar, isso seria
uma queda muito longa, muito fatal.

        "Oh, cus," Mellie engasgou. "Eu sinto muito." Ela pegou um Walkie-talkie de
algum lugar de dentro das roupas dela e falou nele: "Al, sets?  a Nuggets? Oi,
Nuggets. Voc poderia conseguir um piso no estdio principal, por favor? Sim, um
slido. Obrigada."

       Poucos segundos depois, um exrcito de harpias apareceu do abismo -- trs
dzias ou mais de moas galinhas demonacas, todas carregando quadrados de vrios
materiais de construo. Elas foram trabalhar martelando e colando -- e usando uma
larga quantidade de fita adesiva, o que no tranquilizava Jason. Em um momento houve
um piso improvisado serpenteando ao longo do abismo. Ele era feito de madeira, blocos
de mrmore, tapetes, cunhas de tapete de grama -- apenas sobre qualquer coisa.

        "Isso no pode ser seguro," Jason disse.

        "Ah, mas !" Mellie o assegurou. "As harpias so muito boas."


                                           308
        Fcil para ela falar. Ela atravessava sem tocar no cho, mas Jason decidiu que
ele tinha a melhor chance de sobreviver, j que ele podia voar ento ele pisou primeiro.
Incrivelmente, o cho aguentava.

       Piper agarrou a mo dele e o seguiu. "Se eu cair, voc vai me pegar."

       "H, claro." Jason esperava que ele no estivesse corando.

       Leo pisou depois. "Voc vai me pegar, tambm, Super Homem. Mas eu no vou
segurar a sua mo."

       Mellie os levou em direo ao meio da sala, onde uma esfera solta de cmeras de
vdeo flutuava em volta de um controle central. Um homem pairava dentro, checando
monitores e lendo mensagens de aviezinhos de papel.

        O homem no prestou ateno quando Mellie os trouxe avante. Ela empurrou
uma televiso Sony de quarenta e duas polegadas para fora do seu caminho e os levou
para a rea de controle.

       Leo assobiou. "Eu tenho que conseguir uma sala como essa."

       As telas flutuantes mostravam todos os tipos de programas de televiso. Alguns
Jason reconhecia -- transmisses de notcias, principalmente -- mas alguns programas
pareciam um pouco estranho: lutas de gladiadores, semideuses batalhando com
monstros. Talvez fossem filmes, mas eles pareciam mais como reality shows.

      O final da esfera era um pano de fundo de seda azul como uma tela de cinema,
com cmeras e luzes de estdio flutuando em volta.

       O homem no centro estava falando em um pedao de orelha como fone. Ele
tinha um controle remoto em cada mo e estava apontando-os para vrias telas,
aparentemente de forma aleatria.

        Ele vestia um terno que parecia com o cu -- principalmente azul, mas
manchado com nuvens que mudavam, escureciam e se moviam ao redor do tecido. Ele
parecia estar entre os seus sessenta anos, com um cabelo branco chocante, mas ele tinha
uma tonelada de maquiagem, e aquela aparncia de plstica no rosto, ento ele
aparentava no ser muito novo, no realmente velho, apenas errado -- como um
boneco que algum tinha jogado no microondas e derretido. Seus olhos disparavam de
tela em tela, como se ele estivesse tentando absorver tudo de uma s vez. Ele murmurou
coisas no seu telefone. Ele era divertido, ou louco, ou os dois.

       Mellie flutuou em frente a ele. "Ah, senhor, Sr. olo, esses semideuses --"

        "Espera!" Ele levantou uma mo para silenci-la, ento apontou para uma das
telas. "Olha!"

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       Era um daqueles programas de caador de tempestades, onde dirigem  procura
de emoo insana atrs de tornados. Enquanto Jason assistia, um jipe ia direto para
dentro de um funil de nuvem e foi atirado no cu.

         olo gritou de alegria. "O Canal do Desastre. As pessoas fazem isso de
propsito!" Ele se virou para Jason com um sorriso louco. "No  maravilhoso? Vamos
assistir de novo."

       "H, senhor," Mellie disse, "este  Jason, filho de --"

       "Sim, sim, eu lembro," olo disse. "Voc est de volta. Como foi?"

       Jason hesitou. "Desculpe? Eu acho que voc me confundiu --"

      "No, no, Jason Grace, no  voc? Foi -- o que -- ano passado? Voc estava
no caminho para lutar um monstro marinho, eu creio."

       "Eu -- eu no lembro."

       olo riu. "No deve ter sido um monstro muito bom! No, eu me lembro de cada
heri que vem at mim por ajuda. Odisseu -- Deuses, ele ancorou na minha ilha por um
ms! Ao menos voc s ficou por alguns dias. Agora, assista esse vdeo. Esses patos
sugam direto --"

       "Senhor," Mellie interrompeu. "Dois minutos para entrar no ar."

       "Ar!" olo exclamou. "Eu amo ar. Como eu estou? Maquiagem!"

       Imediatamente um pequeno tornado de escovas, costaneiras e bolas de algodo
desceram em olo. Eles o borravam no rosto em uma nuvem de fumaa em tons de pele
at que a sua colorao ficou ainda mais horrvel do que antes. Vento rodava atravs do
seu cabelo e deixou-o apontado para cima como uma rvore de natal coberta de geada.

      "Sr. olo." Jason abriu a mochila de ouro. "Ns trouxemos esses espritos de
tempestade perigosos."

       "Voc trouxe!" olo olhou para a mochila como isso fosse um presente de um f
-- algo que ele realmente no queria. "Bem, que legal."

       Leo cutucou ele, e Jason ofereceu a mochila. "Breas nos mandou captur-los
para voc. Ns esperamos que voc vai aceit-los e parar de -- voc sabe -- ordenar
matar semideuses."

       olo riu, e olhou incredulamente para Mellie. "Semideuses serem mortos -- eu
ordenei isso?"



                                          310
       Mellie checou o seu tablet. "Sim, senhor, quinze de setembro. `Espritos de
tempestade libertados pela morte de Tfon, semideuses serem tomados como
responsveis,' etc... sim, uma orden geral para todos serem mortos."

       "Ah, poxa," olo disse. "Eu s estava mal disposto. Anule essa ordem, Mellie, e
h, quem  o oficial de guarda -- Teriyaki? -- Teri, leve esses espritos de tempestade
para o bloco de clulas catorze E, sim?"

       Uma harpia apareceu do nada, agarrou o saco de ouro, e desceu para o abismo.

        olo sorriu para Jason. "Agora, me desculpe sobre o negcio de matar-ao-
avistar. Mas deuses, eu realmente estava furioso, no estava?" Seu rosto de repente
escureceu, e seu terno fez o mesmo, as lapelas piscando com relmpagos. "Sabe... Eu
lembro agora. Quase parecia como uma voz que estava me dando aquelas ordens. Uma
pequena picada glida na parte de trs da minha nuca."

        Jason ficou tenso. Uma pequena picada glica na parte de trs da nuca... Por que
isso soava to familiar? "Uma... hm, voz na sua mente, senhor?"

       "Sim. Que estranho. Mellie, ns deveramos mat-los?"

      "No, senhor," ela disse pacientemente. "Eles nos trouxeram espritos de
tempestade, o que deixa tudo bem."

      "Claro." olo riu. "Desculpem. Mellie, vamos mandar algo legal para os
semideuses. Uma caixa de chocolate, talvez."

       "Uma caixa de chocolate para todos os semideuses no mundo, senhor?"

       "No, muito caro. No importa. Espere, est na hora! Eu estou ao vivo!"

      olo voou para frente da tela azul enquanto uma nova seleo de msica
comeou a tocar.

       Jason olhou para Piper e Leo, que pareciam to confuso quanto ele estava.

       "Mellie," ele disse, "ele ... sempre assim?"

       Ela sorriu timidamente. "Bem, voc sabe o que eles dizem. Se voc no gosta do
humor dele, espere cinco minutos. Aquela expresso `de qualquer maneira o vento
sopra' -- essa foi baseada nele."

       "E aquela coisa sobre o monstro marinho," Jason disse. "Eu estive aqui antes?"

       Mellie corou. "Me desculpe, eu no lembro. Eu sou a nova assistente do Sr.
olo. Eu estive com ele mais do que a maioria, mas ainda -- no tanto tempo."

       "Quanto tempo duram as assistentes dele?" Piper perguntou.
                                           311
       "Ah..." Millie pensou por um momento. "Eu estive fazendo isso por... doze
horas?"

      Uma voz bradou dos alto-falantes flutuantes: "E agora, o clima a cada doze
minutos! Aqui esta o seu prognstico para o clima olimpiano -- o Canal EI! -- olo!"

        Luzes brilhavam em olo, que estava agora na frente da tela azul. Seu sorriso
era de um branco no natural, e ele parecia que tinha tanta cafena no rosto que estava
prestes a explodir.

        "Al, Olimpo! olo, mestre dos ventos aqui, com o clima a cada doze! Teremos
um sistema de baixa presso que se desloca sobre a Flrida hoje, ento espere
temperaturas mais amenas desde que Demter pretende poupar os citricultores!" Ele
gesticulou para a tela azul, mas quando Jason checou os monitores, ele viu que uma
imagem digital estava sendo projetada atrs de olo, ento parecia como se ele estivesse
em frente do mapa dos Estados Unidos com sorrisos animados de sois e nuvens de
tempestades. "Ao longo do litoral oriental -- oh, espere." Ele bateu no fone de ouvido.
"Desculpa, nativos! Poseidon est bravo com Miami hoje, ento parece que a geada na
Florida est de volta! Desculpa, Demter. No centro-oeste, eu no tenho certeza o que
St. Louis fez para ofender Zeus, mas voc pode esperar tempestades de inverno! Breas
est sendo chamado para punir essa rea com gelo. Ms notcias, Missouri! No, espere.
Hefesto sente pena do centro de Missouri, ento vocs todos tero muito mais
temperaturas moderadas e cus ensolarados."

       olo continuou com isso -- previses para cada rea do pas e ele as mudava
duas ou trs vezes que ele recebia mensagens pelo fone de ouvido -- os Deuses
aparentemente diziam vrias ordens de ventos e de clima.

         "Isso no pode estar certo," Jason sussurrou. "O clima no  para ser assim."

        Millie sorriu. "E com quanta frequencia o homem do tempo mortal est certo?
Eles falam sobre as frentes e presso do ar e umidade, mas o clima os surpreende todo o
tempo. Ao menos olo nos diz o porqu dele ser to imprevisvel. Trabalho muito duro,
tentando satisfazer todos os deuses de uma s vez.  o bastante para dirigir qualquer
um..."

         Ela parou, mas Jason sabia que ela queria dizer. Louco. olo era completamente
louco.

       "E esse  o clima," olo concluiu. "Vejo vocs em doze minutos, porque eu
tenho certeza que isso vai mudar!"

        As luzes apagaram, os monitores de vdeo voltaram para a cobertura aleatria, e
s por um momento, o rosto de olo cedeu para o cansao. Ento ele se lembrou que
tinha convidados, e ele botou o sorriso de volta.

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      "Ento, vocs me trouxeram alguns espritos de tempestade," olo disse. "Eu
suponho... Obrigado! E vocs querem mais alguma coisa? Eu suponho que sim.
Semideuses sempre querem."

       Mellie disse, "Hm, senhor, este  o filho de Zeus."

       "Sim, sim. Eu sei disso. Eu disse que lembrava dele antes."

       "Mas, senhor, eles esto aqui do Olimpo."

       olo parecia pasmo. Ento ele riu to repentinamente que Jason quase pulou
dentro do abismo. "Voc querer dizer que est em nome do seu pai desta vez?
Finalmente! Eu sabia que eles iriam mandar algum renegociar o meu contrato!"

       "H, o que?" Jason perguntou.

       "Ah, graas aos deuses!" olo suspirou em alvio. "Faz o que, trs mil anos
desde que Zeus me nomeou mestre dos ventos. No que eu seja ingrato, claro! Mas
realmente, o meu contrato  to vago. Obviamente eu sou imortal, mas `mestre dos
ventos.' O que isso significa? Eu sou um esprito da natureza? Um semideus? Um deus?
Eu quero o deus dos ventos, porque os benefcios so to melhores. Ns podemos
comear com isso?"

       Jason olhou para os seus amigos, mistificado.

       "Cara," Leo disse, "voc acha que viemos aqui te promover?"

        "Vocs esto, ento?" olo sorriu. Seu terno se tornou completamente azul --
nenhuma nuvem no tecido. "Maravilha! Quero dizer, eu acho que mostrei um pouco de
iniciativa com o canal do tempo, hein? E  claro que eu estou na imprensa o tempo todo.
Tantos livros foram escritos sobre mim: No Ar Rarefeito, Amor sem Escalas, E o vento
Levou --"

       "Er, eu no acho que eles sejam sobre voc," Jason disse, antes de notar Mellie
sacudindo a cabea.

       "Absurdo," olo disse. "Mellie, eles so biografias minhas, no so?"

       "Absolutamente, senhor," ela guinchou.

       "Viu? Eu no leio. Quem tem tempo? Mas obviamente os mortais me amam.
Ento, ns vamos mudar meu ttulo para deus dos ventos. Ento, sobre salrio e essas
coisas --"

       "Senhor," Jason disse, "Ns no somos do Olimpo."

       olo piscou. "Mas --"

                                          313
       "Eu sou filho de Zeus, sim," Jason disse, "mas ns no estamos aqui para
renegociar o seu contato. Ns estamos em uma misso e precisamos da sua ajuda."

       A expresso de olo se endureceu. "Como na ltima vez? Como todos os heris
que veem aqui? Semideuses!  sempre sobre vocs, no ?"

       "Senhor, por favor, eu no lembro da ltima vez, mas se voc me ajudou uma
vez antes..."

       "Eu estou sempre ajudando! Bem, s vezes eu estou destruindo, mas
principalmente estou ajudando, e s vezes eu sou mandado a fazer os dois ao mesmo
tempo! Por que, Enias, o primeiro da sua espcie --"

         "Minha espcie?" Jason perguntou. "Voc quer dizer, semideuses?"

       "Ah, por favor!" olo disse. "Quero dizer a sua linha de semideuses. Voc sabe,
Enias, filho de Vnus -- o nico heri sobrevivente de Troia. Quando os gregos
queimaram a sua cidade, ele fugiu para a Itlia, onde fundou o reinado que
eventualmente se tornou Roma, bl, bl, bl. Isso  o que eu quero dizer."

         "No entendi," Jason admitiu.

        olo revirou os olhos. "O ponto , eu fui jogado no meio desse conflito,
tambm! Juno chama: `Ah, olo, destrua o barco de Enias para mim. Eu no gosto
dele.' Ento Netuno diz, `No, no destrua! Esse  o meu territrio. Acalme os ventos.'
Ento Juno  como, `No, afunde seus navios, ou ento eu vou contar a Jpiter que voc
no colabora!' Voc acha que  fcil fazer malabarismo com pedidos como aqueles?"

         "No," Jason disse. "Eu acho que no."

       "E no queira que eu comece com Amelia Earhart! Eu ainda estou recebendo
ligaes furiosas do Olimpo sobre jogar ela para fora do cu!"

      "Ns s queremos informaes," Piper disse com a sua voz mais calma. "Ns
ouvimos que voc sabe de tudo."

        olo ajeitou a gola e parecia um pouco amolecido. "Bem... isso  verdade, claro.
Por exemplo, eu sei que esse negcio aqui" -- ele sacudiu os dedos para os trs --
"Esse plano desajeitado de Juno trazer vocs todos  mais como um derramamento de
sangue. J para voc, Piper McLean, eu sei que seu pai est em srios problemas." Ele
estendeu a mo e um pedao de papel flutuou para as suas mos. Era uma foto de Piper
com um cara que devia ser o seu pai. Seu rosto parecia familiar. Jason tinha certeza que
j vira ele em alguns filmes.

         Piper pegou a foto. Suas mos estavam tremendo. "Isso -- isso  da carteira
dele."

                                          314
      "Sim," olo disse. "Todas as coisas perdidas no vento eventualmente vem para
mim. A foto se afastou quando o Terrestre o capturou."

        "Quem?" Piper perguntou.

      olo deixou de lado a questo e estreitou os olhos para Leo. "Agora, voc, filho
de Hefesto... sim, eu vejo o seu futuro." Outro papel caiu nas mos do deus dos ventos
-- um antigo desenho esfarrapado feito com giz de cera.

        Leo o pegou como se isso pudesse ser revestido de veneno. Ele cambaleou para
trs.

        "Leo?" Jason disse. "O que  isso?"

       "Algo que eu -- eu desenhei quando era criana." Ele dobrou o desenho
rapidamente e colocou-o dentro do casaco. "... sim,  nada."

       olo riu. "Srio? S  a chave do sucesso! Agora, onde estvamos? Ah, sim,
vocs queriam informaes. Vocs tm certeza disso? s vezes informao pode ser
perigoso."

       Ele sorriu para Jason como se ele estivesse insinuando um desafio. Atrs dele,
Mellie balanou sua cabea em aviso.

        "Sim," Jason disse. "Ns precisamos encontrar o covil de Enclado."

     olo sorriu. "O gigante?" Por que vocs gostariam de ir l? Ele  horrvel! Ele
nem mesmo assiste o meu programa!"

       Piper segurou a foto. "olo, ele pegou o meu pai. Ns precisamos resgatar ele e
encontrar onde Hera  sendo mantida capturada."

        "Agora, isso  impossvel," olo disse. "At mesmo eu no posso ver isso, e
acredite em mim, eu tentei. Existe um vu mgico sobre a localizao de Hera -- muito
forte, impossvel de localizar."

        "Ela est em um local chamado a Casa dos Lobos," Jason disse.

       "Espere!" olo colocou uma mo na sua testa e fechou os olhos. "Eu estou
conseguindo algo! Sim, ela est em um lugar chamado a Casa dos Lobos! Tristemente,
eu no sei onde ."

      "Enclado sabe," Piper persistiu. "Se voc nos ajudar a ach-lo, ns
conseguiramos a localizao da deusa --"

      "Sim," Leo disse, se recuperando. "Se ns a salvarmos, ela ser muito grata a
vocs --"

                                          315
       "E Zeus poderia lhe promover," Jason finalizou.

      As sobrancelhas de olo subiram. "Uma promoo -- e tudo o que vocs
querem de mim  a localizao do gigante?"

       "Bem, se voc pudesse nos levar l, tambm," Jason emendou, "isso seria
timo."

       Mellie bateu as mos com empolgao. "Oh, ele poderia fazer isso! Ele
frequentemente envia ventos de ajuda --"

        "Mellie, quieta!" olo disse. "Eu tenho uma metade de uma mente para demiti-
la por deixar essas pessoas sob falsos pretextos."

       O rosto dela ficou plido. "Sim, senhor. Desculpe, senhor."

       "No foi culpa dela," Jason disse. "Mas sobre aquela ajuda..."

        olo inclinou sua cabea como se estivesse pensando. Ento Jason pensou que
ele estivesse ouvindo vozes no fone de ouvido.

        "Bem... Zeus aprova," olo murmurrou. "Ele diz... ele diz que seria melhor se
voc pudesse evitar salvando ela at depois do final de semana, porque ele tem uma
grande festa planejada -- Ei! Isso  a Afrodite gritanto com ele, lembrando-o que o
solstcio comea ao amanhecer. Ela diz que deveria ajud-los. E Hefesto... sim. Hmm.
Muito raro eles concordarem com algo. Espere..."

       Jason sorriu para os seus amigos. Finalmente, eles estavam tendo boa sorte. Seus
parentes divinos estavam ajudando eles.

       De volta para a entrada, Jason ouviu um arroto alto. O Treinador Hedge
apareceu com grama em todo o seu rosto. Mellie o viu vindo do cho improvisado e
prendeu a respirao. "Quem  aquele?"

      Jason sufocou uma tosse. "Aquele? Aquele  s o treinador Hadge. Uh, Gleeson
Hedge. Ele  o nosso..." Jason no tinha certeza de como cham-lo: professor, amigo,
problema?

       "Nosso guia."

       "Ele  to bode," Mellie murmurou.

       Atrs dela, Piper encheu as bochechas de ar, fingindo vomitar.

       "E a, pessoal?" Hedge trotou para mais perto. "Uau, lugar legal. Ah! Praas
com relvas."



                                          316
      "Treinador, voc acabou de comer," Jason disse. "E ns estamos usando a relva
como cho. Essa , ah, Mellie --"

       "Uma aura." Hedge sorriu atraentemente. "Linda como uma brisa de vero."

       Mellie corou.

       "E olo aqui est quase nos ajudando," Jason disse.

      "Sim," o lorde do vento murmurou. "Parece que sim. Vocs iro encontrar
Enclado no Monte Diablo."

       "Montanha do Diabo?" Leo perguntou. "Isso no parece bom."

        "Eu lembro desse lugar!" Piper disse. "Eu fui l uma vez com o meu pai.  ao
leste da baa de So Francisco."

     "A rea da Baa de novo?" O treinador balanou a cabea. "No  bom. No 
bom mesmo."

       "Agora..." olo comeou a sorrir. "Sobre lev-los l --"

       De repente seu rosto deu uma folga. Ele se inclinou e bateu no fone de ouvido
como se estivesse com defeito. Quando ele se endireitou novamente, seus olhos eram
selvagens. Apesar da maquiagem, ele parecia um homem velho -- um velho muito
assustado. "Ela no fala comigo em sculos. Eu no posso -- sim, sim eu entendo."

       Ele engoliu em seco, em relao a Jason como se tivesse de repente se tornado
uma barata gigante. "Sinto muito, filho de Jpiter. Novas ordens. Vocs todos tm que
morrer."

       Mellie rangiu. "Mas -- mas, senhor! Zeus disse para ajud-los. Afrodite,
Hefesto --"

       "Mellie!" olo insistiu. "Seu trabalho j esta por um fio. Alm do mais, existem
ordens que ultrapassam at mesmo os pedidos dos deuses, especialmente quando vem
de foras da natureza."

       "Ordens de quem?" Jason disse. "Zeus vai despedi-lo se no nos ajudar!"

        "Duvido." olo agitou o pulso e bem abaixo dele, a porta da cela abriu o buraco.
Jason podia ouvir espritos de tempestade gritando fora dela, em espiral na direo
deles, gritando por sangue.

       "At mesmo Zeus entende a ordem das coisas," olo disse. "E se ela est
acordando -- pelos deuses -- ela no pode estar enganada. Adeus, heris. Eu estou



                                          317
terrivelmente arrependido, mas eu tenho que fazer isso rpido. Estou de volta no ar em
quatro minutos."

        Jason pegou a sua espada. O treinador Hedge puxou o seu taco. A aura Mellie
gritou, "No!"

        Ela mergulhou em seus ps assim que os espritos de tempestade atingiram com
a fora de um furaco, soprando o cho aos pedaos, rasgando as amostras de mrmore,
carpete e linleo para o que deveria ter sido projteis letais, as vestias de Mellie se
espalharam como um escudo e absorveram o impacto do impacto. Os cinco deles
caram no abismo, e olo gritou por cima deles, "Mellie voc est to demitida!"

       "Rpido," Mellie gritou. "Filho de Zeus, voc tem algum poder sobre o ar?"

       "Um pouco!"

       "Ento me ajude, ou todos morrem!" Mellie pegou sua mo, e uma carga eltrica
passou pelo brao de Jason. Ele entendeu o que ela precisava. Eles tinham que controla
a sua queda e ir para um dos tneis abertos. Os espritos de tempestade estavam os
seguindo, fechando-se rapidamente, levando com eles uma nuvem de estilhaos.

       Jason pegou a mo de Piper. "Abrao grupal!"

      Hedge, Leo e Piper tentaram se amontoar juntos, se segurando em Jason e Mellie
enquanto eles caiam.

       "Isso NO  BOM!" Leo gritou.

       "Podem vir, sacos de gs!" Hedge gritou para os espritos de tempestade. "Eu
vou pulverizar vocs!"

       "Ele  magnfico," Mellie suspirou.

       "Concentrao?" Jason props.

       "Certo!" ela disse.

       Eles canalizaram o vento ento a queda foi mais como um tombo na rampa mais
prxima. Ainda, eles bateram dentro do tnel  uma velocidade dolorosa e foram
rolando uns sobre os outros em uma ventilao que no foi projetada para pessoas. No
havia nenhuma maneira de parar.

       As vestias de Mellie subiam ao seu redor, Jason e os outros se agarraram a ela
desesperadamente e eles comearam a desacelerar, mas os espritos de tempestade
gritavam dentro do tnel atrs deles.



                                         318
       "No consigo -- agentar -- muito," Mellie avisou, "Fiquem juntos! Quando o
vento acertar --"

       "Voc est indo bem, Mellie," Hedge disse. "Minha prpria me foi uma aura,
sabe. Ela no poderia ter feito melhor."

         "Me manda uma Mensagem de ris?" Mellie pediu.

         Hedge piscou.

      "Vocs dois poderiam planejar o seu encontro mais tarde?" Piper gritou.
"Olhem!"

       Atrs deles, o tnel estava se tornando escuro. Jason podia sentir seus ouvidos
estourarem com a presso.

      "No consigo segur-los," Mellie avisou. "Mas eu vou tentar defender vocs, s
mais um favor."

         "Obrigada, Mellie," Jason disse. "Eu espero que voc consiga um trabalho
novo."

       Ela sorriu, e ento se dissolveu, envolvendo-os em agradvel brisa suave. E
ento os ventos de verdade os atingiram, os jogando do cu to rpido que Jason
apagou.




                                         319
Captulo XXXIX
PIPER SONHOU QUE ESTAVA NO telhado do dormitrio da Wilderness School.

       A noite do deserto era fria, mas ela trouxera cobertores, e com Jason ao seu lado,
ela no precisava de mais calor.

       O ar cheirava a slvia e arbusto queimando. No horizonte, as Montanhas da
Primavera assomava como dentes negros entalhados, o brilho fraco de Las Vegas atrs
delas.

        As estrelas estavam to claras que Piper teve medo que eles no pudessem ver a
chuva de meteoros. Ela no queria que Jason pensasse que ela o arrastou ali para cima
com falsas pretenses. (Mesmo que suas pretenses fossem totalmente falsas.) Mas os
meteoros no desapontaram. Um riscava o cu quase cada minuto -- uma de fogo
branco, amarelo, ou azul. Piper tinha certeza que o seu av Tom teria algum mito
Cherokee para explicar a eles, mas no momento ela estava ocupada criando sua prpria
histria.

      Jason pegou sua mo -- finalmente -- e apontou enquanto dois meteoros
pulavam pela atmosfera e formavam uma cruz.

       "Uau," ele disse. "No posso acreditar que Leo no queria ver isso."

       "Na verdade, eu no convidei ele," Piper disse casualmente.

       Jason sorriu. "Ah, ?"

       "Ah. Voc j sentiu como se trs fosse uma multido?"

      "," Jason admitiu. "Como agora. Voc sabe quanto problema teramos se
fssemos pegos aqui em cima?"

       "Ah, eu inventaria alguma coisa," Piper disse. "Eu posso ser muito persuasiva.
Ento voc quer danar, ou o qu?"

        Ele riu. Seus olhos eram incrveis, e o seu sorriso era ainda melhor na luz das
estrelas. "Sem msica. Na noite. Em cima de um telhado. Parece perigoso."

       "Eu sou uma garota perigosa."

                                          320
       "Isso, eu posso acreditar."

       Ele se levantou e lhe ofereceu sua mo. Eles lentamente danaram alguns
passos, mas rapidamente virou um beijo. Piper quase no pde beij-lo novamente, pois
estava muito ocupada sorrindo.



Ento o sonho mudou -- ou talvez ela estivesse morta no Mundo Inferior -- porque se
encontrou de volta no shopping de Medeia.

       "Por favor, deixe isso ser um sonho," ela murmurou, "e no meu castigo eterno."

       "No, querida," disse a voz de uma mulher doce como mel. "Sem castigo."

       Piper virou, com medo que visse Medeia, mas uma mulher diferente estava ao
seu lado, pesquisando pela estante de cinquenta por cento de desconto.

       A mulher era deslumbrante -- cabelo na altura do ombro, um pescoo gracioso,
feies perfeitas, e uma figura incrvel dobrada em jeans e um top branco como neve.

        Piper viu que ela era parecida com atrizes -- a maioria dos encontros do pai era
com lindas e maravilhosas -- mas essa mulher era diferente. Ela era elegante sem
tentar, que segue a moda sem esforo, atordoante sem maquiagem. Depois de ver olo
com suas plsticas e cosmticos bobos, Piper pensou que essa mulher parecia ainda
mais surpreendente.

        Ainda enquanto Piper assistia, a aparncia da mulher mudou. Piper no podia
decidir a cor do seus olhos, ou a cor exata do seu cabelo. A mulher se tornava cada vez
mais bonita, como se sua imagem estivesse se alinhando aos pensamentos de Piper --
chegando o mais perto possvel do ideal de beleza de Piper.

       "Afrodite," Piper disse. "Me?"

       A deusa sorriu. "Voc s estava sonhando, minha querida. Se algum perguntar,
eu no estava aqui. Ok?"

      "Eu --" Piper queria fazer um milho de perguntas, mas todos elas se
amontoaram juntas na sua cabea.

       Afrodite levantou um vestido turquesa. Piper achou que parecia incrvel, mas a
deusa fez um rosto. "No  minha cor, ? Pena,  bonito. Medeia realmente tem
algumas coisas adorveis aqui."

       "Essa -- essa construo explodiu," Piper gaguejou. "Eu vi."

        "Sim," Afrodite concordou. "Acho que  por isso que tudo est  venda. S uma
memria, agora. Eu me desculpe por lhe tirar do seu outro sonho. Muito mais agradvel,
eu sei."

                                          321
       O rosto de Piper queimou. Ela no sabia se ficava mais irritada ou embaraada,
mas na maioria ela se sentia oca de desapontamento. "No foi real. Nunca, nunca
aconteceu. Ento por que eu lembro disso to vividamente?"

        Afrodite sorriu. "Porque voc  minha filha, Piper. Voc v possibilidades muito
mais vividamente que os ouros. Voc v o que podia ser. E isso ainda pode ser -- no
desista. Infelizmente --" A deusa gesticulou em volta do shopping. "Voc tem mais
desafios a encarar, primeiro. Medeia voltar, assim como vrios outros inimigos. As
Portas da Morte se abriram."

       "O que voc quer dizer?"

       Afrodite piscou para ela. "Voc  esperta, Piper. Voc sabe."

        Uma sensao fria se assentou dela. "A mulher dormindo, aquela que Medeia e
Midas chamaram de patrono. Ela conseguiu abrir uma nova entrada do Mundo Inferior.
Ela est deixando os mortos escaparem de volta ao mundo."

       "Sim. E no s quaisquer mortos. Os piores e mais poderosos, aqueles que
muito provavelmente odeiam os deuses."

       "Os monstros esto voltando do Trtaro do mesmo jeito," Piper chutou. " por
isso que eles no ficam desintegrados."

        "Sim. O patrono, como vocs a chamam, tem uma relao especial com Trtaro,
o esprito do buraco." Afrodite levantou um top dourado de cetim. "No... esse me faria
parecer ridcula."

        Piper riu inquietamente. "Voc? Voc no pode parecer nada, a no ser
perfeita."

        "Voc  meiga," Afrodite disse. "Mas beleza  sobre encontrar o ajuste certo, o
ajuste mais natural. Para ser perfeita, voc tem que se sentir perfeita em si prpria --
evitar tentando se algo que no . Para uma deusa,  especialmente difcil. Podemos
mudar facilmente."

       "Meu pai pensou que voc era perfeita." A voz de Piper falhou. "Eu nunca lhe
superou."

        O olhar de Afrodite tornou-se distante. "Sim... Tristan. Ah, ele era incrvel. To
gentil e simptico, divertido e bonito. Ainda assim, ele tinha tanta tristeza dentro."

       "Poderamos, por favor, no falar sobre ele no passado?"

       "Desculpe, querida. Eu no queria deixar seu pai,  claro.  sempre to difcil,
mas foi o melhor. Se ele percebesse quem eu realmente era --"

       "Espere -- ele no sabia que voc era uma deusa?"


                                           322
        " claro que no." Afrodite soou ofendida. "Eu no faria isso com ele. Para a
maioria dos mortais,  simplesmente muito difcil aceitar. Pode arruinar as suas vidas!
Pergunte para o seu amigo Jason -- garoto adorvel, a propsito. Sua pobre me foi
destruda quando descobriu que se apaixonou por Zeus. No, foi muito melhor Tristan
acreditar que eu era uma mulher mortal que o deixou sem explicao. Melhor uma
memria agridoce que uma deusa imortal e inalcanvel. O que me traz para uma
questo importante..."

       Ela abriu a mo e mostrou a Piper um frasco de vidro brilhante com lquido rosa.
"Essa  uma das misturas mais dceis de Medeia. S apaga memrias recentes. Quando
voc salvar o seu pai, se voc puder salv-lo, voc deveria dar isso para ele."

       Piper no pde acreditar no que estava ouvindo. "Voc quer que eu dope o meu
pai? Voc quer que eu o faa esquecer o que ele passou?"

        Afrodite levantou o frasco. O lquido lanou um brilho rosa sobre seu rosto.
"Seu pai age confiante, Piper, mas ele anda numa linha fina entre dois mundos. Ele
trabalhou sua vida inteira rejeitando as histrias antigas sobre deuses e espritos, e ainda
assim ele teve que aquelas histrias possam ser reais. Ele teme que exclua uma parte
importante dele, e algum dia isso ir destru-lo. Agora ele foi capturado por um gigante.
Ele est vivendo um pesadelo. Mesmo se ele sobreviver... se ele tiver que gastar o resto
de sua vida com aquelas memrias, sabendo que deuses e espritos andam na terra, isso
ir despeda-lo.  isso que a nossa inimiga espera. Ela ir quebr-lo, e assim quebrar o
seu esprito."

       Piper queria gritar que Afrodite estava errada. Seu pai era a pessoa mais forte
que ela conhecia. Piper nunca pegaria seus memrias do jeito que Hera pegou as de
Jason.

       Mas de algum jeito ela no podia ficar com raiva de Afrodite. Ela lembrou do
que seu pai dissera meses atrs, na praia em Big Sur: Se eu realmente acreditasse em
Pas Fantasma, ou espritos animais, ou deuses gregos... eu no acho que poderia
dormir na noite. Eu sempre estaria procurando por algum para acusar.

       Agora Piper tambm queria acusar algum.

       "Quem  ela?" Piper exigiu. "A que est controlando os gigantes?"

       Afrodite enrugou os lbios. Ela moveu para a estante seguinte, que tinha
armadura quebrada e togas rasgadas, mas Afrodite olhou por elas como se fossem
roupas de desenhista.

        "Voc tem uma vontade forte," ela meditou. "Eu nunca fui dada muito crdito
entre os deuses. Meus filhos so motivo de piada. Eles so rejeitados como convencidos
e rasos."

       "Alguns deles so."

                                            323
       Afrodite riu. "Admito. Talvez eu seja convencida e rasa, tambm, s vezes. Uma
garota tem que ter indulgncia. Ah, esse  bom." Ela pegou um peitoral de bronze
queimado e manchado e levantou para Piper ver. "No?"

       "No," disse Piper. "Voc vai responder minha pergunta?"

       "Pacincia, minha querida," a deusa disse. "Meu ponto  que amor  o
motivador mais poderoso do mundo. Estimula os mortais  grandeza. Os seus atos mais
nobres e bravos so feitos por amor."

       Piper puxou sua adaga e estudou sua lmina reflectiva. "Como Helena comear a
Guerra do Cavalo de Troia?"

       "Ah, Katoptris." Afrodite sorriu. "Estou contente que voc a encontrou. Eu
ganhei muita publicidade com aquela guerra, mas honestamente, Paris e Helena eram
um casal bonito. E os heris daquela guerra so imortais agora -- pelo menos na
memria dos homens. O amor  poderoso, Piper. Pode at ajoelhar os deuses. Eu falei
isso para o meu filho Enias quando ele escapou de Troia. Ele pensou que falhou. Ele
pensou que era um perdedor! Mas viajou para Itlia --"

       "E se tornou o ancestral de Roma."

        "Exatamente. Entenda, Piper, meus filhos podem ser muito poderosos. Voc
pode ser muito poderosa, porque minha linhagem  nica. Eu estou mais perto do incio
da criao que qualquer outro olimpiano."

      Piper lutou para lembrar do nascimento de Afrodite. "Voc no... se ergueu do
mar? De p numa concha do mar?"

        A deusa riu. "Aquele pintor Botticelli tinha uma boa imaginao. Eu nunca
fiquei de p numa concha do mar, obrigada muito. Mas sim, me ergui do mar. Os
primeiros seres a se erguerem do Caos foram a Terra e o Cu -- Gaia e Urano. Quando
o filho deles, o tit Cronos, matou Urano --"

       "O cortando em pedaos com uma foice," Piper lembrou.

       Afrodite torceu o nariz. "Sim. Os pedaos de Urano caram no mar. Sua essncia
imortal criou a espuma do mar. E daquela espuma --"

       "Voc nasceu. Eu me lembro agora. Ento voc  --"

        "A ltima filha de Urano, que foi maior que os deuses ou os tits. Ento, de um
jeito estranho, eu sou a deusa olimpiana mais antiga. Como disse, amor  uma fora
poderosa. E voc, minha filha,  muito mais que um rostinho bonito. Que  por isso que
voc j sabe quem est acordando os gigantes, e quem tem o poder de abrir portas nas
partes mais profundas da terra."

      Afrodite esperou, como se pudesse sentir Piper lentamente unindo as peas de
um quebra-cabea, que formava uma foto assustadora.
                                         324
       "Gaia," Piper disse. "A prpria terra.  a nossa inimiga."

       Ela esperou que Afrodite dissesse no, mas a deusa manteu os olhos na estante
de armaduras esfarrapadas. "Ela dormiu por eras, mas est lentamente acordando. At
adormecida, ela  poderosa, mas quando acordar... seremos condenados. Voc deve
derrotar os gigantes antes que isso acontea, e acalmar Gaia de volta ao seu sono. Caso
contrrio, a rebelio s comeou. Os mortos continuaro a se erguerem. Monstros se
regeneraro com velocidade ainda maior. Os gigantes destruiro o lugar de origem dos
deuses. E se eles fizerem isso, toda a civilizao queimar."

       "Mas Gaia? A Me Terra?"

        "No a subestime," Afrodite alertou. "Ela  uma divindade cruel. Ela orquestrou
a morte de Urano. Ela deu a Cronos a foice e o impeliu a matar o prprio pai. Enquanto
os tits governavam o mundo, ela dormia em paz. Mas quando os deuses subjugaram
eles, Gaia acordou novamente com toda sua raiva e deu nascimento a uma nova raa --
os gigantes -- para destruir o Olimpo de uma vez por todas."

       "E est acontecendo de novo," Piper disse. "A ascenso dos gigantes."

       Afrodite assentiu. "Agora voc sabe. O que far?"

        "Eu?" Piper cerrou os punhos. "O que eu deveria fazer? Pr um vestido bonito e
falar docemente para Gaia voltar a dormir?"

        "Eu queria que isso funcionasse," Afrodite disse. "Mas no, voc ter que
encontrar suas prprias foras, e lutar pelo que ama. Como os meus favorecidos, Helena
e Paris. Como meu filho Enias."

       "Helena e Paris morreram," Piper disse.

       "E Enias se tornou um heri," a deusa se ops. "O primeiro grande heri de
Roma. O resultado depender de voc, Piper, mas vou lhe falar isso: Os sete maiores
semideuses devem ser reunidos para derrubar os gigantes, e esse foro no ter sucesso
sem voc. Quando os dois lados se encontrarem... voc ser a mediadora. Voc
determinar se haver amizade ou matana."

       "Que dois lados?"

       A viso de Piper comeou a enfraquecer.

        "Voc deve acordar logo, minha filha," disse a deusa. "Eu no concordo sempre
com Hera, mas ela tomou um risco corajoso, e concordo que isso tenha que ser feito.
Zeus manteu os dois lados separados por muito tempo. S juntos vocs tero o poder de
salvar o Olimpo. Agora, acorde, e espero que voc goste das roupas que escolhi."

       "Que roupas?" Piper exigiu, mas o sonho escureceu.



                                          325
                                     Captulo XL

PIPER ACORDOU SOBRE UMA MESA NA VARANDA DE UM CAF.

       Por um segundo, ela pensou que ainda estava sonhando. Era uma manh
ensolarada. O ar estava vigoroso, mas no desagradvel para sentar do lado de fora.
Nas outras mesas, um misto de ciclistas, empresrios, e universitrios sentados
conversando e bebendo caf.

       Ela podia sentir o cheiro das rvores de eucalipto. Um monte de pedestres
passavam em frente s vrias pequenas lojas. A rua era ladeada de escovas-de-garrafa e
azleas florescentes como se o inverno fosse um conceito estranho.

       Em outras palavras: ela estava na Califrnia.

       Seus amigos sentavam em cadeiras ao seu redor -- todos eles com suas mos
calmamente cruzadas sobre o peito, cochilando agradavelmente. E todos vestiam roupas
novas. Piper olhou para a sua prpria roupa e engasgou. "Me!"

       Ela gritou mais alto do que pretendia. Jason sobressaltou-se, batendo com os
joelhos na mesa, e ento todos eles estavam despertos.

       "O qu?" exigiu Hedge. "Lutar com quem? Onde?"

       "Caindo!" Leo agarrou a mesa. "No -- caindo no. Onde ns estamos?"

       "Jason piscou, tentando se orientar. Ele focou em Piper e fez um pequeno som
de engasgo. "O que voc est vestindo?"

        Piper provavelmente corou. Ela estava usando o vestido azul-turquesa que tinha
visto em seu sonho, com polainas pretas e botas de couro pretas. Tambm usava a sua
pulseira de prata com pingentes favorita, mesmo tendo a deixado na sua casa em LA, e a
sua velha jaqueta de esqui que ganhou do pai, que surpreendentemente combinou muito
bem com a sua roupa. Ela puxou Katoptris, e julgando pelo reflexo da lmina, teve o
seu cabelo arrumado, tambm.

      "No  nada," disse ela. " minha --" Ela lembrou do aviso de Afrodite para
no mencionar que elas conversaram. "No  nada."


                                          326
      Leo deu risada. "Afrodite ataca de novo, hein? Voc vai ser a guerreira mais
bem vestida da cidade, rainha da beleza."

         "Ei, Leo." Jason cutucou seu brao. "Voc se olhou no espelho recentemente?"

         "O que... ah."

        Todos eles tinham passado por uma transformao. Leo estava de calas
listradas, sapatos pretos de couro, uma camisa branca sem gola com suspensrios, seu
cinto de ferramentas, culos de sol Ray-Ban, e um chapu porkpie.

      "Deus, Leo." Piper tentou no rir. "Eu acho que meu pai usou isso em sua ltima
premiere, tirando o cinto de ferramentas."

         "Ei, cala boca."

       "Eu acho que ele ficou legal," disse o Treinador Hedge. "Obviamente, eu pareo
melhor."

       O stiro era um pesadelo pastel. Afrodite tinha dado a ele um terno berrante e
folgado amarelo-canrio com sapatos de dois tons que combinavam com os seus cascos.
Ele tinha, combinando, um chapu de abas largas amarelo, uma camisa rosa, uma
gravata azul-beb, e um cravo azul na lapela, que Hedge cheirou e depois comeu.

         "Bem," disse Jason, "pelo menos sua me esqueceu de mim."

        Piper sabia que isso no era exatamente verdade. Olhando pra ele, seu corao
sapateou um pouco. Jason vestia apenas jeans e uma camiseta roxa limpa, como a que
ele usara no Grand Canyon. Ele usava tnis novos, e tinha o cabelo recm-cortado. Seus
olhos eram da mesma cor do cu. A mensagem de Afrodite era clara: Esse no precisa
de melhorias.

         E Piper concordava.

         "De qualquer forma," disse ela desconfortavelmente, "como a gente chegou
aqui?"

      "Ah, deve ter sido Mellie," disse Hedge, mastigando o seu cravo alegremente.
"Os ventus nos atiraram para o outro lado do pas, eu acho. Ns teramos sido
esmagados com o impacto, mas o ltimo presente de Mellie -- uma agradvel brisa
suave -- amorteceu a nossa queda.

         "E ela foi demitida por nossa causa," disse Leo. "Cara, somos uma droga."

       "Ah, ela vai ficar bem," disse Hedge. "Alm disso, ela no pde se conter. Eu
tenho esse efeito sobre as ninfas. Eu vou enviar-lhe uma mensagem quando tivermos


                                           327
completado essa misso e ajud-la a descobrir uma coisa. Ali est uma aura com quem
eu poderia me estabelecer e criar um rebanho de bebs bodes."

       "Estou ficando enjoada," disse Piper. "Mais algum quer caf?"

       "Caf!" O sorriso de Hedge estava tingido de azul da flor. "Eu amo caf!"

       "Hum," disse Jason, "mas e o dinheiro? Nossas mochilas?"

       Piper olhou para baixo. Suas mochilas estavam aos seus ps, e tudo parecia
ainda estar l.

       Ela enfiou a mo no bolso do casaco e sentiu duas coisas inesperadas. Uma delas
era um mao de dinheiro. A outra era um frasco de vidro -- a poo da amnsia. Ela
deixou o frasco no bolso e puxou o dinheiro.

       Leo assobiou. "Mesada? Piper, sua me  demais!"

       "Garonete!" Hedge chamou. "Seis expressos duplos, e o que mais esse garotos
quiserem. Pe na conta da menina."



No demorou muito pra eles descobrirem onde estavam. O menu dizia "Caf Verve,
Walnut Creek, Califrnia." E de acordo com a garonete, eram 9 horas da manh de 21
de dezembro, o solstcio de inverno, o que lhes dava trs horas antes do prazo limite de
Enclado.

        Eles no precisavam se perguntar onde ficava o Monte Diablo, tambm. Eles
podiam v-la no horizonte, bem no final da rua. Aps as Rockies, o Monte Diablo no
parecia muito grande, nem era coberta de neve. Parecia absolutamente pacfica, os seus
vincos de ouro em mrmore com as rvores verde-acinzentadas. Mas o tamanho das
montanhas enganavam, Piper sabia. Provavelmente era muito maior de perto. E as
aparncias enganavam tambm. Aqui estavam eles -- de volta a Califrnia --
supostamente a sua casa -- com cus ensolarados, clima ameno, pessoas descontradas,
e um prato de bolinhos de chocolate com caf. E a apenas alguns quilmetros, em
algum lugar naquela pacfico Monte, um superpoderoso gigante super-malvado estava
prestes a almoar o seu pai.

       Leo puxou algo do seu bolso -- o velho desenho de lpis-de-cor que olo tinha
lhe dado.

       Afrodite deve ter pensado que era importante para magicamente ter transferido
para sua nova roupa.

       "O que  isso?" Piper perguntou.

                                          328
        Leo o dobrou com cuidado e guardou. "Nada. Voc no quer ver a minha obra
de arte do jardim de infncia."

       " mais que isso," Jason adivinhou. "olo disse que era a chave para o nosso
sucesso."

       Leo balanou a cabea. "No hoje. Ele estava falando sobre... depois."

       "Como voc pode ter certeza?" Piper perguntou.

       "Confie em mim," disse Leo. "Agora -- qual  o nosso plano de jogo?"

       O Treinador Hedge arrotou. Ele j tinha tomado trs expressos e comido um
prato de rosquinhas, junto com dois guardanapos e outra flor do vaso sobre a mesa.

       Ele teria comido a prataria, mas Piper bateu em sua mo.

       "Escalar o Monte," disse Hedge. "Matar todos, exceto o pai de Piper. Partir."

       "Obrigado, General Eisenhower," Jason resmungou.

       "Ei, s estou falando!"

       "Pessoal," Piper falou. "H mais coisas que vocs precisam saber."

        Foi complicado, porque ela no podia mencionar sua me; mas ela lhes disse que
tinha descoberto algumas coisas em seus sonhos. Ela contou sobre a verdadeira inimiga
deles: Gaia.

       "Gaia?" Leo balanou a cabea. "Ela no  a Me Natureza? Ela deveria ter algo
como flores nos cabelos e pssaros cantando ao seu redor e veados e coelhos lavando as
suas roupas."

       "Leo, essa  a Branca de Neve," Piper disse.

       "Ok, mas --"

       "Escute, bolinho." Treinador Hedge limpou o expresso do seu cavanhaque.
"Piper est nos dizendo uma coisa sria, aqui. Gaia no  tola. Eu mesmo no estou
certo de que eu poderia apanh-la."

       Leo assobiou. "Srio?"

       Hedge assentiu. "Essa senhora da terra -- ela e o seu velho homem, o cu, eram
indivduos desagradveis."

         "Urano," Piper disse. Ela no pde evitar olhar para o cu azul, imaginando se
ele tinha olhos.

                                          329
       "Certo," Hedge falou. "Ento Urano, no  o melhor pai. Ele joga os seus
primeiros filhos, os ciclopes, no Trtaro. Isso deixa Gaia maluca, mas ela aguarda a sua
hora. Ento, eles tem outros filhos -- os doze tits -- e Gaia fica com medo de que eles
sejam jogados na priso tambm. Ento, ela vai at o seu filho Cronos --"

       "O cara grande malvado," falou Leo. "O que eles derrotaram no vero passado."

       "Certo. E Gaia  aquela que lhe d a foice, e lhe diz, `Ei, por que eu no chamo o
seu pai aqui? E enquanto ele est distrado conversando comigo, voc pode cort-lo em
pedaos. Ento voc pode dominar o mundo. Isso no seria timo?'"

        Ningum disse nada. O bolinho de chocolate de Piper no parecia mais to
apetitoso. Embora, ela j tivesse ouvido essa histria antes, ela no conseguia fazer com
que sua mente parasse de girar. Ela tentava imaginar uma criana to desajustada que
mataria o seu prprio pai apenas por poder. Depois uma me to desvairada que
convenceria um filho a fazer isso.

       "Definitivamente no  a Branca de Neve," ela decidiu.

       "Nah, Cronos era um cara mau," disse Hedge. "Mas Gaia era literalmente a me
de todos os caras maus. Ela  to antiga e poderosa, to grande, que  difcil para ela
estar plenamente consciente. Na maior parte do tempo, ela dorme, e  assim que
gostamos dela -- roncando."

       "Mas ela conversou comigo," disse Leo. "Como ela pode estar dormindo?"

       Gleeson varreu as migalhas da sua lapela amarelo-canrio. Ele estava no seu
sexto expresso agora, e suas pupilas to grandes como uma moeda de 25 centavos.
"Mesmo dormindo, parte de sua conscincia est ativa -- sonhando, vigiando, fazendo
pequenas coisas como causando exploses de vulces e ascenso de monstros. Mesmo
agora, ela no est completamente acordada. Acredite, voc no quer v-la
completamente acordada."

       "Mas ela est ficando mais forte," disse Piper. "Ela est causando a ascenso dos
gigantes. E se o rei deles retorna -- esse cara Porfrio --"

     "Ele ir erguer um exrcito para destruir os deuses," interveio Jason.
"Comeando com Hera. Vai haver outra guerra. E Gaia vai despertar completamente."

       Gleeson assentiu. "Razo pela qual  uma boa idia nos mantermos fora da terra
tanto quanto possvel."

        Leo olhou cautelosamente para o Monte Diablo. "Ento... escalar um Monte.
Isso seria ruim."



                                          330
        O corao de Piper afundou. Primeiro, pediram que ela trasse seus amigos.
Agora eles estavam tentando ajud-la a resgatar seu pai, mesmo sabendo que eles
caminhavam para uma armadilha. A idia de lutar contra um gigante j era
suficientemente assustadora. Mas a idia de que Gaia estava por trs disso -- uma fora
mais poderosa que um deus ou tit...

       "Pessoal, eu no posso pedir a vocs que faam isso," disse Piper. " perigoso
demais."

     "T brincando?" Gleeson arrotou e mostrou-lhes o seu sorriso azul do cravo.
"Quem est pronto pra bater em coisas?"




                                         331
                                    Captulo XLI

LEO TORCEU PARA QUE O TXI PUDESSE LEV-LOS o caminho todo at o topo.

        Sem tanta sorte. O txi deu uma guinada, rangendo enquanto subia a estrada do
Monte, e na metade do caminho de subida eles encontraram a estao do guarda
florestal fechada e uma corrente bloqueando o caminho.

       "To longe quanto eu posso ir," o taxista disse. "Tem certeza disso? Ser uma
grande caminhada de volta, e meu carro est agindo engraado. Eu no posso esperar
por vocs."

        "Ns temos certeza." Leo foi o primeiro a sair. Ele tinha um mau pressentimento
sobre o que estava errado com o txi, e quando ele olhou embaixo ele viu que estava
certo. As rodas estavam afundando na estrada com se ela fosse feita de areia movedia.
No de forma rpida -- apenas o suficiente para o motorista pensar que era um
problema de transmisso ou um eixo ruim -- mas Leo sabia que era diferente.

       A estrada estava cheia de lama. Nem ao mesmo uma razo para que ela estivesse
macia, mas os sapatos de Leo j comeavam a afundar. Gaia estava aprontando com
eles.

        Enquanto seus amigos saam, Leo pagou o taxista. Ele foi generoso -- e por que
no? Era o dinheiro de Afrodite. E ainda mais, ele tinha um pressentimento de que ele
talvez nunca sairia desse Monte.

       "Fique com o troco," ele disse. "E d o fora daqui. Rpido."

       O motorista no discutiu. Logo, tudo que podiam ver era seu rastro de poeira.

       A viso do Monte era bem incrvel. O interior inteiro dos vales que ficavam em
volta do Monte Diablo era um remendo de cidades -- ruas arborizadas e um subrbio
de classe mdia legal, lojas, e escolas. Todas essas pessoas normais vivendo suas vidas
normais -- o tipo que Leo nunca teve.

       "Aquele  o Concord," Jason disse, apontando para o norte. "Walnut Creek
abaixo de ns. Ao sul, Danville, atrs daqueles vales. E naquele caminho..."



                                          332
       Ele apontou para o oeste, onde um cume de vales dourados eram cobertos por
uma camada de neblina, como uma borda de uma tigela. "Aquela  Berkeley Hills. A
baia do leste. Atrs dela, So Francisco."

          "Jason?" Piper tocou seu brao. "Voc se lembra de algo? Voc j esteve aqui
antes?"

       "Sim... no." Ele deu a ela um olhar angustiado. "Isso apenas parece
importante."

       "Essa  a terra dos tits." O Treinador Hedge assentiu para o oeste. "Lugar ruim,
Jason. Confie em mim, isso  to perto de So Francisco quanto queremos chegar."

        Mas Jason olhou pra a bacia do nevoeiro com tanta cobia que Leo se sentiu
receoso. Por que Jason parecia to conectado com aquele lugar -- um lugar que Hedge
disse ser mal, cheio de magia m e inimigos antigos? E se Jason tivesse vindo daqui?
Todo mundo ficava insinuando que Jason era um inimigo, que sua chegada ao
Acampamento Meio-Sangue era um erro perigoso.

          No, Leo pensou. Ridculo. Jason era seu amigo.

      Leo tentou mover seu p, mas agora suas solas estavam completamente
afundadas na lama.

          "Ei, galera," ele disse. "Vamos continuar andando."

          Os outros perceberam o problema.

       "Gaia  mais forte aqui," Hedge resmungou. Ele tirou seus cascos dos sapatos, e
ento entregou seus sapatos para Leo. "Guarde eles para mim, Valdez. Eles so bons."

          Leo bufou. "Sim, senhor, treinador. Quer que eu engraxe tambm?"

      "Esse  o esprito, Valdez." Hedge assentiu, aprovando. "Mas primeiro,  melhor
subirmos essas montanha enquanto ainda podemos."

          "Como sabemos onde est o gigante?" Piper perguntou.

      Jason apontou para o pico. Havia fumaa envolta do cume. De longe, Leo tinha
pensado que era uma nuvem, mas no. Era algo queimando.

          "Onde tem fumaa, tem fogo," Jason disse. "  melhor nos apressarmos."



A Wilderness School havia forado Leo a participar de vrias marchas. Ele pensou que
estava em boa forma. Mas escalar um Monte quando a terra estava tentando engolir seus
ps era como movimentar-se em uma esteira de papel.
                                             333
        Sem tempo, Leo havia enrolado suas mangas na sua camisa sem gola, mas ainda
sim o vendo era frio e afiado. Ele desejou que Afrodite tivesse dado a ele shorts de
caminhada e uns sapatos mais confortveis, mas estava grato pelos Ray-Bans que
mantinham o sol fora de seus olhos. Ele levou suas mos at seu cinto de ferramentas e
comeou a convocar utenslios -- rodas dentadas, uma pequena chave inglesa, e
algumas tiras de bronze. Enquanto ele andava, construa -- sem nem mesmo pensar
nisso, apenas brincando com as peas.

       No momento em que eles se aproximavam do cume do Monte, Leo era o heri
suado e sujo mais fashion de todos os tempos. Suas mos estavam cobertas com graxa
de mquinas.

       O pequeno objeto que ele fez era como um brinquedo de corda -- do tipo que
chacoalha e anda pela mesa do caf. Ele no tinha certeza do que isso podia fazer, mas
colocou no seu cinto de ferramentas.

       Ele sentia falta do seu casaco do exrcito com todos os seus bolsos. Ele sentia
ainda mais falta de Festus. Ele poderia usar um drago de bronze que cospe fogo agora
mesmo. Mas Leo sabia que Festus no voltaria -- pelo menos no na sua forma antiga.

       Ele passou a mo na gravura em seu bolso -- o desenho de giz de cera que ele
havia feito na mesa de piquenique debaixo da rvore quando ele tinha cinco anos. Ele
lembrou da Tia Callda cantando enquanto ele trabalhava e quo chateado ele ficou
quando os ventos arrebataram o seu desenho. No  hora ainda, pequeno heri, Ta
Callda havia lhe dito. Algum dia, sim. Voc ter sua misso. Voc encontrar seu
destino, e sua dura jornada finalmente far sentido.

       Agora olo havia devolvido a gravura. Leo sabia que aquilo significava que seu
destino estava se aproximando; mas a jornada era to frustrante quanto esse Monte
estpido. Toda vez que Leo achava que eles haviam alcanado o topo, acontecia que era
apenas mais um cume, com um maior ainda atrs dele.

      Prioridades primeiro, Leo disse a si mesmo. Sobreviver hoje. Desvendar
desenho de giz de cera do destino depois.

       Finalmente Jason se abaixou atrs de uma parede de pedras. Ele gesticulou para
os outros fazerem o mesmo. Leo ajoelhou ao seu lado. Piper teve que puxar o
Treinador Hedge para baixo.

       "Eu no quero sujar minhas roupas!" Hedge reclamou.

       "Shhhh!" Piper disse.

       Relutante, o stiro ajoelhou-se.


                                          334
       Sobre o cume onde eles estavam se escondendo, na sombra do ltimo cume do
Monte, estava uma depresso cheia de arvores do tamanho aproximado de uma campo
de futebol, onde o gigante Enclado havia armado acampamento.

        rvores haviam sido cortadas para fazer uma fogueira roxa bem forte. A outra
beira da clareira estava cheia de tocos grande e equipamentos de construo -- uma p
mecnica, um grande negcio de guindaste com lminas que giravam no final
parecendo um barbeador eltrico -- deve ser um ceifador de rvores, Leo pensou -- e
uma longa coluna de metal com uma lamina de machado, como uma guilhotina de dois
lados -- um machado hidrulico.

        O porqu de um gigante precisar de mquinas de construes, Leo no tinha
certeza. Ele no entendia como a criatura  sua frente poderia ao menos caber no
assento do motorista. O gigante Enclado era to largo, to feio, Leo no queria olhar
para ele.

       Mas ele se forou a focar no monstro.

       No comeo, ele tinha nove metros de altura -- facilmente to alto quanto as
rvores. Leo tinha certeza que o gigante podia t-los visto de trs da cordilheira, mas ele
parecia interessado na estranha fogueira roxa, dando voltas nela e cantando baixinho.
Da cintura pra cima, o gigante parecia humanide, seu peito musculoso dentro de uma
armadura de bronze, decorada com desenhos de chamas. Seus braos estavam
completamente para fora. Cada bceps era maior que Leo. Sua pele era bronzeada mas
coberta de cinzas. Sua face era grosseiramente afinada, como uma escultura de barro
pela metade, mas seus olhos brilhavam brancos, e seus cabelos eram tranados, estilo
medonho e ia at seus ombros, e eram presos com ossos.

       Da cintura para baixo, ele era ainda mais aterrorizante. Suas pernas eram
escamosas e verdes, com garras ao invs de ps -- como pernas traseiras de um drago.
Na sua mo, Enclado segurava uma lana do tamanho de uma haste de bandeira. E s
vezes ele enfiava a ponta no fogo, tornando o metal vermelho incandescente.

       "Ok," o Treinador Hedge disse. " O plano  o seguinte --"

       Leo lhe deu uma cotovelada. "Voc no vai correr at ele sozinho."

       "Ahh, qual ...'"

       Piper deu um soluo. "Olhem."

       Visivelmente do outro lado da fogueira estava um homem amarrado a um poste.
Sua cabea estava cada como se estivesse inconsciente, por isso Leo no conseguia
reconhecer sua face mas Piper parecia no ter nenhuma dvida.

       "Pai," ela disse.
                                           335
        Leo se afundou, ele queria que isso fosse um filme de Tristan McLean. Ento o
pai de Piper estaria fingindo a inconscincia. Ele iria desamarrar os ns e nocautear o
gigante com algum inteligentssimo gs anti-gigante. Musica heroica comearia a tocar,
e Tristan McLean escaparia de forma incrvel, correndo em cmera lenta enquanto um
lado do Monte explodia atrs dele.

      Mas isso no era um filme. Tristan McLean estava meio morto e prestes a ser
comido. As nicas pessoas que poderiam parar isso -- trs heris adolescentes vestidos
bem na moda e um bode megalomanaco.

       "H quatro de ns," Hedge sussurrou urgentemente. "E apenas um dele."

       "Voc deixou escapar o fato de que ele tem nove metros de altura?" Leo
perguntou.

      "Ok," Hedge disse. "Ento voc, eu e o Jason distramos ele. Piper vai de
mansinho e liberta seu pai."

       Todos olharam para Jason.

       "O qu?" Jason perguntou. " Eu no sou o lder."

       "Sim," Piper disse. "Voc ."

        Eles nunca haviam falado nisso, mas ningum discordava, nem mesmo Hedge.
Chegando to longe, havia sido um trabalho de equipe, mas quanto surgia uma deciso
de vida ou morte, Leo sabia que Jason era a quem devia perguntar. Mesmo se ele no
tivesse memria, Jason havia uma espcie de equilbrio com ele mesmo. Voc podia
dizer que ele j esteve em batalhas antes, e ele sabia como se manter calmo. Leo no era
exatamente do tipo que confia, mas ele confiava em Jason com sua vida.

        "Eu odeio dizer isso," Jason suspirou, "mas o Treinador Hedge est certo. Uma
distrao  a melhor chance de Piper."

       No  bem uma boa chance, Leo pensou. Nem mesmo uma chance de
sobreviver. Apenas a melhor chance.

       Eles podiam ficar sentados ali o dia inteiro e falar sobre isso. Era quase meio dia
-- o prazo limite do gigante -- e a terra ainda estava tentando pux-los para baixo. Os
joelhos de Leo j haviam afundado cinco centmetros na lama.

         Leo olhou para os equipamentos de construo e teve uma ideia louca. Ele tirou
o pequeno brinquedo que ele havia feito na subida, e percebeu o que isso podia fazer --
se ele tivesse sorte, o que quase nunca tinha.

       "Vamos rpido," ele disse. "Antes que eu retome meu juzo."

                                           336
                                    Captulo XLII

O   PLANO DEU ERRADO QUASE QUE DE IMEDIATO.         Piper subiu o cume, tentando
manter sua cabea abaixada, enquanto Leo, Jason e o Treinador Hedge caminhavam
direto para a clareira.

        Jason convocou sua lana de ouro. Ele a brandiu sobre a cabea e gritou,
"Gigante!" O que soou muito bom, e muito mais confiante do que Leo poderia ter feito.
Ele estava pensando mais em algo tipo, "Ns somos formigas patticas! No nos mate!"

      Enclado parou de cantar para as chamas. Ele girou e sorriu, revelando presas
como as de um tigre dente-de-sabre.

       "Bem," o gigante ressoou. "Que tima surpresa."

        Leo no gostou do tom daquilo. Suas mos estavam fechadas sobre sua inveno
de dar corda. Ele andou de lado, dando uma volta na escavadeira.

       O Treinador Hedge gritou, "Deixe a estrela de cinema ir, seu bolinho grande e
horroroso! Ou eu vou enfiar meus casco bem na sua --"

       "Treinador," Jason disse. "Cala a boca."

       Enclado rugiu meio que com uma risada. "Tinha esquecido o tanto que stiros
so engraados. Quando ns dominarmos o mundo, acho que vou deixar sua espcie
viva por a. Vocs podem me entreter enquanto eu como todos os outros mortais."

       "Isso  um elogio?" Hedge franziu a testa para Leo. "Eu no acho que foi um
elogio."

       Enclado abriu sua boca largamente e seus dentes comearam a brilhar.

       "Espalhem-se!" Leo gritou.

       Jason e Hedge mergulharam para a esquerda quanto o gigante soltou fogo --
uma fornalha que at Festus ficaria com cimes. Leo se escondeu atrs da escavadeira,
dando corda no seu dispositivo caseiro e deixando-o no assento do motorista. Ento
correu para a direita, com a inteno de chegar at o cortador de rvores.

                                         337
        Pelo canto do olho, ele viu Jason se levantar e avanar contra o gigante. O
Treinador Hedge tirou sua jaqueta amarela, que agora estava em chamas, e gritou com
raiva. "Eu gostava daquela roupa!" Ento ele levantou sua clava e atacou tambm.

       Antes que eles pudessem ir longe demais, Enclado bateu com fora sua lana
no cho. O Monte inteiro vibrou.

       A onda do impacto fez Leo se estatelar no cho. Ele piscou, momentaneamente
desnorteado. Pela neblina de gramas em chamas e um pouco de fumaa, ele viu Jason se
levantando do outro lado da clareira. Treinador Hedge havia sido nocauteado. Ele havia
cado e batido sua cabea num toco de madeira. Seu traseiro peludo estava pra fora, com
sua cala amarela em volta do joelho -- um viso que Leo no precisava.

       O gigante berrou, "Eu te vejo, Piper McLean!" Ele virou e cuspiu fogo em uma
linha de arbustos a direita de Leo. Piper correu para a clareira com uma codorna
desesperada e o arbusto atrs dela queimando.

       Enclado riu. "Fico feliz que voc tenha chegado. E voc trouxe meus prmios!"

       O intestino de Leo contorceu. Esse era o momento que Piper os havia avisado.
Eles haviam cado direto nas mos de Enclado.

        O gigante dever ter lido a expresso de Leo, porque ele riu ainda mais alto. "
isso mesmo filho de Hefesto. Eu no esperava que todos vocs estivessem vivos at
agora, mas no importa. Trazendo vocs aqui, Piper McLean estava selando seu acordo.
Se ela trair vocs, eu sou to bom quanto minhas palavras. Ela pode pegar seu pai e ir.
Por que me importaria com uma estrela de cinema?"

       Leo podia ver o pai de Piper mais claramente agora. Ele estava vestindo uma
camisa esfarrapada e uma cala rasgada. Seus ps descalos estavam cobertos de lama.
Ele no estava completamente inconsciente, porque levantou sua cabea e gemeu --
sim, Tristan McLean estava bem. Leo havia visto seu rosto em vrios filmes. Mas ele
tinha um corte nojento do lado de seu rosto e parecia magro e doente -- nada heroico.

       "Pai!" Piper gritou.

       O Sr. McLean piscou, tentando focar sua viso. "Pipes...? Onde..."

       Piper sacou sua faca e encarou Enclado. "Deixe-o ir!"

       "Claro, querida," o gigante ressoou. "Jure lealdade a mim e no teremos nenhum
problema. Apenas esses outros iro morrer."

       Piper olhou pra frente e pra trs, entre Leo e seu pai.

       "Ele vai te matar," Leo avisou. "No acredite nele!"

                                           338
       "Ah, venha agora," Enclado berrou. " Voc sabia que eu nasci para combater a
prpria Atena? Me Gaia fez cada um de ns gigante com um propsito especfico,
destinados a lutar e destruir um deus em particular. Eu era o carrasco de Atena, o anti-
Atena, voc pode dizer. Comparado com alguns de meus irmos -- eu sou pequeno!
Mas eu sou inteligente. E eu vou manter meu acordo com voc, Piper McLean.  parte
do meu plano!"

       Jason estava de p agora, com a lana pronta; mas antes que ele pudesse agir,
Enclado rugiu -- um chamado to alto que ecoou pelo vale e provavelmente foi
escutado pelo caminho todo at So Francisco.

       A beira da floresta, meia dzia de criaturas parecidas com ogros surgiram. Leo
percebeu com um certeza nauseante que eles no estava simplesmente escondidos ali.
Eles haviam surgidos direto da terra.

        Os ogros vacilaram pra frente. Eles eram pequenos comparados a Enclado, uns
dois metros e meio de altura. Cada um possua seis braos -- um par no lugar normal, e
ento um par extra brotando de seu ombro, e outro conjunto do lado de suas costelas.
Eles vestiam apenas tangas esfarrapadas de couro, e mesmo do outro lado da clareira
Leo podia sentir o cheiro deles. Seis caras que nunca tomaram banho, com seis axilas
cada. Leo decidiu que se ele sobrevivesse a esse dia, ele teria que tomar um banho de
trs horas s pra esquecer esse fedor.

       Leo foi at o lado de Piper. "O que so eles?"

       Sua lamina refletiu a luz roxa da fogueira. " Gegenees."

       "Em ingls?" Leo perguntou.

       "Os Terrestres," ela disse. "Gigantes de seis braos que lutaram contra Jaso --
o primeiro Jaso."

       "Muito bom, minha querida!" Enclado soou encantado. "Eles costumavam
viver em um lugar miservel na Grcia, chamada de Montanha do Urso. Monte Diablo 
muito melhor! Eles so os filhos inferiores da Me Terra, mas eles servem a seus
propsitos. Eles so bons em construir equipamentos --"

        "Vroom, Vroom!" Um dos terrestres berrou, e os outros tambm comearam o
canto, cada um movendo suas seis mos como se estivessem dirigindo um carro, como
se fosse um tipo de ritual religioso estranho. "Vroom, Vroom!"

      "Sim, obrigado, garotos," Enclado disse. " Eles tambm tem contas a acertar
com heris. Especialmente qualquer um chamado Jason."




                                          339
        "Yay-son!" Os nascidos da terra gritaram. Todos pegaram um pouco de terra que
se solidificou em suas mos, virando pedras pontudas e nojentas. "Cad o Yay-son?
Mate Yay-son!"

        Enclado riu. "Veja Piper, voc tem uma escolha. Salve seu pai, ou hmm, tente
salvar seus amigos e encare a morte certa."

        Piper deu um passo a frente. Seus olhos queimaram de fria, at mesmo os
terrestres terra recuaram. Ela irradiava poder e beleza, mas isso no tinha nada a ver
com suas roupas ou maquiagem.

       "Voc no vai levar as pessoas que eu amo," ela disse. "Nenhum deles."

     Suas palavras atravessaram a clareira com tanta fora que os Gegenees
murmuram, " Okay, Okay, desculpa," e comearam a recuar.

      "Fiquem parados, idiotas!" Enclado berrou. Ele rosnou para Piper. "  por isso
que ns queramos voc viva, minha querida. Voc poderia ter sido to til para ns.
Mas como queira. Gegenees! Lhes mostrarei Jason."

       O corao de Leo saiu pela boca. Mas o gigante no apontou para Jason. Ele
apontou para o outro lado da fogueira, onde Tristan McLean estava preso e indefeso
meio inconsciente.

       "Ali est o Jason," Enclado disse com prazer. "Rasgue-o ao meio!"



A maior surpresa de Leo: Uma olhada para Jason, e os trs sabiam o plano do jogo.
Quando aquilo havia acontecido, o fato de poderem ler uns aos outros to bem?

      Jason avanou contra Enclado, enquanto Piper corria para seu pai, e Leo se
arremessou para o cortador de arvores, que ficava entre o Sr. McLean e os ogros.

        Os Gegenees eram rpidos, mas Leo correu como um esprito de tempestade. Ele
saltou at o cortador a cinco ps de distancia e caiu direto no assento do motorista. Suas
mos voaram para os controles, e a mquina respondeu com velocidade natural --
tomando vida como se soubesse o quanto isso era importante.

        "R!" Leo gritou, e girou o guindaste at a fogueira, jogando tocos em chamas
nos ogros e soltando fascas por toda parte. Dois gigantes caram na violenta avalanche
e se fundiram de novo na terra -- esperanosamente, para ficar l por um tempo.

       Os outros quatros ogros tropearam nos tocos em chamas e nos carves quentes
enquanto Leo trazia o cortador para mais perto. Ele apertou um boto, e no fim do
guindaste as perversas laminas comearam a girar.

                                           340
       Pelo canto do olho ele podia ver Piper escorada, libertando seu pai. Do outro
lado da clareira, Jason lutava com o Gigante, de alguma forma conseguindo se esquivar
sua imensa lana e rajadas de fogo. Hedge ainda estava heroicamente desmaiado com
sua calda de bode pra cima.

      O lado do Monte inteiro estaria logo logo em chamas. O fogo no incomodaria
Leo, mas se seus amigos ficassem presos ali -- No. Ele tinha que agir rpido.

        Um dos ogros -- aparentemente no o mais inteligente -- avanou contra o
cortador de arvores, e Leo girou o guindaste em sua direo. No momento em que as
lminas tocaram o ogro, ele se dissolveu como argila molhada e foi espalhado por toda
clareira. Uma grande parte dele voou para a cara de Leo.

       Ele cuspiu a argila de sua boca e virou o cortador na direo dos trs que
sobraram, que recuaram rapidamente.

       "Vroom-vroom ruim!" um gritou.

     "Sim,  isso ai!" Leo gritou para eles. "Vocs querem uns Vroom-vroons ruins?
Venham aqui!"

       Infelizmente, eles foram. Tres ogros com seis braos, cada um jogando grandes e
duras pedras a uma super velocidade -- e Leo sabia que j era. De alguma forma, ele
conseguiu dar uma cambalhota para trs do cortador meio segundo antes de um
pedregulho demolir o assento do motorista. Pedras bateram com fora no metal. No
momento que Leo se levantou, o cortador parecia uma latinha de refrigerante amassada,
afundando na lama.

       "Trator!" Leo gritou.

       Os ogros estava pegando mais terra, mas dessa vez estavam encarando na
direo de Piper.

       Nove metros dali, a escavadeira rugiu ganhando vida. A inveno improvisada
de Leo havia feito seu trabalho, desaparecendo nos controles do revolvedor de terra e
dando vida temporria a ele por conta prpria. Ele rugiu para o inimigo.

       No momento em que Piper libertou seu pai e o segurou pelo brao, os gigantes
lanaram suas segunda saraivadas de pedras. O trator girou na lama, derrapando para
interceptar, e boa parte das pedras se chocaram com sua p. A fora era to grande que
empurrou o trator para trs. Duas pedras ricochetearam e golpearam os ogros que as
jogaram. Mais dois Gegenees derretidos em argila. Infelizmente, uma pedra atingiu o
motor do trator, fazendo com que uma fumaa de leo subisse, e o trator gemesse e
parasse. Outro timo brinquedo quebrado.


                                         341
        Piper arrastou seu pai cume abaixo. O ltimo nascido da terra avanou contra
ela.

       Leo estava sem cartas nas mangas, mas ele no podia deixar aquele monstro
pegar piper. Ele correu para frente, na direo das chamas, e pegou alguma coisa --
qualquer coisa -- de seu cinto de ferramentas.

        "Ei, seu estpido!" ele gritou, e atirou uma chave de fenda no ogro.

      Isso no matou o ogro, mas com certeza chamou sua ateno. A chave de fenda
afundou na testa do ogro como se ele fosse feito de massa de modelar.

        O Terrestre ganiu de dor e deu uma parada. Ele puxou a chave de fenda, virou e
encarou Leo. Tristemente, esse ultimo ogro parecia o maior e o mais nojento do grupo.
Gaia tinha realmente dado tudo de si criando ele -- com atualizaes de msculos
extras, uma luxuosa cara feia, o pacote inteiro.

        Ah, timo, pensou Leo. Eu fiz um amigo.

        "Voc morrer!" o ogro rugiu. " Amigo de Yay-son morrer!"

        O ogro pegou um punhado de terra do cho, que imediatamente se endureceram
e viraram bolas de canho de pedra.

       A mente de Leo ficou branca. Ele enfiou a mo em seu cinto de ferramentas,
mas ele no conseguia pensar em nada que o ajudaria. Ele supostamente deveria ser
esperto -- mas ele no conseguia pensar em nenhuma forma de escapar dessa.

        timo, ele pensou. Vou apelar pro estilo chama-da-glria.

        Ele ficou em chamas, e gritou, "Hefesto!" e avanou contra o ogro sem nada nas
mos.

        Ele nunca chegou l.

       Um borro turquesa e preto brilhou atrs do ogro. Um vislumbre de uma lmina
de bronze fez um corte pra cima de um lado do ogro e um pra baixo do outro.

        Seis largos braos caram no cho, pedras rolando para fora de suas mo inteis.
O Gegenees olhou para baixo, muito surpreso. Ele murmurou, "Braos foram tchau-
tchau."

        Ento ele derreteu-se no cho.

      Piper ficou ali, respirando pesado, sua adaga coberta de lama. Seu pai sentava
numa beirada, atordoado e machucado, mas ainda vivo.



                                           342
        A expresso de Piper era feroz -- quase maluca, como um animal severo. Leo
estava feliz que ela estava do seu lado.

       "Ningum machuca meus amigos," ela disse, e com um sentimento caloroso de
repente, Leo percebeu que ela estava falando dele. Ento ela gritou, "Vamos l!"

       Leo viu que a batalha ainda no havia acabado. Jason ainda estava lutando com
o gigante Enclado -- e no estava indo muito bem.




                                        343
                                       Captulo XLIII

QUANDO A LANA DE JASON QUEBROU, ele sabia que estava morto.

        A batalha tinha comeado suficientemente bem. Os instintos de Jason recuaram,
e seu intestino lhe disse que ele j havia duelado com adversrios quase to grandes
antes. Tamanho e fora igualadas  lentido, assim Jason s tinha de ser mais rpido --
desgastar o adversrio e evitar ser esmagado ou grelhado.

       Ele rolou para longe da primeira lana do gigante e espetou no tornozelo de
Enclado. O dardo de Jason conseguiu furar a pele grossa de drago e ichor dourado --
o sangue dos imortais -- escorreu pelos ps com garras do gigante.

       Enclado gritou de dor e soprou-lhe fogo. Jason afastou-se, rolando por trs do
gigante, e atacou novamente atrs de seu joelho.

       Foi desse jeito por alguns segundos, minutos -- foi difcil de julgar. O ouvido de
Jason captou todo o combate na clareira -- equipamento de construo de moagem, o
fogo rugindo, monstros gritando e quebrando pedras em metal. Ele ouviu Leo e Piper
gritarem desafiadoramente, o que significa que eles ainda estavam vivos. Jason tentou
no pensar nisso. Ele no podia se distrair.

        A lana de Enclado no pegou ele por um milmetro. Jason continuou
esquivando-se, mas seus ps estavam presos ao cho. Gaia foi ficando mais forte, e o
gigante foi ficando mais rpido. Enclado podia ser lento, mas no era burro. Ele
comeou a antecipar os movimentos de Jason, os ataques de Jason iam apenas irritando-
o, fazendo ele ficar mais enfurecido.



       "Eu no sou um monstro pequeno," berrou Enclado. "Eu sou um gigante,
nascido para destruir os deuses! Seu palito de ouro no pode me matar, garoto."

       Jason no desperdiou energia respondendo. Ele j estava cansado. O cho
agarrando seus ps, fazendo-o sentir como ele pesava uns cinquenta quilos a mais. O ar
estava cheio de fumaa que ardia nos seus pulmes. Incndios rugiam  sua volta,
alimentado pelos ventos, a temperatura estava se aproximando ao calor de um forno.

                                          344
       Jason levantou o dardo para bloquear o prximo ateque do gigante -- um grande
erro. No se combate violncia com violncia, uma voz repreendeu-o -- a loba Lupa,
quem havia dito h muito tempo. Ele conseguiu desviar a lana, mas ela atingiu o seu
ombro e seu brao ficou dormente.

       Ele apoiou-se, quase tropeando em uma tora. Ele teve de adiar --para manter a
ateno do gigante fixa nele, enquanto seus amigos lidavam com os Terrestres e
salvavam o pai de Piper. Ele no poderia falhar.

       Ele recuou, tentando levar o gigante at a beira da clareira. Enclado podia sentir
o cansao. O gigante sorriu, exibindo suas presas.

        "O poderoso Jason Grace," ele zombou. "Sim, ns sabemos sobre voc, filho de
Jpiter. Quem liderou o ataque do Monte tris. Aquele que, sozinho, matou o tit Krios
e derrubou o trono negro."

        A mente de Jason bobinou. Ele no conhecia esses nomes, mas eles fizeram sua
pele formigar, como se seu corpo lembrasse a dor e sua mente no.

      "Do que voc est falando?" perguntou ele. Ele percebeu seu erro quando
Enclado cuspiu fogo.

      Distrado, Jason movimentava-se muito lentamente. Houve uma exploso de
lembranas, mas o calor queimava suas costas. Ele bateu no cho, suas roupas em
chamas. Ele ficou cego de cinzas e fumaa, se debatendo enquanto tentava respirar.

       Tentava ficar de p com a lana do gigante carvada no cho entre seus ps.

       Jason conseguiu ficar de p.

        Se ele conseguisse convocar uma exploso de raios -- mas ele j estava
drenado, e nesta condio, o esforo poderia mat-lo. Ele nem sequer sabia se
electricidade prejudicaria o gigante.

       A morte em combate  honrosa, disse a voz de Lupa.

       Isso  realmente reconfortante, Jason pensou.

       Uma ltima tentativa: Jason respirou fundo e atacou.

       Enclado deixou-o se aproximar, sorrindo com antecipao. No ltimo segundo,
Jason fingiu um ataque e rolou entre as pernas do gigante. Ele subiu rapidamente,
empurrando com toda sua fora, pronto para apunhalar o gigante na parte de baixo das
costas, mas Enclado antecipou o truque. Ele afastou-se com uma velocidade e
agilidade grandes demais para um gigante, como se a Terra fosse ajud-lo a se mover.



                                           345
        Ele jogou a lana para longe, pegou o dardo de Jason -- e com um estalo como
um tiro de espingarda, a arma de ouro se quebrou. A exploso foi mais quente do que a
respirao do gigante, Jason foi cegado com a luz dourada. A fora tremeu seus ps e o
fez segurar o flego.

        Quando voltou ao foco, ele estava sentado na borda de uma cratera. Enclado
estava do outro lado, com o andar cambaleante e confuso. A destruio do dardo liberou
tanta energia que tinha feito um buraco perfeito em forma de cone de nove metros de
profundidade, fundindo a terra e rocha em uma substncia escorregadia e transparente.
Jason no tinha certeza de como ele sobreviveu, mas suas roupas estavam cozinhando.
Ele estava sem energia. Ele no tinha arma. E Enclado ainda estava muito vivo.

        Jason tentou se levantar, mas suas pernas pareciam chumbo. Enclado olhou
para a destruio, ento riu. "Impressionante! Infelizmente, esse foi o seu ltimo truque,
semideus."

       Enclado saltou da cratera em um nico salto, pousou seus ps um de cada lado
de Jason. O gigante levantou sua lana, sua ponta pairando a dois metros do peito de
Jason.

       "E agora," disse Enclado, "meu primeiro sacrifcio a Gaia!"




                                           346
                                       Captulo XLIV

O   TEMPO PARECER DESACELERAR, O QUE FOI            muito frustrante, j que Jason ainda
no conseguia se mover. Ele se sentiu afundando na terra como se o terreno fosse um
colcho d'gua -- confortvel, instigando-o a relaxar e se entregar. Ele pensou se as
histrias do submundo eram verdadeiras. Ser que ele iria acabar nos Campos de
Punio ou no Elsio? Se ele no conseguia lembrar de nenhum de seus atos, ser que
eles ainda contavam? Ele questionou se os juzes que levariam isso em considerao, ou
se o seu pai, Zeus, iria escrever-lhe uma nota: "Por favor poupem Jason da condenao
eterna. Ele teve amnsia."

       Jason no podia sentir seus braos. Ele podia ver a ponta da lana, vindo para o
seu peito em cmera lenta. Ele sabia que deveria se mover, mas ele no conseguia faz-
lo. Engraado, pensou ele. Todo esse esforo para se manter vivo e, em seguida, bum.
Voc apenas repousa, impotente, enquanto um gigante que cospe fogo lhe espeta.

        Leo gritou, "Cuidado!"

      Uma cunha de metal preto bateu em Enclado com um baque enorme. O gigante
tombou e caiu na cova.

       "Jason, levante-se!" Piper chamou. Sua voz energizou ele, tirando-o de seu
entorpecimento. Sentou-se, sua cabea girando, enquanto Piper agarrava seus braos e
puxava a seus ps.

        "No morra em cima de mim," ordenou. "Voc no vai morrer em cima de
mim."

        "Sim, senhora." Ele sentia-se tonto, mas ela era a coisa mais linda que ele j
tinha visto. Seu cabelo estava queimando sem chamas. Seu rosto estava manchado com
fuligem. Ela tinha um corte no brao, o vestido fora rasgado, e estava faltando uma
bota. Linda.

      Cerca de cem metros atrs dela, Leo estava em p sobre um pedao de
equipamento de construo -- uma coisa como um canho com um nico pisto
macio, a borda quebrada limpa.

                                          347
      Em seguida, Jason olhou para baixo na cratera e viu onde a outra extremidade do
machado hidrulico tinha ido. Enclado estava lutando para subir, uma lmina de
machado do tamanho de uma mquina de lavar roupa presa em seu peitoral.

       Surpreendentemente, o gigante conseguiu puxar a lmina do machado. Ele
gritou de dor e as montanhas tremeram. Ichor dourado enxarcou a frente de sua
armadura, mas Enclado continuou. Tremendo, ele se abaixou e pegou sua lana.

       "Boa tentativa." O gigante estremeceu. "Mas eu no posso ser derrotado."

       Enquanto observavam, a armadura do gigante remendava-se, e o ichor parou de
escorrer. Mesmo os cortes nas pernas do tamanho de drages, que Jason tinha
trabalhado tanto para formar, agora eram apenas cicatrizes plidas.

      Leo correu at eles, viu o gigante, e amaldioou. "O que h com esse cara?
Morra!"

       "Meu destino est predeterminado," disse Enclado. "Gigantes no podem ser
mortos por deuses ou heris."

       "S por ambos," disse Jason. O sorriso do gigante vacilou, e Jason viu em seus
olhos, algo como o medo. " verdade, no ? Deuses e semideuses tem que trabalhar
em conjunto para poder mat-lo."

       "Voc no vai viver tempo suficiente para tentar!" O gigante comeou a tropear
na encosta da cratera, escorregando nas laterais.

       "Algum tem um deus  mo?" Leo perguntou.



       O corao de Jason cheio de temor. Ele olhou para o gigante abaixo deles,
lutando para sair da cova, e ele sabia o que tinha que fazer.

       "Leo," disse ele, "se voc tem uma corda no seu cinto de ferramentas, deixe-a
pronta."

       Ele pulou no gigante sem nenhuma arma, apenas suas mos.

       "Enclado!" Piper gritou. "Olhe para trs!"

        Foi um truque bvio, mas a voz dela era to convincente, que at Jason olhou. O
gigante disse, "O qu?" e virou-se como se houvesse uma enorme aranha em suas
costas.

      Jason atacou suas pernas no momento certo. O gigante perdeu o equilbrio.
Enclado bateu na cratera e deslizou para o fundo. Enquanto ele tentava subir, Jason

                                          348
colocou os braos ao redor do pescoo do gigante. Quando Enclado esforou-se para
ficar de p, Jason tinha montado em seus ombros.

       "Saia!" Enclado gritou. Ele tentou agarrar as pernas de Jason, mas Jason
arranhou ao seu redor, se contorcendo e escalando nos cabelos do gigante.

       Pai, Jason pensou. Se eu j fiz algo de bom, qualquer coisa que voc aprovou,
ajude-me agora. Eu ofereo a minha prpria vida -- basta salvar os meus amigos.

       De repente, ele pde sentir o cheiro metlico de uma tempestade. A escurido
engoliu o sol. O gigante congelou, ele estava sentindo tambm.

       Jason gritou para seus amigos, "Se preparem!"

       E cada fio de cabelo em sua cabea se eriou.

       Crack!

       Raios percorreram o corpo de Jason, e indo direto at Enclado, e na terra. O
gigante endureceu novamente, e Jason caiu. Quando recuperou a sua viso, ele estava
escorregando para baixo da cratera, e, a cratera se abriu em rachaduras. O raio dividiu o
Monte em dois. A terra tremeu, e as pernas de Enclado deslizaram para o abismo. Ele
se agarrou desesperadamente nas bordas do poo, e em s por um momento conseguiu
segurar a vantagem, suas mos trmulas.

       Ele se fixou em Jason com um olhar de dio. "Voc no ganhou nada, rapaz.
Meus irmos esto se erguendo, e eles so dez vezes mais fortes que eu. Vamos destruir
os deuses em suas razes! Voc morrer, e morrer com Olimpo --"

       O gigante perdeu o controle e caiu na fenda.

       A terra tremeu. Jason caiu no abismo.

       "Segure firme!" Leo gritou.

       Os ps de Jason estavam  beira do abismo, quando ele pegou a corda, e Leo e
Piper puxaram-no para cima.

      Eles estavam juntos, exaustos e aterrorizados, e o abismo se fechando como
uma boca com raiva. A terra parou de puxar seus ps.

       Por ora, Gaia tinha ido embora.

       O Monte estava em chamas. Saiu fumaa a centenas de metros no ar. Jason viu
um helicptero -- talvez bombeiros ou reprteres -- vindo na direo deles.




                                          349
       Em torno deles haviam muitos mortos. Os Terrestres tinham derretido em
montes de barro, deixando para trs apenas seus msseis de pedra e alguns pedaos
desagradveis de roupa, mas Jason imaginou que haveria uma reforma em breve.
Equipamentos de construo em runas. O cho estava preto e cheio de cicatrizes. O
Treinador Hedge comeou a se mexer. Sentou-se com um gemido e coou a cabea. Sua
cala amarelo-canrio estava agora com a cor de mostarda de Dijon misturado com
lama.

       Ele piscou e olhou em volta para a cena de batalha. "Eu fiz isso?"
Antes de Jason pudesse responder, Hedge pegou o clube e chacoalhou seus ps. "Sim,
vocs vocs queriam um casco? Eu lhes darei alguns cascos, bolinhos! Quem  o bode,
hein?"

       Ele fez uma pequena dana, chutando pedras e fazendo o que provavelmente
foram gestos rudes de um stiro na pilha de barro.

        Leo esboou um sorriso, e Jason no poderia deixar de ajud-lo -- ele comeou
a rir. Muito provvel que tenha soado um pouco histrico, mas foi um alvio por estar
vivo que ele no se importou.

        Ento, um homem se levantou em toda a clareira. Tristan McLean cambaleou
para a frente. Seus olhos estavam vazios, algum em estado de choque, como quem
tinha acabado de andar no meio de um deserto nuclear.

       "Piper?" chamou. Sua voz falhou. "Pipes, o que -- o que  --"

       Ele no pde concluir o pensamento. Piper correu at ele e o abraou com fora,
mas ele quase no parecia conhec-la.

      Jason havia se sentido assim, naqula manh no Grand Canyon, quando ele
acordou sem memria. Mas o Sr. McLean tinha o problema oposto. Ele tinha muitas
lembranas, muitos traumas, que sua mente simplesmente no podia guardar. Ele estava
desmoronando.

       "Precisamos tir-lo daqui," disse Jason.

       "Sim, mas como?" Leo disse. "Ele est sem nenhuma condio de andar."

       Jason olhou para o helicptero, que estava circulando por cima.

       "Voc pode nos dar um megafone ou algo assim?" ele perguntou a Leo. "Piper
tem algumas coisas para dizer."




                                          350
                                       Captulo XLV

PEGAR EMPRESTAR UM HELICPTERO ERA FCIL... Colocar seu pai a bordo de um
no.

       Piper precisou apenas de algumas palavras atravs do megafone improvisado de
Leo para convencer a piloto a pousar no Monte. O Servio de Helicptero do Parque era
grande o suficiente para evacuaes mdicas ou busca e salvamento, e quando Piper
disse para simptica senhora guarda-florestal que seria uma tima ideia voarem at o
Aeroporto Oakland, ela rapidamente concordou.

      "No," seu pai murmurou, assim que o pegaram do cho. "Piper, o que -- havia
monstros -- havia monstros --"

       Ela precisava da ajuda de Leo e Jason para segur-lo, enquanto Treinador Hedge
reunia os suprimenos deles. Felizmente Hedge colocou suas calas e sapatos de volta,
ento Piper no teria que explicar sobre as pernas de bode.

       Partia o corao de Piper para ver seu pai assim, empurrado para alm o limite,
chorando como um garotinho. Ela no sabia o que o gigante fez com ele exatamente,
como os monstros tinham destrudo seu esprito, mas ela no achava que poderia ficar
para descobrir.

        "Vai ficar tudo bem, pai," ela disse, fazendo sua voz ficar to calma quanto o
possvel. Ela no queria usar o encantamento em seu prprio pai, mas parecia o nico
jeito. "Essas pessoas so meus amigos. Ns vamos te ajudar. Voc est seguro agora."

      Ela piscou, e olhou para os rotores do helicptero. "Lminas. Eles tm uma
mquina com tantas lminas. Eles tm seis braos..."

       Quando eles atingiram as portas do compartimento, a piloto veio para ajudar. "O
que h de errado com ele?" ela perguntou.

       "Inalao de fumaa," Jason sugeriu. "Ou exausto de calor."

       "Ns temos que lev-lo a um hospital," a piloto disse.

       "Est tudo bem," Piper disse. "O aeroporto  bom."
                                          351
       ", o aeroporto  bom," a piloto concordou imediatamente. Ento ela franziu o
cenho, como se no tivesse certeza do por que ela ter mudado de ideia. "Esse no 
Tristan McLean, a estrela de cinema?"

       "No," Piper disse. "Ele apenas se parece com ele. Esquea isso."

       "," a piloto disse. "Apenas se parece com ele. Eu --" Ela pestanejou, confusa.
"Eu esqueci o que eu estava dizendo. Vamos continuar."

        Jason ergueu as sobrancelhas para Piper, obviamente impressionado, mas Piper
se sentia miservel. Ela no queria bagunar as mentes das pessoas, convencendo-as a
fazer coisas que elas no acreditavam. Se sentia to mandona, to errada -- como Drew
seria quando voltasse ao acampamento, ou como Medeia em seu shopping demonaco.
E como ela poderia ajudar seu pai? Ela no poderia convenc-lo que estava tudo bem,
ou que isso nunca aconteceu. Seu trauma foi muito profundo.

        Finalmente o tinham a bordo, e o helicptero decolou. A piloto continuou
recebendo perguntas em seu rdio, perguntou onde ela estava indo, mas ela ignorava.
Eles se afastaram do Monte ardente e foram em direo a Berkeley Hills.

       "Piper." Seu pai agarrou sua mo e a segurou como se tivesse medo de cair. "
voc? Eles me falaram -- eles me falaram que voc seria morta. Eles disseram... coisas
horrveis do que iria acontecer."

       "Sou eu, pai." Ela usou toda a sua fora de vontade para no chorar. Ela tinha
que ser forte para ele. "Tudo vai ficar bem."

       "Eles eram monstros," ele disse. "Monstros reais. Espritos da terra, exatamente
como as histrias de seu avo Tom -- e a Me Terra est com raiva de mim. E o gigante,
Tsul'kl, respirando fogo --" Ele focalizou Piper novamente, seus olhos como vidro
quebrado, refletindo um maluco tipo de luz. "Eles disseram que voc era um semideus.
Sua me era..."

       "Afrodite," Piper disse. "Deusa do amor."

       "Eu -- eu --" Ele tomou flego, ento pareceu esquecer como exalar.

        Os amigos de Piper tiveram o cuidado de no assistir. Leo brincava com uma
porca tirada de seu cinto de ferramentas. Jason olhava para o vale abaixo -- os carros
dos mortais parados nas estradas olhando para o Monte ardendo em chamas. Gleeson
mastigava o topo de seu cravo, e pela primeira vez o stiro no olhava com vontade de
gritar ou se vangloriar-se.

       Tristan McLean no deveria ser visto ali. Ele era uma estrela. Ele era confiante,
elegante e suave, sempre no controle. Essa era a imagem pblica que ele projetava.


                                          352
Piper j tinha visto essa imagem vacilar antes. Mas aquilo era diferente. Agora ele
estava quebrado, desesperado.

       "Eu no sabia sobre a mame," Piper falou para ele. "No at voc ser raptado.
Quando ns descobrimos onde voc estava, ns viemos imediatamente. Meus amigos
me ajudaram. Ningum vai te machucar outra vez."

        Seu pai no conseguia parar de tremer. "Vocs so heris -- voc e seus amigos.
Eu no posso acreditar nisso. Vou  uma herona verdadeira, no como eu. No fazer
um papel. Estou muito orgulhoso de voc, Pipes." Mas as palavras foram murmuradas
indiferentes, como em um semi-transe.

      Ele olhou para o vale abaixo, e seu controle na mo de Piper aliviou. "Sua mo
nunca me disse."

       "Ela pensou que era o melhor." Parecia imperfeito, mesmo para Piper, e
nenhuma quantidade de encantamento poderia mudar isso. Mas ela no falou para seu
pai do que Afrodite realmente se preocupava: Se ele tiver que gastar o resto de sua vida
com aquelas memrias, sabendo que deuses e espritos andam na terra, isso ir
despeda-lo.

         Piper sentiu algo dentro de seu bolso, o frasco estava l, se aquecendo ao seu
toque.

       Mas como ela poderia apagar a memria dele? Seu pai finalmente sabia o que
ela era. Ele estava orgulhoso dela, e pela primeira vez ela era uma herona, no o
contrrio. Ele nunca iria mand-la de volta agora. Eles compartilhariam um segredo.

         Como ela poderia voltar para o jeito que as coisas eram?

        Ela segurou sua mo, falando para ele sobre coisas pequenas -- seu tempo na
Wilderness School, seu chal no Acampamento Meio-Sangue. Ela contou a ele sobre
como o Treinador Hedge comia cravos e tinha batido seu bumbum no Monte Diablo,
como Leo domesticou um drago, como Jason tinha feito lobos se retirarem falando em
latim. Seus amigos sorriram com relutncia, ao relatar suas aventuras. Seu pai parecia
relaxar enquanto ela falava, mas ele no sorria. Piper no tinha certeza se ele a escutava.

        Enquanto eles passaram sobre as colinas ao leste da baa, Jason ficou tenso. Ele
se inclinou para longe da Porta que Piper tinha medo de ele cair.

         Ele apontou. "O que  aquilo?"

        Piper olhou para baixo, mas ela no viu nada de interessante -- apenas colinas,
florestas, casas, pequenas estradas que serpenteavam atravs dos desfiladeiros. Uma
rodovia atravessava um tnel nas montanhas, ligando a baa do leste com as cidades do
interior.
                                           353
       "Onde?" Piper perguntou.

       "Essa estrada," ele disse. "A nica que atravessa as colinas."

       Piper pegou o capacete que a piloto havia lhe dado e transmitiu uma pergunta. A
resposta no foi muito emocionante.

       "Ela disse que essa  a Rodovia 24," Piper reportou. "Esse  o Tnel Caldecott.
Por qu?"

        Jason olhou fixamente para a entrada do tnel, mas ele no disse nada. Ele
desapareceu de vista enquanto eles voaram para Oakland, mas Jason continuou olhando
 distncia, sua expresso to confusa quanto  do pai de Piper.

     "Monstros," seu pai disse, uma lgrima caindo sobre sua bochecha. "Eu vivo em
um mundo de monstros."




                                          354
                                    Captulo XLVI

O   CONTROLE DE TRFEGO AREO NO QUERIA deixar              um helicptero no
programado pousar no Aeroporto de Oakland, at Piper ir ao rdio. Em seguida, ele
pousou sem nenhum problema.

       Eles desembarcaram no asfalto, e todos olharam para Piper.

       "E agora?" Jason perguntou para ela.

        Ela se sentia desconfortvel. Ela no queria ser responsvel, mas pelo seu pai,
ela tinha que parecer confiante. Ela no tinha nenhum plano. Ela tinha acabo de se
lembrar que ele j tinha voado at Oakland, o que significava que seu avio privado
poderia estar ali. Mas hoje era o solstcio. Eles tinham que salvar Hera. Eles no tinham
ideia para onde ir ou se eles chegariam tarde demais. E como ela poderia abandonar seu
pai nessa condio?

       "Primeira coisa," ela disse. "Eu -- eu tenho que levar meu pai para casa. Meu
desculpem, rapazes."

       Suas expresses morreram.

     "Ah," Leo disse. "Quer dizer, absolutamente. Ele precisa de voc agora. Ns
podemos ir a partir daqui."

       "Pipes, no." Seu pai estava sentado na porta do helicptero, com um cobertor
sobre seus ombros. "Voc tem uma misso. Uma busca. Eu no posso --"

       "Eu vou cuidar dele," disse o Treinador Hedge.

       Piper olhou para ele. O stiro era a ltima pessoa que ela esperava que fosse se
oferecer. "Voc?" ela perguntou.

       "Eu sou um protetor," Gleeson disse. "Esse  o meu trabalho, e no luta."

        Ele parecia um pouco cabisbaixo, e Piper percebeu que talvez ela no devesse
ter contado como ele ficou inconsciente na ltima batalha. Do seu jeito, talvez o stiro
fosse to sensvel quando o pai dela.

                                          355
        Ento Hedge enrubesceu, e seu maxilar se contraiu. "Claro, eu sou bom em uma
luta, tambm." Ele olhou para todos, desafiando-os a discutir.

       "Sim," Jason disse.

       "Aterrorizante," Leo concordou.

        O treinador grunhiu. "Mas eu sou um protetor, e eu posso fazer isso. Seu pai tem
razo, Piper. Voc precisa continuar com a busca."

        "Mas..." Os olhos de Piper ardiam, como se ela estivesse de volta ao incndio na
floresta. "Pai..."

       Ele estendeu seus braos, e ela o abraou. Ele se sentia frgil. Ele estava muito
trmulo, e isso a assustou.

       "Vamos dar um minuto a eles," Jason disse, e levaram a piloto a poucos metros
abaixo no asfalto.

       "Eu no posso acreditar nisso," seu pai disse. "Eu falhei com voc."

       "No, pai!"

       "As coisas que eles fizeram, Piper, as vises que eles me mostraram..."

        "Pai, escute." Ela pegou o frasco de seu bolso. "Afrodite me deu isso, pra voc.
Isso vai tirar suas memrias recentes. Isso vai fazer com que isso nunca aconteceu."

       Ele olhou pasmo para ela, como se estivesse traduzindo suas palavras de uma
lngua estrangeira. "Mas voc  uma herona. Eu posso esquecer isso?"

       "Sim," Piper sussurrou. Ela forou um tom confiante em sua voz. "Sim, voc
pode. Vai ser como -- como antes."

       Ele fechou seus olhos e respirou profundamente. "Eu te amo, Piper. E sempre
amei. Eu -- eu te enviei para longe porque eu no queria voc exposta  minha vida.
No do jeito que eu cresci -- na pobreza, na desesperana. No na loucura que
Hollywood quer. Eu pensei -- eu pensei que estava protegendo voc." Ele conseguiu
dar um sorriso frgil. "Como se sua vida sem mim fosse melhor, ou mais segura."

       Piper pegou sua mo. Ela j tinha o ouvido falar de proteg-la antes, mas ela
nunca acreditava nisso. Ela sempre pensou que ele estava apenas racionalizando. Seu
pai parecia to confiante e tranquilo, como se sua vida fosse um passeio na felicidade.
Como ele podia afirmar que ela precisava de proteo desse jeito?




                                          356
       Finalmente Piper entendeu que ele estava agindo pelo benefcio dela, tentando
no mostrar como seu medo e insegurana eram. E como sua habilidade para lidar com
isso havia sido destruda.

        Ela ofereceu o frasco para ele. "Pegue isso. Talvez um dia estejamos prontos
para falar sobre isso novamente. Quando voc estiver pronto."

       "Quando eu estiver pronto," ele murmurou. "Voc faz parecer que, como eu sou
o nico a crescer. Eu devia ser o pai." Ele pegou o frasco. Seu olhos brilhavam com
uma pequena expectativa desesperada. "Eu te amo, Pipes."

       "Eu te amo tambm, pai."

        Ele bebeu o lquido rosa. Seus olhos viraram em sua cabea e ele caiu para
frente. Piper o pegou, e seus amigos correram para ajudar.

       "Eu pego ele," Hedge disse. O stiro tropeou, mas ele era forte o suficiente para
segurar Tristan McLean de p. "Eu j pedi para seu amiguinho guarda-florestal chamar
seu avio. Est a caminho agora. Endereo de casa?

       Piper estava prestes a lhe dizer. Ento uma ideia lhe ocorreu. Ela vasculhou o
bolso do pai, e seu BlackBerry ainda estava l. Parecia estranho ele ter algo to normal,
pelo que ele tinha passado, mas sups que Enclado no tinha visto nenhum motivo
para peg-lo.

        "Qualquer coisa aqui," Piper disse. "Endereo, o nmero de seu chofer. Apenas
preste ateno em Jane."

     Os olhos de Hedge se iluminaram, como se pressentisse uma possvel luta.
"Quem  Jane?"

      At a hora de Piper explicar, seu lustroso Golfo Stream branco havia taxiado
prximo ao helicptero.

       Hedge e o comissrio de bordo conseguiram colocar o pai de Piper a bordo.
Ento Hedge desceu pela ltima vez para dizer adeus. Ele deu a Piper um abrao e
olhou para Jason e Leo. "Vocs bolinhos vo cuidar dessa garoto, ouviram? Ou eu vou
fazer vocs fazerem flexes."

       "Claro, treinador," Leo disse, puxando um sorriso na boca.

       "Sem flexes," Jason prometeu.

       Piper deu ao velho stiro mais um abrao. "Obrigada, Gleeson. Cuide bem dele,
por favor."



                                          357
       "Eu vou fazer isso, McLean," ele sussurrou para ela. "Eles tem cerveja e
enchiladas vegetarianas nesse vo, e cem por cento de guardanapos de linha -- iupi! Eu
poderia me acostumar com isso."

       Trotando na escada, ele perdeu um sapato, e seu casco ficou visvel por apenas
um segundo. Os olhos da comissria de bordo se alargaram, mas ela olhou em volta e
fingiu que nada estava errado. Piper imaginou que ela j deveria ter visto coisas
estranhas, trabalhando para Tristan McLean.

        Quando o avio estava subindo, Piper comeou a chorar. Ela estava se
segurando h muito tempo e no conseguia mais segurar. Antes que ela percebesse,
Jason a estava abraando, e Leo estava desconfortavelmente perto, puxando Kleenex de
seu cinto de ferramentas.

       "Seu pai est em boas mos," Jason disse. "Voc foi incrvel."

       Ela chorou em sua camisa. Ela deixou se segurar por seis respiraes profundas.
Sete. Ento ela no podia ser indulgente com ela mesma mais.

       Eles precisavam dela. A piloto do helicptero estava pronta parecendo
desconfortvel, como se estivesse comeando a se perguntar por que ela tinha voado at
ali.

       "Obrigada, rapazes," Piper disse. "Eu --"

       Ela queria dizer a eles o quando significavam para ela. Eles sacrificaram tudo,
talvez at mesmo a busca, para ajud-la. Ela no poderia reembolsar, nem mesmo
colocar gratido nas palavras. Mas a expresso de seus amigos falavam para ela que eles
entendiam.

        Ento, ao lado de Jason, o ar comeou a brilhar. Piper pensou que era o calor da
pista, ou talvez fumaa do gs do helicptero, mas ela tinha visto algo assim antes, na
fonte de Medeia. Era uma mensagem de ris. Uma imagem apareceu no ar com uma
menina de cabelos escuros com uma fita prata camuflada em seu cabelo, segurando um
arco.

       Jason cambaleou para trs, surpreso. "Thalia!"

       "Graas aos deuses," disse a Caadora. A cena atrs dela era difcil de descrever,
mas Piper ouviu gritos, metal colidindo com metal, e exploses.

       "Ns temos que encontr-la," Thalia disse. "Onde voc est?"

       "Oakland," ele disse. "Onde voc est?




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      "Na Casa dos Lobos! Oakland  boa; voc no est muito longe. Estamos
impedindo os asseclas do gigante, mas no podemos aguentar por muito tempo.
Cheguem aqui antes do pr-do-sol, ou estar tudo acabado."

       "Ento ns no estamos muito atrasados?" Piper chorou. A esperana surgiu
nela, mas a expresso de Thalia rapidamente amorteceu.

      "Ainda no," disse Thalia. "Mas Jason --  pior do que percebi. Porfrio est se
erguendo. Rpido."

       "Mas onde  a Casa dos Lobos?" ele invocou.

       "Nossa ltima viagem," disse Thalia, sua imagem comeando a cintilar. "O
parque. Jack London. Lembra?

      Aquilo no fazia sentido para Piper, mas Jason parecia que tinha entendido. Ele
cambaleou, seu rosto plido, e a mensagem desapareceu.

       "Mano, voc est bem?" Leo perguntou. "Voc sabe onde ela est?"

       "Sim," Jason disse. "Vale de Sonoma. No muito longe. No pelo ar."

       Piper voltou-se para a guarda-florestal piloto, que vinha assistido tudo com a
expresso cada vez mais intrigada.

       "Senhora," Piper disse com seu melhor sorriso. "Voc no se importa em nos
ajudar mais uma vez, no ?"

       "Eu no me importo," a piloto disse concordando.

       "Ns no podemos levar um mortal para a batalha," Jason disse. " muito
perigoso." Virou-se para Leo. "Voc acha que poderia voar naquela coisa?"

       "H..." A expresso de Leo no estava exatamente tranquilizando Piper. Mas
ento ele colocou sua mo ao lado do helicptero, muito concentrado, como se estivesse
ouvindo a mquina.

       "Helicptero utilitrio Bell 412HP," Leo disse. "Composto por 4 hlices no
centro do rotor, na velocidade de um cruzeiro de vinte e dois ns, teto de servio de
vinte mil ps. O tanque est quase cheio. Claro, eu posso voar nisso."

       Piper sorriu para a guarda-florestal novamente. "Voc no tem problema com
garotos menores de idade no licenciados emprestando o seu helicptero, no ? Ns
vamos voltar com ele."

      "Eu --" A piloto quase se engasgou com as palavras, mas ela colocou para fora:
"Eu no tenho problema com isso."

                                         359
Leo sorriu. "Pulem dentro, crianas. Tio Leo vai lev-los a um passeio."




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                                      Captulo XLVII

PILOTAR UM HELICPTERO? CLARO, POR QUE NO. Leo j tinha feito coisas mais
malucas essa semana.

       O sol estava se pondo enquanto voavam para o norte sobre a Ponte Richmond, E
Leo no conseguia acreditar que o dia tinha se passado to rapidamente. Mai uma vez,
nada como TDAH e uma boa luta com a morte para fazer o tempo voar.

        Pilotando o helicptero, ele ia e voltava entre confiana e pnico. Se ele no
pensasse nisso, ele se achava automaticamente apertando os botes certos, verificando o
altmetro, mexendo no controle suavemente, e voando reto. Se ele se permite considerar
o que estava fazendo, ele comeava a entrar em pnico. Imaginou sua Tia Rosa gritando
com ele em espanhol, falando que ele era um delinquente luntico que iria se espatifar e
queimar. Parte dele suspeitava que ela estivesse certa.

       "Indo bem?" Piper perguntou do assento do copiloto. Ela soava mais nervosa
que ele, ento Leo fez uma cara de corajoso.

       "Moleza," ele disse. "Ento, o que  a Casa dos Lobos?"

     Jason se ajoelhou entre seus lugares. " uma manso abandonada no Vale de
Sonoma. Um semideus a construiu -- Jack London."

       Leo no conseguia localizar o nome. "Ele  um ator?"

      "Escritor," Piper disse. "Coisas de aventura, certo? Chamado Selvagem?
Caninos brancos?"

       "Aham," Jason disse. "Ele era filho de Mercrio -- quero dizer, Hermes. Ele era
um aventureiro, viajava ao redor do mundo. Ele foi um vagabundo por um tempo.
Depois ele fez uma fortuna escrevendo. Comprou um rancho grande no pas e decidiu
construir essa manso enorme -- a Casa dos Lobos."

       "Ele a chamou disso por que ele escreveu sobre lobos?" Leo adivinhou.

      "Parcialmente," Jason disse. "Mas o lugar, e a razo que ele escreveu sobre
lobos -- ele estava deixando pistas sobre sua experincia pessoal. Tem um monte de

                                          361
buracos na histria da sua vida -- como ele nasceu, quem era seu pai, porque ele
viajava tanto pelo mundo -- coisas que voc s consegue explicar se voc soubesse que
ele era um semideus."

        A baa passou debaixo deles, e o helicptero continuou indo para o norte. A
frente deles, morros amarelos apareciam na medida em que Leo podia ver.

       "Ento Jack London foi para o Acampamento Meio-Sangue," Leo adivinhou.

       "No," Jason disse. "No, ele no foi."

      "Cara, voc est me enlouquecendo com essa conversa misteriosa. Voc est se
lembrando do seu passado ou no?"

        "Pedaos," Jason disse. "S pedaos. Nenhum deles bom. A Casa dos Lobos
est em solo sagrado.  onde Jack London comeou sua jornada como criana -- onde
ele descobriu que era um semideus.  por isso que ele voltou para l. Ele pensou que
podia viver l, reivindicar a terra, mas no era para ele. A Casa dos Lobos estava
amaldioada. Incendiou uma semana antes que ele e sua esposa iriam supostamente se
mudar para l. Alguns anos depois London morreu, e suas cinzas foram queimadas no
local."

       "Ento," Piper disse, "como voc sabe tudo isso?"

        Uma sombra cruzou a cara de Jason. Provavelmente uma nuvem, mas Leo podia
jurar que o formato parecia a de uma guia.

       "Eu comecei minha jornada l tambm," Jason disse. " um lugar poderoso para
semideuses, um lugar perigoso. Se Gaia puder reclam-la, usar seu poder para prender
Hera no solstcio de inverno e reerguer Porfrio -- isso poderia ser suficiente para
acordar a deusa da terra completamente."

       Leo deixou sua mo no controle, guiando o helicptero a velocidade mxima --
correndo em frente para o norte. Ele podia ver um pouco do tempo a frente -- um ponto
de negrume como um amontoado de nuvens ou uma tempestade, bem em cima de onde
estavam indo.

       O pai da Piper o chamou de heri mais cedo. E Leo no conseguia acreditar em
algumas coisas que tinha feito -- esmagando ciclopes, desarmando campainhas
explosivas, batalhando contra ogros de seis braos com equipamento construdo.
Parecia que tinha acontecido com outra pessoa. Ele era apenas Leo Valdez, uma criana
rf de Houston. Ele gastou a sua vida fugindo, e parte dele ainda queria fugir. O que
ele estava pensando, voando para uma manso amaldioada para lutar contra mais
monstros maus?

       A voz de sua me ecoou na sua cabea: Tudo pode ser consertado.
                                          362
       Exceto o fato que voc foi para sempre, Leo pensou.

       Ver Piper e seu pai juntos novamente tinha realmente o dirigido para esses
pensamentos. Mesmo se Leo sobreviver essa misso e salvar Hera, Leo no teria
nenhuma reunio feliz. Ele no estaria voltando para uma famlia amorosa. Ele no iria
ver sua me.

       O helicptero estremeceu, metal estalou, e Leo podia imaginar que o barulho era
cdigo Morse: No  o fim. No  o fim.

       Ele subiu o helicptero, e o barulho parou. Ele s estava ouvindo coisas. Ele no
podia pensar na sua me, ou a ideia continuaria atormentando ele -- que Gaia estava
trazendo almas de volta do Mundo Inferior -- ento por que ele no podia fazer vir algo
de bom nisso? Pensar desse jeito iria deix-lo louco. Ele tinha um trabalho a fazer.

       Ele deixou seus instintos assumirem -- apenas pilotar o helicptero. Se ele
pensasse na misso muito, ou o que aconteceria depois, ele entraria em pnico. O truque
era no pensar -- apenas fazer.

      "Faltam trinta minutos," ele contou para seus amigos, mas ele no tinha certeza
como sabia disso. "Se vocs querem descansar um pouco, agora  uma boa hora."



Jason voltou para o final do helicptero e dormiu quase imediatamente. Piper e Leo
continuaram ainda bem acordados.

       Depois de alguns minutos embaraosos, Leo disse, "O seu pai vai ficar bem,
voc sabe. Ningum vai mexer com ele com um bode louco por volta."

        Piper olhou para ele, e Leo pensou o quanto ela tinha mudado. No apenas
fisicamente. A sua presena estava mais forte. Ela parecia mais... aqui. Na Wilderness
School ela gastou o semestre tentando no ser vista, se escondendo no final da fileira
das carteiras da classe, no final do nibus, no canto do refeitrio o mais distante
possvel de crianas barulhentas. Agora era impossvel de perd-la. No importava o
que estivesse vestindo -- voc tinha que olhar para ela.

       "Meu pai," ela disse pensativa. "Aham, eu sei. Eu estava pensando sobre Jason.
Estou preocupada com ele."

        Leo assentiu. Quanto mais se aproximavam do amontoado de nuvens escuras,
mais Leo ficava preocupado tambm. "Ele est comeando a se lembrar. Isso pode o
fazer ficar um pouco confuso."

       "Mas e se... e se ele for uma pessoa diferente?"


                                          363
       Leo pensava a mesma coisa. Se a Nvoa podia afetar as suas memrias, a
personalidade do Jason poderia ser uma iluso tambm? Se o seu amigo no fosse seu
amigo, e eles estavam indo para uma manso amaldioada -- um lugar perigoso para
semideuses -- o que aconteceria se toda a memria de Jason voltasse de uma vez no
meio da batalha?

      "No," Leo decidiu. "Depois de tudo o que passamos? Eu no consigo ver isso.
Ns somos um time. Jason pode suportar."

       Piper alisou seu vestido azul, que estava rasgado e queimado da luta deles no
Monte Diablo. "Eu espero que voc esteja certo. Eu preciso dele..." Ele limpou a
garganta. "Quero dizer, eu preciso acreditar nele..."

        "Eu sei," Leo disse. Depois de ver seu pai arruinado, Leo entendeu, Piper no
podia perder Jason tambm. Ela tinha acabado de ver Tristan McLean, seu pai, astro de
cinema, legal e calmo, reduzido a quase a insanidade. Leo mal podia suportar a assistir a
isto, mas e a Piper -- Nossa, Leo no podia nem sequer imaginar. Ele figurou se isso a
faria ficar insegura de si mesma tambm. Se a fraqueza foi herdada, ela estaria
pensando, ser que ela poderia desmoronar como o seu pai?

       "Ei, no se preocupe," Leo disse. "Piper, voc  a mais forte, mais poderosa
rainha da beleza que eu j conheci. Voc pode contar consigo mesma. E para o pior,
voc pode contar comigo tambm."

        O helicptero caiu em um vento cortante, e Leo se sobressaltou. Ele praguejou e
endireitou o helicptero.

       Piper riu nervosa. "Contar contigo, hein?"

        "Ah, cala a boca, tudo resolvido." Mas ele sorriu para ela, e por um segundo, ele
sentiu como se estivesse relaxando confortavelmente com um amigo.

       Ento eles atingiram as nuvens de tempestade.




                                          364
                                      Captulo XLVIII

NO COMEO, LEO PENSOU QUE AS ROCHAS ESTAVAM caindo no pra-brisas. Ento
ele percebeu que era granizo. Gelo comeou a aparecer nas bordas do vidro, e ondas
lamacentas de gelo apagaram a sua viso.

       "Uma tempestade de gelo?" Piper gritou mais alto que as hlices e o vento. "
para ser to frio assim em Sonoma?"

      Leo no tinha certeza, mas alguma coisa nessa tempestade parecia consciente,
malvola -- como se intencionalmente estivesse castigando eles.

        Jason acordou rapidamente. Ele inclinou para frente, agarrando os assentos deles
para se equilibrar. "Ns devemos estar chegando mais perto."

       Leo estava muito ocupado lutando contra o controle para responder. De repente
no estava to fcil pilotar o helicptero. Seus movimento se tornaram lentos e bruscos.
A mquina inteira estremeceu no vento de gelo. O helicptero provavelmente no tinha
sido preparado para voar em tempo frio. Os controles se recusavam a responder. E eles
comearam a perder altitude.

       Abaixo deles, o cho era uma colcha escura de rvores e nevoeiro. O cume de
um monte apareceu na frente deles e Leo puxou o controle, raspando nas copas das
rvores.

       "Ali!" Jason gritou.

        Um vale pequeno abriu-se para eles, com uma forma escura de um edifcio no
meio. Leo destinou o helicptero diretamente para ele. Em toda volta deles tinha
lampejos de luz que lembrou Leo do fogo marcador no complexo do Midas. rvores
estalaram e explodiram nas bordas da clareira. Sombras moveram-se atravs do
nevoeiro. Combates pareciam estar em todos os lugares.

       Ele desceu o helicptero para um campo de gelo a uns cinquenta metros da casa
e desligou o motor. Ele estava prestes a relaxar quando ouviu um silvo e viu uma
sombra escura indo rapidamente em direo deles fora do nevoeiro.

       "Saiam!" Leo gritou.
                                          365
      Eles saltaram do helicptero e mau saram debaixo das hlices antes de um
massivo BUM tremer a terra, derrubando Leo e jogando gelo nele.

       Ele levantou tremendo e viu a maior bola de neve do mundo -- um amontoado
de neve, gelo, e sujeira do tamanho de uma garagem -- tinha achatado completamente o
Bell 412.



      "Voc est bem?" Jason correu para ele com Piper do seu lado. Os dois pareciam
bem exceto pelo fato de estarem cobertos de neve e lama.

       "Sim." Leo estremeceu. "Acho que devemos quela pilota um novo
helicptero."

       Piper apontou para o sul. "As lutas esto por ali." Depois ela franziu a testa.
"No... est a nossa volta."

        Ela estava certa. O som de combate atravessou todo o vale. A neve e a neblina
fez com que ficasse difcil dizer, mas parecia haver um crculo de lutas em toda a volta
da Casa dos Lobos. Atrs deles assomava a casa dos sonhos de Jack London -- uma
runa massiva de pedras vermelhas e cinzas e vigas de madeira rstica. Leo podia
imaginar como era antes de incendiar -- uma combinao de uma casa de madeira e
castelo, como uma casa de um lenhador bilionrio poderia construir. Mas na neblina e
no granizo, o lugar parecia solitrio e assombrado. Leo podia acreditar totalmente que
as runas eram amaldioadas.

       "Jason!" a voz de uma garota chamou.

       Thalia apareceu na neblina, a sua jaqueta coberta de neve. O seu arco estava na
sua mo, e sua aljava estava quase vazia. Ela correu para encontra-los, mas ela s deu
alguns passos antes de um ogro de seis braos--um dos Terrestres--apareceu da
tempestade atrs dela, um porrete erguido em cada mo.

       "Cuidado!" Leo gritou. Eles se apressaram para ajudar, mas Thalia tinha tudo
sobre controle. Ele se lanou num mortal, atirando uma flecha enquanto ela articulava
como uma ginasta e aterrissou em um posio abaixada. O ogro conseguiu uma flecha
de prata bem no meio do seus olhos e derreteu em uma pilha de p.

       Thalia levantou e recuperou a flecha, mas a ponta tinha sado. "Essa era a minha
ltima flecha." Ela chutou a pilha de p ressentida. "Ogro estpido."

       "Belo tiro, alis," Leo disse.

       Thalia ignorou ele como sempre (o que sem dvida queria dizer que ela pensava
que ele era legal como sempre). Ela abraou Jason e acenou para Piper. "Bem na hora.

                                          366
Minhas Caadoras esto cobrindo um permetro em volta da manso, mas vamos ser
sobrepujados a qualquer minuto."

         "Por Terrestres?" Jason perguntou.

       "E lobos -- servidores de Licao." Thalia tirou um pedao de gelo do seu nariz.
"Espritos de tempestade --"

         "Mas ns o entregamos para Aeolus!" Piper protestou.

         "Que tentou matar a gente," Leo a lembrou. "Talvez ele esteja ajudando Gaia de
novo."

       "Eu no sei," Thalia disse. "Mas os monstros continuam reformando quase to
rpido quanto conseguimos mat-los. Ns pegamos a Casa dos Lobos sem problemas:
surpreendemos os guardas e o mandamos direto para o Trtaro. Mas ento, essa
tempestade de neve maluca apareceu. Onda aps onda de monstros comearam a atacar.
Agora estamos cercados. Eu no sei quem ou o que est liderando o assalto, mas acho
que planejaram isso. Era uma armadilha para matar qualquer um que tentasse salvar
Hera."

         "Onde ela est?" Jason perguntou.

        "L dentro," Thalia disse. "Ns tentamos salvar ela, mas no temos ideia de
como quebrar a priso. So s alguns minutos at o pr-do-sol. Hera acha que esse o
momento que Porfrio vai renascer. Alm disso, maior parte dos monstros so mais
fortes de noite. Se ns no salvarmos Hera logo --"

         Ela no precisava terminar.

         Leo, Jason e Piper a seguiram para a manso arruinada.



Logo que Jason atravessou a soleira da porta, ele caiu.

         "Ei!" Leo segurou ele. "Sem essa, cara. Qual  o problema?"

         "Esse lugar..." Jason balanou a cabea. "Desculpa... voltou para mim rpido."

         "Ento voc esteve aqui," Piper disse.

        "Ns dois estivemos," Thalia disse. Sua expresso estava sombria, como se
estivesse revivendo a morte de algum. " aqui que minha me nos trouxe quando
Jason era uma criana. Ela o deixou aqui, e me disse que estava morto. Ele
simplesmente desapareceu."

         "Ela me deu para os lobos," Jason murmurou. "Por causa da insistncia de Hera.
                                              367
Ela me deu para Lupa."

       "Essa parte eu no sabia." Thalia franziu a testa. "Quem  Lupa?"

        Uma exploso balanou o edifcio. L fora, uma nuvem de cogumelos azuis
subia para cima, chovendo flocos de neve e gelo, como uma exploso nuclear feita de
frio ao invs de calor.

       "Talvez no seja o momento para perguntas," Leo sugeriu. "Mostre-nos a
deusa."

       Uma vez dentro, Jason parecia ter se recuperado. A casa era construda em um
gigante U. E Jason liderou eles entre as duas partes para um jardim de fora com uma
tanque refletindo vazia. No fundo da tanque, assim como Jason havia descrito a partir
do seu sonho, duas espirais de pedra e razes quebravam atravs da fundao.

        Uma das espirais era muito maior -- uma massa escura de aproximadamente 20
ps de altura, e para Leo parecia uma bolsa humana de pedra. Embaixo da massa de
razes fundidas ele podia ver o formato de uma cabea, ombros largos, um peito e
braos macios, como se a criatura estivesse enterrada do cintura para baixo na terra.
No, no enterrada -- se erguendo.

       No outro lado da tanque, a outra espiral era menor e mais entrelaada. Cada raz
era to grossa como um poste de telefone, com to pouco espao entre eles que Leo
duvidava que podia passar nem mesmo o brao. Mesmo assim, ele podia ver dentro. E no
meio da cela estava Ta Callida.

       Ela parecia exatamente como Leo se lembrava: cabelo preto coberto por um
xale, o vestido preto de uma viva, uma cara enrugada brilhando, e os mesmos olhos
assustadores.

     Ela no brilhava ou emitia nenhum tipo de poder. Ela parecia uma mulher mortal
comum, a sua boa e velha bab psicopata.

       Leo entrou na tanque e se aproximou da cela. "Hola Ta. Com alguns
problemas?"

      Ela cruzou seus braos e suspirou exasperada. "No me trate como uma de suas
mquinas, Leo Valdez. Me tire daqui!"

        Thalia se aproximou dele e olhou para a cela com desgosto -- ou talvez ela
estivesse olhando para a deusa. "Ns tentamos tudo o que conseguimos pensar, Leo,
mas talvez no tenha tentado de corao. Se fosse por mim, eu a deixaria a."

        "Ah, Thalia Grace," a deusa disse, "quando eu sair daqui, voc vai se arrepender
de ter nascido."

                                          368
       "J chega!" Thalia a cortou. "Voc tem sido nada menos do que uma maldio
para todas as crianas de Zeus por eras. Voc mandou um monte de vacas com
problemas intestinais atrs da minha amiga Annabeth --"

       "Ela faltou com respeito!"

       "Voc derrubou uma esttua na minha perna."

       "Isso foi um acidente!"

        "E voc levou o meu irmo!" A voz de Thalia falhou com emoo. "Aqui --
nesse lugar. Voc arruinou as nossas vidas. Ns deveramos deix-la para Gaia!"

       "Ei," Jason interviu. "Thalia -- Mana -- eu sei. Mas no  a hora. Voc deveria
ajudar as suas Caadoras."

       Thalia endireitou a sua jaqueta. "Tudo bem. Por voc, Jason. Mas se me
perguntar, ela no vale a pena."

       Leo virou para Hera com respeito invejoso. "Vacas com problemas intestinais?"

       "Se concentre na cela, Leo," ela grunhiu. "E Jason -- voc  mais sbio que a
sua irm. Eu escolhi meu campeo bem."

      "Eu no sou seu campeo, senhora." Jason disse. "Eu s estou a ajudando
porque voc roubou as minhas memrias e voc  melhor que a outra alternativa.
Falando de feitio, o que est acontecendo com aquilo ali?"

       Ele acenou para a outra espiral que parecia uma bolsa humana de granito
tamanho king-size. Leo estava imaginando, ou ele cresceu um pouco desde que
chegaram aqui?

       "Aquilo, Jason," Hera disse, " o rei dos gigantes renascendo."

       "Grande," Piper disse.

        "De fato," Hera disse. "Porfrio, o mais forte do seu tipo. Gaia precisava um
grande poder para reergu-lo novamente -- meu poder. Por semanas eu fiquei mais
fraca enquanto minha essncia era usada para d-lo uma nova forma."

       "Ento voc  como uma lmpada de calor," Leo adivinhou. "Ou fertilizante." A
deusa olhou para ele, mas Leo no se importou. Essa velha senhora vinha fazendo sua
vida miservel desde que era um beb. Ele tinha direito de pegar no p dela.

        "Brinque o quanto quiser," Hera disse em um tom grampeado. "Mas ao pr-do-
sol, vai ser muito tarde. O gigante ir acordar. Ele me oferecer uma escolha: casar com
ele, ou ser consumida pela terra. E eu no posso me casar com ele. Ns todos vamos ser

                                          369
destrudos. E enquanto morremos, Gaia ir despertar."

       Leo franziu para a espiral gigante. "No podemos expldi-la ou algo?"

        "Sem mim, voc no teria o poder necessrio," Hera disse. "Seria como tentar
destruir umo Monte."

       "Fizemos isso hoje," Jason disse.

       "Apenas se apresse e me tire daqui!" Hera demandou.

       Jason coou a sua cabea. "Leo, voc consegue fazer isso?"

       "Eu no sei." Leo tentou no entrar em pnico. "Alis, se ela  uma deusa, por
que ela mesma no escapa?"

       Hera andou furiosa em volta da cela, xingando em grego antigo. "Use seu
crebro, Leo Valdez. Eu escolhi voc por que era inteligente. Uma vez capturado, o
poder de um deus  intil. O seu prprio pai me capturou em uma cadeira de ouro. Foi
humilhante! Eu tive que implorar -- implorar para a minha liberdade e me desculpar
por jog-lo do Olimpo."

       "Parece justo," Leo disse.

       Hera o deu um olhar feio piedoso. "Eu o observava desde que era criana, filho
de Hefesto, por que eu sabia que poderia me ajudar neste momento. Se algum pudesse
achar um jeito de destruir essa abominao, esse algum  voc."

       "Mas no  uma mquina.  como se Gaia levanta-se a sua mo do cho e..."
Leo se sentiu tonto. A linha da profecia voltou para ele: A forja e a pomba quebraro a
priso. "Espera a. Eu tenho uma ideia. Piper, eu vou precisar da sua ajuda. E vamos
precisar de tempo."

       O ar se tornou quebradio com o frio. A temperatura caiu to rpido que os
lbios do Leo racharam e sua respirao mudou para nvoa. Gelo cobriu as paredes da
Casa dos Lobos. Ventus entraram -- mas invs de homens com asas, esses eram como
cavalos, com corpos de nuvens de tempestades e crinas que estalavam relmpegos.
Alguns tinham flechas de pratas espetadas nos seus flancos. Atrs deles vieram os lobos
com olhos vermelhos e os Terrestres de seis braos.

       Piper pegou a sua adaga. Jason pegou um galho coberto de gelo do fundo do
tanque. Leo procurou no seu cinto de ferramentas, mas ele estava to abalado, que tudo
que conseguiu foi balinhas de menta. Ele atirou de volta, esperando que ningum
percebe-se e tirou um martelo instantaneamente.

       Um dos lobos andou para frente. Estava carregando uma esttua de tamanho real

                                           370
pela perna. Na beirada da tanque, o lobo abriu a boca e a deixou cair a esttua para eles
verem -- uma escultura de gelo de uma garota, uma arqueira com o cabelo pequeno e
espetado com um olhar surpreso.

       "Thalia!" Jason correu para frente, mas Piper e Leo o puxaram de volta. O cho
ao redor de Thalia j estava coberto de gelo. Leo temia que se Jason a toca-se, ele
congelaria tambm.

       "Quem fez isso?" Jason gritou. Seu corpo estalou com eletricidade. "Eu o
matarei eu mesmo!"

        De algum lugar atrs dos monstros, Leo ouviu uma risada de uma garota, clara e
fria. Ela andou para fora da nvoa com seu vestido branco de neve, uma tiara de prata
no topo de seus cabelos negros. Ela olhou-o com aqueles profundos olhos castanhos que
Leo tinha achado to lindos em Quebec.

        "Bon soir, mes amis," disse Quione, a deusa da neve. Ela deu a Leo um sorriso
frio. "Ah, filho de Hefesto, voc diz que precisa de tempo? Temo que tempo  uma
ferramenta que voc no tem."




                                          371
                                         Captulo XLIX

APS   A LUTA NO    MONTE DIABLO, Jason no pensou que poderia se sentir mais
assustado ou devastado.

        Agora sua irm estava congelada aos seus ps. Ele estava cercado por monstros.
Havia quebrado a sua espada de ouro e a substitudo com um pedao de madeira. Ele
tinha aproximadamente cinco minutos antes que o rei dos gigantes irrompesse e lhes
destrusse. Jason j havia utilizado o seu maior trunfo, invocando o raio de Zeus na luta
contra Enclado, e ele duvidava que tivesse a fora ou a cooperao dos cus para fazer
aquilo de novo. O que significava que os seus nicos recursos eram uma deusa
reclamona prisioneira, uma espcie de namorada com uma adaga, e Leo, que
aparentemente achava que poderia derrotar os exrcitos das trevas com balas de menta.

        Acima de tudo isso, as piores memrias de Jason estavam retornando. Ele tinha
certeza de que j havia feito muitas coisas perigosas em sua vida, mas ele nunca tinha
estado to perto da morte quanto estava agora.

       A inimiga era linda. Quione sorriu, seus olhos negros brilhando, enquanto uma
adaga crescia em sua mo.

       "O que voc fez?" exigiu Jason.

       "Ah, tantas coisas," ronronou a deusa da neve. "Sua irm no est morta, se 
isso que est perguntando. Ela e suas Caadoras iro dar timos brinquedos para nossos
lobos. Achei que ns poderamos descongel-las uma a uma, e brincar de ca-las.
Deixar que elas sejam as presas dessa vez."

       Os lobos rosnaram concordando.

       "Sim, meus queridos." Quione manteve os seus olhos em Jason. "Sua irm quase
matou o rei deles, voc sabe. Licao est anulado numa caverna em algum lugar, sem
dvida lambendo as suas feridas, mas seus servos se juntaram a ns para vingar seu
mestre. E logo, Porfrio se levantar, e ns governaremos o mundo."

       "Traidora!" gritou Hera. "Sua intrometida, deusa de quinta categoria! Voc no
 digna para derramar meu vinho, muito menos governar o mundo."


                                           372
        Quione suspirou. "Cansativa como sempre, Rainha Hera. Eu tenho desejado te
calar por milnios."

          Quione acenou, e gelo cobriu a priso, selando os espaos entre as gavinhas de
barro.

       "Assim est melhor," disse a deusa da neve. "Agora, semideuses, quanto as suas
mortes --"

       "Foi voc quem enganou Hera para que ela viesse aqui," disse Jason. "Voc deu
a Zeus a idia de fechar o Olimpo."

       Os lobos rosnaram, e os espritos de tempestade relincharam prontos para atacar,
mas Quione ergueu sua mo. "Pacincia, meus amores. Se ele quer conversar, o que
importa? O sol est se pondo, e o tempo est do nosso lado. Naturalmente, Jason Grace.
Como a neve, minha voz  tranquila, suave, e muito fria. Para mim  fcil sussurrar para
os outros deuses, especialmente quando s estou confirmando os seus medos mais
profundos."

      Eu tambm sussurrei no ouvido de Aeolus que ele deveria emitir uma ordem
para matar semideuses.  um pequeno servio para Gaia, mas estou certa de que ser
bem recompensado quando seus filhos, os gigantes, chegarem ao poder.

          "Voc poderia ter nos matado em Quebec." disse Jason. "Por que nos deixou
viver?"

        Quione franziu seu nariz. "Complicaria os negcios, matar vocs na casa do meu
pai, especialmente quando ele insistia em conhecer todos os visitantes. Eu tentei voc se
lembra. Teria sido adorvel se ele tivesse concordado em transformar vocs em gelo.
Mas, uma vez que ele lhes deu garantia de passagem segura, eu no podia desobedecer-
lhe abertamente. Meu pai  um velho tolo. Ele vive com medo de Zeus e Aeolus, mas
ele ainda  poderoso. Em breve, quando meus novos mestres tiverem despertado, eu vou
destituir Boreas e tomar o trono do Vento Norte, mas no agora. Alm disso, meu pai
tinha um ponto. Sua misso era suicida. Eu esperava que vocs fracassassem."

        "E para nos ajudar com isso," disse Leo: "voc derrubou o nosso drago do cu
sobre Detroit. Os fios congelados na cabea dele  aquilo foi sua culpa. Voc vai pagar
por isso. "

        "Voc tambm foi quem manteve Enclado informado sobre ns," acrescentou
Piper. "Temos sido assolados por tempestades de neve a viagem inteira."

       "Sim, eu me sinto to prxima de todos vocs agora!" disse Quione. "Uma vez
que vocs conseguiram passar por Omaha, eu decidi pedir a Licao para rastrear vocs,
assim Jason poderia morrer aqui, na Casa dos Lobos."

                                           373
        Quione sorriu para ele. "Voc v, Jason, seu sangue derramado nessa terra
sagrada vai manch-la por geraes. Seus irmos semideuses ficaro indignados,
especialmente quando encontrarem os corpos desses dois do Acampamento Meio
Sangue. Eles acreditaro que os gregos tm conspirado com os gigantes. Ser...
delicioso."

        Piper e Leo no pareciam entender o que ela estava dizendo. Mas Jason sabia.
Suas memrias tinham retornado o suficiente para ele perceber quo perigosamente
eficaz o plano de Quione poderia ser.

       "Voc vai colocar semideuses contra semideuses," disse ele.

        " to fcil!" disse Quione. "Como te falei, eu s estou encorajando o que voc
faria de qualquer jeito."

       "Mas por qu?" Piper estendeu as mos. "Quione, voc ir destruir o mundo. Os
gigantes iro destruir tudo. Voc no quer isso. Pare os seus monstros."

        Quione hesitou, ento riu. "Seus poderes de persuaso esto melhorando, garota.
Mas eu sou uma deusa. Voc no pode me encantar. Ns deuses do vento somos
criaturas do caos!"

        "Eu vou derrubar olo e deixar as tempestades correrem livremente. Se
destruirmos o mundo mortal, melhor ainda! Eles nunca me honraram, mesmo nos
tempos gregos. Humanos e sua discusso sobre aquecimento global. Bah! Eu irei
refresc-los com rapidez o bastante. Quando retomarmos os lugares antigos, eu irei
cobrir a Acrpole de neve."

        "Os lugares antigos." Os olhos de Leo se arregalaram. "Foi isso o que Enclado
quis dizer quando falou em destruir as razes dos deuses. Ele se referia  Grcia."

       "Voc poderia se juntar a mim, filho de Hefesto," disse Quione. "Eu sei que
voc me acha bonita. Seria suficiente pro meu plano se esses outros dois morressem.
Rejeite esse destino ridculo que as Parcas deram a voc. Ao invs disso, viva e seja o
meu heri. Suas habilidades seriam muito teis."

       Leo parecia estupefato. Ele olhou para trs, como se Quione estivesse falando
com outra pessoa. Por um segundo Jason ficou preocupado. Ele imaginou que no era
todo dia que Leo tinha lindas deusas fazendo-lhe ofertas como essa.

       Em seguida, Leo riu tanto que se curvou. "E, me unir a voc. Certo. At que
voc se canse de mim e me transforme em um Picoleo? Moa, ningum mexe no meu
drago e fica impune. Eu no posso acreditar que achava voc quente."

        O rosto de Quione ficou vermelho. "Quente? Voc se atreve a me insultar? Eu
sou fria, Leo Valdez. Muito, muito fria."
                                         374
      Ela disparou uma rajada de granizo nos semideuses, mas Leo ergueu a sua mo.
Uma parede de fogo rugiu ganhando vida na frente deles, e a neve se dissolveu em uma
nuvem de vapor.

       Leo sorriu. "Viu, moa, isso  o que acontece com a neve no Texas. Ela --
absolutamente -- derrete."

      Quione sibilou. "J chega. Hera est fracassando. Porfrio est ascendendo.
Deixem que eles sejam a primeira refeio do nosso rei!"

       Jason levantou o seu pedao de madeira congelado -- uma espida arma para
morrer lutando com ela -- e os monstros investiram.




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                                          Captulo L

UM LOBO SE LANOU CONTRA JASON. Ele recuou e acertou a besta no fucinho com
um estalo satisfatrio. Talvez s prata pudesse mat-la, mas uma boa e velha tbua
poderia causar uma grande dor de cabea.

        Ele se virou na direo do som de cascos e viu um cavalo esprito de tempestade
vindo em sua direo. Jason concentrou-se e convocou os ventos. Pouco antes de o
esprito atropel-lo, Jason lanou-se no ar, agarrou o pescoo esfumaado do cavalo, e
montou em suas costas.

        Os espritos de tempestade da retaguarda tentaram derrubar Jason, em seguida,
tentaram dissolver-se em nvoa para perd-lo, porem, de alguma forma Jason continuou
montado. Ele desejou que o cavalo permanecesse em sua forma slida, e o cavalo foi
incapaz de recusar. Jason podia sentir o esprito lutando contra ele de novo, podia sentir
seus pensamentos enfurecidos -- totalmente caticos esforando-se para se libertar. Isso
tomou toda a fora de vontade de Jason para impor seus desejos e conseguir controlar o
cavalo. Jason pensou sobre olo, supervisionando milhes e milhes de espritos como
esse, muito pior. No admira que o Mestre dos Ventos tenha ficado meio louco depois
de sculos de presso. Mas Jason tinha um nico esprito para dominar, e ele tinha que
vencer.

       "Voc  meu agora," Jason disse.

        O cavalo pulou, mas Jason se segurou rpido. Isso fez a crina tremeluzir como se
circulasse envolta duma piscina vazia, seus cascos causando pequenas trovoadas sempre
que tocavam.

       "Tempestade?" Jason disse. "Esse  o seu nome?"

       O cavalo esprito de tempestade balanou sua crina, evidente por ter sido
reconhecido.

       "Bom," Jason disse. "Agora, vamos lutar"

      Ele voltou para batalha, balanando seu pedao de madeira congelado, batendo
em lobos e mergulhando direto atravs de outros ventus. Tempestade tinha um forte

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esprito, e sempre que passava por um de seus irmos, ele descarregava muita
eletricidade, os outros espritos vaporizavam numa inofensiva nuvem de fumaa.

       No meio do caos, Jason captou vislumbres de seus amigos. Piper estava cercada
por Terrestres, mas ela parecia estar se virando. Era to impressionante observ-la
lutando, quase brilhando com sua beleza, que os Terrestres olharam para ela admirados,
esquecendo que deviam para mat-la. Eles diminuram os golpes para ver, surpresos e
emudecidos, quando ela sorriu e ordenou-lhes. Eles sorriram de volta, at ela cort-los
em fatias com Katoptris, formando um monte derretido de lama.

        Leo ficou enfrentando a prpria Quione. Lutar contra um deus deveria ser
suicdio, porm Leo era o homem certo para isso. A deusa convocava punhais de gelo
lanando-os contra Leo, rajadas de ar gelado e tornados de neve. Leo queimou tudo.
Todo seu corpo brilhava com labaredas vermelhas, como se tivesse sido encharcado de
gasolina. Ele avanou para cima da deusa, usando dois martelos de prata com pontas
esfricas para esmagar qualquer monstro que atravessasse seu caminho.

       Jason percebeu que Leo era a nica razo pela qual eles estavam vivos. Sua aura
ardente esquentava o ptio inteiro, contrariando a magia glida de Quione. Sem ele, eles
teriam sido congelados como as Caadoras h muito tempo. Em qualquer lugar que Leo
passasse, o gelo derretia. At mesmo Thalia descongelara um pouco quando Leo passou
por perto.

       Quione comeou a recuar. Sua expresso era de raiva e meio chocada pelo
pnico que Leo causava enquanto se aproximava.

       Jason estava esgotado de tantos inimigos. Lobos derrubavam-se em montes
atordoados. Alguns fugiam para fora das runas, ganindo por causa de suas feridas.
Piper apunhalou o ltimo Terrestre, que caiu no cho em um monte de lama. Jason
cavalgou com Tempestade atravs do ultimo ventus, transformando-o em vapor. Ento
olhou ao redor e viu Leo caindo sobre a deusa da neve.

       "Voc est atrasado demais," Quione rugiu. "Ele acordou! E no pense que voc
ganhou alguma coisa aqui, semideus. O plano de Hera nunca funcionar. Voc ser
engolido antes disso, no pode nos deter."

        Leo tornou seus martelos flamejantes e jogou-os na deusa, mas ela se
transformou em neve, uma imagem dela mesma em p branco. Os martelos bateram na
deusa-de-neve, quebrando-a em um monte fumegante.

       Piper respirava com dificuldade, mas sorriu para Jason.

       "Belo cavalo," Piper comentou.



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       Tempestade empinou sobre as patas traseiras, arcos de eletricidade atravessando
seus cascos. Um completo exibido.

        Em seguida, Jason ouviu um estalo atrs dele. A gaiola de Hera derretia em uma
cortina de lama, e a deusa chama:

       "Ah, no se preocupem comigo, sou s a rainha dos cus, morrendo aqui!"

       Jason desmontou e disse a Tempestade que esperasse parado. Os trs semideuses
pularam na piscina e correram para a torre.

       Leo fez uma careta. "Ahn, Tia Calda, voc est encolhendo?"

       "No, seu idiota! A terra est me reclamando. Depressa!"

        Por mais que Jason no gostasse de Hera, o que viu dentro da gaiola o alarmou.
Hera no estava apenas afundando, mas a terra subia pelo seu corpo tambm. Rocha
lquida j tinha coberto suas canelas. "O gigante est acordando!" Hera avisou. "Vocs
s tm segundos!"

       "Sobre isso," disse Leo. "Preciso de sua ajuda, Piper. Fale com a gaiola."

       "O qu?" ela disse.

       "Fale com a priso. Use tudo que voc tem. Convena Gaia a dormir. Iluda-a, os
tentculos rochosos se enfraquecero, apenas atrase ela, tente faz-la solta Hera
enquanto eu --"

       "Certo!" Piper pigarreou e disse "Ei, Gaia. Bela noite, hein? Nossa, como estou
cansada. E voc? Pronta para dormir?"

       Quanto mais ela falava, mais confiante parecia estar. Jason reparou que seus
prprios olhos estavam ficando pesados e teve que se esforar para no se focar nas
falas dela. Parecia estar fazendo efeito na gaiola. A lama subia mais devagar. Os
tentculos pareciam amolecer um pouco, tornando-se mais razes de rvore do que
pedra. Leo pegou uma serra circular de seu cinto de ferramentas. Como serviria ali,
Jason no tinha idia.

      Em seguida, Leo olhou para o cabo e grunhiu de frustrao. "Eu no tenho
nenhum lugar para ligar isso!"

       Tempestade pulou no poo e relinchou

       "Srio?" Jason perguntou ironicamente.




                                          378
       Tempestade abaixou a cabea e trotou at Leo. Leo olhou duvidoso, mas
levantou o cabo e conectou no flanco do cavalo. Iluminou-se, conectado com os pinos
do plugue, a serra circular zumbia a vida.

       "Legal!" Leo sorriu. "Seu cavalo vem com tomada embutida!"

       O bom humor deles no durou muito tempo. Do outro lado do tanque, um
rugido, como uma arvore sendo cortada na metade, veio da torre do gigante. Seu
revestimento externo de gavinhas explodiu de cima a baixo, chovendo cacos de pedra e
madeira com o gigante balanando-se livre e subindo da terra.

       Jason pensou que nada poderia assust-lo mais que Enclado.

       Ele estava errado.

       Porfrio era muito mais alto e mais rasgado. Ele no irradiava calor, ou se quer
mostrou sinal de que respirava fogo, mas algo ainda mais terrvel existia sobre ele --
um tipo de fora, mesmo magnetismo como se fosse to grande e denso que tinha seu
prprio campo gravitacional.

       Como Enclado, o rei gigante era humanide da cintura pra cima, vestido com
uma armadura de bronze, e da cintura pra baixo ele tinha escamosas pernas de drago;
mas sua pele era da cor de feijo-de-lima. Seu cabelo era verde como folhas de vero,
tranado em madeixas e decorado com suas armas, punhais, machados e espadas de
tamanho completo, algumas delas dobradas e ensangentadas, talvez trofus de
semideuses derrotados eras atrs. Quando o gigante abriu os olhos, eles estavam
brancos como mrmore polido. Ele respirou fundo.

       "Vivo!" berrou. "Louvor a Gaia!"

       Jason fez um pequeno choramingo herico e esperava que seus amigos no
tivessem ouvido. Ele estava certo de que semideuses no teriam chances sozinhos com
esse cara. Porfrio podia levantar montanhas. Ele poderia esmagar Jason com apenas um
dedo.

       "Leo," Jason disse.

       "Hein?" A boca de Leo estava bem aberta. At mesmo Piper parecia estupefata.

       "Continuem trabalhando, vocs dois," disse Jason. "Libertem Hera!"

       "O que voc est indo fazer?" Piper perguntou. "Voc no pode pensar
seriamente --"

       "Distrair um gigante?" Jason disse. "No tenho escolha."



                                          379
        "Excelente!" O gigante rugiu quando Jason se aproximou. "Um aperitivo! s
filho de quem? Hermes? Ares?"

       Jason pensou em ir nessa idia de no revelar de quem era filho, mas algo disse
para no fazer isso.

         "Eu sou Jason Grace," disse "filho de Jpiter."

        Os olhos do gigante o perfuraram. Atrs dele, o zumbido da serra circular de Leo
e Piper falando com a gaiola em tons suaves, tentando tirar o medo de sua voz.

        Porfrio jogou a cabea pra cima e riu. "Excelente!" Ele olhou para o cu
nublado. "Ento, Zeus, voc sacrificou seu filho por mim? O gesto  apreciado, mas no
ir salv-lo."

       O cu no fez nenhum estrondo. Sem ajuda do cu. Jason estava por conta
prpria.

       Jason largou sua clava improvisada. Suas mos estavam cobertas de estilhaos,
mas isso no importava agora. Ele tinha que arranjar mais tempo para Piper e Leo, e ele
no podia fazer isso sem uma arma adequada.

         Era hora de ele agir com muito mais confiana do que realmente sentia.

       "Se voc soubesse quem eu sou," Jason gritou de volta, "voc estaria
preocupado comigo, no com meu pai. Eu espero que voc tenha gostado dos seus dois
segundos e meio de renascimento, gigante, porque estou prestes a te mandar de volta ao
Trtaro!"

        Os olhos de Porfrio se estreitaram. Ele plantou um p fora da piscina e se
agachou para obter uma viso melhor de seu oponente. "Ento... vamos comear com
vanglrias, no ? Como nos velhos tempos! Muito bem, semideus. Eu sou Porfrio, rei
dos gigantes, filho de Gaia. Antigamente, eu me levantei do Trtaro, o abismo do meu
pai, para desafiar os deuses e iniciar a guerra, eu roubei a rainha de Zeus." Ele sorriu
para a gaiola da deusa. "Ol, Hera."

         "Meu marido destruiu voc uma vez, monstro!" Hera falou. "Ele far isso de
novo!"

       "Mas no ir, querida! Zeus no era poderoso o bastante para me matar. Ele teve
que confiar em um semideus medocre para ajud-lo, e mesmo assim, ns quase
ganhamos. Desta vez, ns vamos completar o que comeamos. Gaia est acordando. Ela
tem nos fornecido muitos servos. Nossos exrcitos vo abalar a terra e vamos destruir
vocs pela raiz"



                                            380
        "Voc no ousaria," Hera disse, mas ela se enfraquecia. Jason podia ouvir a
dificuldade crescendo em sua voz. Piper continuava sussurrando para a gaiola, e Leo
continuava serrando, mas a terra ainda subia dentro da priso de Hera, agora cobrindo
at sua cintura.

       "Ah, sim," disse o gigante. "Os Tits tentaram atacar sua nova casa em Nova
Iorque. Ousado, mas ineficiente. Gaia  mais inteligente e paciente. E ns, seus
melhores filhos, somos muito, muito mais poderosos que Cronos. Ns sabemos como
matar vocs olimpianos de uma vez por todas. Vocs devem ser desenterrados
completamente como rvores podres -- suas mais velhas razes arrancadas e
queimadas."

        O gigante franziu o cenho para Piper e Leo, como se acabasse de perceber que
eles trabalhavam na gaiola. Jason adiantou-se e gritou para atrair a ateno de Porfrio.

        "Voc disse que um semideus te matou," ele gritou. "Como? Se somos to
insignificantes?"

       "R! Voc acha mesmo que eu vou explicar pra voc? Fui criado para substituir
Zeus, nasci para destruir o Lorde dos Cus. Devo tomar seu trono. Devo pegar a esposa
dele, ou, se ela no me ter, eu vou deixar a terra consumir sua fora de vida. O que
voc v, filho,  apenas minha forma enfraquecida. Minha fora crescer por hora, at
me tornar invencvel. Mas j sou bem capaz de te esmagar numa poa de graxa."

        Ele levantou at sua altura mxima e estendeu sua mo, atirando uma lana a
vinte ps da terra. Ele pegou-a, em seguida, pisou duro o cho com seus ps de drago.
As runas chacoalharam. Tudo a volta do ptio, monstros comearam a se reerguer,
espritos de tempestade, lobos e Terrestres, todos respondendo ao chamado do rei
gigante.

       "timo," Leo murmurou. "Era do que precisvamos, mais inimigos."

       "Rpido," Hera disse.

       "Eu sei!" Leo vociferou.

       "V dormir, gaiola," Piper disse. "timo, durma gaiola sonolenta. Sim, estou
falando com um monte de tentculos de barro. Isso no  totalmente estranho."

      Porfrio remexeu sua lana no topo das runas, destruindo a chamin e jogando
madeira e pedras por todo o ptio.

       "Ento, filho de Zeus! Eu terminei de me vangloriar. Agora  a sua vez. O que
voc dizia sobre a minha destruio?"



                                          381
       Jason olhou para o anel de monstros, esperando impaciente a ordem de seu
mestre para rasg-los em pedaos. A serra de Leo continuava zumbindo, e Piper
continuava falando, mas parecia impossvel. Quase toda a gaiola fora preenchida de
terra.

        "Sou filho de Jpiter!" gritou Jason, apenas para ter um efeito, ele convocou os
ventos, subindo alguns metros do cho. "Sou um filho de Roma, cnsul de semideuses,
pretor da Primeira Legio." Jason no sabia o que dizia exatamente, mas ele ressaltou as
palavras como ele a muito havia dito antes. Ele estendeu seu brao, mostrando a
tatuagem de uma guia e escrito SPQR, para sua surpresa, o gigante pareceu reconhecer
o smbolo.

       Por um momento, Porfrio realmente pareceu desconfortvel.

        "Eu matei o monstro marinho de Troia," Jason continuou. "Eu derrubei o trono
negro de Cronos, e destru o Tit Crio com as minhas prprias mos. E agora vou
destruir voc, Porfrio, e alimentar seus lobos com voc."

       "Nossa, cara," Leo murmurou. "Voc tem comido carne vermelha?"

       Jason lanou-se em direo ao gigante, decidido a rasg-lo.



A idia de lutar a quarenta metros contra um imortal de mos nuas foi to ridcula, que
at mesmo Porfrio pareceu surpreso. Meio voando, meio pulando, Jason pousou no
joelho escamoso do gigante e escalou at o brao dele antes que Porfrio sequer
percebesse o que aconteceu.

       "Voc ousa?" o gigante urrou.

        Jason alcanou o ombro dele e pegou uma espada das tranas do gigante. Jason
gritou: "Por Roma!" e foi em direo ao alvo mais prximo, a gigantesca orelha do
gigante.

        Um raio riscou o cu e explodiu na espada de Jason, jogando-o aos ares. Ele
rolou quando bateu no cho. Quando olhou para cima, o gigante estava cambaleando,
seu cabelo em chamas, e o lado de seu rosto estava enegrecido pelo raio. A espada
estava fragmentada na orelha do gigante. cor dourado escorria pelo seu rosto. As outras
armas estavam faiscando e em combusto em suas tranas.

      Porfrio quase caiu. O circulo de monstros soltou um grunhido coletivo e
avanaou. Lobos e ogros fixaram os olhos em Jason.

       "NO!" Porfrio berrou. Ele recuperou o equilbrio e olhou o semideus. "Eu vou
mat-lo eu mesmo!"

                                          382
        O gigante pegou sua lana que comeou a crescer. "Voc quer brincar com
relmpagos, garoto? Voc esqueceu que eu sou a runa de Zeus. Eu fui criado para
destruir seu pai, o que significa que sei exatamente o que te matar."

       Alguma coisa na voz de Porfrio disse a Jason que ele no estava blefando.

        Jason e seus amigos tiveram uma boa corrida. Os trs tinham feito coisas
incrveis. , foram coisas hericas mesmo. Mas quando o gigante levantou a lana,
Jason sabia que no tinha nenhum jeito de esquivar desse ataque.

       Este era o fim.

       "Consegui!" Leo gritou.

        "Durma!" disse Piper, com tanta fora, que os lobos mais prximos comearam
a cair no cho e a dormir.

       A gaiola de pedra e madeira desintegrou-se. Leo tinha serrado a base do
tentculo mais denso e aparentemente cortou a conexo da gaiola com Gaia. Os
tentculos viraram p. A lama em volta de Hera se desintegrou. A deusa cresceu,
aumentando seu poder.

      "Sim!" a deusa disse. Ela tirou seu manto preto revelando um vestido branco,
com os braos enfeitados com jias de ouro. Seu rosto era lindo e terrvel, e uma coroa
dourada brilhava em seus cabelos longos e negros. "Agora, terei minha vingana!"

        O gigante Porfrio recuou. Ele no disse nada, mas direcionou um olhar de dio
a Jason. Sua mensagem era clara: Em outro momento. Em seguida, ele bateu sua lana
na terra de novo, e o gigante desapareceu no cho como se tivesse cado de uma rampa.

       Ao redor do ptio, monstros entraram em pnico e recuaram, mas no tinha
escapatria para eles. Hera brilhou com mais intensidade e gritou: "Cubram seus olhos,
meus heris!"

       Mas Jason estava muito atordoado e entendeu tarde demais.

       Ele viu Hera revelar sua verdadeira forma, explodindo em um anel de fora que
vaporizou todos os monstros instantaneamente. Jason caiu, uma luz extremamente forte
preencheu sua mente, e seu ltimo pensamento foi de seu corpo estar queimando.




                                         383
                                       Captulo LI

"JASON!"

       Piper ficou chamando seu nome enquanto o segurava, embora ela estivesse
quase perdendo a esperana. Ele ficara inconsciente por dois minutos agora. Seu corpo
estava fumegando, seus olhos giravam em sua cabea. Ela no podia dizer se ele estava
ao menos respirando.

         "No adianta, criana." Hera estava sobre eles com seus simples manto e xale
preto.

       Piper no tinha visto a deusa ficar nuclear. Felizmente ela fechou seus olhos,
mas podia ver os efeitos colaterais. Todo o vestgio do inverno havia ido embora do
vale. No havia sinais de batalha, tambm. Os monstros haviam sido vaporizados. As
runas foram restauradas para o que elas estavam antes -- ainda em runas, mas sem
evidncias de que havia sido invadida por um bando de lobos, espritos da tempestade, e
ogros de seis braos.

        Todas as Caadoras haviam ressuscitado. A maioria ficou a uma distncia
respeitosa no campo, mas Thalia se ajoelhou ao lado de Piper, com a mo na testa de
Jason.

         Thalia olhou para a deusa. "Isso  sua culpa. Faa alguma coisa!"

         "No se dirija a mim desse modo, garota. Eu sou a rainha --"

         "Cure ele!"

       Os olhos de Hera cintilaram de poder. "Eu adverti ele. Eu jamais magoaria
intencionalmente o garoto. E disse para fecharem os olhos antes de revelar minha
verdadeira forma."

       "H..." Leo franziu o cenho. "A verdadeira forma  ruim, certo? Ento por que
voc fez isso?"

       "Eu desatrelei meu poder para ajudar vocs, tolo!" Hera gritou. "Eu virei energia
pura para poder desintegrar os monstros, restaurar esse lugar, e at mesmo salvar essas
miserveis Caadoras do gelo."

                                           384
      "Mas mortais no podem olhar para voc nessa forma!" Thalia gritou. "Voc o
matou!"

       Leo balanou a cabea em receio. "Esse foi o significado da profecia. E a morte
desatrelada pela ira de Hera. Vamos l, senhora. Voc  uma deusa. Faa alguma
mgica vudu nele! Traga ele de volta."

       Piper ouviu metade da conversa, mas ela estava concentrada principalmente no
rosto de Jason. "Ele est respirando!" ela anunciou.

       "Impossvel," Hera disse. "Eu queria que fosse verdade, criana, mas nenhum
mortal jamais --"

       "Jason," Piper chamou, colocando toda a sua pequena fora de vontade no nome
dele. Ela no poderia perd-lo. "Me escute. Voc pode fazer isso. Volte. Voc vai ficar
bem."

        Nada aconteceu. Ela havia imaginado que seu flego estava se agitando?

       "Cura no  um poder de Afrodite," Hera disse lamentavelmente. "Nem mesmo
eu posso consertar isso, garota. Seu esprito mortal --"

        "Jason," Piper disse novamente, e ela imaginou sua voz ressoando atravs da
terra, por todo o caminho do Mundo Inferior. "Acorde."

       Ele engasgou, e seus olhos se abriram. Por um momento eles estavam cheios de
luz -- um ouro puro brilhante. Ento a luz se apagou e seus olhos estavam normais
novamente. "O que -- o que aconteceu?"

        "Impossvel!" Hera disse.

        Piper o envolveu em um abrao at que ele gemeu, "Est me esmagando."

        "Desculpe," ela disse, to aliviada, rindo enquanto enxugava uma lgrima de seu
olho.

        Thalia agarrou a mo de seu irmo. "Como voc se sente?"

       "Quente," ele murmurou. "Minha boca est seca. E eu vi algo... realmente
horrvel."

        "Aquilo era Hera," Thalia resmungou. "Vossa Majestade, o Canho Solto."

        " isso a, Thalia Grace," disse a deusa. "Eu vou te transformar em um porco-
da-terra, ento me ajude --"

       "Parem com isso, vocs duas," Piper disse. Surpreendentemente, ambas se
calaram.
                                          385
         Piper ajudou Jason a ficar de p e deu a ele o ltimo nctar de seus suprimentos.

       "Agora..." Piper encarou Thalia e Hera. "Hera -- Vossa Majestade -- ns no
conseguiramos resgatar voc sem as Caadoras. E Thalia, voc nunca teria visto Jason
de novo -- eu no teria conhecido ele -- se no fosse por Hera. Vocs duas faam as
pazes, porque ns temos problemas maiores."

        As duas olharam para ela, e por trs longos segundos, Piper no tinha certeza de
qual iria mat-la primeiro.

       Finalmente Thalia resmungou. "Voc tem esprito, Piper." Ela pegou um carto
prateado de seu casado e o colocou dentro da jaqueta de snowboard de Piper. "Sempre
que quiser ser uma Caadora, me ligue. Ns poderamos usar voc."

        Hera cruzou seus braos. "Felizmente para essa Caadora, voc tem um bom
argumento, filha de Afrodite." Ela avaliou Piper, como se estivesse a vendo claramente
com o tempo. "Voc se perguntou, Piper, por que eu te escolhi para essa busca, por que
eu no revelei seu segredo no comeo, mesmo quando eu sabia que Enclado estava te
usando. Eu devo admitir, at esse momento eu no tinha certeza. Algo me dizia que
voc seria vital para a misso. Agora eu vejo que estava certa. Voc est mais forte do
que pensei. E voc estava correta sobre os perigos que viro. Ns temos que trabalhar
juntos."

       Piper sentiu seu rosto esquentar. Ela no tinha certeza de como responder ao
elogio de Hera, mas Leo entrou em cena.

       "Sim," ele disse, "eu no posso supor que esse cara Porfrio simplesmente se
dissolveu e morreu, hein?"

       "No," Hera concordou. "Ao me salvar, e salvar esse lugar, vocs impediram
Gaia de acordar. Vocs nos arranjou algum tempo. Mas Porfrio se ergueu. Ele
simplesmente sabia que no deveria ficar aqui, especialmente porque ele ainda no
recuperou o seu poder por completo. Gigantes s podem ser mortos em uma
combinao de deus e semideus, trabalhando juntos. Uma vez que me libertaram --"

         "Ele fugiu," Jason disse. "Mas para onde?"

       Hera no respondeu, mas uma sensao de pavor tomou conta de Piper. Ela
lembrou o que Porfrio havia dito sobre matar os olimpianos pelas suas razes. Grcia.
Ela olhou a expresso severa de Thalia, e adivinhou que a Caadora chegou  mesma
concluso.

         "Eu preciso encontrar Annabeth," Thalia disse. "Ela deve saber o que aconteceu
aqui."


                                            386
       "Thalia..." Jason segurou sua mo. "Ns nunca conversamos sobre esse lugar, ou
--"

       "Eu sei." Sua expresso suavizou. "Eu te perdi aqui uma vez. Eu no vou te
deixar novamente. Mas ns nos veremos em breve. Eu te encontro quando voltar ao
Acampamento Meio-Sangue." Ela olhou para Hera. "Voc vai lev-los at l em
segurana?  o mnimo que voc pode fazer."

       "No  a sua funo me dizer --"

       "Rainha Hera," Piper interferiu.

       A deusa suspirou. "Muito bem. Sim. Mas no voc, Caadora!"

        Thalia deu a Jason um abrao e disse adeus. Quando as Caadoras foram
embora, o ptio parecia estranhamente quieto. O tanque seco no mostrava nenhum
sinal de gavinhas de barro que trouxeram de volta o rei gigante ou Hera presa. O cu
noturno estava claro e estrelado. O vento farfalhando nos bosques. Piper pensou sobre
aquela noite em Oklahoma quando ela e seu pai haviam dormido em frente ao jardim do
vov Tom. Ela pensou na noite do teto do dormitrio da Wilderness School, quando
Jason tinha beijado ela -- na sua memria alterada pela Nvoa, de qualquer maneira.

       "Jason, o que aconteceu com voc aqui?" ela perguntou. "Digo -- eu sei que sua
me te abandonou aqui. Mas voc disse que esse  um local sagrado para semideuses.
Por qu? E que aconteceu depois de voc estar nesse lugar?"

       Jason balanou sua cabea inquieto. "Isso  difcil de entender. Os lobos..."

       "Voc foi dado a um destino," Hera disse. "Voc foi dado ao meu servio."

       Jason franziu as sobrancelhas. "Porque voc forou minha me a isso. Voc no
poderia ficar sabendo que Zeus teve dois filhos com minha me. Saber que ele teve uma
queda por ela duas vezes. Eu era o preo que voc pediu deixar o resto da minha famlia
em paz."

        "Foi  escolha certa pra voc tambm, Jason," Hera insistiu. "A segunda vez que
sua me conseguiu o afeto de Zeus, que era porque ela o imaginou com aspectos
diferentes -- os aspectos de Jpiter. Nunca antes isso havia acontecido -- duas
crianas, gregas e romanas, nascidas na mesma famlia. Voc teve que ser separado de
Thalia. Esse  o lugar que todos os semideuses do seu tipo comeam sua jornada."

       "Do tipo dele?" Piper perguntou.

      "Ela quer dizer romano," Jason disse. "Os semideuses so deixados aqui. Ns
conhecemos a deusa logo, Lupa, a mesma loba que criou Rmulo e Remo."


                                          387
       Hera assentiu. "E se voc for forte o suficiente, voc sobrevive."

       "Mas..." Leo parecia sobrenatural. "O que aconteceria depois disso? Quer dizer,
Jason nunca foi preparado no acampamento."

       "No no Acampamento Meio-Sangue," Hera concordou.

       Piper sentiu como se o cu estivesse espiralando acima dela, fazendo-a estontear.
"Voc foi para outro lugar. Onde voc ficou todos esses anos. Em algum outro lugar
para semideuses, mas onde?"

      Jason se voltou para a deusa. "As memrias esto voltando, mas no o local.
Voc no vai me dizer, no ?"

       "No," Hera disse. "Isso  parte de seu destino, Jason. Voc precisa encontrar
voc mesmo. Mas quando voc conseguir... voc vai unir dois grandes poderes. Voc
vai nos ajudar novamente com os gigantes, e o mais importante -- novamente com a
prpria Gaia."

       "Voc precisa de ns para te ajudar," Jason disse, "mas voc est escondendo
informaes."

       "Te dar respostas fariam delas invlidas," Hera disse. "Isso est no caminho das
Moiras. Voc precisa forjar seu prprio destino para significar algo. Agora, vocs trs
me surpreenderam. Eu no podia imaginar que fosse possvel..."

      A deusa balanou sua cabea. "Chega de falar, vocs tiveram um bom
desempenho, semideuses. Mas esse  s o comeo. Agora vocs precisam voltar ao
Acampamento Meio-Sangue, onde vocs iram comear a planejar a prxima fase."

       "Que voc no vai nos contar sobre isso," Jason resmungou. "E eu suponho que
voc destruiu o meu cavalo de esprito da tempestade legal, ento ns temos que voltar
pra casa caminhando?"

       Hera deixou de lado a pergunta. "Espritos da tempestade so criaturas do caos.
Eu no destru aquele, embora eu no tenha nenhuma ideia de onde ele foi, ou se ir v-
lo novamente. Mas existe um jeito mais fcil de lev-los para casa. Como voc
terminou meu timo servio, eu posso ajud-los -- pelo menos dessa vez. Adeus,
semideuses, por ora."

       O mundo virou de cabea para baixo, e Piper quase desmaiou.



Quando ele conseguiu ver em linha reta novamente, ela estava de volta ao
acampamento, no pavilho do refeitrio, no meio do jantar. Eles estavam em cima da

                                          388
mesa de Afrodite, e o p de Piper estava na pizza de Drew. Dezesseis campistas se
levantaram imediatamente, boquiabertos de espanto.

        O que quer que Hera fizera para atir-los pelo pas, aqui no fez bem para o
estmago de Piper. Ela mal conseguia controlar sua nusea. Leo no teve tanta sorte.
Ele pulou fora da mesa, correu para o braseiro de bronze mais prximo e jogou em cima
dele, o que provavelmente no foi uma grande oferenda para os deuses.

       "Jason?" Quron trotou para frente. Sem dvida o velho centauro de milhares de
anos tinha visto coisas muito estranhas, mas mesmo ele parecia totalmente espantado.
"O que -- Como -- ?"

      Os campistas de Afrodite olharam para Piper com as bocas abertas. Piper
imaginou que ela estava horrvel.

       "Oi," ela disse, o mais casualmente quanto podia. "Ns estamos de volta."




                                         389
                                        Captulo LII

PIPER NO SE LEMBRAVA MUITO SOBRE o resto da noite. Eles contaram sua histria e
responderam a perguntas de um milho de outros campistas, mas finalmente Quron viu
como eles estavam cansados e ordenou que fossem dormir.

       Foi to bom dormir em um colcho de verdade, e Piper estava to exausta que
dormiu imediatamente, o que poupou suas preocupaes sobre como era voltar para a
cabine de Afrodite.

       Na manh seguinte, ela acordou em sua cama, sentindo-se revigorada. O sol veio
atravs das janelas, juntamente com uma brisa agradvel. Ela pensou que poderia ser
primavera, ao invs do inverno. Os pssaros cantavam. Monstros uivavam nos bosques.
O cheiro do caf-da-manh vinha do pavilho -- bacon, panquecas e todos os tipos de
coisas maravilhosas.

       Drew e sua gangue estavam franzindo a testa para ela, com os braos cruzados.

       "Bom dia." Piper sentou-se e sorriu. "Belo dia."

        "Voc est nos fazendo atrasar para o caf-da-manh," disse Drew, "o que
significa que voc comea a limpar a cabine para a inspeo."

       Uma semana atrs, Piper teria perfurado Drew no rosto ou em suas costas.
Agora, ela pensou nos Ciclopes em Detroit, Medeia em Chicago, Midas transformando-
a em ouro em Omaha. Olhando para Drew, que ousava incomod-la, Piper riu.

       A expresso satisfeita de Drew desmoronou. Ela recuou, ento se lembrou que
deveria estar com raiva. "O que voc..."

        "Desafio voc," disse Piper. "Meio-dia na Arena? Voc pode escolher suas
armas." Ela saiu da cama e sorriu para os campistas. Avistou Mitchell e Lacy -- que a
ajudou a fazer sua mochila para a viagem. Eles sorriam timidamente, os seus olhos
voando de Piper para Drew como se este poderia ser um jogo de tnis muito
interessante.

      "Eu esqueci vocs, garotos!" Piper anunciou. "Ns vamos ter grandes momentos
quando eu for Conselheira Chefa."
                                          390
       Drew ficou vermelha igual a um pimento. Mesmo suas melhores tenentes
pareciam um pouco nervosas. Isso no estava em seu roteiro.

       "Voc --" Drew balbuciou. "Sua bruxa feia! Estou aqui h mais tempo. Voc
no pode simplesmente --"

       "Desafiar voc?" disse Piper. "Claro que posso. Regras do Acampamento. Eu fui
reclamada por Afrodite, eu completei uma misso, que  uma a mais do que voc
concluiu. Se eu sinto que posso fazer um trabalho melhor, posso desafi-la. A menos
que voc queira sair. Ser que recebo todos os direitos, Mitchell?"

       "Todos os direitos, Piper." Mitchell estava sorrindo. Lacy estava saltando para
cima e para baixo como se estivesse tentando alcanar a decolagem.

       Algumas das outras crianas comearam a sorrir, como se estivessem apreciando
as cores diferentes que o rosto de Drew estava se transformando.

        "Demitir-me?" Drew gritou "Voc est louca!"

       Piper deu de ombros. Ento rapidamente como uma vbora puxou Katoptris de
debaixo do travesseiro, desembainhou a espada, e apontou para o queixo de Drew.

        Todo mundo congelou.

        Uma garota caiu em uma mesa de maquiagem e enviou uma nuvem de p cor de
rosa.

        "Um duelo, ento," disse Piper alegremente. "Se voc no quer esperar at o
meio dia, agora est bom. Voc transformou esta cabana em uma ditadura, Drew. Silena
Beauregard sabia melhor do que isso. Afrodite  sobre amor e beleza. Ser
amoroso. Espalhando beleza. Bons amigos. Bons tempos. As boas obras. No apenas
boa aparncia. Silena cometeu erros, mas no final ela ficou por seus amigos.  por isso
que ela  uma heroina. Eu vou acertar as coisas, e eu tenho sentimento que mame vai
estar do meu lado. Quer saber mais?"

       Drew ficou vesga olhando para a lmina do punhal de Piper.Um segundo
passou. Em seguida, dois. Piper no se importava.Ela estava absolutamente feliz e
confiante. Deve ter mostrado em seu sorriso.

     "Eu me demito," resmungou Drew. "Mas saiba que eu nunca vou esquecer isso,
McLean."

       "Ah, eu espero que no," disse Piper. "Agora, corra pro refeitrio e explique
para Quron porque estamos atrasados. Houve uma mudana de liderana."




                                         391
       Drew voltou  porta. At suas melhores tenentes no estavam seguindo-a. Ela
estava prestes a sair quando Piper disse "Ah, querida Drew?"

       A ex-conselheira olhou para trs com relutncia.

        "No caso de voc pensar que eu no sou uma verdadeira filha de Afrodite," disse
Piper, "nunca mais olhe para Jason Grace. Ele pode no saber ainda, mas ele  meu. Se
voc
at tentar fazer uma jogada, eu vou carregar voc em uma catapulta e atirar em voc
todo o estreito de Long Island."

       Drew virou-se to depressa, e correu para o batente da porta.Ento ela se foi.
A cabine ficou em silncio. Os outros campistas olharam para Piper. Esta foi a parte em
que ela estava insegura. Ela no queria governar pelo medo. Ela no era como Drew,
mas ela no sabia se eles aceitariam ela.

        Ento, espontaneamente, os campistas do chal de Afrodite aplaudiram to alto,
que eles devem ter sido ouvidos em todo o acampamento. Eles agruparam ao redor de
Piper fora da cabine, levantou ela sobre os seus ombros, e levou todo o caminho at o
restaurante do pavilho, ainda de pijama, o cabelo dela ainda estava uma baguna, mas
ela no se importou. Ela nunca se sentira melhor.



Pela tarde, Piper tinha trocado de roupa. Colocou uma confortvel roupa do
acampamento e coordenou a cabine de Afrodite atravs de suas atividades pela
manh. Ela estava pronta para o tempo livre.

      Alguns dos burburinhos de sua vitria se tinham desvanecido, porque ela tinha
um encontro na Casa Grande.

       Quron a encontrou na varanda da frente em forma humana, compactada em sua
cadeira de rodas. "Vem para dentro, minha querida. A videoconferncia est pronta."

        O nico computador que tinha no acampamento estava no escritrio de Quron,
e toda a sala estava protegida no chapeamento de bronze.

       "Semideuses e tecnologia no se misturam," explica Quron "Ligaes,
mensagens de texto, at navegar pela internet -- todas essas coisas podem atrair
monstros. Porque, s nesse outono numa escola em Cincinnati, tivemos que resgatar um
jovem heri que procurou no Google por grgonas e teve um pouco mais pelo qual ele
barganhou, mas isso no importa. Aqui no acampamento, voc est protegido. Ainda
assim a gente tenta ser cauteloso. Voc s vai ser capaz de falar por alguns minutos."

       "Vamos l," disse Piper. "Obrigado, Quiron."


                                         392
        Ele sorriu e guiou sua cadeira de rodas para fora do escritrio. Piper hesitou
antes de clicar no boto de chamada. O escritrio de Quron tinha uma sensao
acolhedora. Uma parede foi coberta com camisetas de diferentes convenes -- pneis
partidrios Vegas `09, festa dos pneis `10 honolulu, etc. Piper no sabe o que a Festa
dos pneis era, mas a julgar pelas manchas, marcas de queimaduras, e os buracos de
armas nas camisetas, eles devem ter tido alguns encontros bastante selvagens. Na
prateleira mais perto da Recepo de Quron estava um aparelho de som  moda antiga
com fitas cassete rotulados "Dean Martin" e "Frank Sinatra" e "Maiores Hits dos anos
40." Quron era to velho, que Piper se perguntou se isso significava 1940, 1840, ou
talvez apenas 40 dC.

       Mas a maior parte do espao da parede do escritrio foi rebocada com fotos de
semideuses, como um hall da fama. Uma das imagens mais recente mostrou um cara
adolescente com cabelos escuros e olhos verdes. Como ele estava de brao dado com
Annabeth, Piper assumiu o cara deve ser Percy Jackson. Em algumas das fotos mais
antigas,                                                                         ela
reconheu pessoas famosas: empresrios, atletas, at mesmo alguns atores que seu pai
conhecia.

       "Inacreditvel," ela murmurou.

        Piper se perguntou se a foto dela estaria naquela parede um dia. Pela primeira
vez, ela sentiu como se ela fosse parte de algo maior que ela. Semideuses tinham ao
redor por sculos. Tudo o que ela fez, ela fez por todos eles.

       Ela respirou fundo e fez a chamada. A tela de vdeo apareceu.

       Gleeson Hedge sorriu do escritrio de seu pai. "Viu a notcia?"

       " difcil de perder," disse Piper. "Eu espero que voc saiba que voc est
fazendo."

        Quron tinha-lhe mostrado um jornal na hora do almoo. O misterioso retorno de
seu pai do nada tinha aparecido na primeira pgina. Sua assistente pessoal Jane
foi demitida por encobrir o seu desaparecimento e no notificar a polcia. A nova equipe
foi contratada e pessoalmente examinada pelo novo assistente pessoal de Tristan
McLean, o treinador Gleeson Hedge. Segundo o jornal, o Sr. McLean afirmou no ter
memria da semana passada, e a mdia estava totalmente de comer a histria. Alguns
pensaram que era uma jogada de marketing inteligente para um filme, talvez McLean
estava indo interpretar um amnsico? Alguns achavam que ele tinha sido sequestrado
por terroristas, ou por fs raivosos, ou heroicamente tinha escapado de um resgate
usando suas habilidades de combate. Seja qual for a verdade, Tristan
McLean est mais famoso do que nunca.


                                          393
       "Est indo muito bem," prometeu Hedge. "Mas no se preocupe. Vamos mant-
lo fora do olhar pblico para o prximo ms ou at as coisas esfriarem. Seu pai tem
mais coisas importantes para fazer, como descansar, e conversar com sua filha."

       "No fique muito confortvel l fora, em Hollywood, Gleeson," disse Piper.

        Hedge bufou. "Voc est brincando? Estas pessoas fazem olo olhar sensato. Eu
estarei de volta logo que puder, mas seu pai tem que ficar de p de novo em primeiro
lugar. Ele                                                                           
um bom rapaz. Ah, e por falar nisso, eu tomei o cuidado de outra questo. O Servio de
Parques na rea da Baa tem uma doao annima de um novo helicptero. E o piloto
que nos ajudaram? Ele tem uma oferta muito lucrativa para voar para o Sr. McLean."

       "Obrigado, Gleeson," disse Piper. "Por tudo."

      "Sim, tambm. Eu tento no ser impressionante. Vem apenas naturalmente.
Conhea a nova assistente de seu pai."

      Hedge foi empurrado para fora do caminho, e uma bela jovem sorriu para a
cmera.

       "Mellie?" Piper olhou, mas era definitivamente ela: a aura que tinha ajudado a
escapar da fortaleza de olo. "Voc est trabalhando para o meu pai agora?"

       "No  fantstico?"

       "Ele sabe que voc est um esprito do vento?"

       "Ah, no. Mas eu amo este trabalho.  -- h -- uma brisa."

       Piper no podia deixar de rir. "Eu estou contente. Isso  incrvel. Mas onde --"

       "S um segundo." Mellie beijou Gleeson na bochecha. "Vamos l, seu bode
velho. Para de monopolizar a tela."

       "O qu?" Hedge perguntou. Mas Mellie conduziu-o para longe e chamou,
"Sr. McLean? Ela est aqui!"

       Um segundo depois, o pai de Piper apareceu.

       Ele abriu um sorriso enorme. "Pipes!"

         Ele parecia timo, de volta ao normal, com seus brilhantes olhos castanhos,
barba feita, seu sorriso confiante, e seu cabelo recm-cortado, como se estivesse pronto
para filmar uma cena. Piper estava aliviado, mas ela tambm se sentia um pouco
triste. Voltar ao normal no era necessariamente o que ela queria.



                                          394
      Em sua mente, ela pensou no relgio. Em uma chamada normal como esta, em
um dia de trabalho, ela quase nunca chamou a ateno de seu pai por mais de trinta
segundos.

       "Ei," ela disse fracamente. "Voc est se sentindo bem?"

       "Querida, eu sinto muito que voc se preocupar com esse negcio de
desaparecimento. Eu no sei." Seu sorriso vacilou, e ela poderia dizer que ele estava
tentando lembrar uma memria que deveria estar l, mas no estava. "Eu no tenho
certeza do que aconteceu, sinceramente. Mas eu estou bem. Treinador Hedge tem sido
uma ddiva de Deus."

       "Uma ddiva de Deus," ela repetiu. Escolha engraada das palavras.

       "Ele me contou sobre sua nova escola," disse papai. "Lamento pela Wilderness
School. Voc estava certa. Jane estava errada. Eu era um tolo para ouvi-la."

      Dez segundos passaram, talvez. Mas pelo menos o pai dela parecia sincero,
como ele realmente se sentia remorso.

       "Voc no lembra de nada?" Disse ela, um pouco melanclica.

       "Claro que sim," disse ele.

       Um arrepio desceu de seu pescoo. "Voc lembra?"

        "Eu me lembro que eu te amo," disse ele. "E eu estou orgulhoso de voc. Voc
est feliz na sua nova escola?"

        Piper piscou. Ela no ia chorar agora. Afinal, pelo que ela tinha passado, isso
seria ridculo. "Sim, papai.  mais como um acampamento, no uma escola, mas... sim,
eu acho que vou ser feliz aqui."

       "Chame-me quantas vezes voc puder," disse ele. "E venha pra casa para o
Natal. E Pipes..."

       "Sim?"

        Ele tocou a tela como se estivesse tentando alcanar, por intermdio de sua
mo. "Voc  uma mocinha maravilhosa. Eu no digo isso com frequncia
suficiente. Voc                              me                               lembra
muito de sua me. Ela ficaria orgulhosa. E o vov Tom," ele riu, "ele sempre disse que
iria ser a voz mais poderosa em nossa famlia. Voc vai ofuscar-me algum dia, voc
sabe. Eles vo lembrar de mim como pai Piper McLean, e isso  o melhor legado que
posso imaginar."



                                         395
        Piper tentou responder, mas tinha medo de cair. Ela apenas tocou com os dedos
na tela e balanou a cabea.

      Mellie disse algo em segundo plano, e seu pai suspirou. "Estdio chamando.
Querida, me desculpe."

       "Est tudo bem, papai," ela conseguiu dizer. "Te amo."

       Ele piscou. Em seguida, a chamada de vdeo ficou escura.

       Quarenta e cinco segundos? Talvez um minuto inteiro.

       Piper sorriu. Uma pequena melhora, mas era um progresso.



Na rea comum, ela encontrou Jason relaxando em um banco, com uma bola de
basquete entre seus ps. Ele estava suado do trabalho, mas parecia incrvel na sua blusa
laranja e shorts. Suas vrias cicatrizes e hematomas se foram, graas a um pouco de
ateno mdica a partir da cabine da Apolo. Seus braos e as pernas estavam bem
musculosos e bronzeados -- sua distrao, como sempre. Seus cabelos loiros e curtos
chamou a luz da tarde, assim que parecia que estava se transformando em ouro, no
estilo de Midas.

       "Ei," disse ele. "Como foi?"

       Levou um segundo para se dedicar  causa. "Hmm? Ah, sim. Bem."

        Ela se sentou ao lado dele e eles viram os campistas indo e voltando. Um casal
de filhos de Demter estava jogando truques em dois dos caras de Apolo.

        De tomada de grama crescer em torno de seus tornozelos enquanto acertava tiro
nas cestas. L na loja do acampamento, as crianas Hermes foram colocar um cartaz que
dizia: sapatos voadores, pouco utilizado, 50% de desconto hoje! Crianas de Ares
estavam alinhando sua cabine com arame farpado fresco. A cabine de Hipnos estava
roncando. Um dia normal no acampamento.

        Enquanto isso, as crianas de Afrodite estavam vendo Piper e Jason, e tentavam
fingir que eles no estavam. Piper tinha certeza que ela os viu trocarem dinheiro nas
mos, como se estivessem apostando em um beijo.

       "Tem dormido?" perguntou-lhe.

       Ele olhou para ela como se ela tivesse lido seus pensamentos. "No
muito. Sonhos."

       "Sobre o seu passado?"

                                          396
       Ele assentiu.

       Ela no forou-lhe. Ele queria falar que estava bem, mas ela sabia que o melhor
para ele era no pressionar o assunto. Ela nem se preocupou que seu conhecimento
sobre ele era baseado principalmente em trs meses de falsas memrias. Voc pode
perceber possibilidades, sua me tinha dito. E Piper estava determinado a fazer
dessas possibilidades uma realidade.

      Jason virou sua bola de basquete. "No  uma boa notcia," advertiu. "Minhas
lembranas no so boas para -- para qualquer um de ns."

        Piper tinha certeza que ele tinha estado a ponto de dizer para ns, como os dois
-- eles, e ela perguntou-se se ele havia lembrado de uma garota de seu passado. Mas ela
no o incomodou. No em um dia de inverno ensolarado como este, com Jason ao lado
dela.

       "Ns vamos descobrir isso," prometeu.

       Ele olhou para ela, hesitante, como se ele queria muito acreditar nela. "Annabeth
e Rachel esto chegando para a reunio desta noite. Eu provavelmente deveria
esperar at l para explicar..."

        "Ok." Arrancou uma folha de grama do seu p. Ela sabia que havia coisas
perigosas na loja para ambos. Ela teria que competir com passado de Jason, e no
poderia mesmo sobreviver a guerra contra os gigantes. Mas agora, ambos estavam
vivos, e ela estava determinada a aproveitar este momento.

       Jason estudou-a com cautela. Sua tatuagem no antebrao ficou azul claro na luz
do sol. "Voc est de bom humor. Como voc pode ter tanta certeza as coisas vo
funcionar?"

       "Porque voc vai nos liderar," disse ela simplesmente. "Eu vou segui-lo em
qualquer lugar."

       Jason piscou. Ento, lentamente, ele sorriu. "Coisa perigosa de dizer."

       "Eu sou uma garota perigosa."

       "Isso, eu acredito."

       Ele se levantou e arrumou seus shorts. Ele ofereceu-lhe uma mo. "Leo diz que
ele tem algo para mostrar-nos no bosque. Voc vem?"

       "No perderia por nada." Ela pegou sua mo e levantou-se.

       Por um momento, eles continuaram de mos dadas. Jason inclinou a
cabea. "Ns deveramos ir."

                                          397
       "Sim," disse ela. "S um segundo."

        Ela soltou de sua mo, e tomou um carto de prata do seu bolso -- o carto
telefnico que Thalia lhe tinha dado para os Caadores de rtemis. Ela deixou cair nas
proximidades da Fogueira Eterna e viu-o queimar. No haveria coraes partidos na
cabine de Afrodite a partir de agora. Esse era um ritual de passagem que no havia
necessidade. Do outro lado do campo, ela viu campistas decepcionados, que no tinha
presenciado um beijo. Eles comearam a descontar nas suas apostas.

       Mas isso estava bem. Piper era paciente, e ela podia ver muitas boas
possibilidades.

       "Vamos," disse Jason. "Temos aventuras a planejar."




                                         398
                                         Captulo LIII

LEO   NO TINHA SE SENTIDO NERVOSO ASSIM DESDE QUE          ofereceu hambrgueres
aos lobisomens. Quando chegou  falsia de calcrio na floresta, ele se virou para o
grupo e sorriu nervosamente. "Aqui vamos ns."

       Ele desejou que suas mos pegassem fogo, e moveu-se contra a porta.

       Seus companheiros de chal ofegaram.

       "Leo!" Nyssa gritou. "Voc  um usurio de fogo."

       ", obrigado," disse. "Eu sei."

       Jake Mason,que estava fora de seu gesso, porm ainda de muletas, disse, "Santo
Hefestos. Isso significa que --  to raro que --"

       A porta de pedra macia se abriu, e todos ficaram de boca aberta. A mo
flamejante de Leo parecia insignificante agora. At mesmo Piper e Jason pareciam
atordoados, e eles tinham visto muitas coisas incrveis ultimamente.

       Somente Quron no parecia surpreso. O centauro franziu as espessas
sobrancelhas e alisou a barba, como se o grupo estivesse prestes a atravessar um campo
minado.

       Isto fez com que Leo ficasse ainda mais nervoso, mas ele no poderia mudar sua
opinio agora. Seu instintos lhe disseram que ele estava destinado a dividir este lugar...
pelo menos, com o chal de Hefesto... e ele no podia esconder isso de Quron ou de seu
dois melhores amigos.

       "Bem vindos  Carvoeira 9," disse com tanta confiana quanto podia. "Vamos l
dentro."



O grupo ficou em silncio enquanto percorriam as instalaes. Tudo estava como Leo
havia deixado -- mquinas gigantes, mesas de trabalho, mapas e esquemas antigos. S
uma coisa havia mudado. A cabea de Festus estava apoiada na mesa central, ainda
destruda e queimada de sua queda final em Omaha.
                                           399
      Leo foi at ele, com um gosto amargo em sua boca e acariciou a testa do drago.
"Me desculpe, Festus. Mas no te esquecerei."

          Jason ps a mo no ombro de Leo. "Hefesto trouxe ele para voc?"

          Leo balanou a cabea.

          "Mas voc no pode repar-lo," advinhou Jason.

       "De jeito nenhum," disse Leo. "Mas a cabea vai ser reutilizada, Festus estar
indo conosco."

          Piper se aproximou e fez uma careta. "O que voc quer dizer?"

          Antes que Leo pudesse responder, Nyssa gritou, "Pessoal, olhem isso!"

       Ela estava parada em uma das mesas, folheando um caderno de esboos --
diagramas para centenas de mquinas e armas diferentes.

       "Eu nunca vi nada como isto," disse Nyssa. "H ideias mais surpreendentes aqui
do que na Oficina de Ddalo. Ele levaria um sculo apenas para desenvolver todas
elas."

          "Quem construiu este lugar?" Jake Mason disse. "E por qu?"

        Quron ficou em silencio, mas Leo focou no mapa da parede que tinha visto
durante sua primeira visita. Ele mostrava o Acampamento Meio-Sangue, com uma linha
de trirremes no estreito, catapultas montadas nas colinas em torno do vale, trincheiras e
locais de emboscada.

        " um centro de comando em tempos de guerra," disse Leo. "O acampamento
foi atacado uma vez, no foi?"

          "Na Guerra dos Tits?" perguntou Piper.

       Nyssa balanou a cabea. "No. Alm disso, esse mapa  muito antigo. A data...
aqui diz 1864."

          Todos se viraram para Quron.

       A cauda do centauro balanou aflita. "Este acampamento foi atacado vrias
vezes," admitiu. "Este mapa  da ultima guerra civil."

       Aparentemente, Leo no era o nico confuso. Os outros campistas de Hefesto se
olharam e franziram a testa.

          "Guerra Civil..." disse Piper. "Voc quer dizer como a de cento e cinquenta anos
atrs?"

                                            400
        "Sim e no," disse Quron. "Os dois conflitos -- mortal e semideus -- um
espelhado no outro, como geralmente faz a Histria Ocidental. Olhe para qualquer
guerra civil ou revoluo desde a queda de Roma em diante, e ela marca um momento
em que os semideuses lutavam entre si. Mas essa guerra civil era particularmente
horrvel. Para os mortais americanos, ainda  o seu conflito mais sangrento de todos os
tempos -- piores do que as suas vtimas nas duas Guerras Mundiais. Para os
semideuses, foi igualmente devastadora. Mesmo naquela poca, este vale era o
Acampamento Meio-Sangue. Houve uma batalha horrvel nessas florestas, durando por
dias, com terrveis perdas para ambos os lados."

       "Ambos os lados?" disse Leo. "Voc quer dizer que o acampamento se
separou?"

      "No," Jason falou. "Ele quer dizer dois grupos diferentes. Acampamento Meio-
Sangue foi um dos lados na guerra."

       Leo no tinha certeza se queria uma resposta, mas perguntou, "Quem era o
outro?"

      Quron olhou para a bandeira esfarrapada Carvoeira 9, como se lembrasse do dia
em que foi feita.

        "A resposta  perigosa," alertou. " algo que jurei sobre o Rio Estige nunca mais
falar. Aps a Guerra Civil, os Deuses estavam to horrorizados com a tragdia que
tomou sobre seus filhos, que eles juraram que nunca aconteceria novamente. Os dois
grupos foram separados. Os deuses dobraram todos os seus esforos, teceram a Nvoa
to firme quanto puderam, para certificar-se que os inimigos no lembravam-se uns dos
outros, nunca se encontrar em suas buscas, de modo que conflitos poderiam ser
evitados. Este  do final dos dias sombrios de 1864, a ultima vez que os dois grupos
lutaram. Ns tivemos vrios apelos negados desde ento. Os anos sessenta foram
particularmente arriscados. Mas ns conseguimos evitar uma nova guerra civil, pelo
menos at agora. Assim como Leo adivinhou, este abrigo era o centro de comando do
chal de Hefesto. No sculo passado, foi reaberto algumas vezes, geralmente como
esconderijo em tempos de grande inquietao. Mas vir aqui  perigoso. Ele agita
memrias antigas, desperta antigas rixas. Mesmo quando os Tits ameaaram no ano
passado, eu no acho que vale a pena o risco de usar este lugar."

        De repente, o sentimento de triunfo de Leo transformou-se em culpa. "Ei, olhe,
este lugar me encontrou. Era pra acontecer.  uma coisa boa."

       "Eu espero que voc esteja certo," disse Quron.

       "Eu estou!" Leo tirou o antigo desenho do bolso e espalhou-o sobre a mesa para
que todos vissem.

                                          401
      "Ali," disse ele com orgulho. "olo foi quem me devolveu. Eu o desenhei
quando tinha cinco anos. Esse  o meu destino."

       Nyssa franziu a testa. "Leo,  um desenho de giz de cera de um barco."

       "Olhe." Ele apontou para o maior esquema do boletim de bordo do projeto,
mostrando o trirreme grego. Lentamente, os companheiro de chal foram arregalando
seus olhos quando compararam os dois projetos. O nmero de mastros e remos, at
mesmo a decorao nos escudos e velas eram as mesmas do desenho de Leo.

       "Isso  impossvel," disse Nyssa. "Esse projeto tem um sculo,pelo menos!"

       "`Profecia -- no-claro -- voo.'" Jake Mason leu as notas sobre o projeto. "
um diagrama de um navio voador. Olha, este  o trem de pouso. Santo Hefestos:
catapultas rotativas, bestas montadas, chapeamento de bronze celestial. Esta coisa seria
uma violenta mquina de guerra. Ela j foi feita?"

       "Ainda no," disse Leo. "Olhe para o mastro."

       No havia dvida, a figura na parte da frente do navio era a cabea de um
drago. Um drago muito especial.

       "Festus," Piper disse. Todo mundo se virou e olhou para a cabea do drago em
cima da mesa.

        "Ele est destinado a ser o nosso mastro," disse Leo. "Nosso amuleto de boa
sorte, nossos olhos no mar. Eu tenho que contruir esse barco."

       "Eu vou cham-lo de Argo II. E, gente, vou precisar da ajuda de vocs."

       "O Argo II," Piper sorriu. "Devido ao navio de Jason."

       Jason parecia um pouco desconfortavel, mas ele assentiu. "Leo est certo. Este
navio  o que precisamos para a nossa viagem."

       "Que viagem?" Nyssa disse. "Voc acabou de voltar!"

       Piper correu os dedos sobre o velho desenho de giz de cera. "Temos que
enfrentar Porfrio, o rei gigante. Ele disse que iria destruir os deuses em suas razes."

       "De fato," disse Quron. "Grande parte da Grande Profecia de Rachel ainda  um
mistrio para mim, mas uma coisa  clara. Vocs trs -- Jason, Piper e Leo -- esto
entre os sete semideuses que devem assumir essa busca. Vocs precisam enfrentar os
gigantes em sua terra natal, onde eles so mais fortes. Vocs devem par-los antes que
possam acordar Gaia totalmente, antes que eles destruam o Monte Olimpo."

       "Hum," Nyssa mudou. "Voc quer dizer Manhattan, no ?"

                                          402
       "No," disse Leo. "O Monte Olimpo original. Temos que navegar para a
Grcia."




                                    403
Captulo LIV
DEMOROU ALGUNS MINUTOS PARA AQUILO SE estabelecer. Ento os outros campistas
de Hefesto comearam a fazer perguntas todos de vez. Quem eram os outros quatro
semideuses? Quanto tempo levaria para construir o barco? Por que todos no
conseguiriam ir  Grcia?

        "Heris!" Quron bateu seu casco no cho. "Todos os detalhes ainda no esto
claros, mas Leo est correto. Ele precisar da ajuda de vocs para construir o Argo II.
Talvez seja o maior projeto que o Chal Nove j tentou, ainda maior que o drago de
bronze."

       "Levar pelo menos um ano," chutou Nyssa. "Temos tanto tempo?"

        "Vocs tm seis meses no mximo," disse Quron. "Vocs deveriam navegar no
solstcio de vero, quando o poder dos deuses  mais forte. Alm disso, evidentemente
no podemos confiar nos deuses do vento, e os ventos de vero so os menos poderosos
e mais fceis de navegar. No tentem navegar muito tarde, ou pode ser muito tarde para
parar os gigantes. Vocs devem evitar viagem por terra, usando somente o ar e o mar,
ento esse veculo  perfeito. Jason sendo o filho do deus do cu..."

       Sua voz morreu, mas Leo calculou que Quron estava pensando sobre seu aluno
desaparecido, Percy Jackson, o filho de Poseidon. Ele teria ido bem nessa viagem,
tambm.

       Jake Mason virou para Leo. "Bem, uma coisa  certa. Agora voc  nosso
conselheiro snior. Essa  a maior honra que o chal j teve. Algum se ope?"

       Ningum se ops. Todos os seus companheiros de chal sorriram para ele, e Leo
quase pde sentir a maldio da cabine se quebrando, suas sensaes de desamparo se
esvaindo.

       " oficial, ento," Jake disse. "Voc  o cara."

       Pela primeira vez, Leo estava incapaz de falar. Desde que sua me morreu, ele
gastara sua vida fugindo. Agora ele encontrara uma casa e uma famlia. Ele encontrou
um trabalho a fazer. E por mais assustador que fosse, Leo no estava tentado a fugir --
nem um pouco.

                                           404
       "Bem," disse por fim, "se vocs me elegem lder, vocs devem ser ainda mais
loucos que eu. Ento vamos construir uma formidvel e quente mquina de guerra!"




                                       405
Captulo LV
JASON ESPEROU SOZINHO NO CHAL UM.

       Annabeth e Rachel estavam esperando a qualquer minuto pela reunio dos
conselheiros chefes, e Jason precisava de tempo para pensar.

        Seus sonhos na noite passada foram to ruins que ele no queria compartilh-los
-- nem com Piper. Sua memria ainda estava nebulosa, mas pedaos e pedaos estavam
voltando. A noite que Lupa o testara na Casa dos Lobos, para decidir se ele seria um
pupilo ou comida. Ento a longa viagem ao sul para... Ele no conseguia lembrar, mas
tinha lampejos da sua antiga vida. O dia que ele conseguiu sua tatuagem. O dia que ele
foi erguido num escudo e proclamado um pretor. O rosto dos seus amigos: Dakota,
Gwendolyn, Hazel, Bobby. E Reyna. Definitivamente havia uma garota chamada
Reyna. Ele no tinha certeza do que ela significava para ele, mas a memria o fez se
questionar sobre o que sentia por Piper -- e quis saber se estava fazendo algo errado. O
problema era que ele gostava muito de Piper.

       Jason moveu suas coisas para a alcova do canto onde sua irm uma vez dormira.
Ele colocou a fotografia de Thalia de volta na parede para que no se sentisse sozinho.
Ele olhou para a esttua franzida de Zeus, poderoso e orgulhoso, mas a esttua no o
assustava mais. Ela s o fazia se sentir triste.

       "Eu sei que voc pode me ouvir," Jason disse para a esttua.

       A esttua no disse nada. Seus olhos pintados pareciam olhar para ele.

       "Eu queria poder conversar com voc pessoalmente," Jason continuou, "mas
entendo que voc no pode fazer isso. Os deuses romanos no gostam de interagir muito
com mortais, e -- bem, voc  o rei. Voc tem que dar o exemplo."

       Mais silncio. Jason esperou por alguma coisa -- um ribombo de trovo maior
que o normal, uma luz forte, um sorriso. No, no importa. Um sorriso teria sido
arrepiante.

       "Lembro-me de algumas coisas," disse. Quanto mais falava, menos ele se sentia
autoconsciente. "Eu lembro que  difcil ser um filho de Jpiter. Todos esto sempre
olhando para mim para que eu seja um lder, mas sempre me sinto sozinho. Acho que

                                          406
voc sente o mesmo a em cima, no Olimpo. Os outros deuses desafiam suas decises.
s vezes voc tem que fazer escolhas difceis, e os outros o criticam. E voc no pode
vir ao meu auxlio como os outros deuses podem. Voc tem que me manter  distncia
para que no parea que voc est escolhendo favoritos. Acho que s queria dizer..."

        Jason respirou profundamente. "Eu entendo tudo isso. Est tudo bem. Vou tentar
fazer o meu melhor. Vou deixar lhe deixar orgulhoso. Mas algum apoio seria realmente
bom, pai. Se h algo que voc possa fazer -- me ajude para que eu possa ajudar meus
amigos. Temo que irei mat-los. Eu no sei como proteg-los."

        A parte de trs do seu pescoo zuniu. Ele percebeu que algum estava de p
atrs dele. Ele virou e encontrou uma mulher coberta de robes negros, com uma capa de
pele de cabra sobre seus ombros e uma espada romana embainhada -- uma gladius --
nas mos.

       "Hera," ele disse.

        Ela tirou seu capuz. "Para voc, sempre fui Juno. E seu pai j mandou seu
auxlio, Jason. Ele lhe mandou Piper e Leo. Eles no so s sua responsabilidade. Eles
tambm so seus amigos. Oua-os, e voc ter sucesso."

       "Jpiter lhe mandou aqui para me dizer isso?"

      "Ningum me manda para lugar nenhum, heri," ela disse. "No sou uma
mensageira."

       "Mas voc me colocou nessa. Por que me mandou nesse acampamento?"

       "Acho que voc sabe," disse Juno. "Uma troca de lderes foi necessria. Foi o
nico modo para atravessar as diferenas."

       "Eu no concordei com isso."

        "No. Mas Jpiter deu sua vida a mim, e eu estou ajudando-lhe a cumprir seu
destino."

        Jason tentou controlar sua raiva. Ele olhou para sua camisa laranja do
acampamento e as tatuagens no brao, e soube que essas coisas no deveriam ficar
juntas. Ele se tornara uma contradio -- uma mistura to perigosa quanto qualquer
coisa que Medeia podia preparar.

       "Voc no vai me dar todas as minhas memrias," disse. "Mesmo que voc
tenha prometido."

       "A maioria voltar no seu devido tempo," disse Juno. "Mas deve encontrar seu
prprio caminho de volta. Voc precisa desses prximos meses com seus novos amigos,

                                         407
sua nova casa. Voc est ganhando a confiana deles. Na hora que voc velejar no
navio, voc ser um lder nesse acampamento. E voc estar pronto para trazer paz entre
dois grandes poderes."

       "E se voc estiver mentindo?" perguntou. "E se voc estiver fazendo isso para
causar outra guerra civil?"

       A expresso de Juno era impossvel de se ler -- Deleito? Desdm? Afeio?
Possivelmente todos os trs. Tanto quanto ela parecia humana, Jason sabia que ela no
era. Ele ainda podia ver aquela luz cegante -- a verdadeira forma da deusa que
queimara no seu crebro. Ela era Juno e Hera. Ela existia em vrios lugares de vez. Seus
motivos para fazer algo nunca eram simples.

      "Eu sou a deusa da famlia," ela disse. "Minha famlia foi dividida por muito
tempo."

      "Eles nos dividiram para que no matemos uns aos outros," disse Jason. "Parece
um motivo muito bom."

        "A profecia demanda que mudemos. Os gigantes se erguero. Cada um s pode
ser morto por um deus e semideus trabalhando juntos. Aqueles semideuses devem ser os
sete maiores da era. Enquanto isso permanecer, eles sero divididos entre dois lugares.
Se permanecermos divididos, no venceremos. Gaia est contando com isso. Voc deve
unir os heris do Olimpo e navegar junto com eles para encontrar os gigantes nos
antigos campos de batalha da Grcia. S ento os deuses sero convencidos a se
juntarem a voc. Ser a misso mais perigosa, a viagem mais importante, nunca tentada
pelos filhos dos deuses."

        Jason olhou novamente para a esttua mal-humorada do pai.

        "No  justo," disse Jason. "Eu poderia arruinar tudo."

       "Voc poderia," concordou Juno. "Mas deuses precisam de heris. Sempre
precisamos."

        "At voc? Pensei que voc odiava semideuses."

       A deusa lhe deu um sorriso seco. "Eu tenho aquela reputao. Mas se voc quer
a verdade, Jason, na maioria das vezes invejo os filhos mortais dos outros deuses. Vocs
semideuses podem se estender por ambos os mundos. Acho que isso ajuda seus parentes
divinos -- at Jpiter, maldito seja -- a entender o mundo mortal melhor que eu."

        Juno suspirou to tristemente que apesar de sua raiva, Jason quase teve pena
dela.



                                           408
       "Eu sou a deusa do casamento," ela disse. "No  da minha natureza ser infiel.
S tenho dois filhos divinos -- Marte e Vulcano -- ambos so desapontamentos. No
tenho heris mortais para fazerem a minha vontade,  por isso eu sou geralmente severa
para com semideuses -- Hrcules, Enias, todos eles. Mas tambm  porque eu favoreci
o primeiro Jason, um mortal puro, que no tinha parentes divinos para gui-lo. E  por
isso que estou feliz por Jpiter lhe dar para mim. Voc ser meu campeo, Jason. Voc
ser o maior dos heris, e trar unio aos semideuses, e assim ao Olimpo."

       Suas palavras se assentaram sobre ele, mais pesadas que sacos de areia. Dois
dias atrs, ele estaria aterrorizado pela idia de liderar semideuses numa Grande
Profecia, navegando para batalhar com os gigantes e salvar o mundo.

       Ele ainda estava aterrorizado, mas algo mudara. Ele no se sentia mais sozinho.
Ele tinha amigos agora, e uma casa pela qual lutar. Ele at tinha uma deusa patrono o
observando, o que tinha que contar alguma coisa, mesmo se ela parecesse um pouco
indigna de confiana.

       Jason tinha que se levantar e aceitar seu destino, assim como fizera quando
encarou Porfrio com suas mos nuas. Certo, parecia impossvel. Ele podia morrer. Mas
seus amigos estavam contando com ele.

       "E se eu falhar?" perguntou.

       "Uma grande vitria exige um grande risco," ela admitiu. "Falhe, e haver
derramamento de sangue como nunca foi visto. Os semideuses destruiro um ao outro.
Os gigantes governaro o Olimpo. Gaia acordar, e a terra sacudir tudo que
construmos por mais de cinco milnios. Ser o fim de todos ns."

       "Incrvel. Simplesmente incrvel."

       Algum bateu nas portas do chal.

      Juno puxou seu capuz de volta sobre o rosto. Ento ela passou a gladius
embainhada para Jason.

       "Tome essa pela arma que voc perdeu. Falaremos novamente. Goste voc ou
no, Jason, eu sou sua responsvel, e sua conexo ao Olimpo. Precisamos um do outro."

       A deusa sumiu enquanto as portas se abriam chiando, e Piper andou para dentro.




       "Annabeth e Rachel esto aqui," ela disse. "Quron convocou o conselho."




                                            409
Captulo LVI
O   CONSELHO NO ERA NADA DO QUE             Jason imaginou. Primeiro era na sala de
recreao da Casa Grande, em volta de uma mesa de Ping-Pong, e um dos stiros estava
servindo nachos e refrigerantes. Segundo, algum trouxe a cabea do leopardo Seymour
da sala de estar e o pendurara na parede. De vez em quando, um conselheiro jogava para
ele um biscoito.

        Jason olhou em torno da sala e tentou lembrar o nome de todos.
Agradecidamente, Leo e Piper estavam sentados perto dele -- era a primeira reunio
deles como conselheiros seniores. Clarisse, a lder do chal de Ares, estava com as botas
na mesa, mas ningum parecia se importar. Clovis de Hipnos estava roncando no canto
enquanto Butch do chal de ris estava vendo quantos lpis ele podia encaixar nas
narinas de Clovis. Travis Stoll de Hermes estava segurando um isqueiro sob uma bola
de Ping-Pong para ver se ela iria queimar, e Will Solace de Apolo estava distraidamente
cobrindo e descobrindo o pulso com uma bandagem. A conselheira do chal de Hcate,

valinor

Lou Ellen alguma-coisa-ou-outra, estava brincando de "pegue-o-nariz" com Miranda
Gardiner de Demter, exceto que Lou Ellen realmente tinha magicamente desconectado
o nariz de Miranda, e ela estava tentando peg-lo de volta.

       Jason esperara que Thalia aparecesse. Ela prometeu, afinal -- mas ela no estava
em lugar nenhum para ser vista. Quron disse a ele para no se preocupar. Thalia
geralmente se desviava lutando com monstros ou correndo em misses para rtemis, e
ela provavelmente chegaria logo. Mas ainda assim, Jason se preocupou.

       Rachel Dare, o orculo, se sentava perto de Quron na ponta da mesa. Ela estava
usando seu vestido-uniforme da escola Clarion Academy, que parecia um pouco
estranho, mas sorriu para Jason.

        Annabeth no parecia to relaxada. Ela usava uma armadura sobre suas roupas
do acampamento, com sua faca no lado e seu cabelo loiro posto num rabo de cavalo.
Assim que Jason entrara, ela fixou um olhar de expectativa para ele, como se ela
estivesse tentando extrair informaes dele por fora de vontade completa.

       "Voltemos  ordem," disse Quron. "Lou Ellen, por devolva o nariz de Miranda.
Travis, voc gentilmente destruiria a bola de Ping-Pong, e Butch, acho que vinte lpis
so realmente muito para qualquer narina humana. Obrigado. Agora, como podem ver

                                          410
Jason, Piper e Leo retornaram com sucesso... mais ou menos. Alguns de vocs ouviram
partes das histrias deles, mas vou deixar eles lhe informarem."

       Todos olharam para Jason. Ele limpou a garganta e comeou a histria. Piper e
Leo interrompiam de tempos em tempos, informando os detalhes que ele esqueceu.

        S levou alguns minutos, mas pareceu muito mais com todos o observando. O
silncio era forte, e para tantos semideuses com TDAH se sentarem ouvindo por tanto
tempo, Jason sabia que a histria deveria ter soado bastante selvagem. Ele finalizou com
a visita de Hera logo antes da reunio.

       "Ento Hera esteve aqui," disse Annabeth. "Conversando com voc."

       Jason assentiu. "Olhem, no estou dizendo que confio nela --"

       " inteligente," disse Annabeth.

       "-- mas ela no est inventando isso sobre outro grupo de semideuses.  de
onde eu vim."

        "Romanos." Clarisse jogou um biscoito para Seymour. "Voc espera que
acreditemos que h outro acampamento para semideuses, mas eles seguem as formas
romanas dos deuses. E nunca ouvimos falar deles."

       Piper se sentou mais para frente. "Os deuses manteram os dois grupos em parte,
porque toda a vez que viam um ao outro, eles tentavam se matar."

      "Posso respeitar isso," disse Clarisse. "Ainda assim, por que nunca cruzamos
uns com os outros em misses?"

       "Ah, sim," disse Quron tristemente. "Vocs se encontram, vrias vezes. 
sempre uma tragdia, e sempre os deuses fazem o melhor para limpar as memrias dos
envolvidos. A rivalidade est em todo o caminho na Guerra de Troia, Clarisse. Os
gregos invadiram Troia e a queimaram at o cho. O heri troiano Enias escapou, e no
fim foi para a Itlia, onde fundou a raa que algum dia se tornaria Roma. Os romanos
ficaram cada vez mais poderosos, idolatrando os mesmos deuses, mas sob nomes
diferentes, e personalidades levemente diferentes."

        "Mais militares," disse Jason. "Mais unidos. Mais sobre expanso, conquista e
disciplina."

       "Eca," colocou Travis.

      Vrios deles pareceram igualmente desconfortveis, porm Clarisse deu de
ombros como se parecesse tudo bem para ela.



                                          411
       Annabeth girou sua faca na mesa. "E os romanos odiavam os gregos. Eles
conseguiram sua revanche quando conquistaram as ilhas gregas, e as tornaram parte do
Imprio Romano."

        "No exatamente odiavam eles," disse Jason. "Os romanos admiravam a cultura
grega, e eram um pouco ciumentos. Em troca, os gregos pensaram que os romanos eram
brbaros, mas eles respeitaram seu poder militar. Ento durante os tempos romanos,
semideuses comearam a se dividirem -- entre gregos ou romanos."

       "E foi assim desde ento," sups Annabeth. "Mas isso  loucura. Quron, onde
estavam os romanos durante a Guerra dos Tits? Eles no queriam ajudar?"

       Quron puxou sua barba. "Eles ajudaram Annabeth. Enquanto voc e Percy
estavam liderando a batalha para salvar Manhattan, quem voc acha que conquistou o
Monte tris, a base dos tits na Califrnia?"

      "Espere," disse Travis. "Voc disse que o Monte tris caiu em pedaos quando
abatemos Cronos."

       "No," disse Jason. Ele se lembrou de lampejos da batalha -- um gigante em
armadura estrelada e um elmo montado com chifres de carneiro. Ele se lembrou do seu
exrcito de semideuses escalando o Monte Tam, lutando atravs de hordas de monstros
de cobra. "Ele no s caiu. Destrumos o palcio deles. Eu derrubei o tit Crio sozinho."

         Os olhos de Annabeth estavam mais tempestuosos que um ventus. Jason quase
pde ver seus pensamentos se agitando, encaixando as peas. "A rea da Baa. Ns,
semideuses, sempre fomos avisados para ficar longe dela porque o Monte tris era l.
Mas esse no era o nico motivo, era? O acampamento romano -- tem que estar em
algum lugar perto de So Francisco. Aposto que foi posto l para ficar de patrulha no
territrio dos tits. Onde ele est?"

       Quron se deslocou na sua cadeira de rodas. "No posso dizer. Nem mesmo eu
confiei nessa informao. Minha correlativa, Lupa, no  exatamente do tipo de
compartilhar coisas. A memria de Jason, tambm, foi destruda."

      "O acampamento  pesadamente velado com magia," disse Jason. "E
pesadamente guardado. Poderamos procurar por anos e nunca encontr-lo."

       Rachel Dare atou os dedos. De todas as pessoas na sala, s ela no parecia
nervosa com a conversa. "Mas vocs tentaro, no tentaro? Vocs vo construir o
navio de Leo, o Argo II. E antes de irem  Grcia, vocs navegaro para o acampamento
romano. Vocs precisaro da ajuda deles para confrontar os gigantes."

       "Pssimo plano," avisou Clarisse. "Se aqueles romanos virem um navio de
guerra chegando, eles assumiro que estamos atacando."

                                          412
       "Voc provavelmente tem razo," concordou Jason. "Mas temos de tentar. Fui
mandado aqui para aprender sobre o Acampamento Meio-Sangue, tentar convencer a
vocs que os dois acampamentos no tm que ser inimigos. Uma oferta de paz."

       "Humm," disse Rachel. "Por isso que Hera est convencida que precisamos dos
acampamentos para ganhar a guerra com os gigantes. Sete heris do Olimpo -- alguns
gregos, alguns romanos."

       Annabeth assentiu. "Sua Grande Profecia -- qual  a ltima linha?"

       "E inimigos com armas s Portas da Morte afinal."

        "Gaia abriu as Portas da Morte," disse Annabeth. "Ela est soltando os piores
viles do Mundo Inferior para lutar conosco. Medeia, Midas -- haver mais, tenho
certeza. Talvez a linha signifique que os semideuses romanos e gregos se uniro, e
encontraro as portas, e as fecharo."

      "Ou pode significar que eles lutam um com o outro nas portas da morte,"
lembrou Clarisse. "No diz que cooperamos."

       Houve silncio enquanto os campistas deixavam aquele pensamento feliz
afundar.

        "Eu vou," disse Annabeth. "Jason, quando vocs construrem esse navio, me
deixe ir com vocs.

       "Estava esperando voc se oferecer," disse Jason. "Voc de todas as pessoas --
precisaremos de voc."

      "Espere." Leo franziu o cenho. "Digo,  legal por mim e tudo. Mas por que
Annabeth de todas as pessoas?"

       Annabeth estudaram um ao outro, e Jason sabia que ela unira os fatos. Ela viu a
perigosa verdade.

      "Hera disse que minha chegada aqui era uma troca de lderes," disse Jason. "Um
modo para os dois acampamentos aprenderem a existncia de cada um."

       "?" disse Leo. "E...?"

        "Uma troca serve de dois modos," disse Jason. "Quando cheguei aqui, minha
memria foi apagada. Eu no sabia quem era ou de onde vinha. Sei que vocs no so
meus inimigos. O acampamento romano -- eles no so to amigveis. Voc prova o
seu valor rapidamente, ou ento voc no sobrevive. Eles podem no ser gentis com ele,
e se eles descobrirem de onde ele vem, ele estar em srios problemas."

       "Ele?" Leo disse. "De quem voc est falando?"

                                         413
       "Meu namorado," disse Annabeth radiantemente. "Ele desapareceu na mesma
hora que Jason apareceu. Se Jason veio ao Acampamento Meio-Sangue --"

       "Exatamente," concordou Jason. "Percy Jackson est em outro acampamento, e
ele provavelmente nem se lembra de quem ."




                                      414
       Deuses em The Lost Hero
Deuses em The Lost Hero
olo O deus grego dos ventos. Forma romana: olo

Afrodite A deusa grega do amor e da beleza. Ela era casada com Hefesto, mas amou
Ares, o deus da guerra. Forma romana: Vnus

Apolo O deus grego do sol, da profecia, msica e da cura; o filho de Zeus e o gmeo de
rtemis. Forma romana: Apolo

Ares O deus grego da guerra; o filho de Zeus e Hera, e meio-irmo de Atena. Forma
romana: Marte

rtemis A deusa grega da caa e da lua; a filha de Zeus e a gmea de Apolo. Forma
romana: Diana

Breas O deus grego do vento do norte, um dos quatro anemoi direcionais (deuses do
vento); o deus do inverno; pai de Quione. Forma romana: quilo

Demter A deusa grega da agricultura, uma filha dos tits Reia e Cronos. Forma
romana: Ceres

Dioniso O deus grego do vinho; o filho de Zeus. Forma romana: Baco

Gaia A personificao grega da Terra. Forma romana: Terra

Hades Segundo a mitologia grega, soberano do Mundo Inferior e o deus dos mortos.
Forma romata: Pluto

Hcate A deusa grega da magia; a nica filha dos tits Perses e Astria. Forma romana:
Trvia

Hefesto O deus grego do fogo, da metalurgia e dos ferreiros; o filho de Zeus e Hera, e
casado com Afrodite. Forma romana: Vulcano

Hera A deusa grega do casamento; esposa de Zeus e irm. Forma romana: Juno

Hermes O deus grego dos viajantes, da comunicao e dos ladres; filho de Zeus.
Forma romana: Mercrio

Hipnos O deus grego do sono; o filho (sem pai) de Nix (Noite) e irmo de Tnato
(Morte). Forma romana: Somnus

ris A deusa grega do arco-ris, e uma mensageira dos deuses; a filha de Taumante e
Electra. Forma romana: ris

                                         415
Jano O deus romano dos portes, portas e das entradas, tambm como os comeos e os
fins.

Quione A deusa grega da neve; filha de Breas

Ntus O deus grego do vento sul, um dos quatro anemoi direcionais (deuses do vento).
Forma romana: Favnio

Urano A personificao grega do cu. Forma romana: Caelus

P O deus grego do mundo selvagem; o filho de Hermes. Forma romana: Fauno

Pomona A deusa romana da abundncia

Poseidon O deus grego do mar; filho dos tits Cronos e Reia, e irmo de Zeus e Hades.
Forma romana: Netuno

Zeus O deus grego do cu e rei dos deuses. Forma romana: Jpiter.




                                         416
      No outono de 2011

Os Heris do Olimpo, Livro Dois

    O FILHO DE NETUNO




              417
                   SOBRE O AUTOR

Rick Riordan  o autor do best-seller pelo New York Times, As Crnicas dos Kane,
Livro Um: A Pirmide Vermelha, assim como todos os livros da srie Percy Jackson e
os Olimpianos best-sellers pelo New York Times: O Ladro de Raios; O Mar de
Monstros; A Maldio do Tit; A Batalha do Labirinto; e O ltimo Olimpiano. Seus
romances antecedentes para adultos incluem a srie imensamente popular Tres Navarre,
ganhador dos trs maiores prmios no gnero mistrio. Ele vive em San Antonio, Texas,
com sua esposa e dois filhos. Para saber mais sobre Rick, visite seu website:

                               www.rickriordan.com




                                        418
Agradecimentos...
"Unir-se  um bom comeo, manter a unio  um progresso, e
trabalhar em conjunto  a vitria."    Henry Ford
Gostaria de parabenizar a todos os tradutores e revisores, que com muita competncia,
concluram mais um projeto maravilhoso do Departamento #01 em parceria com a .
mafia dos livros . E graas a vocs, tradutores e revisores, todos os fs de Percy Jackson e
os Olimpianos, que ficaram com aquele gostinho de quero mais depois do final da srie,
finalmente podero saciar um pouquinho dessa vontade com mais um livro maravilhoso
do Rick Riordan.  por esse e outros motivos que eu agradeo, no s em meu nome,
mas em nome de todos os membros da mafia e do Departamento #01 por toda
dedicao, carinho, amor e comprometimento de vocs com esse projeto.



Aos TRADUTORES :                Diego Oliveira, Marina Mattioni, Tamyris
Rodrigues, Mnica Alamos, Larissa Effren, Pedro Elias, Lauren Ferreira,
Davi Mello, Gui Geromel, Carolzinha, Mauro Ghost.  Muito obrigada!!



Aos REVISORES                : Apolo Blans Lima, Lauren Ferreira, Reuel
d'Olivera, Diego Oliveira.        Muito obrigada!!

Ao REVISOR FINAL                    : Diego Oliveira

 ORGANIZAO do DPT#1: Dbora Cristina;              da
. mafia dos livros .: Mariana Albuquerque e da traduo em si:
Diego Oliveira.          Muito obrigada!!


     voc, leitor, o nosso agradecimento e carinho.

                                                       25 de novembro do ano de 2010
                                                       Atenciosamente,
                                                       Mariana Albuquerque- Mari'
                                                       Presidente da . mafia dos livros .


                                                             PS: Gostaria de manifestar o respeito
                                                              da . mafia . queles que perderam
                                                            entes queridos nas operaes militares
                                                              no Rio de Janeiro - RJ - 25/11/10
                                                                                 Respeitosamente,
                                                                            Igor Luis Alves - Kiko
                                                            LUTO                     . moderao .
